Canalet Magic

Três semanas atrás, neste post, falei sobre a “descoberta” de uma montanha ao sul da cidade de Colatina. Digo descoberta, porque depois descobri que essa montanha já era conhecida entre os escaladores e que a via ali existente era do Zé, do Alex e do Breno, a via Estica e Puxa. A confusão aconteceu porque esta via, no livro Escalada Capixaba, está catalogada na montanha diferente.

Na semana seguinte, tentei voltar com o Chuck e o Iury para conquistar uma linha super promissora que tinha visto à esquerda da Tigre de Schelleberg, mas o mau tempo acabou cancelando a investida. Chegamos a rodar até Ibiraçu, e o Iury, de Colatina, falou que a região amanheceu com chuva. Missão abortada!

Como na semana seguinte foi a Abertura da Temporada, o retorno ficou para o último sábado.

A previsão do tempo não estava das melhores — frente fria entrando, céu carregado —, mas pelo menos a temperatura estava perfeita para os padrões locais (24 oC).

Encontrei-me com o Iury em Povoação de Baunilha e seguimos até a propriedade da base. Estacionamos o carro na estrada, passamos a porteira e, nesse instante, os bois que estavam no outro lado acabaram se assustando com a nossa presença. Nessa hora, o proprietário apareceu e ficou muito chateado porque acabamos dispersando o gado. Não fizemos por mal, nem sabíamos que isso poderia acontecer, mas o fato é que os bichos se assustaram e foram para longe. O proprietário nem quis saber de nós, disse que não iria nos receber e foi para dentro buscar o gado.

Sem entender muito, saímos para não causar mais confusão e fomos embora. Como o Iury conhece a região e já escalou a via Estica e Puxa, falou que poderíamos tentar o acesso por outra propriedade que fica no outro lado do vale.

Pegamos o carro e rodamos até lá. Logo na entrada, encontramos uma senhora e explicamos as nossas intenções. Como o local já tinha sido visitado por outros escaladores, a conversa fluiu bem melhor, muito diferente do nosso primeiro encontro do dia.

Estacionamos o carro conforme fomos instruídos e pegamos a trilha que a senhora nos explicou. A caminhada por dentro da mata era uma antiga estrada que liga o outro lado do vale, passando por um colo. Subimos até o colo e dali fomos em direção à pedra. Assim que chegamos, fizemos uma longa travessia pela saia da pedra até chegar no local onde estava o enxame de chorreiras. O ideal seria fazer a caminhada pela base, mas como a mata estava muito suja, crivada de unha-de-gato, a travessia foi a melhor opção, embora fosse mais exigente tecnicamente.

Travessia solo pela base.

Chegamos na base das chorreiras e dali tivemos uma boa visão do entorno; logo sentimos que o ar estava pesado. As nuvens estavam baixas e carregadas. Parecia que não iria chover, mas bastaria começar a ventar para o tempo virar.

Céu carregado.

Sem muitas opções, fomos estudar a pedra. Como visto de longe, nos primeiros 50m iniciais havia poucas calhas com chorreira — na verdade, havia somente uma calha. Se a calha não fosse promissora, não teria como subir a parede, pois a pedra do entorno era muito lisa e a parede muito inclinada.

Aquele tipo de feição era algo inédito; na verdade, nunca tinha visto algo assim no granito/gnaisse. Então, não sabia se seria possível subir. De baixo parecia que dava, mas havia alguns trechos que pareciam impossíveis.

Nos equipamos e comecei os trabalhos com o Iury na segurança num platô bem confortável.

A conquista foi fluindo bem, mas pela quantidade de chapas que estava batendo, vi que a conquista seria mais demorada do que o esperado.

Iury sugeriu fazer uma enfiada mais curta, de 30m, mas a parede não oferecia um bom lugar, pois seguia a prumo constante.

Abrindo os trabalhos. Foto: Iury.

Segui tocando e, quase no final da corda, virando um headwall que parecia muito duro, vi a primeira quebra onde poderia ser a parada. Até ali já foram 12 chapeletas e quase 50m. No trecho mais negativo, não tinha opções: era seguir a única calha que estava dentro desde a base, pois para os lados não havia nada.

A parede ganhou inclinação, mas uma sequência de agarras permitiu ganhar o lance com certa facilidade e estabelecer a P1 após esticar 55m. Estava vencido o trecho mais difícil e, sem dúvida, a enfiada mais bonita. Arrisco a dizer que é também uma das enfiadas mais bonitas do estado pela característica única da parede.

Chamei o Iury, que subiu de segundo enquanto eu içava o haulbag.

Iury no crux da via.

A essa hora, o tempo já tinha dado uma piorada e, em diversos momentos, uma fina garoa nos pegava, enquanto víamos a chuva mais pesada passando em nossa volta. Diversas vezes, o Iury falava que teríamos que abortar, mas mesmo com a chuva, a rocha seguia seca. Aliás, a rocha era incrivelmente seca e limpa. Não havia liquens, plantinhas, nada. Uma textura fora do sério!

Se na primeira enfiada havia apenas uma calha com chorreira, agora havia dezenas. Estava difícil escolher a melhor calha. Sabia que a via precisaria tender à direita, então escolhi as melhores calhas da direita e fui tocando. Nesse trecho, a pedra já perdeu um pouco mais a inclinação e a conquista fluiu com certa tranquilidade.

As calhas da seção superior.

Estiquei mais uma corda e estabeleci a P2. Dessa vez, o Iury subiu com o haulbag nas costas, limpando a enfiada.

Mais uma pausa para avaliar o tempo, mas a essa altura já sabíamos que o tempo não iria virar a ponto de impedir a escalada. Seguimos com a conquista!

A terceira enfiada parecia mais difícil. As chorreiras ficaram mais rasas em muitos lugares; ficou somente a cor clara que marca as bordas da calha.

Mas à medida que ia subindo, a rocha se revelava e, sempre que parecia que não tinha saída, uma agarra salvadora aparecia para ajudar. No entanto, conforme avançava, as calhas iam sumindo até sumirem completamente. Dali para cima, só o bom e velho “agarrência”.

Mais uma vez estiquei quase uma corda cheia de 60m e estabeleci a P3 num platô minúsculo. O cume estava logo ali. Por um momento pensei em encerrar a conquista ali, mas achei melhor tocar mais um pouco para pelo menos encostar na vegetação do cume. Assim, se alguém quiser sair caminhando por cima, teria essa opção.

Chamei o Iury que a essa hora subiu se arrastando. Vi o relógio e notei que já estava ficando tarde, eram umas 15h. Peguei a ponta da corda e fui em direção a uma árvore. Bati duas chapas e em menos de 20m já estava onde queria chegar.

Encerramos a conquista neste ponto e resolvemos descer. O melhor da parede já havia sido conquistado. Dali para cima seria só para ganhar extensão de via, sem agregar valor à escalada.

A descida e a caminhada de volta transcorreram sem problemas e logo estávamos passando pela sede do sítio para falar da nossa conquista com os proprietários.

Descendo! Rapel da P3 para P2.
Rapel da 2a enfiada.

Na volta, ainda passamos em Povoação de Baunilha para comer um bolinho de carne com Coca-cola. Costumo não comer esse tipo de iguaria por não saber bem a procedência, mas depois de um dia de escalada, desceu redondo e o meu estômago nem reclamou.

Comentários

Uma resposta em “Canalet Magic”

Essa travessia quase me mata do coração, to ficando velho. A via é linda e vale a pena a repetição.

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