Na escalada, principalmente na esportiva, somos condicionados a ir até o limite. Enquanto estiver no jogo, não pode desistir — mesmo com o cotovelo na orelha e sabendo que não vai muito mais longe. Já na escalada tradicional, essa regra exige algumas ponderações, pois há riscos envolvidos, sobretudo em caso de queda. Por isso, é importante saber quando desistir antes de se machucar e quando colocar para jogo, aceitando os riscos e as consequências.
Como vim da escola esportiva, ainda levo um pouco dessa essência para a escalada tradicional, e por isso sempre fico me policiando para não ultrapassar a tênue linha.
No último domingo, por volta das 14h, lá estava eu, sozinho, insignificante, em meio a um mar de granito de 600 m, testando meus limites e protelando o inevitável. O sol de inverno parecia um maçarico queimando a minha nuca e o granito preto parecia uma chapa de fritar hambúrguer. Escalava alguns metros, batia uma chapa e tirava a sapatilha que explodia no pé. Repeti o processo umas oito vezes até me convencer de que estava na hora de descer. A ficha caiu quando olhei para baixo e notei que havia batido três chapas em sequência, a cerca de dois metros de distância entre elas.
A ideia dessa escalada surgiu um mês atrás, quando fui a Pancas e, já indo embora, o Fabinho quis me mostrar a face norte da Pedra Cará. De um mirante na estrada, ficamos observando aquela muralha e logo entendi porque não havia vias naquela face: a parede era imponente, vertical e, o pior de tudo, recebia sol o dia inteiro.
Pensei muito sobre investir — ou não — nessa parede. Ainda não entendo por que, nem como, a gente acaba escolhendo subir uma determinada montanha, mesmo sabendo que será uma grande roubada.
O fato é que, no último domingo, lá estava eu, sozinho, batendo na porta do Fabinho às 7h da manhã, pedindo para ele me levar até o início da trilha.
Assim que chegamos ao fim do cafezal, antes da mata, lancei o drone para estudar a aproximação e observar a pedra de mais perto. Logo percebi que a aproximação seria trabalhosa. O ponto que escolhi para começar a via ficava no fundo de um vale entre a Pedra Cará e a Pedra do Garrafão. Como geólogo, sabia que a trilha seria difícil, pois esses vales são verdadeiros depósitos de blocos de pedra que caem das montanhas adjacentes. Além disso, havia um bom ganho de altimetria (140m).
Entrei na mata e logo ficou claro que a aproximação seria parte da escalada: terreno difícil, orientação complicada e caminhada cansativa. Tentei gravar o máximo de pontos de referência para não me perder na volta, mas já sabia que, se descesse à noite, não teria a menor chance. Por segurança, precisava retornar de dia. Ou seja, por volta das 15h eu teria de estar de volta à base da via.
A caminhada não foi longa — cerca de 40 minutos —, mas com a mochila pesada e um facão nas mãos, tudo se tornou muito cansativo. Além disso, havia o estresse mental de decorar a trilha, pensando na volta.

Cheguei a um ponto que tinha visto pelo drone, uma espécie de colo, um lugar natural para início de via. Não sei o porquê, mas fiquei pensando que, caso houvesse futuras repetições — que quase nunca acontecem —, seria mais fácil localizar esse ponto na mata.
A visão da parede a partir do colo era amedrontadora. Parecia que ela iria me reduzir a migalhas. Há dias em que me sinto mais intimidado pela pedra, e nesse dia eu estava me sentindo especialmente acuado.

Tentei escolher a linha menos inclinada possível. Um mar de Stigmatodon no meio da parede indicava que ali a coisa ficaria feia para o meu lado.
A primeira enfiada foi somente protocolo. Daria para solar — de fato, solei, pois não bati nenhuma chapa —, mas precisei fixar a corda para subir com todo o material de conquista.
A segunda enfiada parecia a continuidade da primeira, só que mais inclinada. Estiquei cerca de 30 m até a pedra ganhar ângulo e os Stigmatodon começarem a aparecer. Essas bromélias só ocorrem onde a parede é vertical — um excelente bioindicador de crux!

Após 55 m, bati a parada em um pequeno platô. Dali para cima, parecia que o negócio iria encrespar até o infinito. Quando ficamos diante de um problema sem perspectiva de fim, bate um grande desânimo. Parecia que cada chapa seria conquistada na raça pelos próximos 200 m.
Concentrei-me em dar um passo — ou uma chapa — de cada vez e subir sem pensar no quanto faltava. O progresso foi lento e trabalhoso. No meio da enfiada, a pedra ganhou ângulo e não sabia se conseguiria passar em livre. Para poupar peso, decidi não levar meus cliffs, que seriam primordiais nesse trecho. Mas, quando cheguei mais perto do lance, encontrei uma passagem e consegui vencer o vertical, estabelecendo a P3.

A essa altura, as nuvens da manhã já tinham se dissipado e o sol imperava na parede. O cansaço acumulado de fazer tudo sozinho e o desgaste emocional de estar naquele ambiente intimidador começaram a pesar. Para piorar, a parede seguia ganhando ângulo sem perspectiva de melhorar.
A 4ª enfiada foi na insistência, na raça. Não consegui impor o ritmo costumeiro. Senti-me acuado, com medo, cansado e fraco. Cada chapa foi conquistada com muita resiliência, até chegar ao meu limite. Precisava alcançar um falso platô a uns 10 m para estabelecer a parada, mas não consegui. Joguei a toalha. Estava exausto e sabia que não poderia ir até o limite físico, pois estava sozinho e ainda havia todo o caminho de volta — incluindo a caminhada na mata com todo o peso.

Desci sem concluir a enfiada e, por volta das 15h, estava de volta à base da via. Tomei toda a água que tinha, empacotei o equipamento e iniciei a caminhada pela mata. Tentei refazer exatamente o mesmo caminho, mas, no fim, me perdi e acabei saindo muito longe do carro. Custei a encontrá-lo, mas fiquei feliz por ter saído ainda de dia, pois sabia que, se tivesse saído à noite, estaria realmente encrencado!

