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Identificação de vias, um exemplo do Espírito Santo

Nas últimas semanas, o assunto sobre “identificação de vias” gerou bastante polêmica nas redes sociais e grupos de conversa entre os escaladores do Brasil. Tudo começou com a proposta do escalador Eliseu Frechou que levantou a “bola” e trouxe o assunto para discussão. O post sobre o assunto e os argumentos estão aqui.

Embora a discussão tenha acontecido lá pelos lados de São Paulo, aqui no Espírito Santo também discutimos o assunto nos grupos de conversa.

Mais recentemente, a Maruza Silvério também escreveu no site Alta Montanha sobre o assunto. Leia aqui!

Inicialmente, não iria me manifestar por aqui sobre o assunto, mas depois que li o último artigo achei interessante fazer um “contrapeso” para mostrar outro ponto de vista e o exemplo de como aqui no Espírito Santo “resolvemos” esse problema.

Ao longos desses 25 anos de escalada tive a oportunidade de visitar diversas áreas de escalada do Brasil e do mundo, onde, naturalmente, precisei me orientar para achar as vias, tanto esportivas quanto tradicionais.

A exemplo do que o Eliseu escreve em seu post, na Europa em geral é bem comum encontrar o nome da via escrito na base (Buoux, Gorges du Tarn, Céüse, Rodellar, Marselle, Arco…). Em outras áreas, em vez de escrever o nome na parede, o nome fica num bloco de pedra na base da via (Cotiporã, Lapa do Seu Antão, Indian Creek).

Nome da famosa via Biographie em Céüse, França
Hieróglifo atual… Indian Creek, EUA.
Lapa do Seu Antão, MG.

Não vou negar que já aproveitei essas informações para me orientar e que isso ajudou a achar a via. Principalmente em áreas de escalada onde há uma via a cada 1m numa parede onde tudo parece igual. Mas lembrando que em nenhuma dessas áreas de escalada encontrei placas metálicas chumbadas na parede como propõe se fazer.

Talvez no passado, a solução dos nomes escritos foi de fato útil, principalmente numa época onde a tecnologia ainda era bem escassa e os guias “inexistentes”. No entanto, atualmente vivemos numa outra realidade onde a tecnologia é onipresente no nosso dia-a-dia e seus benefícios (e malefícios) são notáveis.

Por outro lado, visitei diversas áreas onde não há nenhum tipo de sinalização, como por exemplo em Red River Gorges, nos Estados Unidos. Lá, há um Guia de Escalada impresso que é um item obrigatório na mochila de qualquer escalador. O guia é muito bem detalhado e claramente ilustrado, o que permite uma orientação fácil. Em 20 dias que estivemos por lá, escalei mais de 50 vias e em nenhum momento entrei numa via errada.

Mari procurando uma via em Red River Gorge, EUA. Detalhe para espessura do guia.

Para mim, um bom o guia de escalada é a melhor ferramenta para escalar em qualquer lugar. Além das informações das vias, lá você encontra outras informações necessárias e com certeza será o seu melhor companheiro nos dias de descanso ou de chuva. Mas o guia impresso tem um problema: a desatualização! Infelizmente não é fácil publicar uma atualização anualmente. Nem mesmo nos picos mais clássicos do mundo se publica um guia novo a cada ano. Para mim, um exemplo clássico desse “problema” é na Serra do Cipó. O Guia de Escalada de Cipó mais recente (2015) já se encontra bastante defasado (graças a Deus) e às vezes, complica a “navegação” in loco.

Sandro estudando o guia de Arenales (ARG) num dia chuvoso de descanso forçado.
Guia de escalada, o melhor amigo do homem! Foto: Roni Andres.
Estudando o croqui em italiano. Arco, Itália.
Croqui de UM setor de Massone (ITA)…

Outra solução interessante que já experimentei foram os croquis plastificados que ficam nos setores de escalada (por exemplo no Behne – RS, Uliana – ES e Macarrão – PR). Para mim, essa é a solução meio termo, onde não é necessário sinalizar a via com placas e nem ter que recorrer a sinal de internet para ter acesso a informação. O único inconveniente dos croquis in loco é que quando há alguma atualizaçao é preciso reimprimi-lo novamente.

Croqui do Setor 3 no Campo-Escola Behne (RS).
Croqui do setor Macarrão (PR) na garrafa de leite.

Mas qual seria a melhor solução? Na minha opinião, a resposta está na tecnologia. É sabido que atualmente grande parte da informação que absorvemos vem pela rede. Se antigamente líamos no jornal impresso as notícias do dia anterior, hoje ficamos sabendo em minutos, ou até mesmo em tempo real, as notícias de qualquer parte do mundo. Esses dias vi no YT um documentário bem legal sobre a história da foto da final dos 100m rasos das Olimpíadas. Mostrando o tempo que se leva entre cruzar a linha de chegada e a foto oficial chegar ao público. Já pensou nisso? Se no passado essa foto levava horas para chegar ao público, atualmente a mesma foto leva minutos para estar estampado na rede. E a grande corrida entre os fotógrafos é ter a primeira foto publicada na internet em menos tempo.

É nesse contexto que trago a experiência do Espírito Santo. Atualmente, temos no Estado três fontes de informação: o guia Escalada Capixaba, escrito pelo escalador Oswaldo Baldin e lançado em 2018; a croquiteca da Associação Capixaba de Escalada que funciona de forma colaborativa; e esse site que você está lendo, onde a alimentação é feita por mim mesmo. Com tantas fontes, atualmente é impossível não encontrar nenhuma info sobre uma determinada via do Estado. Uma via conquistada, seja esportiva ou tradicional não fica mais de 1 semana sem estar na rede, o que garante praticamente uma atualização em tempo real. Por exemplo, no final de semana conquistamos três vias no Setor Vale Perdido em Calogi. E hoje, 3 dias depois, você já encontra o croqui atualizado aqui e aqui!

Baldin, autor do Guia Escalada Capixaba, em noite de autógrafo.
Croqui do Setor Vale Perdido em Calogi atualizado e disponível na rede.

É claro que esse modelo de site já é uma coisa bem “arcaica” nos dias atuais, onde tudo funciona dentro de app’s. No mundo hi tech, o bom seria essa base de dado estar linkada a realidade virtual e a um sistema de georeferenciamento em tempo real para identificação via câmera do celular, mas isso é um passo mais a frente.

Utilizando um croqui virtual no celular em Cotiporã para se orientar.

Em suma, creio que nos dias atuais, onde estamos cercados de tecnologia, temos excelentes opções para identificação de vias sem precisar recorrer a métodos mais evasivos como chumbar placa na rocha ou escrever o nome na base das vias. O uso combinado de smartphones e internet é uma realidade e aproveitar se desta ferramenta é, sem dúvida, a melhor forma para, não só identificar, mas buscar informações sobre as áreas ou vias de escalada.

Se ainda assim tiver alguma dúvida sobre a funcionalidade da croquiteca virtual como ferramenta de disseminação de informação, experimente visitar o Espírito Santo! Faça uma pequena busca que você será bombardeado de informações úteis! Quem sabe comece visitando esse link!

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