Stigmatodon, liberação

O dia estava muito agradável: temperatura amena, um vento sul gelado e ar seco. Com esses ingredientes, definitivamente, a temporada de escalada tradicional está começando!

Estava no meio da terceira enfiada da via Stigmatodon, uma linha que abri em solitário na temporada passada. Agora, me encontrava nela novamente, de forma igualmente solitária, para liberar todas as enfiadas.

À medida que ia subindo, ficava pensando na graduação proposta.

— Isso não é um V, talvez no máximo um IV. Preciso arrumar o croqui!

De repente, me peguei tateando a parede em busca de agarras. Varri tudo que estava ao meu alcance e não achei nada. O jeito foi subir os pés, acreditando em uma saliência, sem usar as mãos, pensando por que não havia uma chapa ali ao lado. Também nessa hora entendi por que propus V grau para essa enfiada. Fechei a cara e segui sem grandes problemas.

O dia começou cedo, muito cedo. Acordei às 3h45 e peguei a estrada saindo de Vitória. Quando saí de casa, ainda estava escuro. Na capital, o termômetro do carro marcava 24 °C, mas, à medida que ia saindo do centro urbano e entrando no interior, a temperatura ia despencando, até chegar a 18 °C em alguns pontos. Já sabia de tudo isso, pois vinha monitorando a frente fria durante a semana. Sabia que no sábado teríamos o dia perfeito para fazer uma parede.

A semana foi muito cansativa. Meu desejo era escalar no domingo, mas sabia que o melhor dia seria o sábado. Se eu ficasse em casa no sábado, iria me arrepender de perder um dia tão clássico.

Cheguei ao Fabinho às 6h30, após 2h30 de estrada. Não falava com ele desde a temporada passada. Havia muita conversa para botar em dia, mas o tempo estava correndo e deixamos o resto para depois.

Subi em direção à base da via, que fica ao lado da via  Supercanaleta, no Morro do Camelo. Uma caminhada curta, bem sinalizada e tranquila, de uns 20 minutos me levou à base da via. A última vez que havia subido por ali foi justamente durante a conquista da via. Naquela ocasião, estava carregado, pesado. Não foi uma subida fácil! Mas, dessa vez, pareceu tão simples e agradável.

Na base da via.

Iniciei a escalada por volta das 8h da manhã. Um pouco tarde, mas como a temperatura estava agradável e com muitas nuvens, não me preocupei muito. Também não me apressei, pois sabia que a escalada seria trabalhosa.

Primeira enfiada.

A primeira enfiada é, sem dúvida, a mais clássica da via. Uma escalada mais vertical em agarras, com proteção regular (E2) e muito desfrute, do início ao fim. Não há uma passada crux definida, mas a escalada é constante. Deve ter umas 8 chapas em 50m. Confirmei o IV SUP que dei na conquista, mas é difícil dar IV SUP com 8 chapas… Não é comum…

Como estava em solitário, tive que descer para limpar a enfiada e depois subir pela corda recolhendo tudo. Assim que voltei à P1 após a limpeza, num momento de descuido, em vez de soltar a presilha do peitoral da mochila, abri a presilha da cadeirinha peitoral. O minitraxion que estava preso nela se soltou e desceu pedra abaixo. Fiquei perplexo olhando-o cair por 50 metros enquanto tentava me concentrar para ver onde ele iria parar.

Sem muita opção, tive que montar um rapel e fazer o resgate. Menos mal que não foi mais para cima, pois aí o estrago seria maior e poderia comprometer a escalada.

Achei o minitraxion exatamente onde esperava encontrar e logo estava de volta à corda fixa para jumarear mais uma vez os 50 metros da primeira enfiada.

A partir dali, escalei toda a via com atenção redobrada para minha mão de alface não largar mais nada.

A segunda enfiada tem um trick na saída e depois a pedra perde inclinação. Acho que o IV SUP está bem redondo.

A terceira enfiada é um pouco mais dura. Logo na saída tem um esticão longo, mas nada difícil. Depois de escalar a primeira enfiada bem protegida, essa dá um certo contraste, mas, no fim, lembramos que o padrão local é esse mesmo!

Início da 3a enfiada

Quase decotei a enfiada, mas acho que o V seja bem justo.

A 4ª enfiada também está cotada como V. Lembro que, durante a conquista, havia um lance mais técnico logo na saída e depois em um trecho de veio de cristal. De fato, esse trecho final é mais técnico e requer uma boa leitura; senão, o lance de V vira VI.

Limpando a enfiada.
Pausa para o lanche.

Para mim, essa e a 1ª são as enfiadas mais bonitas da via.

Crux!

A essa altura, a temperatura começou a aumentar e o dia foi ficando mais quente. Senti a sapatilha incomodar um pouco mais e vi que a água estava acabando. Levei apenas 2L para essa atividade, uma quantidade baixa para uma escalada solitária, na qual o esforço é quase triplicado.

Num dado momento, um drone sobrevoou o local, quebrando o silêncio do vale. Até então, eu escalava ouvindo diversos pássaros que estavam nas árvores mais abaixo. Tirando um grupo que caminhava na Pedra do Camelo, eu era o único escalando no Morro do Camelo e, provavelmente, em toda a região. Um dos maiores privilégios que se tem escalando no Espírito Santo.

A última enfiada foi só protocolo e logo já estava no cume. Acho que essa foi a primeira vez que cheguei ao topo com o clima mais ameno. Sempre chego por volta do meio-dia, quando o “maçarico” está ligado e mal consigo curtir o visual. Dessa vez, mesmo chegando nesse horário, a temperatura estava bem agradável e consegui ficar mais tempo admirando a vista.

Descendo para limpar a enfiada.

Pelo livro de cume, essa foi a primeira escalada no Morro do Camelo em 2026. Depois, conversando com o Fabinho, ele confirmou essa informação.

Livro de cume.

Como tinha um compromisso à noite em Vitória, não pude estender a estadia e tive que descer para pegar a estrada.

Fazer propaganda da própria via é sempre questionável, mas acho que ela ficou muito legal por ser uma escalada bem variada e numa pedra que fica pertinho do camping. Fica a recomendação!

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