Para ler e repassar (e-mail do André Ilha)

Segue o texto do André Ilha.

Oi pessoal,

Falei longamente com a Kika há pouco (fisicamente, ela está bem, mas está arrasada), que me descreveu melhor os detalhes, mas não há nada muito diferente do que já foi divulgado, exceto pelo fato de que eles NÃO atingiram o cume do Fitz pela via Afanassief, embora tenham chegado muito próximo, e o acidente aconteceu logo no primeiro rapel – a ancoragem saiu, ou se rompeu ou a pedra se partiu, isso acho que nunca se saberá ao certo. A Kika desceu primeiro, nada aconteceu, e enquanto armava a segunda ancoragem o Bernardo voou; ela pegou a corda no reflexo, mas não teria conseguido segurar, claro, se a corda também não tivesse passado por acaso por trás de um bico de pedra. O resto ela própria poderá dar mais detalhes no momento possível.

Mas o importante agora é o seguinte: a imprensa, gostemos ou não, É assim, aqui e em qualquer lugar no mundo, pois ela é voltada para a opinião pública e a opinião pública quer sensacionalismo. Ninguém para na rua para ver um carro estacionando corretamente, mas sai correndo para ver quando há uma batida, por menor que seja.

Como vocês podem recordar muito bem, nas mortes do Mozart no Aconcágua, do Vitor Negreti no Everest, ou daquele cara cujo nome não me recordo na África, a imprensa deu um destaque absurdo, e a pior coisa que poderia acontecer agora seria deixar a coisa correr solta, publicarem ou falarem barbaridades e denegrir a imagem do esporte e dos nossos amigos – particularmente crucificarem a Kika por não ter permanecido no Fitz para morrer junto com o Bernardo e não fazer a única coisa lógica e racional possível que era descer para tentar um resgate de helicóptero, a única chance que ele teria de sobreviver, mas não teve. E, acreditem, só uma pessoa MUITO experiente e determinada como ela conseguiria sobreviver à inacreditável descida sozinha, seguida de travessia da geleira, com um bivaque ao relento sem saco de dormir, debaixo de neve o tempo todo. Foram mais de 50 rapéis, com a corda prendendo o tempo todo, e ela chegou na base com um pedaço de 17 metros e outro pouco maior das duas cordas originais de 60 metros…

Então, o papel de TODOS nós é contribuir para que a realidade da escalada em locais como a Patagônia seja mostrada com exatidão – já houve diversas outras mortes por lá nesta temporada – para que não venha mais uma bateria de projetos de lei estapafúrdios por aí, sendo que agora não temos mais o Bernardo para lutar contra eles…

Eu estou sendo caçado dia e noite por jornalistas de tudo quanto é órgão de imprensa para dar mais detalhes e, após falar previamente com as duas famílias, decidi atender a todos os que for possível (lembrando-os sempre de procurarem os diretores da FEMERJ, como Júlio e Bugim, que também já falaram com alguns deles) para esclarecer da melhor foma possível a situação. Até meia noite ligaram lá para casa, e hoje não consegui trabalhar nada… Mas vale a pena todo o esforço agora, pois além de as duas famílias serem um pouco poupadas assim, a gente consegue evitar manchetes e conteúdos muito ruins, cheios de coisas absurdas que gerarão ainda mais especulação infundada.

Por fim, lamentavelmente a situação do nosso amigo era diferente da do Joe Simpson ou de outros casos em que houve sobreviventes em condições miraculosas, pois as lesões dele foram terríveis. Esse é o grande diferencial.

Abraços e beijos,

 

André

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