Em 2014, após conquistarmos a via principal da Pedra do Garrafão em Santa Maria do Jetibá, o Afeto, o DuNada e eu fomos escalar a Normal da Pedra Pontuda, em Castelo. A Normal da Pedra Pontuda foi conquistada em 1978 pelos escaladores do Centro Excursionista Brasileiro (CEB) – Francesco Berardi, Jessé Ferreira e Mário Arnoud – pela face leste da parede, transcorrendo por uma linha que intercala trechos de rocha e vegetação. A escalada em si não é espetacular, mas o contexto e a paisagem a tornam única no Espírito Santo. Do alto dos seus 1.460 m, é possível ter uma ampla visão de todas as montanhas da metade sul do estado, incluindo a imponente cadeia do Caparaó.

No ano seguinte, em 2015, novamente com o DuNada e o Afeto, além do Tafarel e do Eduardo, realizamos a primeira ascensão em livre da via Batata Quente, na Pedra São Cristóvão. Na ocasião, fizemos um bivaque no cume dessa montanha que fica próxima à Pedra Pontuda, porém em uma cota um pouco mais baixa. Foi ali que conversamos pela primeira vez sobre a ideia de fazer outro bivaque no cume, mas dessa vez no topo da Pontuda.
Ainda voltei ao cume da Pontuda mais três vezes (uma em 2014 e duas em 2019), mas nada do tal bivaque acontecer. Sempre que batia naquele cume, lembrava do plano. O tempo foi passando, o mundo dando voltas, mas a ideia de dormir lá em cima nunca saiu da minha mente. Até que, no último final de semana, 10 anos depois, finalmente o bivaque rolou! Para essa empreitada, além do DuNada, fomos o Chuck e o Graveto — um time ruim de escalada, mas extremamente bem entrosado!
Caiu o Boi
Antes de subir a Pontuda, planejamos repetir uma via chamada Caiu o Boi, na Pedra do Baixadão, também em Castelo e bem perto dali, mas em uma cota mais baixa. Essa via foi conquistada pelos escaladores Marcão IRA e Minete IRA em 2007 e sempre chamou a minha atenção quando eu olhava a croquiteca da ACE. A foto e o croqui da via não eram nada animadores, mas eu sempre tive curiosidade em repeti-la.
Por ser uma conquista antiga e sem muitas repetições, nem sei se há alguma, as informações eram desencontradas. Em alguns locais, o grau constava como – 4o, IV sup; em outros, 4o, V (A2). O croqui era basicamente uma linha reta com grampos intercalados com misteriosas “cunhas”, das quais eu não fazia a menor ideia do que se tratavam.

Chegamos na base da parede com facilidade. O carro fica na beira da estrada e, em menos de 5 minutos de caminhada pelo pasto, acessamos a rocha. Segundo o livro Escalada Capixaba, a via começa ao lado de uma árvore, mas, claro, quase 20 anos depois, a árvore já não estava mais lá. O guia também dizia que, além dessa via, há mais duas linhas à direita, ambas inacabadas, do escalador local Taynan. Achamos as duas vias e fomos atrás da terceira. Como no croqui da ACE constava que a P1 estava a 25 metros e não víamos nada, fomos caminhando cada vez mais para a esquerda, até achar uma linha fácil e óbvia.
Ali cometemos o nosso primeiro erro. Levei os croquis, mas não levei a foto da parede com o traçado da via. Achei que a descrição e o croqui bastariam. Equipei-me e subi cerca de 20 metros, protegendo em um móvel. Vi um platô e presumi que a parada estaria logo acima. A virada parecia tranquila, mas se a parada não estivesse ali, eu teria muita dificuldade para desescalar o lance. Avaliei a situação e concluí que a via não poderia ser por ali. Desescalei enquanto ainda dava tempo e fomos embora, pois ali não havia sinal de celular para baixar a imagem.
Pelo adiantado da hora, resolvemos ir até a Pedra do Nogueira, ali perto, para avaliar uma fenda que eu tinha visto. Estivemos nessa parede em 2024 e, naquele ano, abrimos duas vias. Voltamos à propriedade do senhor Agostinho e ficamos jogando conversa fora. Falamos das nossas intenções e ele nos explicou como chegar na base e a quem solicitar o acesso. Depois, fizemos um reconhecimento de drone para avaliar melhor a fenda. O diedro em si se mostrou espetacular, mas vimos que havia muita vegetação. Seria uma sacanagem limpar quase 100 m de mato só para abrir uma via. Achamos por bem deixar quieto e fomos para uma churrascaria em Castelo.
Pedra Pontuda
À tarde, de barriga cheia, por volta das 14h, fomos em direção à Pedra Pontuda. O dia estava extremamente quente para o mês de maio. O termômetro do carro marcava 33 °C, mas sabíamos que lá em cima a temperatura estaria mais agradável, pois o cume fica a 1.400 m e a cidade de Castelo a apenas 70 m de altitude.
À medida que fomos subindo, o clima foi ficando mais ameno, enquanto a estrada ficava cada vez pior. Passamos na propriedade, explicamos nossas intenções e solicitamos liberação. O trecho final sempre é uma incógnita. Sempre consegui ir de carro até o colo da montanha, mas, dessa vez, meu carro não tinha reduzida, era apenas um 4×4 “nutella”. Com bastante esforço, ele subiu até a pedreira e ali passamos para o carro do DuNada, que tem reduzida.
Chegamos ao colo da montanha por volta das 16h. Separamos o material de escalada e o de bivaque e iniciamos a caminhada. Como levamos o carro até o colo, a caminhada final foi suave. Nos dividimos em duas cordadas: Graveto e eu; DuNada e Chuck. Por sorte, a parede já estava na sombra e o vento fresco ajudou no conforto térmico. Como eu já conhecia a via, a escalada fluiu bem e às 18h, exatamente na hora do pôr do sol, estávamos no cume. Logo em seguida o Chuck e o DuNada chegaram e fomos procurar um lugar para o nosso bivaque.





Jantamos sob a luz da lua cheia e, logo depois, cada um se recolheu no seu canto. O improviso reinou: o Chuck jogou um isolante e por cima o saco de dormir; o DuNada usou as cordas como isolante e entrou no saco de dormir; ele ainda tentou improvisar um toldo com a rede, pois estava orvalhando um pouco. O Graveto, que havia deixado o saco de dormir no trabalho, teve que improvisar com um liner e um saco de bivaque que emprestei. Eu usei um isolante inflável, saco de dormir e um toldo. Só me faltou o fleece, que esqueci no carro. A noite foi tranquila, pelo menos para mim, mas a temperatura deve ter chegado tranquilamente na casa dos 15oC de madrugada. Acordamos às 5h para ver o nascer do sol. Essa é a melhor parte desse bivaque, pois do cume da Pontuda se tem uma visão muito privilegiada de toda a região. Sem dúvida, foi um belo espetáculo de luz!







Em seguida, arrumamos as coisas e descemos. Agora que tínhamos mais informações sobre a via Caiu o Boi (que pesquisamos na internet), resolvemos voltar a ela. Descobrimos que a segunda via que achávamos ser a inacabada era, na verdade, a que buscávamos. Um ponto que nos confundiu bastante no dia anterior era uma parada dupla que aparece no croqui a 25 m da base. Fomos ver que ela fica, no máximo, a 10 m. Provavelmente a tal árvore que marcava a saída da via caiu sobre a parada e o mato tomou conta, impedindo a visualização.

Caiu o Boi, 2a investida
Uma vez resolvido o mistério, entramos na via seguindo as mesmas cordadas do dia anterior, pois, segundo o Graveto: “Em time que está ganhando, não se mexe”. A escalada se mostrou bem tranquila: em agarras, grampeação próxima, E1… tudo perfeito, tirando o sol que estava nos castigando. A parede fica com a face voltada para o norte, pegando sol o dia inteiro! Como a via possui paradas a cada 25 m, saímos emendando para ganhar tempo. Há relatos de escaladores que se perderam ali, entrando na via ao lado na altura da segunda enfiada, mas não achamos esse ponto de dúvida. Na metade dessa enfiada, a rocha muda de textura, sumindo as agarras grandes e entrando as lacas suspeitas. Nada muito difícil, requer apenas atenção para não quebrar. A terceira enfiada possui uma grampeação mais espaçada, mas a escalada fica mais fácil.

Na enfiada seguinte, a via joga para a esquerda, tentando contornar um grande headwall. Da parada, fiquei pensando por que os conquistadores escolheram essa linha sabendo que tinham um headwall monstro à frente, com tanta rocha mais amigável em volta. Eu mesmo, hoje em dia e com uma furadeira à disposição, não teria ânimo para encarar uma parede dessas. Na época, essa via foi conquistada na marreta e, pela quantidade de grampos, não foram poucas investidas!
Puxei um esticão desprotegido e protegi uma pequena laca com duas peças. Mais acima, vi finalmente o que estava escrito no croqui como “cunha”. Na verdade, era uma espécie de parafuso com corrente batido na fenda, utilizado para progressão artificial. Não entendi bem a engenhoca, mas parecia funcional, pois acima vi mais um desses. Como havia puxado pouca corda, pulei a primeira parada dos 25 m da enfiada. Mas, para futuras repetições, recomendo quebrar a enfiada aqui. Inclusive, no croqui abaixo aparece essa recomendação, pois, se emendar, o atrito da corda aumenta significativamente. Ali ficou claro para mim que a via não era um IV em lugar nenhum, e que o grau correto seria IV A2. Mas como os grampos estavam perto e havia agarras, parecia que daria para seguir em livre.

Incrivelmente, o headwall se mostrou bem servido de agarras e a escalada fluiu de forma agradável. O crux da enfiada ficou por conta de um lance onde há um pedaço de corda abandonada. Passando em livre, acho que VI seja um grau justo. Como o arrasto estava muito pesado, fiz uma parada logo depois desse crux e chamei o Graveto. Nesse instante, o Chuck e o DuNada avisaram que iriam descer por causa do forte calor. Realmente, a parede estava fervendo e a escalada estava bem desconfortável.

Como faltava apenas uma enfiada curta, seguimos em frente. A próxima seria do Graveto, mas avaliei que seria melhor eu guiar por conta do mormaço e das dificuldades que estava vislumbrando à frente. A última enfiada se mostrou muito agradável: lances em agarras e bem aéreos, com direito à virada de um pequeno teto (a dica ali é contornar pela direita, grau IV).

Chegamos ao cume às 12h30, após 2h30 de escalada, e fomos agraciados com uma sombra providencial. Bebemos água e logo iniciamos a descida. O plano original era descer os quatro com duas cordas, mas como estávamos apenas em dois, tivemos que descer parte da via com apenas uma corda. Foi uma descida sofrida por conta do calor, mas, no fim, deu tudo certo e logo nos encontramos com os outros dois na sombra de uma árvore. Dali, voltamos novamente até Castelo para encarar mais um churrasco providencial!

Para quem tiver interesse, a churrascaria se chama Gauchão e fica no centro da cidade, ao lado da igreja! Super recomendo!
Sobre a via Caiu o Boi, achei uma via muito legal. Bem protegida, embora os grampos já tenham 20 anos, e com lances atléticos, principalmente na última enfiada. Parabéns aos conquistadores pelo esforço e tenacidade! Não deve ter sido fácil!

Falando em Castelo, nos dias 16 e 17 de maio teremos a nossa Abertura da Temporada de Escalada em Castelo. As inscrições já estão abertas!

Liberei essa semana o Guia de Escalada de Castelo em PDF. Para baixar, clique no botão abaixo.
Uma resposta em “Escalando em Castelo”
Incrível o final de semana !! Onde reina o improviso sempre rende boas risadas