Itatim, o fruto proibido

Conhecer as escaladas de Itatim, na Bahia, sempre esteve nos meus planos, mas também sabia que seria como provar o fruto proibido do livro de Gênesis. Por isso, procrastinei bastante, mas, como diz uma anedota antiga: se a montanha não vem a Maomé, Maomé vai à montanha!

A oportunidade surgiu no início do ano, quando o pessoal da organização do Encontro de Escalada de Itatim me convidou para palestrar no evento que aconteceria em setembro.

Entendi que o mundo estava conspirando a favor para conhecer Itatim, que eu estava fadado a cometer o crime de provar o granito vertical com agarras e acabei aceitando o convite sem pensar muito.

Cheguei em Itatim no dia 3, quinta-feira, no final do dia, e logo me encontrei com o Porko e o Chuck, ambos do Espírito Santo, que haviam chegado de carro no dia anterior.

Na sexta-feira, fiquei em home office, ou melhor, “sítio office”, no local sede do evento. Quando “sextou”, fechei o notebook e partimos para uma escalada expressa no final do dia, ali no Morro da Toca.

Dias antes, conversei com o escalador Daniel Casas, que passou uns dias pela região e me deixou uma pequena lista de vias legais para repetir.

Lapso de Memória (5º, VIIb, E3, D1, 85m)

Olhei a lista e, pela proximidade, fomos na via Lapso de Memória (5º, VIIb, E3, D1, 85m), na face sul do Morro da Toca, conquistada pelo Dilsinho e companhia em 2009.

Como estávamos em quatro, fechei uma cordada com o Ismael, escalador gaúcho perdido na Bahia e refugeiro do Refúgio Frei, onde o Porko e o Chuck estavam hospedados. Os dois fecharam outra cordada que subiria logo em seguida.

Conforme a descrição do novo croqui de Itatim, 2a edição, que seria lançado no encontro, sabia que o crux estava logo na saída, num lance protegido em chapa.

Começar os trabalhos em Itatim, fazendo um boulder de VIIb logo de cara, não me pareceu uma boa ideia, mas era o que tínhamos para hoje. Achei uma sequência interessante e fiz a saída com certa facilidade para um VIIb. Logo em seguida, apareceu um segundo crux (VI SUP). Como a via é mista, sabia que esse trecho seria em peças. Procurei um lugar para proteger e nada. Logo comecei a entender que as fendas de Itatim não são bem fendas, mas sim canaletas de água mais profundas. Quando olhamos essas canaletas de longe, parece que a parede oferece infinitas possibilidades de colocações, mas quando metemos a cara, descobrimos, para nosso pavor, que nem tudo que reluz é ouro.

Consegui socar um #0.75 meia-bomba e reforcei com um #0.5 psicológico. Sabia que as peças não aguentariam uma queda e que provavelmente daria chão, então tratei de passar consciente o lance. Mais acima, a enfiada ficou mais vertical a negativo e as canaletas seguiam sem oferecer boas colocações, mas felizmente as agarras eram boas e logo cheguei à parada.

Na primeira enfiada. Foto: Chuck.

Confesso que fiquei chocado com a minha primeira escalada. Logo pensei no que nos aguardava para os próximos dias.

Chamei o Ismael, que subiu recolhendo, e o Chuck, sabiamente, também subiu de corda de cima para pular essa enfiada.

Dali para cima, a escalada ficou mais amena e logo batemos no cume do Morro da Toca.

Chuck chegando no final da via.
Cume!
Foto no cume!
Caatinga.

Depois, seguimos até a rodoviária de Itatim para buscar o Karapeba, que vinha de ônibus, e fomos direto até o local sede do evento para encontrar com a galera. Mas nós, e pelo visto os outros também, estávamos muito cansados e, por volta das 23h, já estávamos no saco de dormir.

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Auto da Compadecida (4º, VI, E2, D1, 185m)

Amanhecer em Itatim com a Pedra Aguda ao fundo.

Para o sábado, planejamos uma escalada mais tranquila, pois além do susto, estávamos cansados da semana e da longa viagem do Espírito Santo até Itatim.

Resolvemos atear fogo na lista do Dani e fomos buscar uma escalada mais tranquila, acabamos por escolher a via Auto da Compadecida (4º, VI, E2, D1, 185m), na Ponta Aguda.

Ponta Aguda.

Como iríamos escalar em cinco pessoas, ficamos com receio do sol, pois a via fica com a face voltada para o norte, então resolvemos entrar cedo pela manhã.

Acordamos às 5h e, às 6h, já estávamos na base da via nos encordando. Para agilizar a escalada, o Porko e o Chuck fecharam uma cordada e entraram na via ao lado, Shaolin do Sertão (5º, V SUP, E2, D1, 175m), enquanto nós — Karapeba, Ismael e eu — fomos na Auto da Compadecida.

Karapeba abrindo os trabalhos.
Chuck e Porko na via.

Como ambas as vias são em fixa, a escalada fluiu bem e não tivemos muitos problemas com a navegação. Só achei que a 3ª e a 4ª enfiada não eram III SUP. Nunca vi um III SUP de 30m com seis proteções…

Eu, Ismael e Karapeba na via. Foto: Chuck.

Chegamos no cume às 8h, após duas horas de escalada. Por sorte, o dia amanheceu com sol entre nuvens e fomos beneficiados pelo vento da manhã.

Como ainda tínhamos muito tempo, descemos da pedra e voltamos ao Morro da Toca para escalar mais uma trad na sombra.

Foto no cume!
Vista do cume.

Conjunção de Saturno (5º, VI SUP, E2, D1, 140m)

Dessa vez, escolhemos — ou melhor, eu escolhi — a Conjunção de Saturno (5º, VI SUP, E2, D1, 140m), na face oeste do Morro da Toca, por estar na sombra.

Morro da Toca.

Chegando lá, constatamos que a via deveria ser ótima, pois estava ocupada. Inicialmente pensamos em entrar nela e na Crepúsculo, que fica ao lado, mas a via Crepúsculo também estava ocupada.

Esperamos um pouco e logo entramos, Karapeba e eu, na Conjunção de Saturno, que estava mais livre. Em seguida, o Chuck e o Porko entraram também, mas em outra cordada.

Karapeba na via. Ao fundo Chuck e Porko na mesma via.

A escalada fluiu bem, mas a essa altura do dia o sol começou a nos castigar e a incomodar.

Sem dúvida, as melhores enfiadas são a 3ª e a 4ª, mais técnicas, numa placa mais vertical. Diferentemente do dia anterior, a via é toda em chapa, com padrão esportivo, então a escalada fluiu bem e logo chegamos ao cume.

Do cume, resolvemos descer pela via Crepúsculo, pois pela Conjunção não parecia uma boa ideia. O granito de Itatim forma diversos bicos e pontas que têm tudo para prender a corda no rapel. Confesso que achei todos os rapéis estranhos. Parecia que a qualquer hora a corda iria prender em alguma coisa, mas no fim deu tudo certo!

Vegetação típica do cume.

Como estávamos com uma corda de 60m, tivemos que levar uma tagline, pois em várias vias o rapel é feito com uma corda de 70m. É um padrão estranho que eu não sabia, mas fica a dica: leve uma corda de 70m para Itatim, vai facilitar a vida em várias vias, mas se puder, opte sempre em descer caminhando.

Entaredecer nos inselbergs de Itatim.

Depois da escalada, ministrei uma pequena oficina introdutória sobre escalada solitária, dentro da programação oficial do evento. Não tenho certeza, mas acho que essa foi a primeira oficina/workshop de escalada solitária do Brasil.

Oficina sobre escalada solitária. Foto: Ismael.

Já à noite, dei uma palestra sobre as escaladas em Yosemite, nos mesmos moldes da que fiz este ano em Caçapava do Sul (RS). Depois, ainda rolou sorteio de brindes dos patrocinadores e, para fechar a noite, um show com a banda Patatins, formada por escaladores locais, com várias músicas autorais relacionadas à escalada local. Muito bacana!

Palestra sobre Yosemite. Foto: Joyce.

Jardim Celestial (6º, VI SUP, E2, D1, 145m)

O domingo amanheceu chuvoso, com uma garoa persistente — uma boa desculpa para sair mais tarde e descansar um pouco mais.

Para o domingo, deixei o Chuck escolher uma via. Não sei onde ele arrumou, mas apareceu com a ideia de repetir a Jardim Celestial (6º, VI SUP, E2, D1, 145m), na face norte do Morro do Crocodilo.

Partimos para a pedra por volta das 9h e logo chegamos à base da via. Achei a aproximação dessa face muito bacana, por atravessar uma região de caatinga com várias plantas diferentes, todas muito espinhentas.

Caminhada para o Crocodilo.

Comecei os trabalhos tocando a 1ª enfiada em móvel. A essa altura do campeonato, já sabia que aquelas canaletas/fendas eram “fendas fakes” e que as colocações eram bem macetosas. A segunda enfiada ficou com o Chuck, que sentiu na pele o que é proteger no granito de Itatim enquanto o sol da face norte nos fritava na parede.

Chuck limpando a 1a enfiada.

Mais acima, a via leva para dentro de uma chaminé, que na verdade é uma canaleta maior forrada de agarras. Tem tanta agarra dentro que chega a incomodar as costas enquanto subimos em chaminé.

Escalando chaminé em Itatim…
Chaminé diferente, com agarras!

Depois a via fica mais fácil e logo já estávamos no cume, depois de três horas de escalada.

O rapel foi pela via Sextão de Brincadeira. Rapel tranquilo, mas muito intimidador por causa dos bicos de pedra. Não queira fazer esse rapel com vento!

Arco da Toca (5º, VIIa, E3, D1, 130m)

O dia estava acabando, assim como as nossas energias, mas ainda tínhamos o gran finale: o Arco da Toca!

Para essa escalada, chamei o Karapeba que, enquanto estávamos no Crocodilo, havia escalado uma via com a Joyce, na Toca.

Entramos na via Arco da Toca (5º, VIIa, E3, D1, 130m), no Morro da Toca, por volta das 14h30. Eu esperava que essa via fosse ter muito trânsito durante todo o evento, mas estava bem tranquila, quase sem movimento.

No meio da tarde, a face fica na sombra e a escalada se torna mais prazerosa. Além disso, nesse dia o vento estava mais forte que o habitual. Logo que comecei a escalada, por duas vezes quase perdi o equilíbrio com as rajadas de vento. Aliás, a 1ª enfiada é quase um solo de III, porque nos únicos lugares onde as peças cabem, elas não têm muita serventia.

A 2ª enfiada ficou com o Karapeba, que subiu rapidinho, e logo chegamos à cereja do bolo da via: a 3ª enfiada. Essa enfiada me lembrou muito as vias de Calogi, numa versão mais fácil. Por sorte, encontrei todas as agarras com marca de magnésio da galera que escalou no evento, então achei mais fácil. O difícil nessa enfiada é acreditar que algumas agarras não vão quebrar na sua mão.

Karapeba na 2a enfiada.

O Karapeba subiu de segundo, mas, quando chegou na P3, arriou a bateria após tantos dias de escalada e me ofereceu a ponta da corda novamente. Agradeci de bom grado e fui para o que é, para mim, a melhor enfiada da via! A 4ª enfiada transcorre em travessia à direita pela borda do teto gigante, que dá uma sensação de exposição surreal. Sem dúvida, o psicológico pesa se não estiver acostumado a escalar negativos e tetos.

Quarta enfiada.

Diferentemente da 3ª enfiada, a 4ª é mais física e menos técnica. Como a enfiada vai à direita, tora mais o braço direito, pois todas as costuras são feitas com a mão esquerda.

Depois da virada, a pedra perde inclinação e a última enfiada foi somente um protocolo para ganhar o cume. Aliás, foi muito legal voltar ao cume no último dia para fechar com chave de ouro a trip.

No dia seguinte, ainda achei disposição para subir o Napoleão antes do amanhecer, tirar umas fotos e depois pegar a estrada para Salvador, rumo à Vitória, na terra dos granitos lisos e sem agarras de mão!

Amanhecer em Itatim.

Por fim, gostaria de agradecer à organização pelo convite e pelo excelente evento de altíssimo nível. Itatim tem o melhor granito do Brasil e também tem os melhores escaladores e escaladoras!

Agradecimentos também aos parceiros de cordada: Ismael, Karapeba, Chuck, Joyce e Porko, que fizeram a vibe do bonde dos capixabas!

Gravatás com Enxadão ao fundo.

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