No meu Google Maps, tenho vários pontos marcados no Espírito Santo com montanhas que possuem potencial para a conquista de novas vias. São locais que fui mapeando ao longo dos últimos 10 anos. Às vezes, passo horas no Maps vasculhando alguma região em busca de algo interessante.
Com o tempo, visitei e conquistei várias vias, mas sempre sobram alguns “carnes de pescoço” — áreas de alto risco sobre as quais tenho muita dúvida. Alto risco no sentido de chegar lá e descobrir que não era nada demais. Na semana passada, por exemplo, visitei alguns pontos dessa lista na região norte e não tive muito sucesso.
Esses dias, olhando pelo Maps, revi mais um desses pontos de alto risco na região de Pontões, em Castelo. Pela imagem de satélite, dá para ver que se trata de um clássico totem na pedra. Esse tipo de feição sempre rende boas vias, desde que esteja livre de vegetação. Em geral, as fendas são propícias para o acúmulo de terra que, por sua vez, é perfeita para o crescimento de plantas.
O risco desse ponto específico baseava-se em dois aspectos. O primeiro era que eu só tinha a imagem de satélite, o que sempre pode enganar. Geralmente, há alguma imagem do Google Street View que ajuda na avaliação, mas essa região é mais remota e não mapeada, o que aumenta a incerteza. Mesmo assim, com base na minha experiência, a parede parecia mais vertical, o que é bom e ruim ao mesmo tempo.
No entanto, o aspecto que mais pesava no fator risco era o geológico. Quando sobrepus o mapa geológico do Espírito Santo, o totem caiu em uma região mapeada como Suíte Alto Chapéu, do tipo G5. De forma bem simplificada, as áreas de ocorrência de granitos do tipo G5 costumam apresentar rochas muito compactas e maciças, desprovidas de agarras. A Pedra Azul é um exemplo clássico de granito G5 no estado; quem já escalou lá sabe como a rocha é lisa e sem agarras. Mas nem todos os granitos G5 são ruins: o granito de Várzea Alegre, onde ficam a Parede dos Sonhos e a Pedra Paulista, por exemplo, é muito bom lugar graças aos megacristais de feldspato.
No caso do granito de Alto Chapéu, eu sabia que seria do tipo Pedra Azul porque, em 2022, fui com o DuNada e o Brunoro em uma agulha ali perto, chamada Pontão de Castelo. Lá, pegamos uma rocha muito lisa e ruim de agarra. Conquistamos uma via com vários trechos em artificial, inclusive com furos de cliff. Acho que só tocamos aquela conquista adiante porque sabíamos que era um cume virgem; do contrário, não teríamos investido tanto esforço e empenho.
O prognóstico não era dos melhores, mas, mesmo assim, resolvi assumir os riscos e fiz uma investida no último sábado.
O tempo não estava ideal. Ventos costeiros trazendo muita umidade marítima e vários pontos de chuva ao longo do litoral marcavam as condições para o sábado. Porém, eu sabia que para o interior as condições estariam melhores.
Saída no horário padrão, às 4h, e pé na estrada. O Waze marcava 3h30 de viagem até o local. Muito chão para checar uma pedra com alto risco de não dar em nada.
No caminho, até Pedra Azul, peguei chuvas ocasionais, nuvens carregadas e pista molhada. Parecia que minha teoria de que os ventos costeiros não afetariam o interior estava indo por água abaixo.
Parei em Pedra Azul para tomar um café. Cheguei tão cedo à cafeteria que tive que esperar abrir. Aproveitei para decolar o drone e ter uma noção melhor das condições climáticas lá na frente. Para a minha surpresa, o horizonte revelou que o dia prometia um belo céu ensolarado de inverno; as nuvens estavam se dissipando rapidamente e os 12 °C que o termômetro do carro marcava pareciam indicar que daria lugar a um dia bem quente.

Da Pedra Azul, rodei mais 1h de carro e finalmente cheguei ao ponto marcado. De dentro do carro, consegui identificar o totem, que fica em um vale bem escondido, longe da estrada principal.

Fui à primeira casa, que presumi ser do proprietário das terras. Uma moça me atendeu e explicou que as terras não eram da família dela, eles apenas cuidavam do local. Falou que, por ela, não haveria problema, mas que eu deveria falar com outra pessoa que morava ao lado.
Fui à segunda casa e, mais uma vez, fui atendido por uma senhora que disse que eu poderia ir sem problemas. Agradeci e subi o drone para estudar melhor a pedra. Nesse meio-tempo, chegou uma moto com um senhor de meia-idade e um jovem. Só pela cara de desconfiado, vi que teria problemas. Expliquei tudo, como sempre faço, e ele reforçou que eles também não eram os donos da terra; eu teria que falar com o proprietário de verdade, que morava em Pontões.
Essa relação entre escaladores e proprietários de terras é sempre muito complicada, e eu entendo o lado deles. Imagina você morando na roça e, em um belo dia de manhã cedo, aparece uma pessoa que você nunca viu com um papo muito estranho sobre subir uma pedra, passar pelo terreno e tudo mais. É complicado.
Sem muita opção, peguei as indicações da casa do dono e fui de carro até Pontões.
Não vejo problema nenhum em ter essas conversas, acho superimportante, mas essa parte burocrática e obrigatória consome um tempo precioso da manhã que pode comprometer o andamento da escalada ao longo do dia. Sem contar que, pela manhã, as condições climáticas são sempre melhores.
Achei a casa do dono sem problemas e fui explicar tudo novamente. O proprietário lembrava muito o Itamar, dos Três Pontões de Afonso Cláudio. Assim como ele, era uma pessoa de poucas palavras, mas liberou o acesso.
Voltei à segunda casa, dessa vez com a autorização, e finalmente comecei a separar o material para a conquista.

Isso já era mais de 9h da manhã. Para quem saiu de casa às 4h, já haviam se passado 5h e eu nem tinha começado a escalar.
A aproximação foi rápida e indolor: em menos de 5 minutos eu já estava na base da pedra, procurando uma saída para acessar as fendas do totem. Olhando do chão, parecia que o totem era inofensivo. Por um instante, pensei em levar apenas um jogo de Camalots para subir mais leve, mas lembrei que, sempre que desprezo a rocha, me dou mal. Então, resolvi levar os dois jogos.
Escolhi uma fissura frontal para começar a conquista. Poderia tentar pela direita, mas a fissura frontal era como uma sereia me chamando.
Assim que tirei o segundo pé do chão e tentei avançar, rolou aquele momento: “Peraí, calma aí!”. Logo descobri que a escalada não seria trivial. Lembrei do granito G5 liso, muito diferente, por exemplo, do granito G3 de Pancas, que é extremamente texturizado e cheio de cristais gigantes.
Custei um pouco a entender a pedra.
Na saída, havia planejado colocar a primeira proteção em uma árvore, mas já tinha desistido da ideia e estava procurando um Camalot no meu rack.
A conquista foi fluindo com certa tensão no ar. O totem estava mais inclinado do que o desejável para quem estava escalando em solitário. Por um momento, comecei a achar que tinha sido uma má escolha tentar conquistar sozinho. Mas segui em frente, pois estava conseguindo fazer boas colocações que me davam bastante segurança.

Estabeleci a P1 após esticar cerca de 40 metros de corda em um platô. Parei antes de uma grande obstrução no diedro do lado esquerdo do totem. A obstrução parecia intransponível.
Aproveitei que tive que descer para limpar a enfiada e fui olhar o totem de longe para saber se estava no caminho correto. Reavaliei a situação e vi que a melhor opção ainda seria pelo lado esquerdo, pois o lado direito estava mais sujo ainda.
Iniciei a segunda enfiada pelo diedro e, assim que cheguei à obstrução, vi a possibilidade de contornar pela esquerda batendo uma chata. Fiz o contorno por fora e voltei para a fenda por cima. Logo acima, a fenda ainda seguia com vegetação, mas dessa vez mais tranquila, e a conquista fluiu até o cume do totem, onde estabeleci a P2.


Olhei para o relógio e já era meio-dia. Havia conquistado apenas duas enfiadas, mas parecia que estava o dia inteiro na parede.

Olhei para cima e minha mente entrou em um turbilhão de sentimentos. Parecia fácil. Tipo: “virou esse trecho e depois fica tudo tranquilo”. Mas quando eu olhava para os lados e tentava entender a pedra como um todo, aquilo não fazia o menor sentido, pois a parede subia com força, quase verticalmente.
Tentei procurar uma linha de agarras ou algo que pudesse indicar um caminho natural, mas a rocha seguia imaculadamente lisa, em uma sucessão de pequenas ondulações.
Resolvi esfriar a cabeça fazendo um almoço.
Abri a mochila e descobri que o bico do dromedário, onde guardo a água, havia aberto e estava vazando tudo lá dentro. Minha tagline, que estava no fundo, ficou encharcada. Eu tinha levado 3 litros de água e acho que perdi 1 litro nessa brincadeira.
Resolvido o primeiro problema, procurei o lanche que tinha comprado mais cedo. Vasculhei a mochila de cabo a rabo e nada de achar o meu biscoito de mel. Concluí que o deixei no carro. Comi uma outra besteira qualquer e voltei o meu foco para o problema da próxima enfiada.
Comecei a conquista da terceira enfiada com um pé atrás, mas, à medida que eu subia, as agarras iam aparecendo. Quando tudo parecia não ter solução, sempre surgia uma agarra salvadora que abria passagem para cima.

Estabeleci a P3 após esticar uns 50 metros em um platô meia-boca. Olhei para cima e parecia que, com mais uma enfiada, eu já estaria na linha das bromélias.
Desde o começo, havia planejado ir apenas até a linha das bromélias, no meio da parede. Dali para cima, parecia muito vegetado e não me senti atraído a tocar para dentro daquele jardim. O cume da montanha já não era virgem por outras vertentes, então não haveria motivo para me enfiar no mato só para dizer que cheguei ao topo por cima.
Além disso, eu já estava bastante cansado. Embora a parede estivesse voltada para o leste, o sol estava me castigando. O que me salvava naquele calor era o vento gelado que sobrava em rajadas, além das ocasionais nuvens que tampavam o sol.
Mais um descanso para recuperar o fôlego enquanto buscava entender como virar o último trecho.
Se antes parecia ruim, agora eu tinha certeza de que não haveria como passar. Cheguei a puxar o molho de cliffs para, se precisasse, recorrer aos furos. Fiquei um bom tempo tentando achar um caminho para cima, mas tudo parecia igual. E, para piorar, o Sol estava bem de lado, atrapalhando a minha visão e gerando um efeito de sombra estranho na pedra.

Se tudo aquilo já não fosse estressante o suficiente, eu ouvia o som de uma criança chorando ao fundo, vindo da casa lá de baixo. O choro de uma criança está em uma frequência feita justamente para estressar a pessoa, pois essa é a função biológica do choro. De repente, o choro cessava e eu a ouvia rindo. Parecia que estava apenas fazendo birra. Quando olhei para baixo para tentar entender a situação, já a vi brincando com uma bola.
E assim, antes mesmo de terminar a conquista, nascia o nome da via: “Chorar, sorrir, brincar”!
Deixei a criança de lado, porque agora o “choro” era comigo.
Eu estava, definitivamente, entrando bem longe da minha zona de conforto, e o sol me incomodava cada vez mais. Porém, mais uma vez, fui descobrindo e entendendo que o segredo estava nas agarras-chave que abriam a passagem.
À medida que ia progredindo, fui ganhando confiança e decifrando a rocha. O sol também passou para trás da montanha, e a parede ganhou um tom mais homogêneo. Parecia até que eu tinha colocado um óculos especial de ver agarras; tudo ficou mais fácil.
No final, eu já estava me sentindo em casa e terminei a enfiada esticando uma corda cheia até a primeira linha de bromélias.

Olhei para cima e fiquei avaliando a continuidade da escalada. Havia uma brecha por onde eu poderia seguir com a conquista, mas resolvi descer dali mesmo. Meu estoque de chapeletas estava baixo e continuar poderia comprometer a margem de segurança que eu havia estipulado para aquela parede.


A descida transcorreu sem problemas e, por volta das 16h, eu já estava de volta ao carro, pronto para encarar mais 4h de estrada até Vitória.
