Conquista na face leste dos Três Pontões de Afonso Cláudio (ES)

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Robinho, Afeto e Itamar curtindo o pôr do sol nos Três Pontões de Afonso Cláudio e estudando a linha para o dia seguinte.  (Nikon D600)

Em 2001, os escaladores de Afonso Cláudio, Robinho e Emerson iniciaram uma conquista na imponente face leste dos Três Pontões de Afonso Cláudio (foto acima). Após algumas investidas, a dupla concluiu 5 enfiadas de aproximadamente 30m até chegar a uma grande caverna no meio da parede (vide croqui no final). Desde então, o projeto acabou ficando “esquecido” por uma série de contratempos.

Na semana passada, o Afeto lembrou desse projeto e botou a maior pilha para gente voltar lá com o Robinho para concluir esse projeto. Daquele jeito motivado, ele me contou que a linha seguia de “buraco em buraco” até chegar numa caverna gigante e que dali para cima era “bem tranquilo” até o cume.

Quando ele me falou desses “buracos incríveis” onde você consegue entrar nela, na hora me lembrei dos buracos que têm lá em Caçapava do Sul! E logo conclui que não seria nada fácil. Entrar escalando num buraco do tamanho de uma pessoa é sempre trabalhoso, sair dele então… Quem já escalou no setor da Lua em Caçapava sabe do que estou falando. Você escala todo engavetado!

Durante a semana, o Afeto contactou o Robinho e ele ficou muito animando em voltar ao projeto e nos passou mais alguns detalhes sobre a via. Ele nos contou que as primeiras 5 enfiadas eram “bem fáceis” e bem protegidas com grampos (ufa!) e que a linha seguia de um buraco ao outro (como em Caçapava?). Também nos falou que o grau não passava de um 5o grau fácil.

O Robinho é uma daquelas pessoas que são referência no esporte. Eu sempre ouvia dele, mas não o conhecia pessoalmente. Cinquentão, grisalho com cara de moleque, Robinho é uma daquelas pessoas que transmite tranquilidade, simpatia e muita vitalidade. E adora uma trova…

Toda essa história era bom demais para ser verdade. Lendo as mensagens do Afeto no zap-zap parecia que ia ser um conto de fadas… E eu já não tenho mais idade para acreditar em contos de fada…

Prevendo a dimensão da empreitada resolvemos nos encontrar no sábado em Afonso Cláudio para partir no domingo bem cedo para a pedra. Assim, eu e o Afeto fomos para os Três Pontões no sábado a tarde.

Mas para um “contos de fada” ser um conto, estava faltando alguém nessa história: o DuNAda! Sem ele a roubada não é uma roubada completa. Então, jogamos ele para dentro desse “contos de fada”, pois sempre tem um fofinho simpático nos contos de fada!

Chegamos no final do dia de sábado na pedra. O anfitrião Robinho e o Itamar, proprietário do Cantinho dos Três Pontões, nos levaram até um mirante para um reconhecimento e algumas fotos de final do dia. Naquela tarde tive a primeira visão da face leste da pedra. Eu já estive nessa pedra numa outra ocasião pela face sul, que não tem nada a ver com a leste. A primeira impressão que tive ao ver aquele imenso monolito foi: cadê o 5o grau? Não sou nenhum especialista, mas em 7 anos de escalada em granito eu aprendi, pelo menos, a reconhecer uma linha de 5o grau. E ali, por mais que eu tentasse, não conseguia traçar no meu imaginário nenhum 5o grau na pedra.

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Trovando! Robinho e Afeto falando sobre clima, política, escalada, agricultura e outros temas. (Nikon D600)

Acordamos no domingo às 4h da madrugada. Eu e o Afeto pernoitamos confortavelmente no Cantinho dos Três Pontões e o Robinho e o DuNada dormiram em Afonso Cláudio. Assim, nos encontramos no Cantinho dos Três Pontões às 5 horas e partimos para a pedra a luz das lanternas.

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Arrumando os equipamentos sob a proteção das estrelas. (Nikon D600)

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Aproximação. Estava me sentindo um peixinho na boca do tubarão. (Fuji x100s)

Chegamos na base da via às 6h em ponto. Quando vi o primeiro grampo da via confesso que fiquei um pouco apreensivo. Eu estava esperando uma saída em rampa cheia de agarras, mas quando vi era um vertical a negativo com algumas agarras.

Assim que costurei o primeiro grampo senti que a pedra tentava me expulsar com força para fora. Trinquei os dentes e fui com tudo em direção ao segundo grampo. No meio do caos, ouço o Robinho falar: mas esse trecho a gente faz se segurando nos grampo! Que? Como assim? Passei o lance e segui pedra acima até a parada. Ainda tentando me recuperar do susto consegui ouvir o Robinho falar para o Afeto: vocês não se seguram nos grampos, né? Nem pisam neles! Nessa hora a ficha caiu! É claro, pisando nos grampos e artificializando os lances é claro que pode ser um 5o grau fácil, mas vindo em livre é um 6o grau de parede!

Vale lembrar que a via foi conquistada em 2001, numa época em que a escalada capixaba ainda tinha uma outra visão. E os conquistadores, Robinho e Emerson, não vinham de nenhuma escola, mas sim criando a sua própria escola de montanhismo, baseada em muita vontade e coragem. Então, para eles o conceito de MEPAR nem passava pela cabeça deles. O que importava era chegar lá no cume!

Com tudo mais claro e refeito do susto seguimos pedra acima. Sempre que possível passando em livre e tentando imprimir um estilo mais “MEPADO”. Assim, das 5 enfiadas conseguimos livrar 3 e em duas enfiadas tivemos que passar em A0 dois lances.

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DuNada dando segue na P1 ao nascer do sol. (Fuji x100s)

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Robinho na travessia da 2a enfiada. Lance conquistado em artificial e repetido em livre.  (Fuji x100s)

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Afeto na P5 conferindo a verticalidade da pedra, ou rindo da desgraça alheia. (Fuji x100s)

Assim que chegamos no grande platô que marca o fim da conquista de 2001 fiquei impressionado com o empenho da dupla. Além da visão futurística da linha fiquei de cara com a coragem dos dois ao encararem uma pedra tão vertical batendo os grampos na mão.

Ah, sobre os tais buracos que o Afeto tanto falava! Sim, eram como eu imaginava. Uma desgraça para entrar e outra desgraça para sair. Era sempre um crux de balcão ao melhor estilo boulder para entrar nos buracões e passada em negativo para sair dele!

Chegamos no grande platô por volta do meio-dia. E segundo os cálculos tínhamos a tarde toda para conquistar a outra metade de pedra.

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No grande buraco da P5. Pausa para o almoço. (Fuji x100s)

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Cardápio do dia, batata-doce preparado pelo Robinho. Será esse o elixir da juventude? (Fuji x100s)

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Pequeno totem no buraco. (Fuji x100s)

O Robinho já tinha nos falado que havia uma fenda bem promissora que poderia ser usada para prosseguir a conquista. Inclusive na época da conquista, ele chegou a confeccionar com galho de goiabeira (!!!!!), uns pitons de madeira para vencer o lance!!!! Quando nós conseguimos visualizar a linha ficamos atônitos! Era uma fenda perfeita de uns 30m que começava em chaminé para finalizar em oposição para ganhar um grande platô. Na hora, não sabia se eu ficava feliz por não ser o próximo ou triste por não poder conquistar aquela fenda incrível. Como a vez era do Afeto, lá foi o menino, como uma árvore de natal levando aquelas peças gigantes fenda acima. Na oposição final, ele dava dois passos e colocava uma peça. Mais dois passos e outra peça. Lá de baixo achei exagero, mas quando subi, entendi o motivo! O lance é muito aéreo e vertical!!!!

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Piton caseiro feito de galho de goiabeira (2011). A dupla pretendia usar ele para conquistar a fenda abaixo. (Fuji x100s)

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Afeto conquistando a fenda da 6a enfiada. (Fuji x100s)

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DuNada jumareando a 6a enfiada. (Fuji x100s)

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Robinho limpando a 6a enfiada. (Fuji x100s)

Vencida a primeira fenda vinha a segunda (7a enfiada), um pouco mais curta, mas igualmente dura. Como eu era o próximo da lista, nem fiquei olhando muito para ela para não adrenar! De fato, a fenda, um misto de oposição em negativo com chaminé, exigiu muito empenho. No final, quando os Pampers ficaram cheios tive que apelar para o artificial para vencer a enfiada!

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Tentando colocar em prática todo o aprendizado Yosemiteano para me entalar na fenda. 7a enfiada. Foto: Afeto (Gopro).

A oitava enfiada é com certeza o crux da via, pois transcorre na seção mais aérea da pedra, na final do negativo início da rampa final. A enfiada foi conquistada em um misto de artificial com lances em livre, mas possivelmente poderá ser livrado no futuro. Essa enfiada foi conquistada pelo Afeto e conta com aproximadamente 30m de extensão.

Chegamos na P8 às 18h20, faltando apenas mais uma hora de luz. Descer dali seria muito complicado. Seriam uns 7 rapeis com lances em negativo, diagonais e risco de a corda prender. A essa altura, a melhor opção seria ir até o cume e descer pelo outro lado (face sul), por uma linha mais limpa e conhecida. Olhando da parada dava para sentir o cheiro do cume. Peguei rapidamente os equipos e tentei escalar o mais rápido possível. Logo na saída tive que escolher entre duas canaletas. Uma mais limpa, vertical e imponente ou uma mais à direita suja e menos inclinada. Sob condições normais escolheria a canaleta da esquerda, mas ali não era uma condição normal, então optei pela canaleta suja. Fui me puxando nos capins secos e me segurando no que dava. Bati 2 chapas, protegi em um ramo de galho e de repente cheguei num colo familiar! Era o colo que tinha passado em 2014 e que levava para o cume do Pontão Maior!!! Bingo, mais um esticão e cume!!!!!

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Pôr do sol  visto do Pontão Maior para o sul. À esquerda a Pedra Azul e ao centro o Pico do Forno Grande.

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O sol se pondo no horizonte anunciando a chegada da escuridão. É bonito para caramba, mas dá aflição pensar que vai ter que descer a noite a montanha.

Chegamos no cume por volta das 19h45. Comemos qualquer coisa e começamos o longo caminho de volta até o carro pela face sul. Um rapel caustrofóbico de 50m, mais uma desescalada em uma chaminé cheia de bicho, mais 3 rapeis em grampo único e finalmente chegamos na base da pedra. Depois foram mais 1h de caminhada na trilha até chegarmos no carro às 23h.

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Perereca. Em algum lugar no meio da chaminé durante a descida.

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Desescalando a chaminé a noite. Que delícia!

Em meu nome e dos meninos, gostaria de agradecer ao Robinho por nos ter dado a oportunidade de concluir o seu velho projeto, pois essa foi uma daquelas escaladas que nós levaremos para o resta de nossas vias. Muito obrigado!

Agradecimento também ao Itamar por todo o apoio logístico (facilidade de acesso, abrigo, janta (deliciosa!) e umas Coca-Colas! Muito obrigado!

No portal da Folha da Terra de Venda Nova do Imigrante saiu uma matéria sobre essa conquista. Para ler, clique aqui!

jornal

Localização

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Croqui

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Face leste dos Três Pontões. Foto: Roberto Sarti.

Boca_da_serpente

1a enfiada: A via começa bem no colo da face leste dos Três Pontões. Neste ponto, saem duas vias: a Vândalos Inocentes à esquerda e a Boca da Serpente à direita. A primeira enfiada tem uns 20m e começa em diagonal à direita com um crux de 6o na saída (não obrigatório). A parada fica na segunda parada, dentro de um grande buraco.

2a enfiada: Outra enfiada curta de uns 25m em travessia à direita. O crux fica bem na virada de um teto em chaminé. Não há palavras no mundo que consiga explicar essa movimentação, mas é um lance acrobático de 6o grau. A parada fica logo em seguida à direita.

3a enfiada: A enfiada começa com uma dominada bem estranha até chegar num lance sem agarra. Ali, é preciso fazer um lance em A0 para ganhar um balcão e seguir a escalada (à direita). A enfiada transcorre de um buraco ao outro, indo para direita para depois voltar à esquerda. Nessa enfiada é preciso gerenciar muito bem a corda para minimizar o arrasto. A parada fica dentro de um buraco (é óbvio!!). 20m. 5o SUP com A0

4a enfiada: A enfiada segue para cima com um crux logo na saída (não obrigatório). Depois há um outro crux em um lance negativo que exige uma certa confiança nos cristais. A P4 foi duplicada para garantir maior segurança (grampo + chapeleta). 25m. 6o SUP.

5a enfiada: Logo na saída há uma movimentação bem estranha que foi passado em A0. Na saída do artificial há uma agarra muito suspeita que fica bem na linha do segurança. Atenção redobrada e levitação máxima para virar o lance. O crux da enfiada fica logo acima num lance de 6o (não obrigatório). Depois a linha segue até a grande caverna. A parada desse enfiada também foi duplicada (grampo + chapeleta). 30m. 6o grau com A0.

6a enfiada: Da caverna para cima, a via muda totalmente de estilo. Saem os grampos e entram os móveis. A saída da enfiada é bem óbvia, começa atrás de um grande bloco, seguindo uma chaminé, até bifurcar em 2 oposições após um bloco entalado. A linha transcorre pela oposição da esquerda até uma parada que fica logo na virada. Também há uma outra parada logo acima, num platô mais confortável. Essa enfiada foi apenas isolada, mas deve ser um 6o grau em móvel. 30m.

7a enfiada: No platô há uma fenda frontal bem óbvia e uma outra fenda em oposição à direita. A linha segue por essa oposição em negativo até a virada. A parada fica no final da fenda antes do negativo. Essa enfiada também foi apenas isolada. Sugerimos um 6o grau em móvel para ela. 25m.

8a enfiada: Enfiada mista com possibilidade de passar em livre. Começa nuns buracos até chegar num grande bloco entalado (!!!). Depois da virada, segue pela fenda até chegar na base de um grande teto à esquerda. Essa enfiada é protegida com chapas e peças. 30m. Lance de 6o grau obrigatório.

9a enfiada: A via segue à direita passando por muitos blocos. Depois desse lance há duas canaletas. A via transcorre pela canaleta da direita, onde há uma chapa no início (escondida) e outra na metade. Depois segue pela canaleta até o colo que separa o Tubarão do Pontão Maior. A parada fica no lado do Pontão Maior após um esticão (fácil) em agarrência.

10a enfiada: Enfiada comum a Chaminé Norte. O lance final que dá acesso ao cume foi originalmente conquistado usando uma escada de ferro que não existe mais. Atualmente o lance é vencido laçando o grampo do cume. 8m.

Descida: A melhor forma de descer é pela face sul, usando a parada da P9. Substituir as fitas! A descida por esse lado exige desescalada em chaminé, mais 3 rapeis em grampo simples (130m). Essa descida é bem complicada para quem não conhece a linha. Caso chegue no cume a noite, e não conheça bem a descida, o ideal é bivacar na área do Dedinho para continuar a descida com luz do dia.

Equipamentos para repetição

  • 2 cordas de 60m;
  • 2 jogos de friends, sendo 1 Camalot #6;
  • 8 costuras;
  • Fitas de diversos tamanhos;
  • Fita para abandono;
  • Capacete.

DICAS GERAIS

  • Um bom lugar para usar de base para a escalada é o Cantinho dos Três Pontões. O proprietário, Itamar, é um grande conhecedor da região. Um excelente lugar para pegar alguns betas de aproximação;
  • A face leste, durante o verão, pega sol pela manhã e sombra o resto do dia. No inverno, pega sol o dia todo;
  • Se escalar no verão, levar um anorak ou corta-vento, pois venta bastante;
  • Se descer pela face sul é possível voltar à base da via (no colo) subindo a grota. A caminhada é bem tranquila;
  • Usar sempre o capacete, pois há muita pedra solta;
  • Atenção redobrada com as quinas!
  • Nunca reutilize as fitas abandonadas nos rapeis, sempre remova a antiga e coloque uma nova!
  • Os grampos das 5 primeiras enfiadas são bem antigas, algumas bem oxidadas, atenção redobrada!

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Comentários

3 respostas

  1. Sem palavras para agradecer tantos momentos nas montanhas juntos, vocês são a minha maior inspiração na escalada GRATIDÃO por tudo meus amigos!!!

  2. Sou morador de Afonso Cláudio e acompanho o programa Abismo no Canal Off e gostaria de saber se essa escalada fará parte de algum episódio.

    Parabéns!

  3. Olá Max,
    Não, essa escalada não fez parte de nenhum programa. Foi uma escalada independente.

    Abs

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