Sem querer, escalamos a via Dilúvio

A programação de sábado foi, mais uma vez, checar uma pedra que eu havia mapeado no Google Maps. O alvo era uma grande fenda de uns 150 metros numa pedra localizada na região de São Rafael, em Linhares, distante cerca de 150 km de Vitória.

A previsão do tempo para o final de semana estava ok. Na quinta-feira, o Chuck me procurou para saber o que eu arrumaria e falei sobre o plano. Ele topou! Ele topa qualquer coisa!

Como o alvo ficava perto de Colatina, falei com o Iury também. Ele também topa qualquer coisa…

Saímos de Vitória às 4h, horário padrão. Pegamos o Iury em Colatina e fomos em direção ao ponto marcado no GPS. Já rodei por aqueles lados com o Iury em duas ocasiões à procura de pedras. Essa região tem muita rocha e praticamente nenhuma via aberta. A única via conquistada por lá é a Santa Rosa Futebol Club.

Chegamos ao ponto marcado e a pedra estava lá (como sempre). Um belo diedro/laca de esquerda, de uns 100 a 150 metros, com alguma vegetação. A parede era meio em rampa e a conquista parecia que seria fácil e tranquila.

Fomos até uma casa para conversar sobre o acesso, mas não encontramos ninguém. Havia roupa no varal, cachorro no pátio e uma marca de moto. Provavelmente o morador saiu para trabalhar ou foi fazer compras na cidade. Esperamos alguns minutos e fomos embora. Sem autorização, sem conquista. Quem sabe numa outra vez teremos mais sorte.

Dali, resolvemos seguir para os lados de Marilândia para procurar pedra, porque o Chuck falou que essa era a única cidade do Espírito Santo que ele ainda não conhecia. Ele já visitou todos os 78 municípios do estado!

Ficamos sem sinal e o Google Maps travou. Tivemos que navegar à moda antiga. Encontramos um senhor num quadriciclo e perguntamos o rumo para Marilândia. Mais à frente, num entroncamento, abordamos um ciclista que nos indicou o caminho correto. Lembro que antigamente fazíamos muito isso e hoje em dia, com o GPS do celular, praticamente andamos pelo interior sem essas interações que são muito legais. Bons tempos!

Chegamos a Marilândia com as mãos vazias, sem nenhuma pedra interessante. Aí lembramos do Cruzeiro do Alto Liberdade, a principal atração turística da cidade. O cruzeiro fica no topo de uma montanha e é famoso por causa da escadaria de cimento construída pelos fiéis. Possui exatamente 2.166 degraus, com um ganho de elevação de 740m em 2 km de trilha. Antes da onda das redes sociais, o local já era frequentado por fiéis, que fazem procissões principalmente nessa época do ano para pedir chuva. Atualmente, o pessoal sobe para tirar selfie no nascer do sol.

Nessa mesma pedra, na face leste — a parte mais íngreme e extensa —, os escaladores “Aranha”, Zé Márcio, Alex “Colatina”, Álvaro Fraga e Redi abriram, em 2003, a via Dilúvio (5º, VI, A1, D2, E3, 370m).

Linha da via.
Croqui da via após a repetição.

Sei da existência dessa via desde que vim morar no Espírito Santo, em 2007. Olhando o croqui, sempre fiquei muito intrigado com a segunda enfiada da via, que transcorre por quase 50 metros em artificial de parafuso. Esse é um estilo de conquista que não é muito comum por aqui. Na verdade, são pouquíssimas as vias com essa característica. A moda das vias diretíssimas que ficaram famosas na Europa, e que depois chegou ao Rio de Janeiro, não passou por aqui. Ainda bem!

Ficava imaginando o que havia de tão bom para cima que justificasse abrir 50 metros de artificial logo na segunda enfiada. Se eu estivesse no lugar deles, com certeza teria encerrado a conquista ao final da primeira enfiada.

Sem muitas opções, resolvemos entrar na via. A ideia era escalar um pouco, pois o tempo não estava muito a nosso favor, já passava das 9h e, ainda por cima, estávamos em três pessoas.

Baixamos o croqui da via e vimos que seria possível rapelar por ela caso fosse necessário (usando duas cordas).

Por ser uma atração local, achar a pedra não foi problema e logo chegamos ao estacionamento. Como o Iury já tinha subido a pedra em outra ocasião, falou que poderíamos seguir de carro mais um pouco, poupando uma boa caminhada. Conseguimos subir de carro até uns 100 metros antes do início da trilha. Lembrando que só passa carro 4×4 no final.

Subir de carro até esse ponto foi primordial para quem estava muito atrasado para entrar numa parede desconhecida.

Separamos o material, traçamos uma estratégia de escalada e iniciamos a caminhada pela mesma trilha que leva ao cume (mais 2o minutos).

Aproximação.

Conforme a descrição, encontramos a base da via logo onde a trilha encosta na pedra, após 20 minutos de caminhada. Da base, conseguimos ver o primeiro grampo. Sabia que a primeira enfiada seria a mais difícil da via, graduada em VI.

Peguei a ponta da corda com a segurança do Iury e iniciei a escalada às 9h30. Do primeiro grampo, fui buscar a segunda proteção e logo vi que teria problemas à frente. A rocha é escura, cor padrão por aqui, e os grampos e chapeletas, por causa da oxidação, também estavam pretos, dificultando a identificação. Para piorar, há muitas bromélias na parede.

Abrindo os trabalhos: Foto: Chuck.

Achei a segunda proteção: uma chapeleta. Logo vi que era uma peça caseira, chumbada com um parafuso sextavado. Pelo tamanho do sextavado, vi que não era de 1/2 nem de 3/8. Provavelmente 1/4 ou 5/16. Também não consegui ver se havia um spit ou se foi chumbado direto. De qualquer forma, fiquei um pouco preocupado, mas segui na esperança de encontrar chapeletas melhores mais acima.

Mais acima, encontrei a segunda chapeleta. Era igual à primeira, com o agravante de estar totalmente amassada. Provavelmente uma pedra caiu e bateu nela. Olhei para cima, vi o tamanho do esticão e surgiu a segunda hipótese para a chapeleta torta: alguém caiu lá de cima.

Segui a escalada, pois estava na esperança de encontrar um grampo ou chapa escondida no meio do esticão. Cheguei a um lance estranho, já longe da última proteção. Passei com certo esforço e presumi que fosse o crux. Depois, o Chuck falou que nesse trecho havia vários furos de cliff.

Da P1, enquanto esperava os dois subirem — o Chuck pela corda fixa e o Iury escalando de segundo —, fiquei olhando para o tal artificial de parafusos. A parede era muito inclinada e sem agarras para tentar passar em livre. Pelo menos para o meu nível de escalada. Alguns parafusos eram de inox, o que foi um alívio. Eles transmitiam mais segurança do que as chapeletas caseiras com parafuso enferrujado.

Peguei a segunda enfiada por estar mais familiarizado com a técnica. Ali, ganhar tempo era primordial, pois a enfiada tinha 50 metros. Tentei progredir sem parar para não perder tempo. Subi o mais rápido possível. Às vezes, nem sentava na cadeirinha para poupar tempo; subia de estribo em estribo.

Subindo pelas cordas fixas na 2a enfiada.

Vencida a segunda enfiada, a minha curiosidade de anos havia sido saciada. Para cima, a parede seguia sem perder inclinação. Pelo croqui, a próxima enfiada seria mista, com lances em livre e passadas em artificial nos trechos mais verticais, também em parafusos. Toquei mais essa por causa do artificial e logo cheguei a um platô confortável, já que a P2 era num balcão bem ruim.

A P3 é muito confortável. Acho que até serviu de bivaque durante a conquista.

O Chuck assumiu a quarta enfiada. Parecia difícil, mas pelo menos dava para ver o primeiro grampo. Assim que ele costurou a primeira proteção, logo em seguida costurou a segunda, a terceira, a quarta e a quinta, uma atrás da outra. Dava para ver claramente que quem conquistou essa enfiada não foi a mesma pessoa que pegou as de baixo, por causa da distância reduzida entre os grampos.

Chuck na ponta da corda.

Ali comecei a desconfiar do croqui, pois não havia essa indicação e a via estava jogando para a esquerda, enquanto o croqui dizia que era para cima, com grampos regularmente espaçados.

O sexto grampo estava difícil de o Chuck achar. Ele teve que esticar a corda para buscar e, quando achou, precisou pular porque estava fora de alcance. Definitivamente, depois da quinta proteção, mudou o conquistador e um outro assumiu a ponta.

Voltei à ponta da corda na quinta enfiada. Como havia muita discrepância no croqui na quarta enfiada, comecei a usa-lo com mais cuidado. Nessa enfiada também há mais um trecho em artificial em uma parte vertical. A essa altura, a escalada prosseguia com certa facilidade. Há muitas agarras ao longo da via e, tecnicamente, não há passadas complexas, desde que se leia a rocha com atenção. O croqui não traz a graduação das enfiadas, mas acho que, com exceção da primeira, todas as outras estão na casa do V. Os únicos problemas são a identificação dos grampos e a qualidade duvidosa das chapeletas.

Tocando a 5a enfiada.

Cheguei à P5 e comecei a ficar preocupado com o tempo. A essa altura, a via já estava totalmente na sombra, o que ajudou muito a amenizar o calor. O Iury era quem mais estava preocupado com o horário. Pelo relógio, daria tempo de tocar mais três enfiadas e encarar mais 200 metros de “trepa-pedra” até o cume antes do anoitecer, mas seria bem na risca. E, para piorar, os dois subiram sem lanterna.

A sexta enfiada foi, definitivamente, a pior de todas. O croqui já não estava coerente, os grampos ficaram mais espaçados e havia mais vegetação. Levei muito tempo para achar a linha da via e as proteções. Em um dado momento, subi em um platô e fiquei procurando o grampo. Ficava pensando: “Por que o cara não bateu um grampo aqui? Este é o melhor lugar depois desse esticão e antes do próximo lance”. De repente, atrás de uma bromélia, achei o grampo; estava bem na minha cara.

A relação entre ver as proteções e a vegetação tem uma correlação interessante. Onde tem mais vegetação, há mais agarras. Onde tem mais agarras, os lances são mais fáceis e os grampos ficam mais distantes e difíceis de ver. Já onde tem menos vegetação, há menos agarras e fica mais fácil enxergar as proteções, mas elas continuam igualmente distantes!

A sétima enfiada tem uma navegação mais simples, mas, em compensação, os grampos são ainda mais distantes. No final, não achei a segunda chapeleta antes da parada que estava indicada no croqui. Quando encontrei uma chapeleta mais acima, fiquei na dúvida porque ela não deveria estar ali — era para ser uma parada dupla. Mas, quando cheguei mais perto, vi que o grampo estava enterrado na terra, bem ao lado.

A essa altura, descer pela via já não era mais uma opção; agora tínhamos que sair por cima.

A última enfiada ficou com o Chuck. No croqui dizia que ela tinha 50 metros, mas na verdade só tinha 25 metros. Logo estávamos no final da via.

Chapeleta cadeira da P7.
Chuck no artificial da última enfiada.
Finalizando a via.

Procuramos o livro de cume, mas aparentemente um raio caiu na marmita, fez três furos e as formigas entraram, comendo todo o papel. Não restou nada. Para não deixar lixo para trás, trouxemos a carcaça de volta.

Livro de cume.

Dali, mais uns 200 metros de “trepa-mato” nos levaram ao topo do cruzeiro e, às 16h40, finalizamos a escalada. Fizemos a descida em 30 minutos até o carro (chegando às 17h30) e conseguimos concluir tudo sem precisar das lanternas.

Foto no cume!

Em linhas gerais é uma escalada bem divertida para quem gosta desse estilo de escalada. Do jeito que está ainda tem como seguir escalando, mas acho que uma regrampeação seria bem-vinda para substituir principalmente as chapeletas antigas.

Vista do cume.
Placa sobre a escadaria.
Vista do cruzeiro ao entardecer. Foto de drone.

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