Pé na água e Pancas

Tem dias em que a gente sabe que não vai dar bom, mas, mesmo assim, insistimos. Se de um lado está a ciência com a previsão do tempo, do outro está a crença de que há esperança, de que a ciência esteja errada e de que o tempo irá se firmar.

Assim, com base na minha fé e ignorando a ciência, parti para a cidade de Pancas no sábado, em busca de novas pedras.

Tudo estava dando certo. Parecia que a ciência estava errada e a minha crença, correta, até eu chegar a Colatina — o divisor de águas que separa o norte do sul. Ali descobri que a ciência estava certa e que a minha crença não fora forte o suficiente. O limpador de para-brisa trabalhava incessantemente e o horizonte estava branco. Normalmente consigo ver as montanhas à frente, mas, dessa vez, não via nada além do branco.

O bom senso dizia que eu deveria pegar o próximo retorno e ir para outra direção, mas ele me falta, então sigo em direção à massa branca.

Por um instante, o limpador cessa. A esperança surge, o céu se abre e consigo ver as pedras. Sigo motivado.

Mas, quando chego à região de Pancas, a ciência dá um banho na minha crença e o limpador entra em ação novamente. Estaciono o carro para pensar sobre a situação, olhando para o para-brisa molhado.

Resolvo aproveitar o tempo ruim para checar algumas pedras, já que nunca arrumo tempo para isso.

Primeiro alvo, que era o objetivo do dia: Pedra do Cruzeiro de Lajinha de Pancas. Escrevo assim porque o que mais existe no Espírito Santo é a tal da Pedra do Cruzeiro. Pelo visto, não sou só eu que tenho muita fé neste estado.

Pedra do Cruzeiro da Lajinha de Pancas.

Entro no vale entre a Pedra do Cruzeiro (que fica no distrito de Lajinha) e a Pedra da Mula, um lugar de beleza única de que eu nem sabia da existência. Procuro a face que estava vislumbrando e, naturalmente, ela estava bem molhada, mas acho uma possível linha.

Vou à procura do dono para garantir que poderia voltar no futuro. Conheço o senhor Oliveira, um homem de meia-idade, simples, da roça, que mostra com orgulho as belezas da terra. A casa dele fica no final do vale, onde três nascentes alimentam o rio que desce para Lajinha. A água é limpa e cristalina, algo muito raro por esses lados. Em geral, os rios daqui são muito poluídos com pesticidas para o café. Eu mesmo não tenho coragem de me banhar neles, mas ali era diferente. A conversa foi proveitosa e sem pressa, do jeito que precisa ser no interior.

Despedi-me com a promessa de voltar outra hora para escalar a Pedra do Cruzeiro. Na volta, fiz mais um reconhecimento dela e calculei que a parede deve ter uns 500 metros de altura, algo super normal por aqui.

Havia mais um curioso além de mim.

Dali, resolvi ir até outra pedra, esta já na divisa entre Pancas e Colatina. Eu sempre vou a esse local, pois namoro há tempos uma pedra que fica na beira da estrada. O problema é que não sei quem é o dono das terras. Pelo estado da cerca, imagino que seja alguém de posse. Dessa vez, finalmente encontrei uma família perto da pedra e resolvi abordá-la para descobrir mais alguma coisa. Soube que a pedra pertence a uma pessoa que mora em Governador Lindenberg, uma cidade ao lado. Consigo o nome do proprietário e fico sabendo que, vira e mexe, ele anda por ali. Outro dia voltarei e, quem sabe, terei mais sorte.

Vou para o terceiro alvo, ali perto, mas dessa vez já em Colatina. Aparentemente, a pedra não tem nome. Pelo mapa geológico, não é o mesmo tipo de rocha de Pancas, o que me deixou mais curioso. Está mapeada como Suíte Ataléia, um grupo de rochas do qual tento manter distância por ser muito difícil de abrir via. Nessas rochas, é preciso acertar o veio de agarras, ou você irá sofrer nas paredes lisas e homogêneas.

A parede é enorme. Se fosse no Rio de Janeiro ou em São Bento do Sapucaí, já teria umas dez vias, mas é a tal da Suíte Ataléia. Não me senti atraído o suficiente e resolvi dar meia-volta. Essa vou deixar para a próxima geração.

Dali, resolvi pegar o rumo de casa, pois, além de a parede estar babada, o mormaço pós-chuva estava terrível. Pensei em passar por João Neiva para checar uma pedra que o Tesourinho havia comentado. No caminho, passando de volta por Colatina, paro para almoçar no Restaurante Portal, que fica na beira do asfalto. Esse é um lugar muito estratégico para bater um bom prato. Isso já eram 11h da manhã.

De barriga cheia, sigo rumo a João Neiva. No caminho, lembro da Parede Polese e surge a ideia de abrir uma via. Para o horário avançado de uma conquista tradicional de vários esticões — já que passava do meio-dia —, Polese parecia a opção ideal. A aproximação ali é ridícula e a parede é relativamente baixa, com uns 200 metros. Além disso, como havia chovido apenas pela manhã, o vento e o mormaço já deveriam ter secado a rocha.

A Parede Polese é algo realmente ímpar. Há uma estrada que segue paralela à parede, então, até para escolher a linha da via, dá para fazer andando de carro. Ridículo!

No final da parede, um pequeno totem chamou minha atenção. Ele era pequeno, não tinha mais que 10 metros, mas parecia um lugar natural para começar uma via.

Estacionei o carro a apenas 15 metros da rocha. A única coisa que me separava da base era um riachinho — que, ironicamente, sempre se torna o primeiro crux de quase todas as vias.

Olho para o relógio e vejo que são 12h30. Lembro que o sol se põe às 17h. Como estava sozinho, coloco como meta baixar antes do anoitecer, independentemente de quanto estivesse avançada a conquista.

Separo o material rapidamente e cruzo o rio. Vejo um pequeno banco de areia que poderia servir de base, mas, assim que piso, meus pés afundam na areia molhada. Calço o tênis de volta do jeito que dá e subo uns 3 metros, com mochila e tudo, até um platô.

Cruzando o riacho.

Dali, olho melhor para o totem que tinha visto do carro e descubro o primeiro erro logístico do dia: eu havia trazido apenas peças pequenas de proteção móvel, quando na verdade a fenda exigia peças grandes. Sem chance de passar aquele lance solando.

Sem muita escolha, volto até o carro para pegar os cams maiores. Atravesso o rio de volta, subo até a base e começo a me arrumar. Olho de volta para o carro, de relance, e vejo que deixei o rastreador por satélite esquecido no teto. Havia deixado ali porque tinha acabado de mandar minha posição para a minha esposa.

Sob condições normais, teria deixado lá em cima, mas o carro estava exposto na beira da estrada, com gente passando toda hora. Além disso, como a região não tinha sinal de celular, aquele rastreador seria a minha única garantia em caso de qualquer eventualidade.

Mais uma vez, cruzo o riacho e vou buscar o aparelho.

Cruzando o riacho pela enésima vez.

Após os contratempos, finalmente começo a conquista. Entro no diedro e vejo que é muito tranquilo; a única coisa com que tinha de tomar cuidado eram alguns blocos soltos.

No entanto, observo que meu sistema de autoseguro, usando o Silent Partner, não estava fluindo como de praxe. No meio da via, paro para fazer alguns testes e vejo que a corda agarra muito na polia. O Silent Partner é extremamente sensível ao diâmetro e à umidade do ambiente. O sol já estava a pino, mas a corda tinha ficado no porta-malas e absorvido um pouco da umidade da chuva da manhã. Com isso, ela estava ligeiramente úmida, o suficiente para travar o sistema na progressão.

Sabia que, com o calor que estava fazendo, a corda secaria logo, então segui escalando.

A primeira enfiada ficou estranha. Um misto de sistema que travava com uma parede mais lisa e desprovida de agarras. Em geral, a primeira enfiada de todas as vias dessa parede é bem fácil e cheia de buracos, mas ali não era assim.

No diedro da 1a enfiada.

Uma rápida olhada em volta e logo desvendei o mistério: a camada da rocha tinha um mergulho estrutural. O ponto onde comecei a primeira enfiada correspondia, na verdade, à altura da segunda enfiada das vias ao lado. De fato, a segunda enfiada das outras linhas costuma ter menos agarras.

Estabeleci a P1 após esticar uma corda inteira. Desci para limpar a enfiada e subi de volta pela corda fixa.

A segunda enfiada parecia bem mais inclinada, mas sabia que seria de boa porque conseguia visualizar muitos buracos. A Parede Polese é incrível justamente por causa dessas feições. Às vezes, parece que se está escalando em um calcário, mas com a aderência e textura do granito.

Estiquei mais 60 metros e, dessa vez, a escalada fluiu muito melhor. A corda secou ao sol e o Silent Partner voltou a responder normalmente. Consegui estabelecer a P2 em um platô confortável.

Abandonando as peças na P1.

Dei uma conferida no relógio e vi que o tempo estava no limite; não teria margem para mais do que uma enfiada. Independentemente do resultado, o plano de segurança ditava que eu teria que baixar depois dela.

Esticando a corda.

A terceira enfiada parecia fácil. Um trecho um pouco mais vertical na saída e, depois, parecia perder inclinação. Mas havia uma surpresinha me esperando no final.

Na parte alta, bem no topo da parede, há um grande teto. Ele se formou pelo desprendimento de uma grande placa abaixo, um fenômeno geológico bem comum. Mas, justamente por causa desse desabamento antigo, a parte final ficou mais lisa e cheia de pequenas lacunas e placas soltas, que exigiam muita atenção e um trabalho constante de pés.

As lacas, nem sempre confiáveis da 3a enfiada.

Diria que é o tipo de enfiada que o escalador ama ou odeia. É uma escalada peculiar e psicológica que eu aprecio bastante, mas sei que muita gente não curte, justamente por ser um terreno muito instável.

Estiquei a corda gerenciando o atrito e praticamente cheguei à base do grande teto. Como a ideia original da investida era ir exatamente até ali, resolvi encerrar a conquista naquele ponto e iniciar os rapéis.

O retorno foi tranquilo e correu estritamente conforme o planejado: consegui pisar no chão exatamente às 17h, minutos antes de o sol sumir no horizonte.

Não estava nos planos abrir uma via na Polese naquele sábado, mas, no fim, acho que nasceu uma linha muito interessante e divertida. Com essa conquista, a parede agora conta com 6 vias que totalizam quase 1.200 metros de escalada. Está começando a ficar interessante para a comunidade tentar um big 1.000 local!

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