Teju

Tejuçuoca, ou simplesmente Teju, se você achou o nome original cacofônico, é uma pequena cidade do Ceará, distante 140 km da capital, Fortaleza.

Segundo o último dado do Censo do IBGE de 2022, Teju possui 17 mil habitantes e está encravada no meio da Caatinga, aos pés da Serra da Caboretinga.

A estrada que leva a Teju é uma série de retas intermináveis que cortam o bioma da Caatinga. Nessa época do ano, a vegetação está totalmente verde por causa do fim do período chuvoso.

A monotonia da estrada me permitiu relembrar a época em que passei um mês pela Caatinga com o meu amigo e geólogo Tiago Agne, em 2006, mapeando a geologia da região de Iguatu, também no Ceará, para o meu mestrado. Aquela experiência foi o meu primeiro contato com o bioma e, desde então, tenho um apreço especial por sua flora e fauna.

A gente costuma ter uma imagem distorcida da Caatinga, sempre achando que é tudo muito seco e terroso. O fato, porém, é que se trata de um bioma muito dinâmico e sazonal, com épocas de seca e de chuva bem definidas ao longo do ano.

Após Teju, a estrada passou a ser de terra batida, mas logo vi que havia sido recém-refeita com patrola, por isso estava bem transitável, apesar dos pequenos alagados. Supus que a organização do Encontro de Escalada do Nordeste  – EENe – tivesse conseguido essa manutenção junto à prefeitura local para o evento.

Igreja de Tejuçuoca – CE.

O Encontro de Escalada do Nordeste já é um evento consagrado no cenário nacional e acontece anualmente em algum pico novo da região. Para esta edição, a vigésima terceira, a Janine, uma das organizadoras, me procurou perguntando se eu poderia ministrar uma oficina e dar uma palestra em uma das noites. Na verdade, esse convite havia sido feito no ano retrasado. Infelizmente, naquela oportunidade não pude ir porque já tinha me comprometido com o Seu Manuel para o evento em Caçapava do Sul (RS), que coincidia com a mesma data.

Guia de Tejuçuoca.

À medida que a estrada me levava cada vez mais para o interior da Caatinga, a civilização ia ficando para trás e parecia que eu estava indo em direção a um lugar totalmente ermo. Comecei a pensar: “Quem em sã consciência viria para um evento nesse fim de mundo? Quantas pessoas virão? Será que o pessoal de fora do Ceará vai viajar até aqui? Será que a galera de Fortaleza vem? Será?”

De repente, avistei uma placa anunciando o evento. Logo depois, vi muitos carros e, atrás deles, uma imensidão de barracas. Fiquei pasmo e incrédulo ao ver tanta gente e toda aquela estrutura montada no meio do nada!

Local sede do evento.
Vida noturna.
Via Láctea.

Com tanto público, na noite da minha palestra, a casa estava cheia. Num dado momento, todos os assentos em frente ao palco principal estavam ocupados, e o restante do pessoal precisou assistir em pé. Segundo a organização, foram mais de 180 inscritos.

Mais uma vez, falei sobre a escalada em Yosemite, da temporada de 2024, quando o Dani e eu repetimos a Northwest Regular Route do Half Dome.

Falando sobre Yosemite. Foto: Fred.
Forró pós-palestra.

Já se passaram quase dois anos desde aquela escalada épica. Ao final da apresentação, achei que me faltou um pouco de emoção. Parecia que aquele sentimento de ter escalado a via havia esfriado, e me senti um pouco mal com o meu desempenho. Tive a sensação de não ter conseguido transmitir a vibração que senti naqueles dias na montanha.

No entanto, à medida que fui conversando com as pessoas após a palestra, comecei a me sentir melhor. Quando olhava para os olhos vidrados dos mais novos, dizendo que aquilo os inspirava, senti que a mensagem havia sido passada. Consegui plantar uma pequena semente na mente deles, do mesmo jeito que aquele relato da Beth fez comigo quando ela escreveu para o Mountain Voices em 1994.

No dia seguinte, à tarde, ministrei a oficina de escalada solitária, nos mesmos moldes da que fiz no ano passado em Itatim. Falar sobre escalada solitária é sempre interessante; acho que muita gente participa mais por curiosidade do que pela intenção de praticar, mas sempre rola uma interação bem legal.

Nesse dia, também participei de outras atividades do evento. Costumo não acompanhar muito a programação paralela, mas dessa vez quis fazer diferente. Antes da minha oficina, integrei uma geotrilha para conhecer a geologia e a biologia da área com o geógrafo Will e o biólogo Arthur.

Estudando as cavernas.
O show das azaléias.
Lagartixa no mármore.

A área de escalada de Teju fica no MONA Furna dos Ossos, criado em 2025, que abrange uma área de 60 hectares. Um aspecto fascinante é que a rocha do local é um mármore, muito parecido com o do Cipó, em Minas Gerais. Aliás, quando a Janine me falou que o evento seria em um pico de mármore no Ceará, não acreditei e fui pesquisar nos livros de geologia.

Entardecer no MONA Furna dos Ossos.

Essa rocha é uma raridade na região, pois sua ocorrência é geologicamente muito restrita e representa uma lasca de uma antiga plataforma carbonática de idade paleoproterozoica. Em outras palavras: é uma rocha antiga para chuchu! Uma curiosidade geológica interessante é que, diferentemente da maioria dos calcários (chamamos de mármore quando o calcário sofre o processo de metamorfismo), a rocha de Teju não foi formada por organismos, pois nessa época, a vida na Terra era composta apenas por microrganismos simples, sem estruturas rígidas ou conchas para precipitar carbonato de cálcio. O mais incrível é que essa lasca está encravada bem no meio da Caatinga, tornando o lugar único!

Contudo, o aspecto geológico que realmente atrai os turistas e escaladores são os espeleotemas que se espalham pelas cavernas, dolinas e furnas.

Provavelmente uma Cabeça de Frade, espécie endêmica do Nordeste Brasileiro.

A escalada em Teju é relativamente recente. Em 2000, o escalador André Ilha, andando pela região, ouviu falar do lugar e fez uma primeira visita, mas sem conquistar nada. Sete anos depois, em 2007, ele retornou e abriu as primeiras vias, todas em móvel e utilizando árvores como ancoragem natural para o rapel. Nesse mesmo ano, ele espalhou a notícia sobre o potencial do lugar para os escaladores locais, e a novidade logo caiu no gosto da galera. Afinal de contas, não é qualquer um que tem um maciço de mármore no quintal de casa!

A partir dali, a região foi ganhando linhas novas e mais modernas. Para este evento, o pico recebeu um mutirão de aberturas, totalizando quase 200 vias, divididas em 4 setores de escalada. Para ver o croqui de Teju, clique aqui!

Embora a rocha lembre um pouco o mármore do Cipó, os corredores, salões e furnas remetem muito à Lapinha (MG). O estilo das linhas também lembra o de lá, embora existam aspectos geomorfológicos bem distintos. As vias em geral são curtas e o estilo varia bastante de acordo com o setor.

Escalador Flávio Leone (RJ) na via Arranca Tampão (V), Setor Furna do Sino, Zona 4.

A minha primeira escalada em Teju foi na via Bunda Canastra (VI SUP) – Setor Antilopes – Zona 4. Definitivamente, não deve ser a melhor opção para começar no pico. Logo na saída, em um negativo, estranhei a textura das agarras: embora não fossem polidas, escorregavam mais do que a média. Era preciso fazer muita força no agarrão para não ser ejetado. Diria que a minha introdução em Teju foi, no mínimo, “tijolante”. 

Passado o susto inicial, logo descobri que aquilo era a exceção, e não a regra, pois depois escalei várias linhas excelentes.

Em geral, as vias de Teju são verticais a levemente negativas, com agarras boas e, por vezes, um pouco abrasivas. Não é uma regra, mas na maioria das vias em que entrei o crux ficava logo na saída; no final, as agarras surgiam e davam um alívio. As linhas são mais curtas, com cerca de 10 a 12 metros, mas exigem bastante costuras por serem bem protegidas.

JJ na via Sujeito de Sorte (8a), Setor Arco de Deus, Zona 4.

Dois pontos chamaram a minha atenção. O primeiro: em algumas vias, há árvores e galhos muito próximos à linha da via, tornando uma eventual queda perigosa (talvez um serviço simples de poda bastaria para resolver o problema). O segundo aspecto foram as paradas das vias: 90% delas são em Pingo ou Duplas da Bonier, ou seja, é necessário rapelar para limpar a via. Por isso, é preciso andar sempre com o kit de limpeza.

Entardecer na Caatinga.

Na noite de sábado, rolou a segunda palestra do evento com o Frederico dos Santos, do Rio de Janeiro. O Fred é um dos voluntários da comissão de segurança da UIAA e o maior expert em proteções fixas do Brasil na atualidade, com amplo conhecimento sobre as normas que regem a colocação de grampos químicos e chapeletas. No dia anterior, ele ministrou uma oficina na qual os participantes ajudaram na manutenção de duas vias clássicas do setor Furna do Jardim – Zona 3 – (vias Puro Malte -7a e Maria Isabel – 7b), substituindo as proteções antigas e deterioradas por novos grampos químicos de aço inox. Como eu nunca havia trabalhado com químicos, foi uma excelente oportunidade para aprender o “beabá” da coisa, até porque tenho alguns em casa que comprei para reformar umas vias que precisam de atenção especial no Espírito Santo.

Palestra do Fred.
Oficina de proteções químicas.
Entardecer no mirante.
Música Clássica na pedra com escalador e celista João Torres.

Ao longo desses dias, conheci muita gente nova, conversei com tantas outras e dividi a ponta da corda com escaladores e escaladoras de todo o Brasil. Como sou péssimo para lembrar nomes, é claro que esqueci o de quase todo mundo, mas o que ficou guardado na minha memória foi a expressão de sorriso fácil de cada um que encontrei. Quando dizem que o povo do Nordeste é diferenciado, com certeza estão se referindo a isso.

Muito obrigado pela receptividade e até Cuó!

Foto oficial do evento.

Comentários

Uma resposta em “Teju”

Que legal Naoki, que bom gostou do nosso pico, obrigado pela experiências e conhecimentos compartilhados, sejam bem vindo quando quiser voltar.

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