Santa Rosa Futebol Clube

No final do ano passado, estava navegando no Google Maps pela região entre Colatina e Linhares em busca de alguma pedra interessante para conquistar. Nessa região, há uma imensa cadeia de montanhas com dezenas de pães-de-açúcar cercadas por plantações de café. Ironicamente, nesse mar de granito, há somente uma via na região, mais especificamente na Pedra do Cruzeiro em Marilândia. Uma via mista (artificial e livre) conquistada em 2003 com pouquíssimas repetições.

Em 2019 (?) rodei por aqueles lados com o Iury, mas não encontramos nada muito interessante, O gnaisse daquela região pareceu muito compacto e homogêneo, fazendo com que a escalada parecesse bastante monótona e repetitiva, mas fiquei impressionado com a beleza do lugar, principalmente por causa do Rio Doce que corta a região.

Rio Doce e as montanhas da região ao fundo.

Nunca me conformei que naquela imensidão toda não houvesse pelo menos uma linha interessante, por isso, vire e mexe ficava vasculhando o Googles Maps em busca de oportunidade. E eis que achei uma parede muito singular na localidade de Santa Rosa, em Linhares. A pedra, localizada em frente ao pequeno vilarejo, parecia crivada de pequenos buracos, lembrava até um queijo suíço. Aquilo me animou e logo comecei a divagar sobre uma possível via nessa parede. Fiquei imaginando um Céüse de gnaisse em terras capixabas, onde os buracos aceitavam peças, permitindo uma conquista limpa em móvel.

Fiquei tão empolgado com essa possibilidade que não quis esperar o prime do inverno para conferir a pedra. Até porque, pela orientação da face, a parede ficaria na sombra à tarde.

Como estava entrando na jurisdição do Iury, mais uma vez o convidei para empreitada. Como ele não tem opções melhores, não teve muita escolha e lá estava ele, no último sábado, rumando para Santa Rosa.

Pedra Santa Rosa, Linhares.

No meio de tudo isso, havia um ponto que me preocupava. Estávamos indo para uma região desconhecida, com extensas áreas de plantio de café, pimenta, mamão entre outros. Nessas regiões, às vezes, os proprietários não querem que forasteiros entrem nas suas terras. Mas assim que chegamos lá e conhecemos o senhor João e a dona Natalina, ficou claro que as minhas preocupações eram infundadas. Logo em seguida, conhecemos o senhor Ronivaldo, genro do seu João, e proprietário do acesso à base da pedra. Pessoa muito gente boa e exímio conhecedor de café que passou todas as orientações sobre a pedra.

Assim que chegamos à base da pedra, tudo que eu imaginava dos buracos foi buraco à dentro. Os buracos não aceitavam peças e o pior de tudo, eles eram meio buracos. A parte de baixo do buraco era abaulado e só a parte de cima tinha uma pega invertida. Esse tipo de formação lembrou muito a parede onde fica a via Locomotiva 262 em João Neiva. Mas ainda assim, a parede era convidativa. Não é comum encontrar uma parede com mais de 200m toda esburacada, ou meia esburacada

Base da via com seus buracos.

Ofereci a ponta para o Iury começar os trabalhos, mas ele não gostou muito que os buracos eram abaulados e passou de volta a ponta. A essa altura, por volta das 8h30 da manhã, o sol estava a todo vapor nos fritando na pedra. No céu, não havia uma única nuvem em volta do sol para dar aquela esperança. Nuvens, só lá no horizonte, em alto mar. Até serem jogadas em nossa direção, iria levar um bom tempo.

Sem muitas opções, comecei os trabalhos pulando de um buraco para o outro. Ao examinar mais de perto os buracos, notei que eles eram preenchidos com uma rocha mais escura, mais susceptível a erosão, por isso havia tantos buracos nessa pedra.

Estiquei 60m e estabeleci uma parada num buraco confortável e chamei o Iury. O Iury chegou trocando as pernas na parada, reclamando do calor e falando que estava passando mal. De fato, ele realmente parecia mal. Fizemos uma breve pausa até ele se recompor e voltei para ponta para conquistar a próxima enfiada, que parecia mais difícil que a primeira. No início, me estranhei um pouco com os buracos, mas logo fui pegando o jeito e o ato de pular de um buraco para o outro começou a ficar mais natural e confortável.

Esticando a 2a enfiada.
Iury chegando na P2.

Estiquei mais 60m e chamei o Iury. A próxima enfiada parecia mais fácil, parede menos inclinada e mais buracos. O Iury animou fazer a frente e tocou a conquista.

Discutindo alguma coisa nada relevante.

Após esticar 50m, Iury estabeleceu uma parada num outro buraco e subi rapidamente. A essa altura, algumas nuvens começaram a aparecer e devido à altitude, o vento começou a soprar com mais frequência, trazendo um pouco de alento naquele calor.

A 4a enfiada parecia mais dura que a 2a. Um pequeno headwall parecia ser a cereja do bolo. Como a parede estava repleta de agarras e buracos, sabia que o trecho mais inclinado não seria problema, muito pelo contrário, parecia muito interessante. 

Esticando a 4a enfiada.

Toquei a 4a enfiada passando por lances bem estéticos até esticar a corda até o talo para ganhar um platô, onde estabeleci a P4. Dali para cima, a capa de vegetação nos aguardava. Sabíamos que tinha mais alguns metros até o cume, mas achamos que não valeria a pena varar esse mato nesse calor e resolvemos descer.  Além disso, já sabíamos de antemão que o cume da pedra era acessível a pé, pois há uma imagem de Santa Rosa no cume da pedra.

Vista para os lados de Linhares.
Pedra Santa Rosa.

Batizamos a via em homenagem ao time de futebol local que se chama Santa Rosa Futebol Clube, já que a pedra fica em frente ao campo de futebol da localidade.

Uma lancha navegando nas águas turvas do rio.

Agradecimentos ao Iury por ter topado mais uma conquista pré-temporada em pleno outono no cara de verão!

Estátua de buda em Ibiraçu.

 

 

Comentários

2 respostas em “Santa Rosa Futebol Clube”

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.