Chaminé dos Vinte mil

A história da escalada capixaba começou oficialmente no final da década da 40 com a conquista do Pico do Itabira pelos escaladores do Centro Excursionista do Rio de Janeiro (CERJ). A partir de então, vários clubes cariocas realizaram diversas incursões ao Estado em busca de novas montanhas.

As primeiras montanhas conquistadas do Espírito Santo foram:

  1. Pico do Itabira (1947);
  2. Freira (1948);
  3. Pedra do Penedo, Vitória (1951);
  4. Três Pontões de Afonso Cláudio (1958);
  5. Pedra da Agulha, Pancas (1959);
  6. Pontão Rachado e Pontão Maior (Cinco Pontões) (1960);
  7. Pedra do Pombal, Alegre (1963) – primeira conquista realizada por escaladores Capixabas;
  8. Pedra do Dedo (1965).

A Pedra do Dedo em Nova Venécia foi descoberta pelo escalador Giuseppe Pellegrini do CERJ em 1960. Na ocasião, o mesmo subiu os primeiros 35m da chaminé que leva ao seu cume e bateu um grampo com uma placa para “reservar” a conquista. Cinco anos depois, em 1965, Pelegrini delegou aos escaladores Claudio Vieira de Castro, Etzel Von Stockert e José Luiz Barbosa a conquista do pico que foi vencida após três investidas e batizaram a via de Chaminé dos Vinte Mil.

Placa fixada no 1o grampo (o segundo atualmente). Foto: Gustavo Diniz.

Para saber mais sobre a conquista desta montanha e a origem do curioso nome “Vinte Mil”, recomendo dar uma lida no livro “Escalada Capixaba” de Oswaldo Baldin.

A primeira repetição da via aconteceu apenas em 2001, 36 anos após a conquista, pelos escaladores André Ilha e Bernardo Collares. E desde então, apenas mais 4 cordadas chegaram ao seu cume, sendo a última em 2015.

Coquista: 1965 – Giuseppe Pellegrini, Claudio Vieira de Castro, Etzel Von Stockert e José Luiz Barbosa

1a repetição: 2001 – André Ilha e Bernardo Collares;

2a repetição: 2006 – José Márcio Dorigueto e Robinho;

3a repetição: 2012 – Fabrício Amaral e Sandro Souza;

4a repetição: 2015 – Alex Zache, Caio Afeto, Zudivan;

5a repetição: 2022 – Gustavo Diniz, Lívia Cardoso e Naoki Arima.

A ideia de escalar a Chaminé dos Vinte Mil nasceu no momento que nós, Gustavo Diniz, Lívia Cardoso e eu estávamos comemorando a escalada da Chaminé Brasília na Pedra da Agulha em Pancas. Após algumas taças de Champagne, a ideia foi jogada no ar, mas tudo ficou meio vago. Afinal de contas tínhamos acabado de escalar 450m de chaminé e nós, pelos menos eu, não queríamos mais saber de chaminé por um tempo.

No último mês quando fomos indicados ao Prêmio Mosquetão de Ouro 2022 justamente com a repetição da Chaminé Brasília, aquela ideia vaga voltou a tomar forma. Quando levamos o prêmio, o martelo tinha sido batido! Tínhamos que nos reencontrar e comemorar a conquista com outra escalada! E nada mais justo do que colocar em prática a promessa!

Alinhamos a data e nos encontramos na última sexta-feira em Vitória, Gustavo, Lívia e eu e botamos o pé na estrada rumo à cidade de Nova Venécia, no Norte do Estado.

A nossa ida a Nova Venécia não foi muito animadora. Pegamos chuva de Vitória a Nova Venécia. Final de maio é para ser uma época boa, mas em alguns anos entra uma instabilidade marítima que deixa o tempo bem chuvoso mesmo durante o outono. Eu já conhecia esse fenômeno, então sabia que seria uma loteria, pois essas chuvas varrem o interior do Estado em bolsões e se tiver sorte você acaba escapando e se tiver azar eles te pegam em cheio.

Em Nova Venécia nos hospedamos num hotel para escalar no dia seguinte, se o tempo amanhecesse estável.

O sábado amanheceu com muitas nuvens, mas sem chuva. Aparentemente não choveu durante a madrugada, somente no dia anterior. Na estrada para localidade de Cristalina, dava para ver que as pedras estavam bem molhadas e havia muitas poças d’água pelo caminho. Segundo o Gustavo, as poças eram porque o pessoal tinha lavado a rua com água…

Fomos sem muitas pretensões, queríamos ver a pedra, tocar na pedra e quem saber escalar. Sabíamos que a pedra não era de encharcar porque há pouca vegetação. Também supus que a chaminé não estivesse molhada, com base no que vi na Brasília.

Chegamos na propriedade da base e logo ficamos sabendo que com a chuva, seria impossível subir de carro até onde a maioria das pessoas vão. Primeira notícia ruim…

Separando o material e carregando o cantil.

Deixamos o carro na casa e subimos admirando a montanha. A chuva é um elemento que estraga a escalada, mas o efeito pós chuva na paisagem sempre é de tirar o fôlego.

Chegamos na base da chaminé e: bingo!

A pedra estava seca por dentro. Restava a dúvida sobre o trecho final que com certeza estava molhada a essa hora da manhã, mas se não chovesse ao longo do dia teria uma chance de estar seca quando estivéssemos chegando no meio da tarde. Mas por hora isso não era um problema.

Chegada na base da via. Felicidade na cara de quem viu a rocha seca. Foto: Gustavo Diniz.

Nos equipamos e iniciamos a escalada por volta das 8h 45 da manhã, um pouco tarde para entrar numa montanha, mas mesmo assim entramos bem animados.

Como sabia que o trecho final seria o mais duro, comecei iniciando a escalada deixando a pimenta para o Gustavo que gosta de jogar pimenta nos olhos (e na massa também).

O primeiro movimento na via é uma passada em chaminé e pelos próximos 180m, a única coisa que muda é a largura que varia de chaminé média até chaminé estreita (menos que a largura de um ombro no trecho final).

Iniciando a escalada. Foto: Gustavo Diniz.

Nos primeiros 90m, 3 enfiadas, a chaminé é média, com as costas numa das paredes e os dois pés na outra. Num terceiro lado, a chaminé tem uma terceira parede, que seria o fundo, onde a rocha é bem fraturada e coberta com uma película de precipitado de carbonato de cálcio (?). Embora a rocha tenha uma aparência bem duvidosa há alguns locais onde cabem proteções móveis psicológicas para complementar os raros grampos originais da conquista. Mas a regra geral da via é uma parada a cada 30-35m sem proteções entre as paradas.

No final da 2a enfiada. A fita azul lançando uma ponte de pedra pobre. Só para aumentar a sensação de atrito.
Provavelmente na P2. Foto: Gustavo Diniz.

Outro ponto de atenção dessa primeira parte são as lacas soltas. A pedra é bem fraturada e a qualquer toque você acaba desprendendo uma pedra que acaba descendo com velocidade em direção ao companheiros. Essa é, sem dúvida, a parte mais difícil dessa parte. Gerenciar as lacas soltas, controlar os movimentos para que nada atinja os outros e analisar os riscos de cada movimento. Há uma história de que uma dupla forte tentou repetir essa via e tiveram que abortar porque uma dessas lacas caiu no ombro do segurança.

Já quando ficamos na segurança, não temos muito que fazer, tentamos ficar o mais encolhido possível para diminuir a área de contato, nem pensar em olhar para cima porque constantemente cai alguma coisa e ficamos pensando no conceito de “sorte”.

A P3, que fica aproximadamente na metade da escalada marca o final do trecho mais crítico em termos de pedra solta e marca o início do trecho mais exposto da via, com lances longos em chaminé estreito.

Nessa mesma parada, substituímos um grampo original da conquista que saiu na mão por um grampo de 1/2 novo. Nós recebemos autorização do conquistador para realizar tal manutenção, por isso levamos alguns grampos e uma furadeira.

Grampo original da P3. Este grampo foi substituído. Foto: Lívia Cardoso.

As duas enfiadas seguintes são, sem dúvida, as mais difíceis e expostas da via. A quarta enfiada é um runout de 30m com potencial de queda em bloco de pedra. No livro Escalada Capixaba está graduado como E3, mas para mim isso é E4 ou até mesmo E5. Sorte minha que o Gustavo se amarra nesse tipo de perrengue. Eu acho que eu não teria condições emocionais para encarar essa enfiada.

Gustavo na saída da 4a enfiada.

A P4 é disparada a pior parada da via. Eu acho que nem na Chaminé Brasília tem uma parada tão desconfortável e clautrofóbica. Essa parada fica no meio da chaminé estreita, sem apoio para os pés, num lugar escuro, onde se virar de um lado para o outro é um suplício. E para piorar, a próxima enfiada é a mais dura e longa. Uma chaminé estreita de 50m com um grampo original a uns 20m da parada e difícil de achar por causa da baixa luminosidade. Tecnicamente a escalada não é difícil porque você consegue apoiar os joelhos, mas é muito extenuante pela extensão (50m) e desgaste emocional, pois a parada não fica visível e você sobe sem saber onde está a parada. Não sei precisar quanto tempo levou essa enfiada, mas creio que o Gustavo tenha levado mais de 1h para vencer esse trecho.

Escalando a 4a enfiada. Foto: Gustavo Diniz.
A pior parada da via, P4. Foto: Gustavo Diniz.
Seção final da 5a enfiada. Foto: Gustavo Diniz.

A P5 é um luxo comparado a todas as outras paradas da via. Há bastante luz, é possível ver o céu e também dá para sentir o cheio do cume. Um pequeno lance leva a um crux de boulder que leva ao colo entre as duas montanhas que compõe a pedra. Dali, uma caminhada contornando a pedra leva ao costão final que era o grande mistério da escalada.

Na conquista, os escaladores usaram uma grande árvore para vencer o costão final crivado de macambira. Tempos depois, um raio caiu na árvore e um pequeno incêndio tomou conta do cume. Segundo o morador local, o fogo perdurou por dois dias no cume da montanha.

Recentemente os escaladores Oswaldo Baldin, Sandro Souza e Ghany conquistaram uma nova via na face oposta e relataram que a tal árvore estava podre. Por isso, poderia ser necessário bater alguns grampos para vencer o trecho final. Foi conversado com o conquistador a tal possibilidade e obtivemos autorização para acrescentar quantos grampos fossem necessários para vencer esse trecho final.

No fim, o Gustavo passou liso pelo trecho final sem precisar bater nenhuma proteção. A árvore, mesmo seca ainda está usável e o costão final possui bastante macambira para se agarrar, mesmo após o incêndio. Além das macambiras há muitas agarras também, o que permite subir com certa facilidade (IV).

Chegamos no cume por volta das 16h, após 7h de escalada. Por sorte não choveu ao longo do dia e pudemos aproveitar o tempo nublado a nosso favor. O trecho do costão final ainda estava molhado, mas nada que pudesse comprometer a escalada.

Finalmente comemoramos a conquista do Mosquetão do Ouro no cume da Pedra do Dedo e ficamos apreciando a vista única da região.

Foto oficial no cume com o troféu Mosquetão de Ouro. Foto: Gustavo Diniz.
Cume da Pedra do Dedo. Foto: Gustavo Diniz.
Vinte mil!
Vista do cume repleto de macambira
Pedra do Dedo e a chaminé da face nordeste. Foto: Gustavo Diniz.

Por volta das 17h iniciamos a longa jornada de volta. A descida é relativamente curta, mas há diversos pontos de atenção para não prender a corda e não deixar cair alguma laca sobre nós.

Momentos de tensão durante o rapel. Foto: Lívia Cardoso.

Às 18h30 estávamos de volta à base da montanha e finalmente pudemos comemorar o sucesso da escalada.

Mais uma vez, meus sinceros agradecimentos ao Gustavo e Lívia pela oportunidade de escalar essa via. Gostaria também de deixar registrado meu respeito e admiração aos conquistadores da via pela coragem e audácia. Não preciso nem dizer que descemos com a próxima escalada novamente engatilhada, mas antes preciso esquecer um pouco sobre escalar em chaminé.

Algumas anotações sobre a escalada que podem ser úteis para outras repetições:

  • Levamos um jogo de móvel, do #.3 ao #4. As peças tem serventia até a P2. Talvez na última enfiada, no crux tenha opção, mas acabamos deixando todo material na P3;
  • Usamos duas cordas de 60m e uma tagline de 6mm para içar as mochilas. É possível descer com uma corda de 60m ou 70m, mas é preciso fazer um rapel em grampo único (original) no meio da 5a enfiada (não recomendo);
  • Todas as paradas estão duplicadas, sempre com um grampo original e um grampo novo de inox (da repetição de 2006). A única parada que estava ruim, P3, foi substituída nessa repetição. O grampo velho saiu na mão e levamos de volta para entregar ao conquistador;
  • Joelheira mandatória;
  • Muito cuidado com as lacas, principalmente nas primeiras 3 enfiadas;
  • Há um único grampo original que precisa ser substituído na última enfiada, mas não é mandatório. Ele fica logo no início do colo entre as duas montanhas, vide croqui.
  • Ambiente claustrofóbico. Digo isso porque ninguém me falou antes!

Timeline

  • Chegada no estacionamento: 8h
  • Chegada na base da via: 8h30
  • Início da escalada: 8h45
  • P3: 11h30
  • P4: 13h
  • P5: 15h
  • Cume: 16h
  • Descida: 17h
  • P3: 18h
  • Base: 18h30
Pedra do Dedo.

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