Escalando no Capacete pela CERJ

O meu currículo de escalada tem algumas falhas ou lacunas que considero um pouco vergonhosas, como nunca ter feito o Dedo de Deus ou a Agulha do Diabo, ambas no Rio de Janeiro. No entanto, o fato de eu nunca ter escalado nos Três Picos de Salinas, também no Rio de Janeiro, talvez seja o meu maior pecado.

Sempre tive vontade de escalar em Salinas, mas a oportunidade e a parceria nunca rolaram até a última semana, quando o Eric lançou a ideia de repetir a via CERJ (Capacete de Aço) no Capacete, que faz parte do complexo de Salinas.

A CERJ é uma via conquistada no início da década de 70 pelos escaladores Reynaldo Pires Ferreira, José Luis Barbosa da Silva, José Bezerra Garrido, Giuseppe Pellegrini, Claudio Vieira de Castro e José Roberto da Costa, todos membros do Centro Excursionista Rio de Janeiro. Na época, a conquista foi considerada um grande feito da escalada brasileira e, até hoje, é um grande desafio para qualquer aspirante às escaladas em Salinas. Pelo valor histórico e estético, ela foi eleita uma das 50 vias clássicas do Brasil no livro de Flávio e Cíntia Daflon.

As montanhas da região de Três Picos. Foto tirada quando estava voltando de Teju.

Quando surgiu a ideia de repetir a CERJ, comecei a estudar a via e sua história mais a fundo. Se você vai repetir uma via sem um guia ou sem alguém que já a tenha feito, é preciso estudar mais para “o dia da prova”. Achei uma cópia do croqui original feito pelo Tartari no site Escaladas.com.br, li alguns relatos na internet e assisti a alguns vídeos no YouTube. Além disso, dei uma boa olhada no livro das 50 Clássicas, onde há um segundo croqui.

Como exercício de memorização, sempre gosto de desenhar o croqui da via antes de escalar e fazer os apontamentos, pois, para mim, essa é a melhor forma de fixá-la na mente. Abaixo segue o croqui que elaborei durante a fase de estudo, já devidamente corrigido e digitalizado após a repetição (fiz alguns ajustes, mas ele ainda pode conter erros).

O passo seguinte foi acompanhar a previsão do tempo. Como já estamos nos encaminhando para o final da temporada, as chuvas da primavera começaram a aparecer, além dos efeitos do El Niño, que sempre alteram as tendências. Escolhemos um final de semana alvo e começamos a trabalhar com essa data.

Qualquer postergação seria um problema por questões de agenda, então a data teria de ser o dia 22 de agosto ou somente na próxima temporada. Na semana anterior, surgiu a notícia de um ciclone que subiria pelo sul do Brasil, trazendo ventos intensos acompanhados de muita nebulosidade e chuva em algumas regiões. Segundo as previsões, a passagem do ciclone coincidiria justamente com o final de semana escolhido.

Por uma questão estratégica, fizemos a reserva de um chalé no Camping do Mascarin, que fica aos pés dos Três Picos, para pelo menos garantir o abrigo. Se não desse certo, seria um investimento perdido, mas fazia parte do jogo.

Passamos a semana acompanhando apreensivamente as diversas previsões do tempo. Na sexta-feira de manhã, finalmente batemos o martelo e decidimos arriscar a investida. O ideal seria ir em um final de semana com tempo garantido para não precisar nos preocupar com esse detalhe; mas, como as nossas agendas estavam apertadas, tivemos de abrir mão dessa certeza e trabalhar com o risco e a experiência.

Na sexta ao meio-dia, fui comprar os últimos mantimentos e, no meio da tarde, o Eric passou na minha casa para pegarmos a estrada. De Vitória até Nova Friburgo seriam mais de 8 horas de carro. A viagem transcorreu sem grandes problemas. Os únicos poréns foram algumas obras na BR-101 que atrasaram o trajeto e o fato de o GPS nos jogar para um trecho de uns 20 km de estrada de chão logo após entrarmos no estado do Rio de Janeiro.

Chegamos ao estacionamento do parque às 22h30. Para coroar a nossa chegada, ainda encaramos a pé mais 1 km de subida com todas as nossas tralhas até o camping, pois a estrada estava em péssimas condições para o carro subir. Com isso, acabamos nos acomodando no chalé por volta das 23h30.

Desde o momento em que entramos no estado do Rio, no final do dia, o tempo começou a virar. Quando chegamos ao camping, a situação já havia se deteriorado ainda mais, principalmente porque o local fica a 1.500 metros de altitude em relação ao nível do mar. A noite estava fria, úmida, e uma densa neblina limitava bastante a visibilidade, que já estava comprometida pela escuridão. Nos acomodamos no pequeno chalé do jeito que deu. Assim que fechamos os olhos para tentar dormir um pouco, ouvi as primeiras gotas de chuva batendo no telhado de amianto. A moral não estava boa e havia um ar de preocupação, mas também tínhamos fé e ciência da situação — afinal de contas, já estava prevista um pouco de chuva durante a noite. Cansado da viagem, foi fácil pegar no sono, mesmo estando bastante apreensivo.

O dia amanheceu como se estivéssemos no céu — e, na verdade, estávamos dentro das nuvens. Tudo estava branco e sem visibilidade, mas pelo menos não amanheceu chovendo, o que era um bom sinal. Naturalmente, a densa neblina da noite deixou tudo molhado, e isso virou uma preocupação. Será que a pedra estaria úmida? Optamos por subir sem pressa para deixar a rocha secar. O ideal seria que estivesse ventando, o que ajudaria no processo, mas na área do camping o ar estava parado. Na verdade, mesmo amanhecendo na casa dos 10 °C, havia uma sensação de abafamento que me incomodava, pois poderia indicar o prelúdio de uma virada de tempo.

Um dos raros momento sem nuvem no vale.

Tomamos um café da manhã reforçado e iniciamos a caminhada. A ideia era achar a base da via, tocar na rocha e avaliar a situação.

Sempre presente Gato Zé.

A aproximação sempre é um ponto de preocupação, pois tínhamos pela frente uma caminhada de uns 2 km com bom ganho de elevação por uma trilha que nenhum de nós conhecia. Pegamos algumas dicas com o Mascarin e ainda tínhamos um tracklog para garantir. No final, tirando a subida íngreme, a caminhada foi bem tranquila por uma trilha muito bem demarcada e batida. Como estamos acostumados com as aproximações do Espírito Santo, fomos esperando o pior. Sem dúvida, se tivéssemos de encarar uma aproximação de 2 km pela mata capixaba, já pensaríamos no pior cenário: com direito a muitas batidas de facão e perdidos em uma trilha mal demarcada. Agora também entendo por que as pessoas de fora se perdem tanto por aqui…

Chegamos à base da via às 9h30, após 1 hora de caminhada. Assim que botamos o pé no platô onde a via começa, fomos surpreendidos pelo vento que entrava pelo vale com toda a força. Se o ciclone não havia passado, parecia que tinha chegado atrasado à região. Chuto que o vento estava facilmente a 30 km/h e, considerando a temperatura de 11 °C que vimos no termômetro da sede do parque, a sensação térmica estava na casa dos 5 °C, segundo uma tabela de conversão que tenho aqui. Prevendo essa possibilidade, subi com duas calças e um softshell por cima. Parecia exagero para escalar no Rio de Janeiro, mas foi a melhor escolha para aguentar o frio que nos acompanharia pelo resto do dia.

Para não falarem que estava mentindo.

Graças aos estudos prévios, conseguimos ler toda a parede, identificando as paradas e as principais feições da rocha. Alguns pontos não ficaram tão claros, principalmente no miolo, mas em geral o caminho estava evidente.

Iniciamos a escalada às 9h45, com o Eric guiando a primeira enfiada de III grau. Ele quis começar para aclimatar com a rocha e calibrar o grau.

Sobre a graduação, achamos o nível da via bem coerente com o que escalamos no Espírito Santo. Em geral, o grau capixaba costuma ser um pouco mais “soft” do que o do Rio, mas, pelo menos na CERJ, achamos bem equilibrado.

A primeira enfiada é bem tranquila e com uma navegação fácil, mesmo tendo poucas proteções fixas. A segunda enfiada também ficou com o Eric, que tocou sem problemas, e rapidamente chegamos à P2.

Saída da via.

Em 2018, a via foi totalmente regrampeada, substituindo os grampos originais da década de 70 por chapeletas de inox Pingo, da Bonier. Além disso, todas as paradas foram duplicadas e, pelo que andei vendo, foram adicionadas algumas proteções extras. Para melhorar ainda mais, ao longo da via há diversas oportunidades de colocações móveis que ajudam a diminuir a exposição. Chega a ser estranho escalar uma via da década de 70 com chapeletas de inox. Acho que essa foi a primeira vez que escalei uma via antiga regrampeada. Sem dúvida, isso traz muito mais confiança e segurança, além de garantir uma coragem extra. Por outro lado, percebi que a gente perde um pouco daquele lado da aventura que é bem característico dessas linhas — afinal, grampos velhos em vias clássicas são quase um sinônimo. É um equilíbrio difícil. Sei que algumas pessoas são contra esse tipo de intervenção, enquanto outras acham necessário. Eu sou partidário de fazer trocas equilibradas nos pontos-chave, como nas paradas, e deixar outras partes preservadas.

A terceira enfiada é onde a via ganha inclinação e emoção. Na P2, fizemos a troca de bloco e assumi a ponta da corda para encarar o único trecho em chaminé e, depois, “lamber os beiços” na fenda vertical. A essa altura, o vento já estava mais incomodando do que ajudando. A rocha estava mais seca do que nunca e já estávamos desejando que São Pedro desligasse o ventilador, porque estava frio demais. Dar segurança estava um pouco desconfortável, e a torcida para que o guia terminasse logo a enfiada era sempre grande.

A 4ª enfiada ficou comigo também. Essa era uma das partes em que eu tinha dúvidas em relação à escalada, pois não encontrei muitas informações na internet. Logo na saída, tive de fazer uma pequena virada de teto e depois segui por um trecho descrito pelo Daflon como “proteger em árvores”. Nesse trecho, achei uma chapeleta que a princípio não estava nos croquis e presumi que foi adicionada na regrampeação. Logo depois, cheguei a um platô confortável com uma parada dupla que também não constava no croqui original, mas eu sabia que era uma parada opcional, já que logo acima estava o lance da virada do teto que eu havia visto antes. Com isso, estiquei 40 metros de corda, emendando as duas enfiadas até chegar ao Platô do Sorvete.

Esse platô é bem grande, o maior da via. É um ótimo lugar para fazer um lanche, beber água e descansar um pouco apreciando a vista. Chegamos a essa parada após 2 horas de escalada. Por alguma curva na pedra, o local ficou abrigado do vento e finalmente tivemos um pouco de paz.

Eric chegando na P4.

Ali trocamos mais uma vez de bloco, e o Eric assumiu a 5ª enfiada, que segue por “dentro” do grande diedro. Nessa parte, a rocha muda um pouco de característica, saindo da sequência de grandes agarras em uma parede mais vertical e entrando em uma escalada mais técnica em placa, típica do granito.

5a enfiada.

Voltei a assumir a 6ª enfiada, que é o crux “original” da via, em uma travessia à esquerda para voltar novamente em direção ao grande diedro. Essa enfiada é bem protegida e, agora com a regrampeação, ficou mais confortável ainda. Foto que abre o post.

Chegamos à 7ª enfiada, que foi conquistada originalmente em artificial (A1) e atualmente pode ser escalada em livre, graduada em VI SUP. Essa era a parte que me gerava mais curiosidade, pois eu não tinha visto nenhuma foto e nem fazia ideia de como era o artificial. Além disso, era um desafio bem interessante para passar em livre.

Confesso que a enfiada era totalmente diferente do que eu estava imaginando. Achava que seria uma parede lisa com uma chapa atrás da outra, mas, na verdade, parecia uma via esportiva com lances de regletes, agarras grandes e um final em negativo. Sem dúvida, para quem curte escalada esportiva, essa enfiada é um verdadeiro deleite. O trecho é bem curto, tem uns 20 metros e deve ter por volta de 15 chapas, mas, levando umas 10 costuras, dá para escalar tranquilamente em livre. O crux está logo no início da enfiada, onde os regletes são menores e abaulados; depois, a escalada segue em modo desfrute até a virada, onde há um platô bem confortável sob um bloco entalado.

Eric na enfiada do artitifical

Assim que cheguei a esse platô, voltei a ganhar o dorso do diedro e o vento me achou novamente. Dei segurança para o Eric, que também subiu em livre sem grandes dificuldades.

A 8ª enfiada foi descrita por algumas pessoas como confusa, mas nós já tínhamos os betas e o Eric escalou sem problemas.

Saída da 8a enfiada.

A última enfiada também ficou com ele. Essa linha também pode confundir um pouco, a depender do croqui que se está usando, mas nós sabíamos de antemão como seguir e escalamos de forma tranquila.

Chegamos ao cume às 14h, após 4 horas e 15 minutos de escalada.

Naturalmente, não conseguimos ver nada lá de cima, pois a densa neblina persistia. Não enxergar o visual foi um pouco frustrante, e a falta de referência no cume nos deixou apreensivos, pois o rapel não seria pela mesma via. Tínhamos de seguir pelo cume até a via Sérgio Jacob para baixar da pedra. Na parte do retorno, eu tinha um tracklog, o que nos ajudou bastante a achar o livro de cume e o ponto de rapel. A vegetação esconde a trilha, dificultando a caminhada, e os totens aparecem apenas na parte final, quase chegando à parada.

Livro de cume.
Foto no cume.

Com o tracklog, mesmo sem visibilidade, foi relativamente fácil achar a linha de descida. Fizemos um rapel de 50 metros, depois outro de 55 metros e, por último, um de 35 metros até alcançarmos a base do Capacete. Dali, uma trilha bem demarcada e óbvia nos levou de volta à trilha principal. Por volta das 16h, já estávamos de volta ao camping para comemorar uma das escaladas mais estéticas que já fizemos no Brasil.

Araucária.

Como conquistador, sempre que entro em vias assim, penso em quem as abriu. Fico tentando imaginar como fizeram um determinado lance, a coragem que tiveram para passar ou as dúvidas e incertezas que encontraram ao longo do caminho. Também fiquei pensando em como acharam essa linha e no que sentiram ao verem essa face pela primeira vez. Não posso mentir: o meu sonho é achar uma linha dessas em uma grande parede.

Com a cabeça feita, comemoramos a escalada com um belo jantar de comida termoprocessada e ultraprocessada e caímos no saco de dormir às 20h. Afinal, no dia seguinte, domingo, teríamos um longo caminho de volta até Vitória.

Agradeço ao Eric pelo convite e empenho na empreitada, ao Mascarin por nos receber e pela boa conversa, e ao Rodrigo pelos betas precisos da via.

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