A chaminé grande nos surpreendeu: em toda a nossa vasta experiência excursionista, acumulada durante longos anos de prática do esporte, nunca havíamos deparado com uma chaminé tão extensa, vazada de ambos os lados, sem nenhum descanso intermediário. Avaliamo-la em 45 metros, ou seja, a altura de um edifício de quinze andares. A maior do gênero (lance livre) que conhecíamos até então era a da Agulha do Diabo, com 18 metros. O adiantado da hora e o cansaço não nos animavam. Começou o inevitável “Jogo de Empurra”: – Ninguém se anima? Após algum descanso, Pat iniciou os primeiros quinze metros de rala-costas, no fim dos quais começou a preparar o orifício para colocação de um grampo. Decorrido algum tempo Jimmy subiu para substituí-lo, terminando a cravação do primeiro “grampo de expansão” (13:00 hs). Jimmy, até então na retaguarda, mostrou ser o escalador de fibra e resistência de que sempre ouvíramos falar. Prosseguindo à frente, ainda colocou mais dois grampos (13:30 e 15:50), sendo o último a um espaço de mais de vinte metros do primeiro. Só a falta de um quarto grampo obrigou-o a voltar. Retornamos exaustos ao acampamento. Dia 16 – Tempo nublado e ameaçador. Apreensivos, subimos à base da chaminé auxiliados por noventa metros de cordas fixas, estendidas nos paredões iniciais. Às 10:00 h atingimos a chaminé. Novamente Jimmy atirou-se à luta como “cão raivoso”. Hamilton seguia-lhe pouco atrás para manobrar a corda de segurança. Após meia hora de ansiedade ouvimos a notícia da colocação de mais um grampo e, pouco depois, Hamilton, pondo fim a um suspense enervante, nos gritou que Jimmy vencera a chaminé: num movimento de audácia, pulara da posição de uma perna de cada lado da chaminé para cima do platô, idêntico à unha da Agulha do Diabo. Hamilton, Pat, o tronco e finalmente eu, chegamos a esse platô. A derradeira etapa em direção à meta final foi a colocação do tronco da unha para o pontão, por sobre a chaminé, destarte servindo de ponte por onde Pat atravessou o vazio de aproximadamente 3 metros da chaminé, galgando o cume do maior dos três pontões de Afonso Cláudio. Eram exatamente 12:00 horas do dia 16 de julho de 1958. De baixo, ouvimos vários tiros dos colonos que já nos acompanhavam com vivo interesse. Por feliz coincidência, vinha chegando à base o Prefeito trazendo em seu carro Olga e Astrid que confessaram grande emoção ao avistarem, de longe, uma bandeirinha tremulando e, logo abaixo, quatro vultos que tinham aos seus pés uma das mais belas montanhas do nosso país.
Fonte:http://www.carioca.org.br/blog/posts/tres-pontoes-de-afonso-claudio