Regência Augusta

Embora este blog trate quase que exclusivamente das montanhas capixabas, o Espírito Santo possui uma extensa faixa litorânea de aproximadamente 400 km, com grande diversidade de praias, falésias, enseadas, restingas e manguezais.

Para quem é de fora — e até mesmo para quem é da região — o litoral capixaba muitas vezes se resume às praias de Guarapari, famosas pelas areias monazíticas com propriedades terapêuticas (elas são radioativas). No entanto, Guarapari é apenas a ponta do iceberg capixaba.

Entre as praias pouco conhecidas está Regência Augusta, distrito de Linhares, distante cerca de duas horas de Vitória, em direção ao norte do estado, localizada exatamente na foz do Rio Doce.

Foz do Rio Doce.
Área de mangue.
E seus habitantes.
Céu de verão.
Foz do rio.

A vila de Regência é uma pequena comunidade, ainda não descoberta pelo turismo de massa, em parte devido ao acesso precário. Até pouco tempo atrás, havia um trecho de 35 km de estrada de chão. Atualmente, restam apenas 9 km após obras de asfaltamento.

O povoamento europeu começou por volta de 1760, quando foi estabelecido um quartel na foz do Rio Doce. No entanto, a região já era habitada pelos índios Botocudos muito antes da chegada dos colonizadores.

A história mais famosa de Regência é a do caboclo Bernardo, filho de indígenas, que em 1887 salvou heroicamente os tripulantes do navio Imperial Marinheiro durante seu naufrágio na foz do rio. Por seu ato de bravura, Bernardo foi condecorado pela Princesa Isabel e recebeu uma medalha de honra ao mérito. Também a seu pedido, a Princesa mandou construir em Regência um farol, para evitar que novos acidentes acontecessem. Atualmente, o antigo farol foi substituído por um mais moderno, mas a estrutura original segue preservada e exposta em frente ao Museu Histórico de Regência.

Foz do Rio Doce.
Antigo farol.
Farol novo.

O povoado possui algumas opções de hospedagem e alimentação, todas bastante simples. Sem dúvida, o charme do lugar está justamente nessa simplicidade natural e autêntica, especialmente em tempos em que muitas praias ditas rústicas tornaram-se super hype.

Devido aos bancos de areia formados pela foz do rio, o local é bastante conhecido entre os surfistas, que buscam ali os famosos tubos cavados.

Surf!

Mais recentemente, em 2015, a região foi um dos palcos do maior desastre ambiental do Brasil, quando toneladas de rejeitos de minério contaminado desceram pelo Rio Doce após o rompimento da barragem de Mariana, da Samarco, afetando toda a extensão ribeirinha, inclusive a área da foz. O desastre impactou profundamente a economia do vilarejo, que vive basicamente da pesca e do turismo. Até hoje, onze anos depois, ainda é possível observar os impactos desse evento.

As ondas

Outro fato pouco conhecido é que a foz do Rio Doce funciona como um grande “berçário” de tartarugas marinhas, que entre setembro e março utilizam a faixa de areia para a desova e o nascimento dos filhotes.

Tartaruga cabeçuda.
Tartaguradas recém nascidas.

Aliás, regiões de foz de rios — onde a água doce se mistura com a água do mar — costumam apresentar grande biodiversidade. E, mesmo diante das barbáries humanas, a foz do Rio Doce ainda se destaca por sua riqueza natural, especialmente pela diversidade de aves.

Paula e eu já estivemos na região quatro vezes para apreciar esse pequeno palco da vida, sempre com foco na observação das tartarugas.

A dica é sempre conversar com os técnicos do Projeto Tamar, responsáveis pelo monitoramento noturno, que patrulham a orla da praia de quadriciclo. Eles sempre têm as melhores informações e orientações sobre as práticas adequadas para uma observação segura e respeitosa.

Vale lembrar que, embora seja uma das principais áreas de desova de tartarugas marinhas e conte com diversos núcleos do Projeto Tamar, não há um centro de visitas nos moldes do que existe na Praia do Forte, na Bahia, por exemplo. No Espírito Santo, o maior centro de visitantes fica em Vitória, na Praça do Papa. Em Regência, há apenas uma pequena exposição bastante simples, além da confecção das camisetas oficiais do Projeto Tamar, vendidas nas lojas locais.

Entardecer.

 

 

Comentários

2 respostas em “Regência Augusta”

Recentemente li um artigo sobre os peixes e parece que ainda estão contaminados. O mar ali nunca foi bom para banho, foz de rio é complicada, ainda mais no verão, quando o nivel do rio aumenta e desce muita sujeira.

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