Dias atrás, comecei a escrever um post sobre graduação de vias, falando sobre tabelas de conversão. Sabia que era um assunto difícil, mas não esperava que fosse tão profundo. O que seria um texto curto, de poucos parágrafos, ganhou novos contornos e confesso que deu mais trabalho do que o esperado — mas foi um ótimo estudo.

Ao longo desse processo, percebi que, para entender a graduação brasileira, era necessário compreender a graduação francesa, que por sua vez tem origem no sistema UIAA. E, para complicar um pouco mais, ainda existe o Yosemite Decimal System (YDS), que corre em paralelo. É claro que há outras graduações — como a britânica, australiana, russa, entre outras —, mas como não tenho experiência prática com elas, nem ousei entrar nessa seara, que já estava suficientemente complexa.
Disclaimer
Um disclaimer importante: a tabela final que apresento ao fim do post, como conclusão deste estudo, é apenas mais uma entre tantas outras. Na internet existem inúmeras tabelas de conversão e, se você analisá-las com calma, perceberá que quase todas são diferentes entre si. Não tenho a pretensão de apresentar uma versão “oficial” do Brasil — trata-se apenas de mais uma proposta, construída a partir de uma pesquisa mais aprofundada e da minha própria experiência.

Voltando um pouco no tempo para tentar entender o sistema brasileiro: não sei exatamente em que ano surgiram as graduações no Brasil, mas muito provavelmente isso ocorreu na década de 1940. O fato é que, historicamente, o sistema brasileiro adotou o padrão UIAA, por forte influência europeia no país — não somente na escalada, mas em vários aspectos do cotidiano.
UIAA
O sistema UIAA foi introduzido pelo alemão Willi Welzenbach em 1926 e posteriormente adotado oficialmente pela UIAA. Ele classifica a dificuldade de I a VI, em algarismos romanos, sendo o VI o grau máximo da época. Entre os números, utiliza-se o símbolo “+” para indicar uma dificuldade ligeiramente maior e “–” para lances mais fáceis. Com o tempo, surgiram graduações acima do VI e, atualmente, o sistema permanece aberto.
De forma bem resumida, segundo a UIAA, cada grau pode ser entendido da seguinte maneira:
I – Escalaminhada, com uso frequente das mãos para manter o equilíbrio. É necessário ter confiança nos pés e nas mãos.
II – Início da escalada propriamente dita, com movimentação de um membro por vez, ainda com muitas agarras disponíveis.
III – Rocha mais inclinada ou já vertical, com menos agarras, podendo exigir uso de força. Os lances ainda podem ser resolvidos de diversas formas.
IV – As agarras tornam-se mais raras e menores. Exige boa técnica de escalada (chaminé, oposição, entalamento, aderência etc.) e certo grau de treinamento específico.
V – Agarras muito raras e pequenas. A escalada torna-se delicada ou fisicamente exigente, geralmente requerendo leitura prévia do lance.

Algumas considerações importantes: o grau é atribuído, tradicionalmente, ao lance mais difícil (crux). Vale lembrar que, originalmente, a escalada era praticada em terreno alpino, em grandes montanhas, onde trechos fáceis eram intercalados com lances mais difíceis. Ou seja, o grau se refere aos pontos mais duros da via, e não à enfiada ou ao trecho na totalidade (grau médio).

Outro ponto fundamental é que o grau reflete somente a dificuldade técnica, não considerando exposição nem dificuldade psicológica.
Aqui, vejo que surge o primeiro grande problema ao transpor o grau UIAA — definido em ambiente alpino — para as montanhas brasileiras, em especial para nossos granitos e gnaisses. Geologicamente, as rochas do Brasil são muito diferentes, em origem e feições, das montanhas dos Alpes. Além disso, o grau de uma via ou lance é definido por comparação, pois não existe uma fórmula matemática para isso. Ele é, portanto, subjetivo e consensual. Ter mais experiência amplia o repertório de comparação, mas a subjetividade permanece. Uma pessoa que já escalou mais de dez vias em chaminé, por exemplo, terá muito mais facilidade nesse tipo de lance do que alguém que escalou apenas duas.
Neste link há um vídeo do Adam Ondra falando sobre o assunto e sobre a responsabilidade do primeiro ascensionista ao sugerir um grau. No caso dele, essa responsabilidade pesa ainda mais, pois sua opinião tem grande influência na comunidade.
Com base na descrição da UIAA e trazendo isso para a realidade dos costões de granito do Brasil, podemos fazer algumas transposições aproximadas:
Um I seria algo como a subida de um costão levemente inclinado, muitas vezes feita com calçado comum durante uma aproximação; Um II seria aquele trecho mais delicado de um costão, em que já é preciso confiar na aderência do tênis. Embora a definição fale em “muitas agarras”, no granito brasileiro isso raramente existe. Algumas pessoas, menos acostumadas ou com calçado inadequado, podem precisar usar sapatilhas ou até se encordar; Um III seria um lance mais inclinado, como o famoso bloco do Costão do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro; Já os graus IV e V correspondem à escalada propriamente dita, exigindo noções de técnicas de escalada.
Até o VI grau — máximo da época — o Brasil adotou o sistema UIAA praticamente sem modificações formais, ainda que, na prática, já houvesse uma adaptação implícita à realidade da rocha tropical. Em algumas tabelas de conversão, surgem pequenas diferenças entre o grau brasileiro e o UIAA, provavelmente relacionadas ao tipo de rocha e ao estilo local.

Sistema Francês
Na década de 1980 surgiu, na França e também nos EUA (especialmente em Smith Rock, Oregon), o movimento que daria origem à escalada esportiva. Rapidamente ficou claro que existiam escaladas mais difíceis que o VI UIAA. Como o sistema era fechado, surgiu um impasse: a geração mais antiga não aceitava a existência de dificuldades acima do VI, pois era impossível, enquanto os franceses precisavam graduar essas novas vias de alguma forma. Assim nasceu o sistema francês, uma continuação do UIAA, mas utilizando algarismos arábicos, com subdivisões em letras (a, b, c) e o uso do “+” para refinamento: 7a, 7a+, 7b, 7b+, 7c, 7c+, 8a etc. A leitura passa a ser ordinal.
Outro ponto importante é que o grau francês considera o grau médio da via, levando em conta fatores como resistência e continuidade, e não apenas o crux.
Atualmente existem métodos e até aplicativos que tentam estimar esse grau médio, combinando a dificuldade dos crux’s com fatores como descanso e continuidade. Ainda assim, o grau final permanece consensual, e não matemático.

Sistema brasileiro
O Brasil, também a partir da década de 1980, entrou nesse movimento e adotou uma adaptação própria, fortemente inspirada na escola francesa. Inicialmente, utilizava algarismos arábicos ordinais com subdivisões de “a” a “c”, sem o uso do “+”. Não consegui encontrar uma justificativa clara para a eliminação do “+”, mas isso acabou gerando uma confusão que persiste até hoje.
Após uma revisão da CBME, o sistema brasileiro foi padronizado em 2007 (?). Para vias esportivas, os numerais passaram a ser toda em romanos, lidos em ordinal, mantendo as subdivisões a, b e c a partir do VIIa. Para graduações abaixo de VIIa, manteve-se o numeral romano em leitura cardinal, utilizando apenas o termo “SUP” para refinamento: V, V SUP, VI, VI SUP, VIIa, VIIb, VIIc, VIIIa.
Apesar desse padrão, ainda é comum — inclusive aqui no site — o uso de algarismos arábicos para graduações acima de 7a. Outro aspecto curioso é que, em algumas regiões, como a Serra do Cipó, o 5º e o 6º graus ainda são subdivididos em a, b e c (6a, 6b, 6c). Enquanto que em outras áreas, esses graus foram convertidos para o novo padrão, agrupando 6a e 6b em VI e 6c em VI SUP.

Uma vez compreendidos os três sistemas — UIAA, francês e brasileiro — surge a pergunta: como eles se relacionam entre si? Ao tentar compará-los, as divergências ficam evidentes.
Uma simples busca na internet revela dezenas de tabelas de conversão, muitas delas contraditórias. Em uma, um 6a brasileiro equivale a um 5.10a americano e a um 6a francês; em outra, o mesmo 6a brasileiro aparece como equivalente a um 5.9 americano e a um 6b francês.
Então, qual tabela usar? Existe uma tabela correta?

Yosemite Decimal System
Falta ainda falar da graduação americana, o Yosemite Decimal System (YDS), criado em 1937 e refinado nas regiões de Tahquitz e no Vale de Yosemite. O sistema é dividido em cinco classes, sendo que a partir da classe 5 começa a escalada técnica, com subdivisões de 5.0 a 5.9 — este último sendo o grau máximo da época. A partir da década de 1960, percebeu-se que o sistema era insuficiente, levando à criação do “mítico” 5.10, que também enfrentou forte resistência da escola mais conservadora.
A transição do 5.9 para o 5.10 nos EUA é historicamente equivalente à ruptura do VI UIAA e do 5+ francês para o 6a, ocorrida em continentes diferentes. Por isso, algumas tabelas consideram o 6a francês equivalente ao 5.10 americano, enquanto outras não. Na tabela final que apresento, deixo margem para ambas as interpretações, respeitando as peculiaridades locais.
Um aspecto interessante é que o YDS, assim como o UIAA tradicional, considera apenas o lance mais difícil, desconsiderando o restante da via. Por isso, em vias mais antigas, é comum encontrarmos enfiadas que parecem mais difíceis do que o grau proposto.
O YDS também não considera comprometimento nem qualidade das proteções, o que pode aumentar a sensação de dificuldade, especialmente em vias tradicionais. Uma coisa é escalar uma enfiada de 7a com chapeletas a cada dois metros; outra bem diferente é escalar o mesmo grau protegido apenas por um nut #0 no meio da enfiada.

Minha dica é simples: se você for escalar no exterior, não faça conversão. Use a graduação local. A máxima “quem converte, não se diverte” também vale para a escalada.
Vale lembrar que, mesmo dentro de um mesmo país, cada pico possui estilo, história e particularidades próprias. Picos como Buoux, na França, são conhecidos por graduações mais duras em comparação com outras áreas próximas, como Gorges du Tarn — muito por fatores históricos.
Além disso, o estilo de escalada de cada local, comparado àquele ao qual o escalador está acostumado, pode fazer uma via parecer mais fácil ou mais difícil. Quem escala em calcário sabe como o granito pode ser estranho — assim como quem está acostumado a vias negativas pode sofrer em uma fenda de mão muito difícil.
Voltando à tabela de comparação: a partir do 7a francês, 5.11d americano e 7c brasileiro, há um consenso razoável entre as tabelas. Abaixo disso, especialmente do 7c brasileiro para baixo, as divergências são grandes.

Para reduzir a confusão, do I UIAA até o V, optei por manter o sistema francês e o brasileiro equivalentes como aproximação didática, considerando a história apresentada acima. Já para o YDS, utilizei minha experiência pessoal para refinar a conversão. Na última coluna da tabela, incluí algumas vias de referência que já escalei (com exceção da Southern Comfort, claro) para ajudar nessa calibração.
Entre o V UIAA e o 7c brasileiro, confesso que tive bastante dificuldade em chegar a um consenso. Por isso, em vez de apresentar uma única conversão, deixo margem para variações. Por exemplo, um 5.9 pode ser um 5+ francês ou um V SUP, dependendo do local; em outros casos, pode ser um 6a, equivalente a um VI brasileiro. O mesmo ocorre com o 7a brasileiro, que pode corresponder a um 6b+ ou 6c francês, e a um 5.10d ou 5.11a americano.
O que mais me ajudou a resolver o intervalo entre o 6º e o 7º grau brasileiro foi uma anotação que fiz em um guia de escalada de Arco. Com base na minha experiência e em conversas com o Andres, cheguei a uma conversão que se mostrou bastante coerente.

Para graduações acima de 9a brasileiro, não tenho experiência suficiente para opinar. No entanto, algo que observo com frequência é que, em média, o grau brasileiro tende a ser mais “soft”, com algumas exceções pontuais — como certas vias da Chapada Diamantina – BA. Por isso, na tabela, há pequenos desalinhamentos: alguns 8a brasileiros correspondem a 7a franceses, por exemplo.

Não tenho a pretensão de oferecer uma solução definitiva para um tema tão complexo. Trata-se somente de um estudo pessoal, cujas conclusões compartilho aqui. Nada impede que, no futuro, com novas experiências em outras vias e regiões, essa tabela seja revista e atualizada.
Neste link há um texto escrito por G. Mandelli, A. Angriman da escola italiana que discorre longamente sobre graduação de vias, não só em livre, mas também em artificial, gelo…

Fico aberto a críticas e sugestões. No campo abaixo, há um espaço para comentários.
2 respostas em “Tabela de conversão de graduação”
Que top, Japa! Excelente análise, contribuiu muito para esse assunto.
Viu como tudo eh 5o grau? Hahahahaah