À toa pela estrada

Esse post deveria ter sido feito há algumas semanas atrás, mas a preguiça não me deixou…

Enfim, antes tarde do que nunca.

Estava lá na casa da minha mãe em Ivoti (RS) assistindo TV. Lá fora chovia canivete. Tédio total!

No final do dia, a chuva deu uma trégua e saí à toa como um aminal que sai da toca depois da chuva. Mas claro,  como um bom japonês, com a minha inseparável câmera!

Fui caminhando pela estrada que leva ao Camping do Behne, sozinho, eu a minha câmera. Essa estrada faz parte da minha vida. Para a maioria das pessoas não passa de uma simples estrada sem graça do interior do Rio Grande do Sul, mas para mim, a estrada respira história, a minha história.

A lembrança mais remota que eu tenho dessa estrada é de quando eu tinha uns 5 anos, ou seja, já se passaram 25 anos desde a primeira vez. Saíamos sempre eu, meu pai e o meu irmão para caçar no final do dia. Nós três, ele na frente porque o  meu pai sempre ensinava que não poderíamos ir à frente de quem estrava armado por ser perigoso, depois vinha eu e por último o meu irmão casula. E ai dele se ficasse na minha frente. A hierarquia familiar tinha que ser respeitada.

Passei a minha infância e a adolescência nessa estrada. Para cada ano da minha vida, a estrada tem uma história para contar. E hoje, depois de 25 anos eu estava  novamente caminhando com a minha câmera, à toa, escrevendo mais algumas linhas sobre a minha vida.

Primeira parada: no bambuzal da família. Ali também muitas lembranças, histórias e trabalhos! Entrei no meio do bambuzal com o Taro (o cachorro) na esperança de fazer umas fotos boas, mas já estava bem escuro, sem luz. Fiz umas fotos e saí.

Continuei descendo a estrada, parei ao lados de umas toras de eucalipto empilhadas e fiz mais umas fotos.

Foto artística, grafismo

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Depois segui, à toa até a pedreira. Ou mina, como eu gostava de chamar. Foi nessa pedreira que comecei a dar os meus primeiros passos no universo da escalada. Pegava escondido a corda que o meu pai usava para amarrar as caixas de uva, prendia numas árvores que tinha no topo da pedreira e descia no braço mesmo. Isso, quando tinha uns 12 anos. Desde então, a pedreira se tornaria o meu campo-escola, meu playground.

Notei que um bloco clássico que tinha na pedreira não estava mais lá. Andaram tirando umas pedras e levaram o boulder. Fiquei triste. Era um boulder muito legal. Nos sempre limpávamos a base, levávamos os nossos colchões (os mesmos usados para dormir) no trator e ficávamos fazendo boulder. Mas a pedreira era assim mesmo. Desde que comecei a frequentar, mudou muito. Muita pedra foi retirada. E ela continua lá, dinâmica como a vida.

Desse ponto em diante não continuei pela estrada, fiquei com medo. Sempre tive medo de seguir da pedreira em diante. Até a pouco tempo, depois da pedreira, a mata fechava,  a estrada ficava mais escura e dava uma má impressão. Hoje ela está bem mais aberta, mas ainda continuo com medo.  Medo bobo de infância. Também tinha medo de seguir porque lá embaixo morava, e ainda mora um senhor muito bravo de origem germânica que andava numa Brasília amarela. Sempre que ouvia o som do carro dele, me escondia na mata para não ser visto. Tinha medo dele. Depois, com o tempo descobri que ele é uma pessoa muito legal e tranquila. O Sr. Behne, grande pessoa. Hoje, ele nem tem mais aquela Brasília amarela.

Mas mesmo assim, não hesitei em continuar descendo, dei meia volta e voltei para casa a passos largos, como sempre, com medo de ouvir o som da Brasíla e ter que me esconder no mato.

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Este post tem 3 comentários

  1. Que legal seu texto, Naoki, é sempre bom voltarmos para nosso refúgio, e sempre temos um pode ter certeza, com nossas histórias, lembranças e medos inexplicáveis..Eu não sabia que voce era do RS, eu, depois de viver 10 anos em Floripa resolvi vir pra cá porque….resolvi rsrsr. E estou acá a fazer o doutorado, brincando de ser gente responsável. Apareça pra escalar, já escalou por aqui? Pelotas, Bagé, Caçapava? Na próxima que vier ao sul, avise. Beijao!

  2. Ficou tri massa esse texto cara, parabéns…

  3. Fala ae Guilherme, valeu!

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