Japão – De volta para o futuro – Monte Fuji

Recentemente minha esposa e eu rodamos de férias por três semanas pela “Terra do Sol Nascente”. Naturalmente tenho uma relação estreita com o Japão devido às minhas origens. Embora eu tenha nascido e me criado no Brasil, os meus pais sempre me ensinaram desde a infância os costumes, a língua, os valores e os ensinamentos da cultura japonesa. Confesso hoje que isso não foi nada fácil para mim na infância. Para uma criança é difícil entender e conviver em dois mundos tão opostos.

Já estive uma vez no Japão, mas eu era muito pequeno. Tenho apenas pequenas lembranças, pois na época eu tinha apenas 4 anos. Por isso, sempre tive vontade de um dia voltar novamente ao Japão para ver, sentir e provar tudo que aprendi e li durante a infância.

O Japão é o que os geólogos chamam de um exemplo didático de arco-de-ilha. Arco-de-ilha, de uma forma bem simples, é onde duas placas oceânicas colidem e podem formar um continente. Por esta razão, o Japão é um país com muitos terremotos, pois as placas tectônicas estão constantemente se mexendo. Além dos terremotos, uma outra feição característica dos arcos-de-ilha são as atividade vulcânicas. O Japão é um país com muitos vulcões ativos, sendo o Monte Fuji o vulcão mais famoso do Japão e quiçá do mundo. Com seus 3776m o Monte Fuji tem a forma de um cone quase perfeito e teve a sua última atividade vulcânica em 1707 e desde então encontra-se adormecido.

A nossa ideia de ir ao Japão surgiu bem no início do ano quando uma companhia aérea chamada Ethiopian Airlines fez uma promoção de passagens ao Japão pela metade do preço. Na época, a companhia aérea estava ampliando a sua malha aérea e uma das formas de divulgação era por meio desta promoção. Assim que decidimos encarar a tal Ethiopian, o nosso segundo passo foi escolher a época do ano. A melhor época para ir ao Japão é sem dúvida no outono, pois a paisagem fica incrível com muitas cores quentes. Entretanto, como queríamos subir o Monte Fuji teríamos que ir no verão, uma vez que no outono a temporada de escalada estaria fechada.

Monte Fuji visto do trem bala. A única imagem da montanha...
Monte Fuji visto do Trem Bala. A única imagem da montanha…

Lendo os relatos na internet, parecia que ir ser moleza. As pessoas falavam que era puxado, mas que dava para ir de boa. Li relatos de pessoas fazendo em 4h a subida. Além disso, segundo as estatísticas, em 2012, mais de 36 mil pessoas (!!!!!) subiram ao cume da montanha por uma das 4 rotas que levam ao cume. Mas os números me diziam outra coisa. Pela rota mais usada, a Kawagushi-ko, também conhecida como Yoshida, a caminhada começa a 2305m de altitude, na 5a estação. Ao todo são 10 estações, mas o ônibus te larga na 5a estação. Ou seja, são mais de 1400m de desnível em aproximadamente 6km de caminhada. Para se ter uma ideia é mais ou menos como subir o Pico da Bandeira 2 vezes. O que dá em média umas 6h de caminhada até o cume mais 4h de descida até a 5a estação.

Estrategicamente há duas formas de subir o Monte Fuji: (1) saindo no final do dia da 5a estação até o cume em uma única puxada para ver o sol nascer do cume e descer no início da manhã, fazendo tudo em uma longa jornada de 12h; ou (2) subir perto do meio-dia até um dos vários refúgios que tem ao longo da trilha, descansar um pouco para fazer o ataque final de madrugada e ver o sol nascer para depois descer. Nós optamos uma estratégia mais conservadora e escolhemos dormir um pouco em um refúgio, dividindo a escalada em 2 partes.

Sempre digo que não existe escalada fácil, o que existe é dia fácil. Mesmo lendo todos os comentários de que a subida era fácil que a trilha é bem sinalizada e tem toda uma infraestrutura, uma montanha sempre será uma montanha e merece o nosso respeito.

Como o nosso cronograma de viagem era bem apertado, não tínhamos muitas escolhas nas datas. Se no dia da escalada o tempo estivesse ruim, não teríamos muita margem para ajuste. Na verdade, meses antes, já tínhamos uma data e se não fosse naquela data, não teria outra opção senão abortar a escalada.

Por azar, assim que chegamos no Japão, começamos a ouvir nos noticiários que um tufão estava varrendo o Japão. Ficamos apreensivos com a notícia e tudo indicava que bem na data da escalada o tufão estaria passando pela região do Monte Fuji. Ficamos de olho no tempo e aguardamos até a última hora para decidir se iríamos, ou não, fazer a escalada.

Na véspera da subida, a previsão do tempo indicava que o tufão passaria longe e que na região do Monte Fuji iria “apenas” chover pela manhã e a tarde o tempo melhoraria; e no dia seguinte, o tempo ficaria perfeito. Assim, com fé na previsão do tempo, decidimos subir o Monte Fuji.

O Japão é um país que sofre muito com as catástrofes naturais: é terremoto todos os dias, vulcão entrando em erupção, tsunamis e tufões. Por isso, o país possui um dos melhores sistemas de monitoramento climático do mundo. A previsão de tempo é tão precisa que os aplicativos conseguem mostrar se nas próximas 2h irá chover ou não e que horas a chuva irá começar com precisão de minutos. Por isso, quando a previsão do tempo falou que o tempo iria melhorar, não pensamos duas vezes.

Saímos de Tokyo sob chuva e vento intenso. Sob condições normais jamais iria para uma montanha naquelas condições. Na estação de ônibus vimos a chuva cair de lado e ver gente tendo o guarda-chuva sendo virado pelo vento.

Viajamos de Tokyo à 5a estação do Monte Fuji de ônibus por umas 2h, sempre com a chuva nos acompanhando. Chegamos na estação por volta do meio-dia sob uma leve garoa, almoçamos por ali mesmo para matar o tempo e esperar o tempo melhorar.

Por volta da uma hora da tarde, ainda sob chuva fina, começamos a caminhada rumo à estação 8,5, onde fica o refúgio que reservamos previamente. Na verdade há refúgio desde a 5a estação até a 8,5a estação, mas infelizmente o único refúgio que aceita reserva pela internet fica no ponto mais alto.

Às vezes não entendo o Japão, um país super moderno, mas que por vezes é super arcaico em outros aspectos….

Placa de sinalização, não tem como se perder.
Placa de sinalização, não tem como se perder.
Início da caminhada sob chuva...
Início da caminhada sob chuva…
Antiga sinalização da trilha em japonês escrito: caminho para subir a montanha.
Antiga sinalização da trilha em japonês escrito: caminho para subir a montanha.

Uma hora e meia depois de começarmos a caminhada, conforme a previsão do tempo, o céu abriu totalmente e trouxe novos ares de motivação, pois já estávamos um pouco cansados de ficar caminhando ensopados na chuva sem conseguir ver muita coisa. Assim que o tempo deu uma firmada, revigoramos as energias e seguimos por uma trilha infinita em zigue-zague. A caminhada em si não é muito difícil, no início a trilha é bem agradável até a 6a estação, depois a trilha fica mais íngreme e o solo mais pedregoso, o que dificulta um pouco a progressão, mas sem grandes problemas por uma trilha bem sinalizada com cabos para não ter erro.

A hora do rush no monte Fuji.
A hora do rush no Monte Fuji.
Em algum lugar entre a Estação 6 e a 7. Muito caminho pela frente até o cume...
Em algum lugar entre a Estação 6 e a 7. Muito caminho pela frente até o cume…
Montanhistas a cima das nuvens.
Montanhistas acima das nuvens.
A sombra da própria montanha ao entardecer.
A sombra da própria montanha ao entardecer.

Por volta das 19h, após quase 6h de caminhada, já sob a luz das headlamps, finalmente chegamos ao nosso refúgio. No estágio final, ficava pensando: maldita hora que fui reservar esse refúgio, por que não reservei um refúgio mais abaixo, assim já estaria de boa descansando no calor…

Chegamos bem cansados no refúgio a 3450m de altitude. Particularmente cheguei meio ruim, talvez por ter subido muito rápido e por ter me alimentado um pouco mal durante a tarde. Tentamos descansar um pouco no beliche comunitário que foi nos fornecido pelo refúgio e depois jantamos a comida do lugar. Por volta das 21h já estávamos de volta na cama para tentar descansar um pouco, pois a ideia era acordar às 2h da madrugada para às 3h fazer o ataque final ao cume. Como esse era o último refúgio, estávamos a apenas 1h 20 de caminhada até o cume, então não teríamos muitos problemas no dia seguinte.

Durante a madrugada, o vento aumentou bastante e as rajadas ficaram bem fortes. Às duas horas da madrugada, quando acordamos, o vento parecia mais forte ainda. Várias pessoas que estavam no refúgio começaram a se arrumar para encarar a escuridão e o vento para fazer o ataque. Levantei junto com o pessoal e fui até a sala do refúgio e vi muita gente amontoada ali. Os refúgios não podem negar abrigo às pessoas que não se hospedam, mas uma vez que usam o espaço, obrigatoriamente precisam fazer alguma consumação. Pela cara das pessoas que estavam chegando ali, a coisa não parecia estar muito boa lá fora.

Como a Paula não tinha conseguido pregar os olhos por causa do efeito da altitude e eu também não estava me sentindo bem, achamos por bem esperar o dia amanhecer para ver o que faríamos, pois do jeito que estávamos e com o vento que estava lá fora naquela escuridão, temi pela nossa segurança.

Assim que algumas pessoas partiram para o ataque, o refúgio caiu num silêncio que era apenas interrompido pelo som das rajadas de vento e a cada uivada de vento agradecia por estar ali deitado nos “futons” quentinho.

Por volta das 5h da manhã fomos acordados pela luz do sol que invadiu o refúgio e saímos correndo para ver o espetáculo na sacada do refúgio.

Aos poucos, com o calor do sol e a luz do dia a temperatura foi gradativamente subindo, mas o vento continuava incessante. Resolvemos encarrar o vento e tentar ir até o cume, afinal de contas estávamos tão perto que não custaria fazer uma tentativa.

Arrumamos as coisas rapidamente e por volta das 6h iniciamos a caminhada final até o cume.

Amanhecer visto da estação 8,5.
Amanhecer visto da estação 8,5.

Da 8,5a estação até o cume são “apenas” 1h30 de caminhada para vencer uns 350m de desnível por uma trilha pedregosa. Mas com o vento, o que era para ser fácil ficou bastante complicado. Como o vento não era constante, mas sim em rajadas, de tempo em tempo éramos obrigados a parar de caminhar para conseguir nos equilibrar e nos manter em pé. As rajadas eram tão fortes e repentinas que se te pegasse na hora errada, facilmente derrubava uma pessoa. Nessas, vi um chinês sendo jogado para fora da trilha num momento de descuido e por pouco o cara não se machuca de verdade.

Após 1h30 de muita luta, finalmente chegamos no cume do Monte Fuji. Como o vento estava “lambendo” a montanha pelo lado oposto ao que estávamos subindo, o vento estava mais forte ainda. Tentamos nos abrigar em vão em um dos vários prédios que tem na área, mas o vento vinha de todos os lugares e era praticamente impossível de ficar em pé. Em meio ao caos, sem querer, achamos uma porta escrito “entrada” em japonês e sem pensar duas vezes, nos jogamos lá dentro. Por sorte era um pequeno abrigo e lá dentro um dúzia de pessoas com caras de acabados estava descansando no calor da calefação. Bebemos alí o chá mais caro de toda viagem, R$ 15,00 por um copo de chá em copo descartável, e tentamos reunir forças para encarar a volta.

Chegar no cume de um montanha é sempre uma surpresa, a gente nunca sabe o que vai encontrar. Talvez a graça de subir uma montanha esteja aí. E com certeza, o cume do Monte Fuji foi um daqueles cume que vai entrar para história. Não lembro de ter chegado num cume da montanha e ter me jogado para dentro de um abrigo para fugir das intempéries…

No fim, nem conseguimos curtir direito o cume por causa do vento e do frio. Assim que criamos coragem para sair do abrigo, fomos, correndo, ou sendo levados pelo vento para baixo da montanha. Para se ter uma ideia, o normal é subir por uma trilha e descer por outra, mas por causa do vento forte, fomos fortemente recomendados a descer pelo mesmo caminho da subida, pois a trilha da descida estava muito exposta ao vento.

Cume!!!
Cume!!! Tentando comemorar em meio ao vento. Tivemos que nos abrigar para conseguir fazer uma foto!

A medida que íamos descendo, íamos nos desvencilhando aos poucos do vento e após 4h de caminhada morro abaixo, finalmente estávamos de volta à 5a estação para pegar um ônibus de volta a Tokyo.

Foram apenas 24h na montanha mais alta do Japão, mas com certeza foi uma daquelas experiências que levaremos para vida. Se eu, que estou acostumado a passar veneno todo final de semana achei difícil, com certeza foi mais difícil ainda para a Paula, que não está acostumada a esse tipo de privação, mas que levou na “boa” todos os desafios impostos! Parabéns a nós! E um “campai” com sakê!

Comentários

2 respostas em “Japão – De volta para o futuro – Monte Fuji”

Olá,
Gostei muito do seu relato da subida do Monte Fuji e nos ajudou bastante para saber o horário que precisamos subir e aonde podemos ficar .. Eu e meu namorado estamos pensando em encarar esse desafio pois vamos para o Japão agora em Julho. Porém, não temos experiência com montanhas e nem muito preparo fisico e estamos receosos quanto a isso. Vi que reservaram pela internet para se hospedarem na parada 8,5 será que voce teria o site pelo qual reservaram? Pois não estamos achando site para reservas próximo ao cume… Obrigada!

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