Acabamos de voltar de mais uma escalada, a última do nosso segundo ciclo de atividade. Estamos seguindo uma rotina de escalar dois dias e descansar um, esquema que espero manter até o final da viagem.
L’Offre
Desta vez, escolhemos uma via chamada L’Offre, localizada no setor de mesmo nome. Esse setor fica mais a montante do rio, praticamente na entrada do cânion. Optamos por essa linha devido a ótimas recomendações que lemos e ouvimos. Além disso, na manhã de hoje, o acesso à Route des Crêtes — onde ficam os setores mais famosos — estava fechado para um evento de ciclismo.

A via foi conquistada em 1969 por François Guillot, Jean-Marie Picard-Deyme, Marius Coquillat e Guy Héran, sendo uma das pioneiras de Verdon. Curiosamente, seu nome significa “A Oferta” e foi batizada assim por ter sido aberta logo após a lendária rota vizinha La Demanda (“O Pedido”), consolidando um famoso trocadilho histórico na região. A linha possui 280 metros de extensão divididas em 9 enfiadas. Pelo croqui, a via parecia sem graça numa rampa suja, mas, ao chegarmos à base, confirmamos que ela é vertical e imponente como todas as outras paredes de Verdon.

A via fica a apenas 20 minutos de carro de La Palud-sur-Verdon e a trilha é um atrativo à parte. A caminhada atravessa o Túnel de Samson — que integrava um projeto hidroelétrico faraônico e abandonado do início do século XX, hoje parte da trilha Blanc-Martel — acompanhando o rio até alcançar uma janela de ventilação. A rota começa justamente na segunda janela, já no coração do cânion, com as águas de tom turquesa correndo logo abaixo. Não é à toa que se trata de uma das linhas mais célebres e frequentadas do local.

Outra grande vantagem de L’Offre é o acesso por baixo. Ao contrário do setor Escalès, onde o escalador é obrigado a rapelar no abismo para iniciar a via, ali há uma linha de fuga clara e segura pela base caso surja algum imprevisto. A escalada em si segue o estilo característico da primeira fase exploratória de Verdon, na qual as linhas eram conquistadas de baixo, aproveitando os principais sistemas de fendas e falhas da rocha. Geologicamente, a via transcorre pelo plano de uma falha de empurrão, provavelmente associada à formação da cadeia de montanha dos Alpes.

Com base em um beta que encontramos na internet, comecei a escalada emendando as duas primeiras enfiadas para otimizar o tempo, esticando quase 60 metros de corda. Contudo, não sei se o esticão compensa o arrasto, mesmo utilizando corda dupla. Fica a dica para quem for repetir a rota: o zigue-zague da parede aumenta significativamente o arrasto, então dividi-las talvez ainda seja uma boa estratégia.
A enfiada seguinte, a terceira oficial, ficou com o Tiagão. Ele tocou uma travessia curta à esquerda para contornar uma seção mais negativa da parede. Embora a via seja protegida por chapas, há um trabalho de navegação considerável devido à distância entre as proteções e ao desenho da rocha. Lá pelas tantas, vi o Tiagão sacar um Totem Cam, o que não estava nos planos. Logo depois, puxou um segundo e, instantes mais tarde, quase caiu ao segurar em uma agarra solta que se desfez na mão. Ele estava definitivamente fora da via original e entrando no “modo aventura”! Mais acima, ele conseguiu encontrar uma parada e eu subi na sequência recolhendo as costuras. Foi quando percebi que ele havia ido parar na parada de outra via à esquerda, provavelmente a Moralenemia ou alguma outra linha moderna que cruza aquela seção.

Dali mesmo, assumi a ponta para tocar a primeira enfiada de um famigerado 6a francês. O grau se mostrou justo, mas definitivamente nunca seria cotado como um V Sup no Brasil. A enfiada seguinte, um 4b francês tocado pelo Tiagão, pareceu dura para um IV Sup brasileiro, mas transcorreu de forma tranquila.

A sexta enfiada oficial é o crux da via: um 6a vertical com fendas e agarras, protegido por chapas. Seguimos a recomendação de carregar algumas peças extras e os cams médios foram muito úteis, funcionando perfeitamente para proteger o estilo de oposição exigido no trecho. Para os padrões brasileiros, essa enfiada equivale a um VI Sup de agarras polidas, daquelas de fazer peso na fralda.
Essa enfiada nos levou a um grande platô em forma de caverna, excelente para um descanso confortável antes de encararmos as três enfiadas finais. Até aquele momento, estávamos escalando na sombra a uma temperatura muito agradável, tendendo ao frio. No início da manhã, quando começamos a subir às 9h30, o termômetro do carro marcava 12 °C. A partir dali, contudo, a parede recebeu sol pleno e sabíamos que o desgaste pelo calor aumentaria.
A sétima enfiada é um IV grau justo, bem no estilo de montanha ao qual estou acostumado, com bastante vegetação — um autêntico très facile. A oitava enfiada apresenta mais um 6a técnico (que alguns consideram V Sup). Ela segue por um belo diedro que lembrou bastante a via do nosso primeiro dia. Por sorte, nessa via os locais não removeram as chapeletas, poupando o psicológico dos “guris”.
A última enfiada foi apenas protocolar e logo alcançamos o cume. Concluímos a escalada em 4h30, um tempo satisfatório que manteve a média de 30 minutos por enfiada. A descida exigiu mais uma hora de caminhada encosta abaixo até o carro. Antes de voltarmos ao estúdio, ainda paramos à beira do rio. O banho de comemoração, no entanto, ficou apenas para o Tiagão; eu não tive coragem de encarar a água gelada.


Descanso
Após completarmos dois ciclos de escalada, tiramos um merecido dia de descanso. No primeiro descanso, fomos até Gap — cidade situada a 150 km de Verdon — para fazermos uma compra maior de mantimentos. Embora a distância seja relativamente curta, as estradas locais são extremamente sinuosas, o que tornou o deslocamento cansativo. No fim das contas, o descanso virou quase um “canso”, sem contar o efeito residual do jet lag. Felizmente, hoje, após uma semana inteira na região, finalmente me sinto 100% recuperado, sem os efeitos do fuso horário e totalmente livre da gripe!


Já no nosso segundo dia de descanso, aproveitamos para visitar a histórica vila de Moustiers-Sainte-Marie, que fica a cerca de meia hora de La Palud-sur-Verdon. Famosa mundialmente por suas louças de faiança, a cidade impressiona pela beleza pitoresca de sua arquitetura medieval encravada diretamente na encosta da montanha. Um riacho que nasce nos desfiladeiros corta o centro do vilarejo, formando pequenas quedas d’água sob pontes antigas. Contudo, o grande símbolo local é a estrela de ouro suspensa no vazio por uma corrente secular, conectada à rocha de cada lado do vale. O lugar possui uma atmosfera vibrante e consideravelmente mais agitada do que a pacata rotina de La Palud-sur-Verdon.




Laïspité Positive
No dia seguinte, retornamos à rocha para encarar uma via chamada Laïspité Positive, localizada no setor homônimo. Trata-se de uma linha aberta pelo célebre conquistador local Pascal Faudou. Durante a viagem, já descobrimos que escalar a via que dá nome ao setor costuma ser uma excelente escolha, desde que a dificuldade esteja dentro do planejado.

Essa linha possui uma particularidade logística muito confortável: o acesso é feito por meio de uma caminhada que desce do topo até a base da parede, dispensando os rapéis. Ao término da via, a saída nos deixa caminhando direto para o estacionamento. A via está graduada em 6a+ francês, possui 150 metros de extensão e é dividida em 7 enfiadas.
Iniciamos a escalada relativamente tarde, por volta das 11h, e fomos revezando a ponta da corda sem pressa. Na quarta parada (P4), alcançamos uma gruta muito bonita, onde aproveitamos para descansar e contemplar o visual do cânion. Logo na sequência, guiei aquela que considero uma das enfiadas mais fantásticas que já escalei até agora: uma linha típica de placa técnica, inteiramente em “buracos de chuva”.


Concluímos a escalada às 14h30, totalizando 3h30 de escalada. Foi um dia bastante tranquilo e totalmente dentro da nossa zona de conforto, apresentando uma graduação justa, condizente com o guia e muito bem protegida (cotada em E1). Como a rota não exige rapel, fica a dica de logística para quem for repeti-la: é possível escalá-la tranquilamente utilizando apenas uma corda simples de 50 metros e cerca de 14 costuras.



