Entrevista: João Giacchin

 

 

“O que é intrínseco a pureza da Escalada Natural, o que é a essência da Escalada em Rocha; esse foi o meu sonho. ” João Giacchin

Nome completo: João Giacchin (lamentavelmente fui registrado sem o sobrenome de minha mãe; o Cravo)

Cidade origem: Nasci num hospital de São Leopoldo, mas minha família sempre foi de Canoas, município da grande Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Data de nascimento:  12 de agosto de 1966 (me sinto muito estimulado para desfrutar dos próximos anos de vida, o melhor está por vir).

Ano em que começou a escalar: Em 1986 de forma autodidata descobri as majestosas pedras de granito da fabulosa e legendária Lagoa dos Patos, praias de água doce que muito visitava na minha adolescência, pedras nas quais intuitivamente eu tentava subir por todos os lados; eram passeios lindos de muitos fins de semanas onde me retirava da grande Porto Alegre para escrever meus poemas, estar em contato com a natureza e brincar de subir pedras foi um grande descobrimento.

Em 1987 na Chapada dos Guimarães (Mato Grosso), em Villa Velha (Paraná), e nas Praias de Itapuã e Praia do Leão e outras (Lagoa dos Patos, Rio Grande do Sul), foi onde tive meus primeiros contatos com as formações rochosas; viajando sozinho, fiz escaladas de Boulder (escaladas de rocha sem corda que não apresentam riscos) nestes estados antes de descobrir que existia um esporte chamado Escalada Técnica em Rocha, e ou, Montanhismo.

E, em 1988 descobri o montanhismo e as escaladas na Serra do Mar, no estado do Paraná; morei 9 meses em Curitiba onde me relacionei com extraordinários escaladores e alpinistas dos anos 80. Minha iniciação foi diretamente onde faziam e fazem escaladas de excelente nível: Complexo do Marumbi, Morro Anhangava e Parede Ibitirati do Pico Paraná, etc. Contato direto com as montanhas da floresta atlântica.

Melhor área de escalada do Rio Grande do Sul: Romanticamente ou tecnicamente? Bem, nem importa tanto, paralelos que se complementam são supletivos; um supre o que falta no outro.

Poeticamente tenho meus setores preferidos que são aqueles clássicos que romanticamente sempre me emocionam; pedras do nosso inusitado pampa gaúcho, algumas das quais participei ativamente como um dos primeiros conquistadores (Pedras de Caçapava do Sul, de Bagé, o Morro de Sapucaia do Sul e complexo do Itacolomi no município de Gravataí; mais recentemente, setores nos quais eu muito pouco escalei, como as pedras das Minas do Camaquã, Salto Ventoso, a Gruta da 3ª Légua.

Tecnicamente, considero que todos os setores de Escala em Rocha melhoram com o passo do tempo, e com o empenho dos escaladores mais ativos, e, ou, mais tradicionais (eventualmente alguns setores sofrem o fator retrógrado, que se opõe ao progresso e, ou, saem fora de moda, se tornam obsoletos romanticamente e, ou, tecnicamente; mas esta é uma outra questão, em que há outra interrogação, o que poderia ser alvo de análise).

Eu escrevi uma autêntica “Profecia” nos anos 80, que diz:

“No estado do Rio Grande do Sul algum dia abriremos algumas das vias de Escalada Livre mais difíceis do Brasil, assim como espetaculares escaladas de estilo Big Wall dentro dos Canions do Sul”.

E, casualmente minha Profecia se percebe atualmente plasmada na incomparável Gruta da Terceira Légua, de Caxias do Sul, e ainda se perceberá nos incalculáveis setores de Conglomerados de Caçapava do Sul e Bagé, assim como na Cachoeira do Salto Ventoso, em Farroupilha. Sem falar que dentro dos Canions, num futuro, nascerão escaladas de complexa dificuldade e fenomenal criatividade “Bigwallera”. É um prazer escrever uma profecia e em vida, vê-la concretizada como um oportuno presságio, um augúrio que prevê acontecimentos ou sua realização por meio de indícios evidentes…

Melhor via do Rio Grande do Sul: Esta pergunta merece uma resposta poeticamente romântica. Independente da estética de escalada, de nível de dificuldade e ou da beleza de um itinerário natural, sempre me emociona lembrar que nossos antecessores levaram 7 anos para conquistar o emblemático Pico do Morcego, na província de Bagé. A clássica Via dos Marimbondos da nossa querida Irene Fernandez, do Roberto Cappellari, do Norton Stringuini, e do seu Edgar Kittelmann, merecem toda a atenção e especial respeito, pela época de conquista e pelo exemplo de tantos anos de trabalho para abrirem uma escalada, que, por sua vez, abriu as portas da Escalada Técnica no estado do Rio Grande do Sul. Eu fui o primeiro escalador a realizar a primeira repetição em solitário desta via. E a mesma via, no mesmo dia, depois de escalar em solitário, voltei a escalar com a própria Irene Fernandez (escalada na qual celebramos os encontros de duas gerações de amantes da escalada); O sonho dela era escalar a via que ela grampeou durante vários anos, e me convidou para escalar com ela; além de escalar, subimos material de bivaque e comida, jantamos juntos no cume do Pico do Morcego e dormimos contemplando a infinidade de estrelas daquela noite de inverno. Escalada de muito mérito, histórica e especial para mim, porque a Irene Fernandez estava presente; depois de realizar seu sonho, ela se retirou definitivamente da escalada para dar prioridade aos seus estudos de biologia. Ainda guardo comigo a foto que ela me fez, jumareando no negativo do Pico do Morcego, na minha escalada em solitário (muito especial para mim). Especial também foi ter escalado o Pico do Morcego com o próprio Roberto Cappellari (primeiro escalador a chegar no cume deste emblemático Pico no final dos anos 70, início dos 80 do século passado). Também foi especial para mim conquistar a via Edgar Kittelmann (com outros companheiros), no mesmo Pico do Morcego, e depois, instalar cordas fixas na parede para ajudar o Edgar a realizar seu velho sonho de subir no topo do Pico do Morcego; organizar e participar destas três escaladas históricas, únicas e irrepetíveis, para mim foi uma honra. Sou um dos únicos escaladores que tem uma fotografia com o Edgar no cume do Pico do Morcego. Foram os meus anos dourados com pessoas douradas e especiais!

Pedra da Abelha e Pedra do Segredo em Caçapava do Sul – RS.

1- Antes de mais nada, queria saber, como foi o teu começo na escalada gaúcha?

Para começo de conversa, aproveito esta ocasião para expressar que é uma honra ser entrevistado por um fotógrafo japonês do teu calibre, Naoki, e com tão bonita história como escalador de rocha, esta é a segunda vez que me procuram para saber minha opinião sobre os fatos, e sobre minha participação como um dos pioneiros, e, ou, sobre o meu obsoleto romantismo poético alpino e conduta assertiva atlética nos anos dourados do pioneirismo da escalada de dificuldade no século passado; Grato, Naoki Arima! Apreço com reciprocidade o teu interesse. E vamos lá!

Explicarei a partir do ano de 1986 quando visitava a exuberante Lagoa dos Patos para subir pedras de forma autodidata, e a partir do ano de 1987 onde estive viajando sozinho e tocando pedras na chapada dos Guimarães do Mato Grosso, em Vila Velha no Paraná (poeticamente sempre gostei de procurar refúgios nas pedras para escrever meus poemas). Romanticamente em 1988, no estado do Paraná, com experientes escaladores da Serra do Mar, eu me iniciei aventureiramente no fabuloso mundo da Escalada Livre em Rocha. Com eles descobri o maravilhoso mundo da cultura de montanha, e comecei a experimentar caminhadas pelas montanhas do complexo do Marumbi, banhos de rio e de cascatas pela Serra, escalada esportiva no Morro Anhangava, técnicas de big wall e experiências de conquistar novas vias, solos noturnos (escaladas sem cordas) nas vias do Anhangava para contemplar o luar desde uma parede iluminada pela lua, e ótimos boulders na Serra da Baitaca, e tudo isto recheado com excelentes parcerias, que fantasticamente se tornaram grandes amigos. O ano de 1988 foi mágico para mim, na Serra do Mar do Paraná, entre outras coisas, tive uma especial iniciação no complexo estilo de escaladas em solitário. E também belas escaladas no estado do Rio de Janeiro, já pelo ano 1990, com excelentes escaladores daquele estado tão privilegiado em rocha, onde escalei o emblemático Pão de Açúcar por várias vezes e o fantástico Dedo de Deus, e com excelente companhia. Quando voltei para o Rio Grande do Sul, no final de 1988, diretamente fui abrir minhas próprias escaladas no Morro do Chapéu, o Morro de Sapucaia do Sul (abri praticamente sozinho, todo um Campo-Escola de Escalada Esportiva, de escalada livre) hoje conhecido como Fazenda Morro de Sapucaia). Logo, nos Morros do complexo do Itacolomi, fiz vários solos e boulders e abri alguma via. Em Caçapava do Sul e em Bagé, conquistei vários Picos virgens em solitário e realizei interessantes escaladas sem corda; no final dos anos 80 eu fui o responsável pelo 90% das novas escaladas do Rio Grande do Sul, as quais incluía escaladas sem corda (solos), boulders (pequenos blocos de pedra), escaladas em solitário (sozinho e com auto-segurança), e escaladas livres de notável dificuldade técnica (escalada esportiva). Dizem que minha etapa foi “revolucionária” para à época, e que depois de mim, a escalada se alastrou por todo o estado do Rio Grande do Sul. Considero que foi resultado de um trabalho bem feito, de uma conduta assertiva, saudável e cheio de mérito, onde eu aproveitei para pôr em prática todos os conhecimentos aprendidos na Serra do Mar do Paraná, e no Rio de Janeiro. Eu contribuí nestes anos de Pioneirismo, com um tipo de escalada muito criativa e romanticamente poética; especialmente consciente de que estava ajudando a elevar o nível de escalada em rocha no sul do Brasil, não apenas no Rio Grande do Sul.

2- Não te conheci pessoalmente, mas a imagem que eu tenho, é de que foste um montanhista visionário com fortes raízes no montanhismo clássico. Quais eram, ou ainda são, os seus princípios da escalada?

Princípio poético, Naoki. Considero que me tornei escalador de rocha pela poesia da montanha; escrevo poemas a mais de 35 anos, e em meus poemas eu imaginava um mundo belo e diferente. Com o tempo, descobri que a poesia do alpinismo e da própria escalada em rocha era o antídoto alquímico que transformaria minha vida. Meus princípios estão fundamentados na criatividade do montanhismo, da escalada livre e sua poesia inefável, na prática inviolável do direito ao risco. O escalador de rocha, entusiasta e esportivo assim como a figura do alpinista comprometido e aventureiro de grandes paredes rochosas e geladas, são seres dominados pelo romantismo, somos românticos apaixonado pela nossa atividade, por tanto, seres com princípios próprios, com caráter formado e sonhos amadurecidos com autênticas escaladas e infinitos projetos que quando acabam, dão vida a outros sonhos. Se “visionário” é aquele que têm interessantes visões em épocas de pioneirismo, que vive na “vanguarda” baseado em conceitos novos e modernos, com inovação de ideias, de tendências inovadoras, de opiniões e pontos de vista que ajudam a enriquecer também a comunidade, então fui. Minhas escaladas e meu período de pioneirismo justifica esse romantismo que tanto influi na minha poesia; minhas escaladas sem corda e minhas atividades em solitário dos anos 80 do século passado, escaladas criativas com inovadas dificuldades que representam esta originalidade do descobrimento, desfrutando da pureza do corpo humano em movimento e em convivência com o risco; dança inusitada, poesia indiscutível. Naoki, me emociona que me consideres um visionário.

3- Conversando com outras pessoas da sua época, me pareceu que você foi uma pessoa polêmica na comunidade, com ideias que não eram alinhadas com o Clube Gaúcho de Montanhismo. Histórias como o famoso esticão da Pedra da Abelha geraram polêmica. Você se considera polêmico ou um visionário mal interpretado?

As controvérsias do passado, as inoportunas polêmicas que foram de outros, não minhas, pertencem a um passado remoto e, que nunca tiveram suficiente importância na minha contundente e assertiva decisão de ser um autêntico alpinista e um escalador romanticamente bem-sucedido poeticamente, que era o meu objetivo, e que os escaladores clássicos nunca entenderam. Poucos escaladores desenvolvem este nível de romantismo poético, e ou, muito menos este poético romantismo pela escalada de dificuldade, pelo alpinismo de risco, ou pelo montanhismo tradicional.

Com o tempo tudo se recicla, e tudo se perdoa! A temporada de críticas pertence ao final dos anos 80 (coisa natural e relativa de certa ignorância do século passado), quando surpreendi a pequena comunidade de escaladores com minhas arrojadas escaladas sem corda ou minhas conquistas batizadas com escassos seguros em algumas partes, e em arriscadas conquistas em solitário. Mas, afortunadamente, a partir dos anos 90, toda a comunidade de escaladores reconheceu o meu trabalho e atualmente todos apreciam e valorizam as escaladas que eu fiz nos anos 80. Quanto a Pedra da Abelha, no município de Caçapava do Sul, que eu conquistei em solitário a quase 28 anos atrás, e que foi alvo de várias críticas no Clube Gaúcho de Montanhismo (apenas entre os mais leigos e menos preparados culturalmente para compreenderem a cultura de escalada em rocha que eu desenvolvia, então), hoje em dia é uma das escaladas mais repetidas em termos de vias clássicas, todos gostam de escalar a minha via “Absolutamente Absorto” e sentir um pouco de originalidade em termos de conquista. Quase todos os escaladores do Rio Grande do Sul já se interessaram em repetir minhas escaladas dos anos 80 e princípio dos 90, me sinto completo com minha história, me sinto em paz com o meu estilo de escalada livre e agradeço a todos os escaladores que possam se interessar por esta história de originalidade e pioneirismo, pois, de certa forma, faz parte da cultura alpina reconhecerem o trabalho dos pioneiros; é sempre grato! Depois de tudo o que fiz para melhorar o esporte, se registrou mais união entre os escaladores e uma evolução considerável. Comigo, a escalada em rocha no Rio Grande do Sul teve, “um antes e um depois”; o pouco que acontecia antes de mim, e tudo o que aconteceu a partir de mim e depois de tudo o que eu aportei e plantei. Foi comigo e com minhas viagens de escalada pelo Brasil, que o Rio Grande do Sul acabou sendo reconhecido nacionalmente como futurístico centro de escalada em rocha. Espero que isto responda a tua oportuna e grata pergunta. Muito grato, Naoki! Aliás, o ilustre presidente do conceituado Clube Gaúcho de Montanhismo, o pioneiríssimo Edgar Kittelmann, me adorava e me respeitava muito, diga-se de passagem. E, a célebre pioneira Irene Fernandez também me apreciava muito, e com distinção. Passados tantos anos, hoje em dia, todos os escaladores do Rio Grande do Sul demonstram muito respeito por minhas escaladas e pelo meu historial. As controvérsias são coisas do século passado, naturalmente esquecidas e sem nenhuma importância.

4- Qual a tua relação com os Morros Itacolomi, Sapucaia e o Pudim? Para mim, lá foi o berço da escalada esportiva de alto nível do estado. Até hoje, algumas das vias de lá são consideradas duras e consistentes.

Poxa, Naoki! Tocou na alma! Dediquei parte da minha vida a conquistar inúmeras vias de bom nível no Morro de Sapucaia do Sul, até transformar o Morro do Chapéu no melhor Campo-Escola de Escalada em Rocha do Rio Grande do Sul dos anos 80, e logo, depois de tudo feito, a Escalada em Rocha foi proibida no Campo-Escola que eu tinha dedicado 3 anos de trabalho em Solitário, e também com bons amigos. Ali conquistei em solitário e encadenei as vias mais duras dos anos 80 do Rio Grande do Sul. 25 anos depois, eu soube que a proprietária das terras do Morro do Chapéu, a senhora Ana Maria Juliano, sendo advogada, conseguiu transformou o Morro de Sapucaia, em Reserva Natural da grande Porto Alegre e, graças a Deus o meu Campo-Escola de Escalada Esportiva foi reativado; escaladores locais dos municípios de Sapucaia do Sul, de Esteio, assim como de São Leopoldo, de Canoas e Porto Alegre, com o apoio da proprietária, estão regrampeando minhas vias e voltando a escalar e treinar no Campo-Escola de Escalada Esportiva Fazenda Morro de Sapucaia (meu velho Campo-Escola), e com isso, recupero, pessoalmente, uma parte significativa da minha própria vida. Ou seja, o meu trabalho voluntário dos anos 80, hoje está protegido e contribui e fomenta encontros muito saudáveis e interessantíssimos na região do Vale dos Sinos. Só notícias de especial prazer!

Quanto aos Morros do Complexo Itacolomi, berço indiscutível da Escalada em Rocha no Rio Grande do Sul, abri alguma via modesta, mas o que mais fiz nestes morros, no final dos anos 80 do século passado, foi praticar escaladas sem corda (solos), e treinar, pois, para isto estão os Campo-Escolas de Escalada Livre. Também me interessava muito o panorama estético destes morros de arenito, muito bonitos; passava dias e noites romanticamente escrevendo meus poemas; pura inspiração é o que esses lugares mais transmitem.

É um prazer saber que até hoje, o sonho do pioneiríssimo Guia Alpino Italiano Giuseppe Gambaro, e de seus mais nobres discípulos Edgar Kittelmann e Luiz Gonzaga Cony, ainda palpita no coração dos novos escaladores Gaúchos; muito inspiracional. Além da minha relação técnica com estes setores de escalada, predomina muito a minha relação sentimental, poética e romântica com estes legendários, míticos e ilustres pioneiros do século passado (respeito e consideração incondicional).

5- Giacchin, você abriu diversas vias clássicas na região de Caçapava do Sul, entre elas a “Sem Medo de Ser Feliz”. Diz a lenda que essa conquista foi em solitário e que você usou um prussik como auto-seguro. Foi assim mesmo a conquista?

Lenda distorcida… eu realmente fui o primeiro escalador do Rio Grande do Sul a me dedicar ao nobre estilo de Escaladas em Solitário (evidentemente com Prussik; material precário, mas muito conveniente e oportuno no século passado), e assim, realizei importantes conquistas sozinho, mas, a clássica escalada da mítica Pedra do Segredo foi um grande projeto que para o qual, convidei bons amigos. Eu projetei o sonho, e eu coordenei toda a logística da escalada, e fui o único que participei de todas as duas etapas de conquista. A verdadeira “lenda”, diz, que eu era um “visionário” e que projetei a escalada mais bonita da Pedra do Segredo, para à época, mas, desta vez, estiveram comigo meus eternos amigos; Alexandre Zavaschi, Guilherme Zavaschi (jovens escaladores de Porto Alegre que vinham comigo para praticar e aprender como abrir uma nova escalada em parede), e Edson Struminski (amigo do Paraná, experiente escalador, o legendário, mítico e ilustre montanhista, Du Bois). Eles também participaram desta nobre conquista do ano 1990 (entre fevereiro e março). Logo, depois de acabar a escalada, um dia eu voltei lá e fiz a primeira repetição em solitário (30/12/1990) desta via que o meu irmãozinho espiritual Alexandre Zavaschi batizou com o oportuno e significativo nome de, “Sem Medo De Ser Feliz”. Este nome dado pelo Alexandre, hoje em dia, 28 anos mais tarde, ainda segue inspirando todos os escaladores do Rio Grande do Sul. O projeto da escalada da Pedra do Segredo foi meu, convidei para esta conquista os escaladores de mais confiança daqueles anos, e a conquista foi um êxito e um triunfo para todo o Rio Grande do Sul; com o criativo nome sugerido pelo Alexandre Zavaschi, fica imortalizada a “Sem Medo De Ser Feliz” como um dos maiores feitos do montanhismo no estado do Rio Grande do Sul.

6- Nessa mesma via, diz a outra lenda, que a hora que foi bater o último grampo você acabou deixando cai-lo e não conseguiu completar a conquista na ocasião. Isso é verdade também?

Bem-vindos às Estórias de Lendas Distorcidas e Alteradas da Realidade dos Fatos… desvirtuar a verdadeira lenda da Pedra do Segredo, é praticamente um pecado! Mas, a autêntica lenda da Pedra do Segredo eu posso revelar num instante: Participei ativamente grampeando quase toda a via, tanto na primeira investida (com o Alexandre e o Guili que conquistavam em parede por primeira vez e estavam comigo para aprender), assim como na segunda etapa, onde, com segurança do escalador Edson Struminski (o Du Bois, que também grampeou na terceira enfiada alguns grampos), eu bati os últimos grampos até concluir a via com total êxito (e não deixamos cair nada). Para solucionar dúvidas sobre as histórias da minha participação como um dos pioneiros da escalada em rocha no estado do Rio Grande do Sul, e ou, cultivar cultura de escalada, estarei sempre acessível e disposto a consertar eventuais erros históricos ou, lendas distorcidas. Faz aproximadamente 30 anos que impulsionei a Escalada em Rocha de Dificuldade no Rio Grande do Sul, e tenho tudo registrado nos meus diários de Escalada Livre e Romantismo Alpino, será sempre um prazer solucionar dúvidas. Entrevistas como esta, só transmite bem-estar e esclarece tudo. Além disso, para eventual pesquisa os interessados podem acessar o meu Site pessoal: www.joaogiacchin.com (e também o Blog do João Giacchin); meu espaço poético e de romantismo montanhês onde compartilho minha cultura poética assim como minha história como atleta de rocha que fui; o melhor espaço para apreciar meu trabalho assim como para entender e atualizar informações.

7- Sei que outras vias na região foram conquistadas em Solitário. Por que? Estilo? Falta de parceria? Ou opção pessoal?

Desde sempre, para mim, o atrevido e engenhoso e autêntico e complexo estilo de Escaladas em Solitário por muito tempo encantou os meus sonhos mais íntimos; um sonho palpável de um escalador poeta e seu direito ao risco. Me interessava a capacidade de autossuficiência por pura evolução pessoal. Com meus projetos de escaladas em solitário, amadureci como homem e como pessoa, não apenas como um dos raros escaladores solitários do Brasil do século passado. Sim, uma questão de opção pessoal, apesar de sempre ter me relacionado com excelentes escaladores e bons alpinistas, eu sempre reservei um espaço significativo para as minhas escaladas em solitário, ambiente respeitável onde eu me encontrava comigo mesmo, onde eu meditava sobre o direito ao risco e curiosamente, espaço onde eu mais sentia a energia da montanha; pura vitalidade, crescimento pessoal e autoconhecimento. Estar em paz consigo próprio é outra finalidade que me aportava minhas escaladas em solitário; romantismo alpino, estado de poesia.

Nunca me senti realizado como alpinista (e este é o grande defeito de todos os escaladores e alpinistas, o eterno inconformismo; aliás, um estado de rebeldia saudável); meu grande desejo e o meu sonho sempre foi ser como o Polaco Jerzy Kukuczka, ou ser como o Italiano Renato Casarotto, e ou, ser como o Eslovaco Tomaz Humar; para mim, os mais autênticos lobos solitários das montanhas nevada. Ser um autêntico escalador solitário; eis o meu sonho de poeta que jamais realizei (e que nenhum ser humano consegue repetir com facilidade).

8- Qual a sua opinião sobre intermediação de lances expostos em vias alheias? Pergunto isso porque uma de suas vias, a da Pedra do E.T., recebeu um grampo no lance final. Não sei se te consultaram, mas até onde sei, tem um grampo lá.

No dia 14 de fevereiro de 1991, conquistei a formosa Pedra do E.T.; e, no meu Croqui original da época, e no meu diário de escalada, consta que fixei 9 chapeletas fabricadas por mim e um grampo para rapel (ao longo de 30 metros de escalada).

Caso minha original conquista da mítica Pedra do E.T. tenha sido alterada, então, com licença e permissão, farei uma breve crítica, mas honestamente construtiva: A falta de cultura alpina, a falta de cultura de escalada técnica em rocha e a falta de cultura de ética de montanha gera, não raramente, escaladores despreparados e alpinistas menos completos. Cultivar cultura de ética de escalada e princípios de alpinismo, é uma educação e uma disciplina que os novatos precisam assimilar… Se a minha autêntica escalada de conquista da preciosa Pedra do E.T.; para alguns Pedra da Careta (município de Caçapava do Sul), com o tempo foi alterada (dizem), é porque algum escalador despreparado tecnicamente e com escassa cultura de ética de escalada e falta de maturidade física como escalador, passou por lá e fixou um grampo desnecessário, alterando a história desta escalada e demonstrando não ter educação alpina nem sentido comum; sobre intermediação de lances expostos em vias alheias, só se soluciona respeitando a originalidade dos fatos em épocas de conquistas. Quem não tem preparação física ou mental para escalar vias de elevado risco ou, grau de dificuldade expostos ao risco, antes de mais nada, aprender a escalar, treinar habilidade de subir em pedras, estudar ética de escalada e princípios alpinos. Respeitar a ética dos pioneiros é outro fator indispensável, se agradece muito.

9- Uma vez, a mãe do Rafa (Rafael Brito) me mostrou umas fotos tua escalando na Europa. Não me lembro bem, porque foi em 1995, mas me lembro que estava escalando forte em algum pico de calcário uma via na casa do décimo grau (8a francês). Como foi essa mudança? Sair do Brasil, onde o esporte estava no estado embrionário e cair num continente onde o esporte já era bem difundido?

Crescimento prático e cultural no âmbito da escalada sempre me interessou, pois nos primórdios do meu modesto porém ativo princípio, no Paraná e no Rio de Janeiro, a dialética que mais predominava era oriunda de um contagiante Romantismo pelas Montanhas e efetivamente, pela curiosidade de conhecer outras Montanhas; migrei para Itália em junho de 1992, para os montes Dolomitas, por três motivos: conhecer e entender a origem dos meus antepassados; ter experiências alpinas no Berço do Alpinismo Moderno, as fabulosas montanhas escarpadas denominadas em Italiano, Le Dolomiti; e aprender um dos principais idiomas das línguas da cultura alpina, o idioma Italiano, um idioma falado entre bons escaladores e alpinistas importantes. O esporte estava no estado embrionário, provavelmente no Rio Grande do Sul e muitos outros estados do Brasil, porém, já muito praticado e muito desenvolvido na Serra do Mar do Paraná, e por quase todas as Montanhas do Rio de Janeiro. Começar minha história neste panorama já desenvolvido, e depois de 4 anos cair num continente onde o esporte já era bem difundido, foi simplesmente um presente da vida; escalei por mais de 1 ano nos Dolomitas repetindo inúmeras vias clássicas entre 400 e 800 metros. E fiz escalada esportiva em Lumignano, Arco, Lago di Garda, Santa Felitità e Còvolo; me relacionei com excelentes alpinistas, fiz amizade com o fenomenal, mítico e legendário escalador solitário Lorenzo Mazarotto, escalei com o Piero o antigo companheiro de cordada do famoso e respeitado Renato Casaroto, e conheci o excepcional escalador Manolo (Maurizio Zanolla) caminhando pelos Dolomitas, conheci pessoalmente o Hanz Kammerlander com quem jantamos juntos em Dueville de Vicenza, o qual conheci diretamente numa parede de 550 metros, nos Dolomitas. Também, esportivamente em Lumignano e Arco, no ano 1993, já provava vias de escalada esportiva de significativo nível de dificuldade. Na cidade de Dueville de Vicenza, cidade dos meus avôs paternos, por puro romantismo, me inscrevi no antiquíssimo Club Alpino Italiano, apenas por romantismo alpino; adorei viver esta época de Anos Dourados para mim.

Logo, migrei para a Espanha, no ano de 1993 (grande iniciativa); desejava ser atleta de rocha e a Catalunya já se destacava como sendo um dos lugares mais propícios para a escalada livre, para a escalada natural. Aprender Espanhol, um outro idioma da comunidade dos grandes escaladores, me animava muito (acabei aprendendo até o idioma Catalão, da “Catalunya”; impecável província de cultura de escalada). Os anos 90 foram mágicos; escaladas na Itália (pedra dolomita e calcário), na antiga Tchecoslováquia (pedra arenítica), na Espanha (pedra conglomerada, arenito e calcário), França e Alemanha (calcário), e nas ilhas de Mallorca (calcário) e Tenerife (pedra vulcânica). Fiz grandes amigos e experimentei o máximo de minhas possibilidades até encontrar o meu limite em 1997, onde treinava para provar e tentar escaladas de 5.14a (8b+ Francês). Também na Espanha foi onde mais desenvolvi escalada em solitário depois do Rio Grande do Sul. Hoje em dia, falo também inglês, meu quinto idioma, e aprender os idiomas da comunidade escaladora também considero evolução cultural no âmbito do alpinismo e da escalada em rocha (acho importante se comunicar usando um vocabulário local, seja em Caçapava do Sul, no Marumbi, nos Dolomitas ou Montserrat). Aproveito minha vida não apenas para desenvolver habilidade como escalador, mas também para amadurecer como pessoa. Neste meu processo de migração, constantemente fui evoluindo de acordo com meus interesses e aspirações, e uma atividade complementária que muito me inspira e me enriquece é a arte da fotografia; aspectos positivos da minha vida de migração. Um dos meus ídolos, sempre foi o fotógrafo Alemão Heinz Zak, quem além de ser um excelente escalador, também era, e é, um extraordinário fotógrafo; hoje, me dedico também a fotografia de escalada em rocha, por puro romantismo alpino e esportivo. Eu estou sempre cuidando do meu espírito poético e romântico, a parte imaterial do alpinismo que sempre me fez bem.

10- Você lembra dessas fotos? Você mandou essa via? Sempre tive essa curiosidade.

Eu gostaria de voltar a ver essas fotos, para refrescar à memória e ser mais preciso, pois encadenei com êxito vários projetos que me propus. Quanto as vias de 10 grau Brasileiro, ou 8a Francês que eu já tentava a partir de 1995, na Espanha encadenei algumas. Na Alemanha também estive, para tentar umas duas vias famosas do Alemão Wolfgang Güllich, um 8a e um 8a+, no verão de 1996 (sem êxito); duas semanas de chuva, só deu para entender e mamar Cultura de Escalada em Rocha no Berço do Frankenjura (um centro internacional de escalada livre e natural; o berço do Rotpunkt), fazer poucas escaladas clássicas e visitar o túmulo do falecido ícone da escalada de dificuldade, o próprio Wolfgang Güllich. Além disso, além deste nível, em 1996 e 1997, eu já encadenava com êxito escaladas de 8a+ Francês, e, inclusive encadenei a Clássica via Júlia de 8b Francês (5.13d Americano) nos duros Conglomerados do setor “El Brazo de la Momia”, em Sant Benet, Montserrat (Catalunya, nordeste da Espanha), no dia 31 de agosto de 1997 (com este êxito, e com esta escalada, fui o primeiro escalador Brasileiro a encadenar este nível de dificuldade, e pelas informações da época, fui o primeiro escalador sul americano a realizar este nível de dificuldade, e fiz na Europa, em Sant Benet, point indiscutível de alto nível de escalada da Espanha dos anos 80 do século passado; digamos que em 1997 eu estava no lugar correto, escalando meu máximo nível e digerindo cultura de escalada na Europa, meu nível era o máximo nível da América do Sul naquele ano, naquele verão. Um nível internacional graças ao meu esforço, ao meu entusiasmo e meu empenho; escaladas de muito mérito! Para mim foram os anos dourados da escalada em rocha, da escalada livre, e sim, naturalmente tenho fotos; recordação aprazível de uma época vivida intensamente, de uma etapa de fanatismo saudável e indiscutivelmente única para mim. Finalmente, o desejado 5.14a nunca encadenei, mas fui honradamente o 1º escalador latino americano a treinar neste nível na Europa. Para ilustrar tua grata entrevista, em anexo, te envio uma fotografia muito representativa desta minha etapa de atleta de escalada em rocha; fotografia em branco e preto, tentando 5.14a em Montserrat Catalunya), a 20 anos atrás…

11- Na segunda edição da revista Escalada de 1993, você aparece como um dos competidores do Campeonato Brasileiro que aconteceu em Curitiba. Lembra desse campeonato? Na lista dos competidores só tinha gente de peso. Qual foi a sua relação com os campeonatos?

Meu querido, aquele foi o “Primeiro Campeonato Sul Americano de Escalada em Muro Artificial Indoor” realizado no Brasil, em Curitiba, para onde eu tinha migrado com intenções de aprender cultura de escalada. Era o ano 1989; eu era um iniciante, e todos os meus “amigos e professores de escalada” me convidaram para participar do Campeonato. Foi encontro de grandes escaladores, foi festival de escalada, foi encontro de bons amigos, e último campeonato em que participei. Minha tendência era outra. Do 1º Campeonato Sul Americano de Escalada em Muro Artificial, realizado no Brasil, só guardo excelentes recordações: vários amigos preparando o Muro para que tudo corresse bem; os atletas na Sala de Concentração respirando e fazendo alongamentos com sorrisos nos rostos; na mesma Sala de Concentração foi onde fiz amizade com o legendário e mítico escalador Carioca Paulo “Macaco” Bastos (fenômeno impecável da escalada dos anos 80); um almoço junto com o Bito Meyer, o Paulo “Macaco” e o Sérgio Tartari num restaurante de Curitiba, onde comemos um delicioso Prato Feito, são detalhes que até hoje me transmitem satisfação; dia em que conversei com o Alexandre Portela para visitá-lo no Rio de Janeiro e escalamos juntos o Pão de Açúcar e o Dedo de Deus; a simpatia e o sorriso da representante da Argentina Sílvia Fitz Patrick contagiava o ambiente; a presença do excepcional escalador Venezuelano, o Henry Gonzáles, transmitia seriedade, por ser um grande escalador; e sentar junto à Plateia para assistir como escalavam os meus amigos e professores, foi para mim, os vários momentos culminantes daquele Festival de Escalada. O “Muro 89” está registrado no “YouTube”, e ficará como recordação indiscutível e impecável de uma época maravilhosa de grandes descobrimentos e grandes acontecimentos; depois da Competição, muitos fomos escalar no Morro Anhangava e no Marumbi, para celebrar aquela ocasião de encontro Sul Americano, de energia Sul Americana; foi encontro que só gerou amizades boas e boas vibrações, que por sua vez, transmitiu confiança para todos nós que participamos daquele evento; fui o único representante do Rio Grande do Sul a ser convidado; encontro de escaladores que marcou uma época (os organizadores estão de parabéns)!

12- O que tu mais sentes falta da época em que andou escalando pelo Rio Grande do Sul?

Tenho saudades de viajar sozinho com minha mochila pelo estado, e conquistar minhas escaladas em solitário, o que eu fazia normalmente; saudades de encontrar um lugarzinho aconchegante numa parede, e ficar ali até acabar um poema, como nos velhos tempos.

Tenho saudades dos meus projetos e minha fabricação caseira de Grampos e Chapeletas dos anos 80. Tenho saudades do Campo-Escola de Escalada Esportiva Morro de Sapucaia onde eu abri quase todas as vias que lá existem, no final da década de 1980.

Sinto falta de conquistar picos virgens e pedras preciosas pelo estado, onde não raramente, aconteceram episódios marcantes na minha vida. Tenho especial saudade dos meus companheiros de conquista da mítica e fabulosa Pedra do Segredo; foi nesta conquista onde se tornaram, para mim, irmãos espirituais: só queridos amigos, Alexandre Prehn Zavascki (grandeza de alma notável e especial), Guilherme Zavaschi (grandeza de espírito distinto) e Edson Struminski, o Du Bois (grandeza de alma nobre). Por isto, estamos todos celebrando 30 anos de amizade incondicional e eterna.

Tenho saudades da minha privilegiada, única e irrepetível escalada com a célebre e visionária e adorável escaladora e bióloga Irene Fernandez no Pico do Morcego, saudade desta singular aventura romântica e sentimental de passarmos uma semana juntos entre as pedras de Bagé, e principalmente, bivacar no cume daquela pedra preciosa, e lá passar uma noite com ela. Sinto saudades deste filme romântico que rodou em nossas vidas, um filme de amor no qual eu fui o privilegiado protagonista, e ela, a primeira dama. Irene Fernandez foi uma verdadeira visionária como escaladora e bióloga, sinto falta desta senhora que foi a primeira escaladora do Rio Grande do Sul e saudades de suas visitas na minha casa, era um prazer conversar com ela, e fotografar romanticamente o brilho do olhar dela sempre que falava de escaladas, de montanha, de natureza. Lamentavelmente, o entorno social nunca importou demasiado, e por princípios, ela decidiu viver a vida dela num anonimato sem procedentes. Faz uns 30 anos que o mundo da escalada lamenta o desaparecimento dela e este anonimato dela, que para toda a comunidade escaladora do Rio Grande do Sul, foi, e é, uma estrela absoluta.

E sinto especial saudades de escalar minhas vias sem corda, livre como um pássaro! Sinto falta dos meus Solos (escaladas sem corda), como os que fiz nas minhas vias “Edgar Kittelmann”; solo da segunda e última enfiada, a parte mais bonita (no Pico dos Morcegos, Bagé) e na “Obrigado pela Vida”; solo da segunda e última enfiada, a mais espetacular (na Pedra do Bugio; Caçapava do Sul), e solar a Pedra do Elefante ou o Lajão (ambos em Bagé), assim como Solos importantes para o século passado, nas minhas vias “Crepúsculo dos Ídolos”, na “Razão e Loucura”, na “Cliff-Louco”, na “Tente outra vez”, e todos os solos que fiz em todas as vias do meu Campo-Escola de Escalada Esportiva Morro de Sapucaia. Tenho saudades dos meus Boulders (projetos futurísticos para os anos 80). Sinto saudades desta época de descobrimentos que fiz, entendida como: “Anos Dourados da Escalada em Rocha” (título romântico de minha própria autoria para honrar tantos acontecimentos).

Tenho naturalmente especial saudade do romantismo do seu Edgar Kittelmann falando de escalada. Este amante do alpinismo clássico, este eterno romântico, este sobrenatural idealista; O sobre-humano escalador, montanhista e ciclista, que não raramente, sobre passava sempre os limites impostos pela natureza humana de sua paralisia motora; jamais se rendeu ao seu limite físico. Quem sabe foi o primeiro escalador Para-Climbing do Brasil (…). Na infância, ao que tudo indica, em 1952, em consequência de uma brutal meningite, o Edgar perdeu grande parte da mobilidade física da cintura para baixo. Foi um exímio lutador, exemplar escalador Para-Climbing, e legendário, mítico e ilustre pioneiro; considerado primeiro discípulo do guia alpino Giuseppe Gambaro, foi, o precursor absoluto da escalada em rocha no estado do Rio Grande do Sul. O desempenho de suas funções como Para-Climbing está estampado em todos os rincões do Rio Grande do Sul, e é testemunha de seu sobressaliente espírito alpino, as conquistas de picos e pedras virgens do inusitado pampa gaúcho, foram as suas especialidades; um mestre! Incentivador nato deste movimento cultural que tanto cresce no Brasil, o montanhismo.

Por conseguinte, tenho saudades de um estado poético que transformou minha poesia em atividade palpável. Saudades de um tempo que não volta mais, e que ainda muito me inspira. Graças ao montanhismo, hoje me sinto melhor pessoa, melhor poeta.

A nível de Brasil: sinto falta de cair na estrada com minha mochila; ir para a Serra do Mar, no Paraná. Tenho saudades das escaladas noturnas em paredes perigosas, sem corda, no Anhangava, em 1988, com meus amigos eternos amigos Julinho (Júlio Nogueira) e o Chiquinho (José luiz Hartmann), só para desfrutar da noite de lua cheia. E tenho saudades dos Cafés na casa do Bito Meyer (meu amigo Antônio Carlos Meyer), e nossas conversas sobre ética de escalada. E saudades dos bate-papos de cultura de escalada na casa do Du Bois (meu amigo Edson Struminki, grande Protetor Guardião das Montanhas). E saudades de visitar o Waldemar Niclevicz na sua casa e ouvir suas histórias de Andinismo e Himalaismo. Saudades de escalar no Anhangava com meu amigo Irivan Burda, este excepcional alpinista Brasileiro. E sinto falta do Mar de Nuvens visto desde o Abrolhos do Marumbi. Saudades de abrir vias no Marumbi com o Bito e o Chiquinho. Saudades de fazer Boulder no Anhangava com minha amiga Argentina Sílvia Fitzpatrick. E saudades de uma via de Sétimo Grau que eu fazia sem corda no Anhangava, para treinar (1988). E, tenho profunda saudades de minhas escaladas no Pão de Açúcar e Dedo de Deus no Rio de Janeiro com meu parceiro Alexandre Portela (surpreendente alpinista e escalador legendário). Saudades de conversar e escalar pelo Rio de Janeiro com meu amigo André Ilha (um grande personagem na história do montanhismo Brasileiro). Saudade de conversar com o grande escalador Carioca Ralf Cortês. Saudades de umas duas tardes que estive escalando na mítica Pedra do Urubu com o fenomenal escalador Carioca Paulo Bastos, o Paulo Macaco, e ouvir suas histórias “verídicas” de solos quase suicidas em várias paredes do Rio de Janeiro. Saudades da minha escalada em solitário no Pão de Açúcar, pela via Italianos. Saudades de escrever meus poemas por todo Brasil. Saudades também de acontecimentos que não aconteceram, amizades que quase não sucederam por eu estar fora do Brasil, como por exemplo: a amizade que praticamente perdi de desenvolver com o prestigioso fotógrafo Japonês que me entrevista 25 anos depois do meu processo de migração, sendo este fotógrafo, um admirável escalador da minha terra natal e que poderia ter sido meu companheiro de aventuras e inesquecíveis escaladas). Enfim, na minha vida de 25 anos de Europa, ondula saudades da minha vida de Brasileiro que tive, e minha vida de Latino Americano que praticamente perdi (por toda minha saudade qualquer hora eu volto, prometo).

Pedra do Leão em Caçapava do Sul – RS.

13- E sobre treinamento. Nessa época os escaladores já treinavam para as escaladas?

Qual é o escalador que não desfruta de um treininho descontraído, seja em falésia de rocha natural, blocos de pedras ou paredes artificiais para este fim? Todos adoramos brincar, e na nossa idade, já não brincamos de bolinha de gude ou esconde-esconde, brincamos de desenvolver nossa preferencial habilidade, que é escalar pedras e paredes rochosas. Sim, lembro de ter treinado no Anhangava com meus amigos, nas falésias naturais e boulders da Serra da Baitaca (isso em 1988 e 89). E em muros dos vizinhos, muros das praças de Curitiba (também gostava de treinar correndo pelas ruas dos bairros de Curitiba). No Rio de Janeiro eu fazia barras com os braços nas instalações da Praia de Copacabana (enquanto o meu amigo André Ilha zoava dizendo que eu tinha que usar Sunga de praia em plena cidade e que deveria entrar nos ônibus com Sunga, que vergonha, coisa atrevida que só os cariocas fazem…), isso lá pelos anos 1990 e 91; onde também aprendi a treinar com os olhos, me sentava na base da via do Alemão Wolfgang Güllich, na Pedra do Urubu, e incansavelmente visualizava todas as possibilidades daquela que era então a escalada mais difícil da América do Sul (e foi, por mais de 10 anos); visualizando a via do Alemão (Güllich), comecei a meditar sobre a capacidade humana: Como um ser humano conseguiu subir por ali? Um grande exemplo, em 1995, com treinamento específico e direcionado, com entusiasmo e disciplina, o nosso amigo Luís Cláudio, o Pita, foi o primeiro escalador a repetir a via do Güllich, a Southern Confort (que o experiente Güllich catalogou como 8a+ Francês (10a Brasileiro); o Pita tentou a via durante vários anos e amadureceu naquela via, naquela pedra praticamente, o que representa todo um mérito para aqueles anos, com perseverança ele conseguiu. Sim, o treinamento e a disciplina sempre funcionaram! No Rio Grande do Sul eu treinava me pendurando de galhos de árvores com um braço (no bosque do Morro de Sapucaia e bosques do Itacolumi), e treinei muito nas minhas próprias vias do Campo-Escola de Escalada Livre que eu equipei, na Fazenda Morro de Sapucaia, onde também criava os meus boulders; quando ia sozinho pra Caçapava do Sul e Bagé, além de conquistar picos virgens, eu passava horas pendurado em galhos de árvores e fazia boulder nas pedras soltas da região, pelos anos 88, 89, 90 e 91. Mas lembro, que um amigo, o escalador gaúcho Eduardo Tondo no final dos anos 80 já tinha um murinho artificial na garagem dos pais dele; logo o Rafael Brito montou um muro artificial (no começo dos anos 90); o mesmo fez o Alexandre Zavascki, um muro dentro da casa dos país dele; logo o Guili montou um muro na casa dos pais dele também (começo dos anos 90); e em Canoas, eu fui o primeiro a escalar pelos muros da cidade, e no muro interno da garagem de minha irmã Luzia (Guajuviras, Canoas 1989), eu retirei o cimento entre vários tijolos para treinar em micro agarras (dos tijolos que tinham textura que lembrava os arenitos). Nos divertíamos brincando cada um como podia (eles eram todos de famílias com melhor estrutura econômica e podiam se permitir projetar bons muros, e eu, sendo o escalador mais pobre do Rio Grande do Sul, tinha que ser mais criativo e subir em árvores e fazer barra com um braço nos galhos de árvores, correr para pegar resistência, fazer boulder natural para desenvolver potência e dinamismo, chegava a ficar uma hora pendurado nas árvores (até hoje somos todos amigos). Na Itália, no ano de 1992, depois do meu trabalho, em Dueville di Vicenza, eu corria muitíssimos quilômetros para ganhar resistência (umas 3 vezes por semana) para fazer paredes longas nos Dolomitas, e fazia falésias naturais nos setores de Santa Felicità, Bolsano di Grappa. Na Catalunya, no nordeste da Espanha, foi onde desenvolvi treinamento realmente sério; corria muito na praia de Barceloneta, escalava no muro do Parque Güell (projeto do arquiteto Antoni Gaudí de Barcelona), e escalava o máximo que eu podia em falésias naturais, pelos anos 93, 94, 95, 96 (ano que fiz vários 8a+ Francês na Catalunya), e em 1997, consegui o máximo nível jamais feito por um Brasileiro ou um Sul Americano (8b Francês), treinando como um animal (encadenei a via Júlia de Montserrat, um clássico 5.13d). E logo, treinando como um demônio, e bufando como um touro, o 8b+ Francês, se resistia (o 5.14a eu fiz muitas vezes com uma queda apenas, em 1996 e 97); puro fanatismo! Pura vida! Na Alemanha, “na terra do Güllich e do Kurt Albert”, região do Frankenjura, fiz muito boulder, escalei muitas falésias clássicas da história da Escalada Esportiva, e treinei muita visualização… Treinar faz parte da cultura do escalador, e é um prazer. E eis aqui outro exemplo de treinamento que funcionou: Em 1996, paralelamente, no estado do Rio de Janeiro, o Helmut Becker e o Luís Cláudio “Pita”, abriram um grande projeto, a Coquetel de Energia (foi sugerido o primeiro 10c do Brasil), no Campo Escola 2000, na Floresta da Tijuca. Dois anos depois, em 1998, o próprio Helmut conseguiu encadenar a Coquetel de Energia sem quedas e inaugurando assim o primeiro 5.14a do Brasil (nível que eu já tentava em Siurana e Montserrat, na Espanha, em 1996).

Sim, treinamento faz parte das grandes performances, e eu aconselho que o treinamento seja vivido como a própria escalada, com alegria; também visualização, seriedade e disciplina, obediência às regras de constância, regulamento sobre a conduta, ordem e bom comportamento. Eis os meus truques (educação de discípulos).

14- Você tem acompanhado a evolução no esporte nos últimos anos? O que você achou que mudou de mais expressivo? O que se ganhou e perdeu?

Acompanhar notícias do meu esporte favorito é sempre um prazer, sempre fiz. Depois de esgotar-me um pouco com o mono-tema do 5.14a, na Catalunya em 1997, me afastei um pouco do “Fanatismo”, mas sigo me informando; ainda brilha meu olhar quando lembro do Paulo “Macaco” Bastos (meu ídolo Brasileiro e exemplar atleta do século passado) explicando sua história de vida enquanto escalávamos juntos na mítica Pedra do Urubu, no Rio de Janeiro (o atleta por excelência que tanto inspirou no Brasil e a América Latina na década de 1990, e que desfortunadamente perdeu a saúde, a vista e a própria vida em consequência de uma doença fatal). Foi o escalador de rocha do Brasil que possuía o teor mais sobressaliente em termos de técnica, habilidade e serenidade. O teor atlético do Paulo “Macaco” era refinado, um tipo de conteúdo perfeito de romantismo poético pela escalada em rocha que se destacava tanto na sua nobre presença assim como na sua conduta assertiva; todo um Príncipe das Montanhas; absolutamente uma celebridade! Algum adjetivo para definir este Príncipe das Montanhas? Bem, para mim, o expressionismo atlético do teor de qualidade do legendário Paulo “Macaco”, é simplesmente saudoso; por ser incomparavelmente único! Causa saudade mesmo.

O que mudou de mais expressivo? É Que Santo De Casa Também Faz Milagres; depois de todas as minhas realizações como escalador gaúcho e Brasileiro dentro do panorama do pioneirismo no Rio Grande do Sul referente aos primeiros solos, as primeiras escaladas em solitário, e vanguardismo na escalada de dificuldade do século passado, e como atleta Brasileiro de vanguarda de escalada em rocha na Catalunya (Espanha) da década de 1990, e, obviamente, depois dos triunfos do nosso companheiro e excelente atleta de rocha o excepcional e distinto escalador gaúcho Guilherme Zavaschi e suas escaladas por todo o Brasil, depois de tudo isso que não é pouca coisa, acrescento aqui, que, na incomparável Gruta da Terceira Légua de Caxias do Sul, no estado do Rio Grande do Sul, provavelmente foi encadenado o primeiro 11a Brasileiro (8c Francês); a via “Disciplina não ter, Jedi não será” equipada e encadenada pelo extraordinário escalador gaúcho Vinícius Todero, plasma a minha “Profecia” dos anos 80 do século passado:

“No Rio Grande do Sul algum dia abriremos as vias mais difíceis do Brasil”.

Como pelo visto nenhum escalador de fora (estrangeiro ou nacional) se anima a viajar até a Gruta da Terceira Légua de Caxias do Sul e experimentar o que tem de mais expressivo atualmente no Brasil, de momento não podemos confirmar se a brutal e incomparável via do Vinícius Todero foi o primeiro 11a Brasileiro, ou, se foi o primeiro 11b Brasileiro?! O que mudou de mais expressivo no Rio Grande do Sul, no Brasil, e na América Latina, é que, Santos De Casa Também Fazemos Milagres; isso é o que mudou de mais expressivo no meu ponto de vista como atleta que fui, e como romântico alpinista que ainda me sinto ser. E repito orgulhosamente que, Santo De Casa Também Faz Milagres.

Além disso, e, independente do regionalismo ou do bairrismo, o mais expressivo que aconteceu na cultura da escalada livre de dificuldade, no meu ponto de vista, foi tudo o que desenvolveram algumas escaladoras excepcionais, a exemplo da legendária escaladora americana Lynn Hill, a francesa Catherine Destivelle. Exemplos de superação de limites como demonstrou a minha amiga Espanhola Josune Bereziartu a partir dos anos 90; primeira mulher absoluta no mundo a fazer vias de máxima dificuldade como 8b+, 8c, 8c+, e naturalmente o primeiro 9a Francês do mundo! Eu fiz algumas fotografias dela em Siurana, na Espanha, e entendi como as coisas funcionam; êxitos de muita dignidade, lindas performances. E em termos de direito ao risco, aventura e escalada extrema em solitário, me impressiona sempre o que fez minha amiga Catalana, de Barcelona, a Sílvia Vidal; coisas como estar um mês sozinha numa parede remota de 1.000 metros, em algum lugar do planeta e abrindo enfiadas quase suicidas e solucionando problemas de A4, A4+, A5 e A5+, e muita coisa importante em escalada livre; escaladora muito competente. Assim como é um prazer fundamental lembrar do talento da jovem escaladora americana de Nova York, a incombustível Ashima Shiraishi que com apenas 15 anos de idade surpreende a toda a comunidade escaladora com suas escaladas de grande valor e excepcional habilidade e dom. Algumas das estrelas que mais brilham nesta constelação em que vivemos.

Obviamente, destacaria também a Roberta Nunes, brilhante escaladora Brasileira que perdeu sua vida num período mágico de sua carreira no qual realizava escaladas importantes por várias partes do mundo. Inspirava muito!

Como exemplo internacionalizado e Brasileiríssimo, é um prazer destacar e lembrar da excepcional escaladora Brasileira, do estado de São Paulo, a Janine Cardoso; atleta que foi nove vezes Campeã Brasileira de Escalada de Dificuldade, e que mantém a motivação e o entusiasmo após 20 anos dedicados a esta modalidade. Isto é exemplo impecável! Magnificamente única!

Logo, lembrar e destacar e não esquecer tudo o que fizeram no Brasil do final da década de 1980, os meus amigos e fenomenais escaladores e alpinistas, Alexandre Portela e Sérgio Tartari; exemplar, excepcional e distinta atividade que sempre será vanguarda. Pioneiríssimos!

E tudo o que fizeram os sobressalientes escaladores gaúchos Guilherme Zavaschi e o Thiago Balen; a criatividade destes dois é teor de qualidade refinadíssimo!

E voltando ao aspecto globalizado, tudo o que fizeram e fazem o americano Cris Sharma e o espanhol Dani Andrada (na Catalunya, onde vivi por 20 anos), absurdamente bons e indescritíveis encadenamento de 9a, 9a+, 9b e 9b+ Francês; atualmente o Cris Sharma segue empenhado e projetando coisas fenomenais como 5.15c (máximo em graduação mundial); destaque original pelo historia que conseguem manter ao longo de tantos anos. Os Mestres!

Assim como merece total destaque toda a profissionalidade do meu amigo Catalão Ramón Julià Puigblanc, reconhecidamente destacado como provavelmente o atleta mais profissional e mais forte do planeta. Profissional e silencioso!

E agora nos tempos atuais, toda a motivação, entusiasmo, disciplina do mundialmente bem dotado Adam Ondra da República Tcheca, e seu nível cultural em termos de escalada (fala uns 6 ou 7 idiomas da comunidade escaladora e está encadenando vias de 9b e 9b+ Francês, 8c+ e 9a onsight e boulders de V16 (…); para mim o mais completo escalador da atualidade em termos de progresso de escalada livre; também destacando sua recente segunda ascensão da incomparável dificuldade da imensa escalada Dawn Wall na mítica parede El Capitan no fabuloso vale do parque natural de Yosemite, nos USA. Perfeição absoluta!

Gosto muito do trabalho do André Berezoski, amigo que trabalha muito, que se vira para conseguir as coisas, e desenvolve um trabalho tão exemplar na sua atividade, além de ser um ótimo atleta. Muito profissional.

Assim como a excelente carreira profissional esportiva e alpinística dos meus amigos Hermanos Pou, com especial admiração por Iker Pou, um escalador e alpinista dos mais competentes do mundo. Batalhadores!

Mas sempre gosto de saber o que fez e faz lá na Patagônia meu amigo, irmão de fé, e excepcional escalador e alpinista José Luíz Hartmann; sempre motivado e lúcido em meio ao frescor das montanhas. Figura que é uma celebridade no Brasil e na América Latina; quem, com devoção e sapiência, conquistou uma dúzia e meia de novas maravilhosas escaladas na Patagônia Chilena, mais precisamente na região dos Lagos, em Cochamo, abrindo paredes e conquistando novos cumes neste lugar tão mágico, de lindas travessias andinas, exuberantes caminhadas e belas escaladas alpinas batizadas com seu nome; alpinismo puro e de absoluta vanguarda. Um valente!

Ou o que faz na Itália o Manolo, o Maurizio Zanolla (9a Francês com 50 anos de idade e outras barbaridades). Refinado!

Ou acompanhar as novidades do astronômico escalador Japonês Yuji Hirayama, sempre motivado. Muito trabalhador!

Ou atualizar-me, e seguir acompanhando os pensamentos do meu companheiro de escalada de dificuldade Guilherme Zavaschi, que é psicólogo profissional nos Estados Unidos e escreve fantasticamente bem sobre a psicologia na escalada. Ele é Doutor neste assunto, e me interessa muito acompanhar o seu privilegiado discernimento; a perspicácia da psicologia na escalada assim como no alpinismo sempre foi um tema que muito me atraiu; ponte de conexão que relaciono em muitos de meus poemas. A Maestria personalizada que toma conta do Guili. Super transparente!

Ou acompanhar o rendimento impressionante do meu amigo e distinguido escalador Vinícius Todero, que com poucos anos na Catalunya, no nordeste da Espanha, se tornou num colecionador de vias de escaladas duras e dificilíssimas. Inspiracional!

E ou, acompanhar e incentivar os recentes êxitos impecáveis e indiscutíveis do meu amigo e exímio escalador de dificuldade, o jovem Brasileiro Felipe Camargo (de São Paulo) encadenando inúmeras vias na Espanha e pelo mundo, inclusive destacadamente três magníficas vias graduadas de 9a Francês (11c Brasileiro), na Catalunya; exemplos de pura energia e vitalidade sendo tão jovem. Admirável!

Também me atrai saber notícias fantasmagóricas como as escaladas em solitário do Suíço Ueli Steck, como a escalada relâmpago na parede norte do Eiger e na parede sul do Annapurna. Selvagem!

Assim como as notícias sobre a arriscada travessia dos maciços do Fitz Roy por parte dos Americanos Tommy Caldwell e Alex Honnold, mais de 4 mil metros de escalada numa temporada de inverno extremo (incluindo o incomparável historial pessoal do jovem Alex Honnold, um dos meus favoritos). Brutal e sem comparação!

E um dos atletas que mais me transmite respeito atualmente, é Urko Carmona, campeão mundial de Para-Climbing e extraordinário escalador de rocha que se desenvolve fantasticamente pelas montanhas e pelas paredes de dificuldade, com sua perna amputada (…); por seus êxitos e triunfos sobre-humanos e sobressalientes e por sua simpatia como pessoa e amigo, para mim, é um dos atletas que mais inspiração transmite no atual contexto da escalada mundial. Um herói!

E me transmite profundo respeito também tudo o que fizeram de escalada livre e sem corda os magos dos solos, como por exemplo: o canadense Peter Croft, o americano Jonh Bachar, o alemão Wolfgang Güllich, o francês Patrick Edlinger, a escaladora francesa Catherine Destivelle, os Brasileiro Paulo Bastos “Macaco”, e, Alexandre Portela, o Americano Dean Potter e o que segue fazendo o Americano Alex Honnold (Sendero Luminoso, por exemplo); sem corda, a pureza do solo, a legitimidade do risco. Coisas interessantíssimas como todas as escaladas do Polaco Jerzy Kukuczka, sempre me emocionam; pura vida! Ou a via que abriu o Renato Casarotto no Fitz Roy, em solitário. A escalada em solitário do Esloveno Tomaz Humar na parede sul do Dhaulagiri, me encanta e faz sonhar (adoro isso). Intrépida referência mundial!

Não importa se foi ontem ou hoje: algumas destas atividades são irreplicáveis e irretorquíveis, praticamente; romantismo puro!

E para concluir minha lista, faltava um nome fundamental que inspirou todo o mundo atlético e esportivo do século passado, o pioneiríssimo americano John Gil, considerado o pai do Bouldering (a exploração de uma nova forma de entender a escalada quando todos os escaladores do mundo se dedicavam a viajar em complicadas expedições, este senhor optou por gastar seus dedos subindo pequenos blocos de granito nos Estados Unidos); ginasta americano que desenvolvia esta curiosa escalada de pequenos blocos de pedras, utilizando pó de magnésio da ginástica para secar suas mão e ter mais rendimento em suas complicadas e absurdamente difíceis escaladas de Boulder, mediado dos anos 50 e toda década de 1960; todo um visionário pioneiro, único, singular e talentoso!

E, evidentemente toda a interminável lista de nobres escaladores americanos que a partir de 1958 desenvolveram tantos relevantes escaladas no vale de Yosemite, da Califórnia. Esses sim foram verdadeiros visionário e romanticamente poéticos escaladores. Inspiraram muito! Célebres artesões e inventores desta incomparável atividade de escalar montanhas, de remotas paredes e pedrinhas pequenas. Ídolos visionários!

À parte exemplos de teor de qualidade dos ilustres nomes à cima citados, sempre será bem-vindo lembrar dos árduos e apaixonantes trabalhos a cargo de pessoas profissionais que souberam proteger áreas verde, montes, morros, montanhas, bosques e florestas com seus complexos projetos de preservação ambiental, a exemplo dos meus amigos e excelentes escaladores, André Ilha, Ecologista (carioca), autor do chamado” Manifesto da Escalada Natural” e outras publicações, e, Edson Struminski (Du Bois), Engenheiro Florestal e Dr. em Meio Ambiente e Desenvolvimento (paranaense), também escritor. Qualidades e méritos do bem! Que a vida dê sempre boas-vindas às pessoas com estes dons, com estes talentos e estas predisposições elegantemente exemplares, ocupando parte de suas vidas a cuidar de vulneráveis porções deste nosso planeta. Isto não pode ser esquecido, é muito exemplar, cívico e romanticamente conveniente, muito oportuno seguir estes expressivos exemplos. Seres humanos iluminados!

O que mudou de expressivo também no Brasil, é o fato de perceber saudavelmente que, as culturas de escalada em rocha, de montanhismo, de alpinismo, de andinismo, de himalaismo e de bouldering, já fazem parte da cultura do país, e isso é reflexo de todas as atividades de todas estas pessoas que eu citei à cima nesta minha interminável lista de referências. É mais comum hoje em dia ver pessoas de diversas classes sociais indo juntos para a montanha; se percebem na montanha mais médicos, pedreiros, advogados, motoristas, dentistas, enfermeiros, geólogos, lojistas, engenheiros, bombeiros, cientistas, padeiros, arquitetos, azulejistas, professores, carpinteiros, astrólogos, astrónomos, filósofos, jornalistas, escritores e poetas; todos com a mesma intenção e com as mesmas necessidades; desfrutar dos gratos momentos junto à natureza; um benefício fecundado pelos pioneiros e finalmente concebido pela população Brasileira; graças ao romantismo poético que inviolavelmente existe, a civilização Brasileira nunca antes havia desfrutado de tanta cultura de montanha. Muito especial, muito expressivo!

Exemplares esquecidos no tempo como o meu Boletim Informativo do Montanhismo Gaúcho, Friend (RS), ou a Revista de Montanhismo e Aventura Red Point, do Du Bois (PR), e ou o Jornal Mountain Voices do Eliseu Frechou –ainda em vigor- (SP), inclusive posteriores revistas que não sobreviveram às tempestades, todos contribuímos para que esta cultura se tornasse mais acessível. O trabalho dos pioneiros segue dando seus frutos, e a comunidade Brasileira inteira, por fim, transformando o esporte numa atividade menos elitista. A minoria está se tornando a maioria, e isso é o que mais mudou de expressivo no panorama nacional e no ambiente de montanha.

Imagina, hoje em dia tem até repórteres da Rede Globo e personagens célebres da televisão Brasileira escalando montanhas; artistas em geral, políticos, empresários e donas de casa treinando e escalando paredes rochosas nas montanhas; todo um êxito, um esporte como o nosso que acolhe indiscriminadamente todas estas almas necessitadas de frescor de montanha, e além disso, lhes dá o mesmo valor sem estrelismos privilegiados; a comunidade inteira do Brasil é mais consciente de cultura de montanha e de cultura de escalada ou de alpinismo, e isto, é maravilho! Aliás, muito oportuno, digamos que romanticamente, o espírito da montanha entra muito mais nas casas, nos lares do povo Brasileiro. É fantástico!

Estamos todos de parabéns! Mesmo que os mal-intencionados, incultos, incompetentes e patéticos procurem destruir o país, a maioria que era a minoria, seguirá procurando romanticamente o frescor poético e saudável das montanhas, da natureza; um direito do povo, independente de que sejamos pobres ou ricos; independente de que sigam destruindo o país. Toda a sociedade deseja mais frescor de montanha, mais poesia natural em suas vidas. Isto é o que mudou de mais expressivo na população Brasileira. Todo um êxito!

O que se ganhou e perdeu? Ganhamos todos tudo isto que comentei à cima, e, esportivamente falando, vejo que o mundo da escalada e sua comunidade mais fanática e mais atlética, ganhou muita flexibilidade e extrema habilidade para subir em pedras; o conceito de treinamento assertivo e disciplina atlética que eu tive o gosto de experimentar na minha carreira de atleta de rocha do século passado, se percebe mais na comunidade atual. E isso é superbacana!

E tudo o que se perdeu? Uma parte do mundo perdeu o romanticismo, a essência poética da escalada e do alpinismo. Por isso eu sigo o mesmo (e seguirei), ainda sigo escrevendo os meus poemas pelas montanhas; mesmo não escalando como antes, nunca deixarei escapar o meu romantismo pela escalada alpina e a escalada livre (livre-me Deus de tal desleixo). A poesia da vida, o romantismo, isso muitos perderam e muitos nunca tomaram conhecimento que existe, e que não raramente, faz a diferença; é o que torna a vida mais grata, mais bela e muito mais rica. O mundo está cada vez mais carente de romantismo, de vibração poética, da curiosidade do que é belo. Todo um aprendizado.

15- Que recado você deixaria para a nova geração de escaladores que está aí?

Dois conselhos apenas, com a tua permissão, Naoki:

Que seja recuperado o romantismo alpino e poético no mundo do montanhismo tradicional, do alpinismo moderno e da escalada esportiva. Que o atleta Brasileiro, assim como alpinistas clássicos ou moderno possam desenvolver suas atividades na paz e levando em consideração aspectos fundamentais como, por exemplo, o teor romântico e poético da arte da escalada mais pura que existe (estudar, manter, conservar e desenvolver a sapiência do Paulo “Macaco”, do Patrick Edlinger, do Kurt Albert, do Wolfgang Güllich, do Renato Casarotto, do Jerzy Kukuczka, do Jonh Bachar, do Dean Potter, da Catherine Destivelle, da Lynn Hill, da Yosune Bereziartu, do Urko Carmona, do Iker Pou, do Chris Sharma, do Adam Ondra, do John Gill, do Tommy Caldwell, do Jim Bridwell, do Yvon Chouinard, do Royal Robbins e do jovem Alex Honnold); as melhores referências neste mundo tão amplo e abrangente e por vezes desconfortavelmente poluído, incerto e mal interpretado. Seria fundamental desenvolver mais o romantismo intrínseco que está na essência de cada um de nós; imprescindível.

E, o outro conselho, é que se faça realidade a minha “Profecia” (predição do futuro) dos anos 80, minha profecia do século passado (…). “No estado do Rio Grande do Sul algum dia abriremos as vias mais difíceis do Brasil”. Então, aqui está o meu apoio moral para que ninguém perca o entusiasmo! Com disciplina atlética, com entusiasmo à flor-da-pele e pura ética de escalada livre, respeitando toda a cultura de montanha, vamos aproveitar as falésias de conglomerado de todo o Rio Grande do Sul, com seus negativos e suas caverninhas, para projetar escaladas de linhas impressionantes e de impecável qualidade! E aqui deixo de brinde os “Truques” para tal empenho: criatividade, visualização, seriedade e disciplina, obediência às regras de constância, regulamento sobre a conduta, ordem e bom comportamento; comportamento assertivo e novos paradigmas de treinamento; educação de discípulos. Ânimo é uma questão de atitude; condição do espírito irrefutável que provoca incomparável entusiasmo; fé, e amor pelo que fazemos. O resultado será brutal; verossímil prosperidade (…); profecia é assim, rsrsrs.

16- Vejo que tu tens um lado poético. Não sabia que gostavas de escrever poesia entre uma escalada e outra. Fico imaginando escrevendo, à noite em Caçapava do Sul, enquanto conquistava aquelas vias clássicas. Pode me falar mais sobre esse lado poético do Giacchin?

Só gratidão, Naoki, me sinto afortunado por carregar dentro de mim um estado poético que não raramente, me transporta a outros mundos, que me permite o luxo de desconectar deste mundo quando necessito. Esta, é uma pregunta que me transporta para as minhas origens, me transporta até a minha longínqua e remota infância; considero que a simbiose da minha vida não estaria tão bem diversificada se não fosse pela minha cultura de escrever poesias. Desde infância, sempre foi um prazer escutar nas emissoras do Rio Grande do Sul, uma voz familiar; aprendi a escrever poemas, escutando bons versos.

O extraordinário compositor da incomparável canção que todos conhecemos como uma das mais lindas do Rio Grande do Sul, o Jader Moreci Teixeira (o Leonardo), é familiar, é meu tio, e sua belíssima poesia transformada em música, Céu, Sol, Sul, Terra e Cor, que tanto eu escutava nas rádios (e nos programas de televisão), e que foi, e é, a canção extraoficialmente símbolo do estado do Rio Grande do Sul, muito ficou impregnada no meu espírito, na minha alma e no meu ser. Me encantava esta canção quando era pequeno, e o mais interessante, foi que observando o meu tio Leonardo cantar eu não aprendi a ser um gaúcho tradicional, com ele, considero que aprendi a escrever pensando poeticamente; a arte de compor através de versos vem deste vínculo familiar com este que foi um ícone da música gauchesca; compositor sobressaliente! Logicamente, como eu adorava escutar rádio, escutava toda a variedade de músicos, principalmente os grandes poetas do Brasil, os legendários e ilustres compositores do Brasil, os grandes ícones da música popular Brasileira. E hoje, depois de 25 anos vivendo na Europa, num enriquecedor processo de migração, voltar para a minha terra natal e publicar meu primeiro livro de poemas no Brasil, será uma ocasião muito especial.

O dado mais sobressaliente, mais importante da minha carreira como escalador de rocha e atleta, foi, e é, o fato de que sempre considerei no meu montanhismo o obsoleto sentido poético, que está distante da moda atual, e o fato de que sempre cuidei nas minhas escaladas e no meu estilo pessoal, esta questão esquecida, arcaica ou antiga, que é o romantismo poético do alpinismo. Não me sinto um raro escalador ou atleta que escreve poemas, sou um poeta que também escala montanhas, e nestes confins, jamais deixei de exercitar minha cultura de escrever poesia.

Meu querido, eu cuido muito para que minha poesia transmita resiliência, entusiasmo pela vida, pensamento otimista, e que envolve provocação assertiva para despertar desejo e amor pela vida, que incite sempre um feliz atrevimento de lançarmo-nos ao desconhecido, que nos empurre para sermos melhores seres humanos, e cuido para que transmita inspiração em geral e não raramente com poder de oração. Me sinto feliz provocando em mim mesmo a necessidade artística de criar poemas com poder de oração (difícil tarefa); muitas vezes já consegui, e estas ocasiões me transmitem serenidade e paz de espírito.

No âmago recôndito e íntimo do alpinismo mais puro, predomina o romantismo indescritível de um eterno estado de poesia, que não raramente, se mantém ignorado; eu me tornei um escalador de rocha pela poesia da montanha, e provavelmente, porque sempre enxerguei os confins mais ocultos deste estado de poesia que, se encontra, ou não, que permanece encoberto ou, se revela, dependendo do estado perceptivo dos escaladores de montanhas, isto se encontra facilmente, ou, jamais se percebe (…). A sensação indescritível e que sempre me causou este estado de encantamento e inefável sentimento poético no âmago romântico da lenda viva das montanhas rochosas e em sua cúpula nevada, eu, como poeta, defino simplesmente como romantismo alpino que tenho dentro de mim; e que não está em outra parte, está dentro de mim.

Sem mais, grato Naoki Arima, pela oportunidade de responder tua tão interessantíssima entrevista. Foi um prazer!

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One Response

  1. Gratidão é pouco. Muito Obrigado Naoki Arima! Com esta tu entrevista regressei pro Brasil e pra minha própria essência. Deu vontade de regrassar pro Brasil e ir diretamente para o Espírito Santo, tomar um chimarrão contigo e conhecer as pedras deste estado tão bonito. Um forte abraço!

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