Existem muitas razões e motivos que nos levam a abrir uma via. Às vezes é uma linha bonita, uma montanha nunca escalada, a busca por uma experiência ou uma homenagem.
Em 2019, o escalador André “Tesourinho” começou uma conquista em solitária na face leste da Pedra do Túnel, em Ibiraçu, porque queria fazer uma homenagem ao pai dele, que estava com problemas de saúde. Conquistar uma via em estilo solitário é, antes de mais nada, uma experiência interna; a via é apenas o produto dessa vivência.

Nessa investida de 2019, o Tesourinho esticou 35 metros de corda em dois dias de trabalho e baixou equipando a via com uma corda fixa na intenção de voltar na semana seguinte — semana seguinte que nunca se concretizou até o último sábado.
Anos depois, o Tesourinho me falou dessa via em alguma ocasião e disse que queria que eu o ajudasse a concluí-la. De imediato aceitei o convite, pois sabia da importância desse projeto, mas a ideia ficou sem data definida. Ficou naquele limbo: “qualquer hora…”.
No último sábado, Tesourinho e eu acabamos voltando para a Pedra do Túnel. Na verdade, esse não era o nosso plano original, pois a ideia era checar uma outra pedra em Fundão.
Semanas atrás, ele havia me mandado a foto de uma parede que achou durante um rolê de bike pela região. Na foto, dava para ver uma parede com fenda, mas o contexto geológico não batia com aquela formação estar ali. Peguei a localização, joguei no mapa, cruzei com o mapa geológico e vi que caía em uma região sem vias no entorno. Essa região de Fundão é familiar para mim; já rodei algumas vezes por lá atrás de pedra e nunca obtive êxito, pois a rocha é muito granulada e homogênea, sempre em paredes muito verticais.
Nos encontramos no sábado e fomos checar a parede. Da estrada, sem nem levantar o drone, já vimos que a fenda não era bem uma fenda, mas sim uma canaleta. Daria para abrir uma via, mas não seria nada especial.
Já sabendo dessa possibilidade, eu tinha levado um material extra pensando em um plano B e levantei a bola sobre a Pedra do Túnel. De início, o Tesourinho ficou um pouco relutante. Falou que poderíamos dar uma olhada lá, mas que se eu quisesse, poderíamos ver uma outra linha na parede dali mesmo.
Saímos de Fundão e fomos para Ibiraçu, que fica logo ao lado. Chegamos na casa do senhor Eraldo, proprietário das terras da base. Como o Tesourinho havia conversado com ele e sua esposa em 2019, o reencontro foi longo para colocar a conversa em dia. Se tem uma coisa que a escalada proporciona são esses encontros aleatórios, onde temos a oportunidade de conhecer novas pessoas que jamais teríamos a chance de conversar se não fosse pelo esporte.
Entre checar a pedra em Fundão e ir para a Pedra do Túnel, gastamos um bom tempo da nossa manhã. Embora estivéssemos no auge do inverno, sabíamos que o dia seria muito quente, com os termômetros na casa dos 32 °C — ou seja, na parede chegaria facilmente a 35 °C ao longo do dia.
Tesourinho mostrou a linha da via, que fica na face leste da pedra. A parede era muito mais alta do que a face norte, onde está a via Locomotiva 269, também conquistada pelo Tesourinho e pelo Fred. Além disso, me pareceu bem a prumo, ainda mais para quem queria entrar em solitário.
Da casa do senhor Eraldo até a base deve dar uns 400 metros, sendo que, destes, uns 300 metros são em uma estrada de café. O Tesourinho quis subir de carro até o final do cafezal. Achei isso estranho, pois ele é muito bom das pernas por sempre andar de bike pela região. Mas, no fim, acabamos subindo a pé porque o senhor Eraldo avisou que a estrada não estava tão boa. Depois fiquei pensando sobre isso e entendi: quando estamos em solitário, o peso praticamente dobra, pois precisamos levar a parte do parceiro de cordada. Provavelmente o Tesourinho guardava na memória o peso da mochila e o sofrimento daquela investida de 2019, por isso queria subir de carro. Eu tenho algumas boas (e más) lembranças de porteio nessas minhas incursões solitárias e sei bem como isso é traumático.
Chegamos na base e logo achamos as chapeletas da via. Nos equipamos e peguei a ponta da corda para repetir a primeira enfiada. Logo na saída, vimos que a via poderia mudar o traçado para diminuir o atrito se saíssemos por um diedro protegido em móvel. Mais acima, a escalada se mostrou bem agradável e variada, com passadas bem interessantes. A enfiada também estava bem protegida, padrão E1, sem preocupações com navegação e esticões, mas ainda assim havia alguns lances mais delicados que o Tesourinho passou em furo de cliff durante a conquista original.


Na P1, o sol estava aquecendo a maçarico, mas ainda estava tolerável. Peguei a ponta da corda para tocar a segunda enfiada. Dali para cima, a parede ganhava mais inclinação, mas dava para ver que havia agarras. Mirei uma moita que havíamos visto de longe, pois sabíamos que tínhamos que passar por ali. Estiquei quase uma corda cheia; no final, ainda consegui colocar uma peça num grande bloco e depois estabeleci a P2 num platô relativamente confortável, com uma sombra meia-boca. A essa altura, aí sim, o sol já estava nos castigando.

Aroveitamos a sombra fake e descansamos um pouco. Olhei para o celular e marcava 11h. Estávamos na pior hora do dia. Olhei para o sol e ele ainda estava muito longe de entrar na sombra da montanha. Presumi que o sol só sairia da parede quando concluíssemos a conquista.
A próxima enfiada parecia muito interessante, pois logo acima havia um grande diedro que dava para ver de longe. O diedro era bem curto, não mais do que 5 metros, mas parecia intimidador. Fiquei um pouco preocupado com as peças que tínhamos, pois levamos apenas um jogo, mas no fim deu na medida e a passada do diedro ficou uma atração à parte na via.

Vencida a fenda, mais uma vez a pedra ganhou inclinação. Dessa vez, parecia que não teria como escapar dos furos de cliff, mas uma leitura mais detalhada mostrou uma passagem pela direita que me levou para um terreno mais fácil logo acima. Estiquei mais uma vez uma corda cheia até chegar num platô onde sabia que o pior tinha passado, mas, à medida que íamos subindo, parecia que estávamos chegando mais perto do sol. No platô, eu não estava mais aguentando ficar de sapatilha e a tirei para fazer a parada. Logo descobri que foi uma péssima ideia, pois a rocha estava quente demais. Usei a sapatilha como tapete e consegui furar a parada. Enquanto esperava o Tesourinho subir limpando a enfiada, tive que fazer um montinho com a retinida para conseguir sentar, porque não dava para encostar direto na pedra.
Assim que o Tesourinho chegou, subimos mais uns 25 metros por um terreno bem fácil, onde o platô era maior e mais arborizado. Ali, fizemos uma longa pausa para descansar, comer alguma coisa e nos recompor para o que seria a última enfiada. Como já estávamos mais altos, havia mais vento, mas, estranhamente, ele não vinha em nossa direção; parecia nos tangenciar, trazendo apenas uma brisa quente.
A última enfiada parecia mais tranquila, mas eu sabia que tinha pelo menos uma corda cheia pela frente. Por sorte, o Tesourinho assumiu a ponta da corda e eu pude ficar mais um tempo na sombra enquanto ele tostava no granito preto. Assim que ele bateu no cume, subi rapidamente pela corda fixa para fazer o protocolo de conclusão de via e logo iniciamos a descida, pois o estoque de água estava bem baixo.


O rapel foi bem tranquilo e sem intercorrências. Na descida, ainda retiramos a corda fixa que estava lá desde 2019 e tiramos duas chapas da saída.
Batizamos a via de Sr. Sebastião, em memória ao pai do Tesourinho. No fim, acho que deu tudo certo e, coincidentemente, conseguimos concluir a conquista na véspera do Dia dos Pais. Parece que, no final, todas as peças vão se encaixando.
Sobre a linha, diria que ficou uma via muito boa, digna de muitas repetições. Acho que ela é um pouco mais difícil que a Locomotiva 269. Se você já fez a Locomotiva, a via Sr. Sebastião seria um passo seguinte natural. A escalada também me lembrou um pouco o estilo das vias da Parede Polese, mas numa versão mais a pique e mais bem protegida. Tentei manter a coerência evitando esticões desnecessários, por isso a via ficou E2, embora em alguns momentos dava vontade de esticar só para fugir logo do calor.
Por fim, fica o meu agradecimento ao Tesourinho pela oportunidade.



