Talvez essa seja a frase que melhor define como foi parte do feriado da Independência.
Por aqui, a temporada de parede está se encaminhando para o fim. As chuvas da primavera, que marcam essa mudança, chegaram, e o calor está aumentando cada vez mais. Na verdade, este ano o clima está bem louco e é difícil prever qualquer coisa.
Para o feriado prolongado, a previsão estava de 8 a 80: sexta-feira e sábado de muito calor — com o termômetro na casa dos 35 graus Celsius — e, depois, chuva e frio até terça-feira. Em Vitória, a terça foi feriado.
Este ano acabei indo pouco para Pancas. Na verdade até que fui, mas o tempo não colaborou. Lembro de, pelo menos duas vezes, chegar lá e dar meia-volta porque estava tudo molhado. Mesmo com as condições desfavoráveis para o feriado, eu queria dar mais uma passada por lá, nem que fosse para ficar curtindo a chuva entre as imponentes montanhas da região.
Pela previsão, haveria alguma janela entre segunda e terça-feira, pois a chuva não seria persistente. Se chovesse pouco e não molhasse muito a pedra, as condições seriam perfeitas: céu nublado e temperatura em declínio. A receita quase ideal para escalar lá.
Ao longo da semana, o Chuck me perguntou o que eu iria arrumar para o feriado. Falei dos planos para Pancas, mas, de antemão, avisei que poderia não dar em nada por causa do tempo. Acho que havia uns 80% de chance de dar errado. Mesmo assim, ele topou a ideia. Ele sempre topa qualquer coisa, desde que seja uma furada.
Arrumei a mochila pensando na chuva. Peguei todas as minhas lentes, planejando passar dois dias fotografando, e levei o básico para escalar. Estudei o croqui de Pancas e selecionei algumas vias para escalar rápido. Com uma previsão tão ruim, a melhor opção seria repetir alguma linha em vez de conquistar algo do zero. Na manhã de sábado, antes de sair de casa, quase por instinto, peguei o material de conquista, mais 30 chapeletas, e joguei na mochila.
Saímos de Vitória tarde, às 6h30 — afinal de contas, não tínhamos pressa para chegar na chuva. De Vitória até Colatina a estrada estava seca, sem sinal de água. Parecia que rolaria escalada ainda na segunda-feira. A cada curva, olhávamos para o acostamento em busca de poças frescas, mas nada. Parecia que a chuva do dia anterior havia sido fraca.
Assim que chegamos a Colatina e passamos por um famoso divisor climático regional, o tempo virou completamente: do nada, a chuva começou com força. Céu fechado e nada de ver as montanhas. Encostamos o carro e mandamos uma mensagem para o Fabinho, que nos disse que lá havia chovido bem no dia anterior e que, naquele momento, estava tudo “nublinado”.
Pensamos em ir para outro lugar, mas lembramos que esse já era o prognóstico e estávamos indo sabendo disso. Então, resolvemos seguir chuva adentro. Um pouco antes de chegar a Pancas, a água deu uma trégua e começamos a achar que daria para escalar por ali.
Nesse meio do caminho, o Chuck apontou para uma pedra que fica isolada à direita, um pouco antes da Pedra Esticada. É uma montanha relativamente pequena para os padrões de Pancas, com uns 300 metros. Na face voltada para a estrada, há um pequeno totem no topo. Todo mundo que já passou por ali já deve ter visto, mas ninguém foi conquistar porque o custo-benefício parecia ruim. O totem fica na parte final de um rampão. Teria que conquistar uns 200 metros de rampa lisa para pegar apenas 50 metros de fenda no totem. Eu mesmo já tinha visto a pedra em outras ocasiões, mas nunca tinha me interessado por causa desse detalhe e também porque a linha da via teria que ser por uma das laterais do totem. Em geral, as laterais dos totens são fendas largas e sujas. De longe parece uma linha boa, mas, quando você chega perto, vê que dá até para entrar nela de tão larga.
Encostamos o carro despretensiosamente e ficamos olhando. Eu não queria abrir via no feriado por causa do clima instável e por parecer fácil demais, mas o Chuck achou que daria jogo exatamente por parecer simples. Decolei o drone para ver mais de perto. O lado direito do totem me pareceu melhor que o esquerdo: fenda mais limpa, rocha mais clara e com menos vegetação. O lado esquerdo parecia mais sujo e a fenda larga demais, além de parecer mais fácil.
Pousamos o drone e fomos atrás do proprietário para ver se ele permitiria o acesso. Conhecemos o senhor Luciano, um homem de meia-idade, muito receptivo e simpático, que liberou a passagem pelo terreno dele até a base da montanha.

Acessamos a base e fomos atrás de um grande bloco em forma de disco que vimos da estrada. Ali parecia um bom lugar para iniciar a via poupando material, já que a conquista não estava planejada. Tínhamos pouca chapa (30 no total) e duas baterias para a furadeira. A grande laca da base não se mostrou muito atraente. A parede nos pareceu muito vertical para apenas 30 chapeletas. Então, optamos por uma abordagem mais conservadora. Escolhemos uma parte menos inclinada, mais à esquerda, mas cheia de blocos menores expansivos. Parecia que iríamos sair atropelando e logo estaríamos na base do totem.

Comecei a conquista levando seis chapeletas e umas peças móveis pequenas para ir encaixando nas fendas. Mirei uma laca e fui subindo. A ideia era colocar a primeira proteção nela, mas, no meio do caminho, comecei a ver que a rocha era muito frágil. Usar aquelas agarras era suicídio. Tinha que subir procurando apoios fora das lacas e, quando não havia opção, usar as maiores, que tinham cerca de 1 m². Antes mesmo de chegar ao primeiro bloco, bati uma chapa de proteção. Quando alcancei a laca, a peça móvel ficou bem encaixada, mas a rocha não inspirava confiança. Mesmo assim, botei um friend número .75 só para acalmar a alma e segui a conquista.

O que era para ser uma linha rápida me consumiu uma hora de negociação para esticar 60 metros de corda. Levei seis chapas, mas precisei puxar mais duas para finalizar a enfiada. A ideia era chegar a um platô bem evidente que vimos de longe, mas, à medida que fui chegando perto, comecei a ficar com medo dele. Optei por fazer a parada antes, pois parecia que aquele platô iria desabar quando subíssemos.

Depois, fiquei pensando geologicamente nessa enfiada. Concluí que a área daquelas lacas frágeis é a cicatriz de um grande totem que caiu recentemente no tempo geológico, restando apenas a parte que sobrou na forma de um pilar piramidal. E, provavelmente, o topo desse antigo bloco não caiu, ficando suspenso na forma daquele platô superinstável em que tínhamos pensado em subir.
Não lembro de ter escalado uma parede assim em nenhum outro lugar. De fato, a rocha é crivada de agarras, mas, para quem está guiando a subida, é uma baita “fritação” psicológica. Em alguns trechos, parece que pedaços imensos podem cair a qualquer momento em cima da corda.
O plano original era eu atropelar a primeira enfiada e depois o Chuck tocar a segunda, que parecia mais fácil ainda. Mas, assim que nos juntamos na primeira parada (P1), vimos que a próxima seção seria mais dura. Se na primeira enfiada havia agarras infinitas, agora a parede estava lisa. Além disso, a inclinação não cedia.
Peguei novamente a ponta da corda e estiquei mais 55 metros. Embora olhando de baixo parecesse vertical e sem agarras, a parede se mostrou bem servida de agarras escondidas, e a conquista fluiu melhor que a primeira parte. Só o fato de não ter aquelas lacas assustadoras já era um alívio. Na segunda parada (P2), finalmente a pedra cedeu, e o Chuck pegou a próxima enfiada, que parecia mais tranquila. Mas, pela quantidade de magnésio que ele usou, parece que a briga foi boa. Dali, uma enfiada fácil e curta nos levou até a base do grande platô que é visível de longe e onde começa o totem final.


Chegamos a esse platô meio que na derrota, pois não esperávamos que fosse tão difícil. A expectativa de subir atropelando a primeira parte acabou afetando o nosso psicológico. Para nossa surpresa, no meio da mata suspensa, encontramos uma grande caverna — algo bem incomum por aqui. Exploramos um pouco o local em busca de vestígios humanos, mas não encontramos nada.

Após descansarmos um pouco ali, fomos em direção à base do totem. Como tínhamos saído muito à esquerda, precisamos fazer uma longa caminhada para a direita. No final, ainda tivemos que passar os últimos 30 metros encordados. A passagem era bem tranquila, mas não se podia vacilar; por isso, achamos prudente usar a corda, já que alguns trechos continuavam úmidos por causa do temporal anterior.

Chegamos ao totem e fomos direto para o lado direito. O diedro era perfeito, mas muito intimidador. Calculei entre 60 e 80 metros de arco de rocha. Olhei para o meu rack duplo de peças móveis e vi que era insuficiente para o tamanho da encrenca. Pelo adiantado da hora, também notei que ficaria apertado vencer esse trecho final, mas mesmo assim fui na esperança de encontrar uma linha tranquila.
Estiquei uns 25 metros e, no final, a pedra começou a exigir muito. Tive que abrir mão de passar em livre e progredi em artificial até esticar 30 metros, onde estabeleci uma parada. A essa altura, eu já tinha gastado muito tempo. O lance seguinte parecia mais duro ainda e era incompatível com o equipamento que eu tinha. A cereja do bolo foi a virada do tempo: se até então o clima estava milagrosamente a nosso favor, agora parecia se voltar contra nós. Começou com uma leve garoa e, quando olhei em volta, a neblina tinha fechado tudo.

Decidimos iniciar os rapéis dali, pois seguir em frente só pioraria o nosso retorno. Descemos rápido e chegamos à casa do senhor Luciano ainda de dia, antes de a chuva apertar. Fomos recebidos com café quente e papa de milho — um verdadeiro manjar dos deuses depois de uma tarde intensa na montanha. Ele contou que toda a família havia acompanhado a nossa conquista com binóculos e disse que estava torcendo por nós. Agradecemos a hospitalidade e dali fomos direto para o camping do Fabinho, onde passaríamos a noite.
Ao anoitecer, a chuva desabou de vez. Para nós, o simples fato de ter escalado naquele dia já era um grande milagre, pois as condições estavam muito desfavoráveis. Mesmo sem ter concluído a via, estávamos felizes. Por volta das 20h30, desligamos as luzes e fomos descansar ao som da água batendo nas folhas.
Acordamos no dia seguinte sem pressa e sem metas, já que a chuva da noite havia sido persistente. Pela manhã, constatamos que o temporal da madrugada não tinha feito um estrago tão grande na rocha. A pedra estava apenas um pouco úmida e não havia grandes escorridos pelas paredes ao redor. Resolvemos passar a manhã descansando, deixando a montanha secar bem para a tarde. A ideia era fazer um ataque rápido outra vez — mas, dessa vez, pelo lado esquerdo do totem, que parecia mais amigável.
Aproveitei a manhã fotografando as aves da região. O entorno do camping é um lugar riquíssimo em avifauna, um prato cheio para observadores de pássaros. Perto do meio-dia, nos despedimos do Fabinho e voltamos para a base.








Repetimos rapidamente as três primeiras enfiadas e fizemos um longo descanso na caverna. Dessa vez, o dia estava mais abafado. Se no dia anterior a temperatura estava perfeita, o segundo dia estava bem mais quente. Havia uma umidade pesada no ar, indicando que o tempo viraria a qualquer momento. Da caverna, olhando em direção à principal cadeia de montanhas, as nuvens estavam baixas e, mais distante, para os lados de Água Branca, já descia água. Se escalar no primeiro dia tinha sido um milagre, conseguir subir no segundo era praticamente a apoteose.

Chegamos ao lado esquerdo do totem e puxei a corda. De longe parecia fácil, mas quando me vi embaixo dele, comecei a duvidar da minha capacidade. Estiquei 30 metros pelo diedro e fiquei impressionado com a qualidade da linha. Uma escalada limpa, estética e com belas passadas em fenda. Chamei o Chuck, que logo subiu recolhendo os equipamentos.


A próxima enfiada parecia mais dura que a anterior. O diedro seguia reto para cima, acompanhado por uma fenda que variava pouco de largura. Logo vi que aquilo seria um problema para o meu rack duplo. Além disso, a borda da fenda era arredondada, dificultando o entalamento das mãos e a progressão. Toquei o máximo que pude até ficar sem peças. Tive que retornar um trecho para recuperar alguns cams e depois segui até chegar a uma chaminé estreita. Bati uma chapa antes de me espremer na fenda e entrei com tudo. Lances em chicken wing, com parte da rocha molhada foram a tônica do trecho final até eu dominar um bloco e ganhar um platô meia-boca.


Estabeleci uma parada ali e iniciamos uma conferência para decidir o que faríamos. Dali, parecia que estávamos a uns 15 metros do cume — muito perto —, mas nós tínhamos apenas uma única chapeleta restante. Já eram 16h, tínhamos pouco mais de uma hora de luz e o tempo ruim continuava avançando na nossa direção.
Avaliamos todo o contexto e achamos que seria mais prudente baixar dali. Acredito que, se tivéssemos seguido, teríamos finalizado a via, mas estaríamos gastando a nossa margem de segurança em detrimento do bom senso. Se estivéssemos em outro lugar, distante, talvez tivéssemos arriscado. Mas ali, em Pancas, no quintal de casa, onde podemos voltar a qualquer momento, achamos que não valia o risco.
A descida foi rápida e tranquila. Chegamos à base ainda com luz e antes da tempestade chegar. Mais uma vez, passamos na casa do senhor Luciano para agradecer e dali fomos comer um salgado no posto de gasolina antes de encarar o longo caminho de volta até Vitória — mais quatro horas de estrada.




