Suíça

Há aproximadamente 56 milhões de anos a Placa Tectônica do Adriático e a Placa Euroasiática entraram em rota de colisão, o que levou à formação da cadeia de montanhas dos Alpes. Para nós — minha esposa Paula e eu, que somos geólogos de formação — os Alpes são um verdadeiro playground, um livro de geologia a céu aberto. E, dentre todos os países que contemplam essa cadeia de montanhas, a Suíça é, sem dúvida, o mais espetacular sob todos os aspectos.

Seção geológica mostrando o resultado da colisão entre as duas placas tectônicas, com as camadas de rocha dobradas.

Estive na região em 2015 com o Murilo, numa roadtrip pela França, Suíça e Itália, mas foi uma passagem tão rápida que nem deu tempo de sentir o gosto do fondue. Ainda assim, saí de lá com uma boa impressão do país e com o desejo de um dia retornar com mais calma.

A ideia de voltar para a Suíça surgiu meio no improviso — e assim foi toda a viagem. Passagem comprada, um esboço de roteiro e somente uma reserva para a primeira noite em Zurique. O resto foi de acordo com o vento alpino, literalmente!

Mapa da Suíça com os locais visitados.

Zurique

Um voo direto de São Paulo nos levou à Zurique, uma das cidades mais importantes da Suíça (a capital é Berna, mas ninguém liga).

Ali alugamos um carro para fazer toda a viagem. A gente percebe que está na Suíça quando aluga um carro e o atendente entrega uma caixa de chocolate Lindt de cortesia.

Zurique foi mais uma passagem para nos organizarmos, recuperar um pouco do jet lag e iniciar o roteiro pelos Alpes.

Achamos Zurique apenas “ok”: uma cidade monocromática e sem grandes atrações. É claro que o padrão suíço impera e dá de dez em qualquer cidade do Brasil, mas acho que faltou um pouco de tempero.

Pelas ruas de Zurique.

Os destaques ficaram por conta do Museu Nacional da Suíça, que tem uma exposição permanente sobre a história do país. Outro ponto alto foi o Museu de Arte, que reúne obras relevantes de pintores como Monet, Rembrandt, Cézanne e Picasso. Mas o mais interessante foi a forma como abordaram a história do funcionamento do mercado de arte no passado. Em muitos casos, as obras são adquiridas de formas duvidosas, com dinheiro de procedência igualmente questionável.

Para não falar só mal de Zurique, preciso dizer que gostamos muito de um restaurante vegetariano chamado Hiltl, considerado o primeiro restaurante vegetariano do mundo (desde 1898). Embora o título remeta a algo antigo, o espaço é moderno, descolado e frequentado por jovens. O sistema funciona por peso — algo incomum por lá mas bem comum por aqui – e os pratos são saborosíssimos. Para quem quiser, fica na Bahnhofstrasse 88, num prédio com entrada discreta, acessada por elevador.

De Zurique fomos para a “Disney dos geólogos”: os Alpes, mais ao sul.

A Suíça é um país relativamente pequeno — da dimensão do Estado do Espírito Santo — e dividido em duas áreas: ao norte, as regiões mais baixas, e ao sul, os Alpes, com montanhas que chegam a 4 mil metros de altitude.

Lucerna

Nossa primeira parada foi na cidade de Lucerna, aos pés dos Alpes, para visitar uma antiga ponte de madeira.

Estacionamos o carro numa garagem subterrânea e, assim que saímos para a cidade, como ursos saindo da hibernação, parecia que havíamos chegado a Xangai — ou qualquer outra cidade da China — pela quantidade de turistas chineses. Ali lembramos que a Suíça é um dos destinos preferidos dos chineses na Europa e que a presença deles seria onipresente nas cidades mais turísticas.

Ponte de Lucerna.

Lauterbrunnen

A tal ponte foi uma visita “ok”, e seguimos em direção à Lauterbrunnen, um pequeno vilarejo em um grande vale, com escarpas de calcário moldadas durante a última glaciação e uma cachoeira no fundo. O vilarejo é super fotogênico e também muito frequentado por turistas — chineses, é claro.

Para fugir um pouco da muvuca, resolvemos explorar mais o vale e acabamos chegando a um teleférico que leva a um vilarejo no alto (Mürren), acessível apenas por esse meio de transporte.

Pacata cidade de Lauterbrunnen.

Ao longo da viagem, fomos descobrindo que teleféricos e trens são meios de transporte muito úteis, eficientes — e caros — nas regiões montanhosas. É claro que sempre existe a opção de subir a pé, mas quando lembramos que em 5 minutos o teleférico nos coloca 1.000 m acima, nem pensamos muito no valor do bilhete em reais.

No cume do Schilthorn.

A moeda oficial na Suíça é o franco suíço. Em 2025, a relação estava de 7:1. Um franco suíço (CHF) valia R$ 7,00, o que é bastante caro para nós, brasileiros. Para se ter uma ideia, um prato de comida num restaurante médio saía por uns CHF 15,00 a 20,00.

Grindelwald

No dia seguinte, fomos para a vila de Grindelwald, que fica ao lado do vale de Lauterbrunnen.

Grindelwald.

Grindelwald está aos pés da famosa face norte do Eiger (3970m). Para quem, como eu, curte história do montanhismo, visitar a face norte do Eiger é como entrar num livro de história e reviver a trágica escalada de 1936 que virou manchete nos jornais da época.

Infelizmente, nesse dia, as nuvens encobriram o Eiger e não pudemos ver a imponente parede de calcário. Assim, resolvemos fazer um passeio de trem que tem o título de levar à estação mais alta da Europa, a 3.571 m. Para nós, geólogos, o ápice desse passeio foi ver o maior glaciar dos Alpes (Aletsch) e tocar um pouco na neve eterna, que não derrete nem no verão.

O fato de não conseguir ver a face norte do Eiger me deixou frustrado. Queria muito observar a linha da via de 1936 e o famoso buraco do túnel por onde a equipe de resgate acessou os escaladores presos.

Foto histórica do resgate após a tentativa fracassada de 1936.

Como nossa viagem não tinha cronograma nem reservas de hotel predefinidas, no dia seguinte, após checar a previsão do tempo, resolvemos voltar a Grindelwald para tentar ver novamente o Eiger.

Dessa vez, Sant Peter suíço colaborou e pudemos contemplar em toda plenitude a majestosa face da montanha a partir de uma trilha de 6 km que margeia a sua base (Eiger Trail).

Face Norte do Eiger.

Aletsch

De Grindelwald atravessamos para um vale oposto, passando pelo passo Grimsel, onde estive escalando em 2015.

Foi uma travessia nostálgica e cheia de boas lembranças. Tive a felicidade de encontrar o mesmo trailer onde, há 10 anos, comprei um pedaço de queijo e salame com um simpático casal de velhinhos que não falava inglês. Dessa vez, o senhor já não estava mais, apenas a senhora. Pensei em dizer que havia comprado com eles uma década antes, mas minha vergonha — e meu alemão limitado — não permitiram.

Na Suíça, fala-se majoritariamente alemão; em algumas regiões de fronteira, francês e italiano. O inglês é bastante usado nas grandes cidades, mas no interior não é incomum encontrar pessoas que só falam alemão.

Durante o ensino médio, tive aulas de alemão em Ivoti (RS) porque meu colégio tinha parceria com a Alemanha. É claro que esqueci muita coisa, mas pelo menos aquelas aulas serviram para esboçar um diálogo monossilábico nessa viagem.

Descendo o passo, fomos parar em Fiesch, uma pequena cidade típica dos Alpes suíços, encravada num antigo vale glacial, com casas tradicionais da região.

No dia seguinte, um teleférico nos levou para fora do vale até um mirante (Eggishorn) oposto a geleira que havíamos visto no dia anterior.

Pela primeira vez na viagem, chegamos a uma atração sem aquele turismo de massa. Pudemos contemplar a beleza e o frio da geleira em toda a sua plenitude. A única tristeza foi ver como ela está perdendo volume com as mudanças climáticas, principalmente nos últimos 100 anos. Ficamos imaginando como seria incrível estar ali um século atrás.

Geleira Aletsch, a maior geleira dos Alpes.

Descemos de volta de teleférico e seguimos para a turística cidade de Zermatt.

Zermatt

Embora a distância fosse curta (50km), o fato de a estrada atravessar áreas montanhosas tornou a viagem demorada. Pelo menos as estradas e o trânsito suíços são de dar inveja ao Brasil. Mas achei os motoristas suíços meio pilotos de rally, principalmente nas curvas de montanha, onde o limite é 80 km/h.

Zermatt é tipo Gramado. Eu acho que Zematt é uma cópia de Gramado! Se na geleira Aletsch não vimos turistas, nem chineses, em Zermatt fomos engolidos novamente.

Assim que chegamos, resolvemos sair para fazer uma foto noturna da cidade com o Matterhorn — aquela montanha do chocolate Toblerone — ao fundo.

A foto teria que ser tirada depois do pôr do sol, já quase de noite. Pensamos que estaria tranquilo, mas quando subimos uma enorme ladeira, descobrimos que os chineses têm alguma tara por essa foto, pois o local estava tomado. Engraçado que nós e mais meia dúzia éramos ocidentais; o resto, só orientais.

Outro detalhe que chamou nossa atenção foi a mudança nos equipamentos fotográficos. Até uns 5 anos atrás, era comum ver muitas câmeras digitais montadas em tripés. Desta vez, quase todas haviam sido substituídas por celulares.

As câmeras atuais de celular são incríveis, mas continuam longe de entregar boas fotos em baixa luminosidade. Em composições noturnas, as câmeras digitais com tripé continuam imbatíveis.

Entardecer em Zermatt com Matterhorn ao fundo.

No dia seguinte, fizemos mais um passeio de trem para ver outra geleira e o Matterhorn.

Queríamos a clássica foto do entardecer da montanha refletida no lago. Subimos tarde, fotografamos no fim do dia e descemos no último trem. Infelizmente, as condições de luz e vento não ajudaram, mas foi uma grande aventura.

Entardecer no Reffelsee.

No último dia em Zermatt, acordamos antes do amanhecer e fomos até uma ponte para ver os primeiros raios de sol baterem no Matterhorn.

Amanheceu frio. Na penumbra da manhã, caminhamos pelas ruelas da cidade. Poucas pessoas ousavam estar ali; quem estava ia por obrigação, provavelmente rumo ao trabalho.

Assim que viramos a esquina e vimos a tal ponte, ficamos estarrecidos: estava tomada de turistas chineses. Se na noite anterior já havia muitos, agora havia o dobro, talvez o triplo.

Tiramos as fotos, voltamos ao hotel e seguimos para Chamonix, na França.

Amanhecer em Zermatt.

Chamonix

Já conhecia Chamonix de outras viagens, mas a Paula não. Então foi uma boa oportunidade para mostrar a ela essa charmosa cidade francesa.

Chegamos bem no sábado e a cidade estava fervilhando.

Até então, nossa viagem seguia naquele ritmo de zero planejamento. Basicamente, acordávamos sem hotel reservado para a noite seguinte, sem bilhetes de trens ou teleféricos comprados.

Com isso, quando chegamos a Chamonix à tarde e fomos atrás dos bilhetes para o teleférico da Aiguille du Midi, mas ficamos a ver navios: já estava tudo esgotado.

Entardecer em Chamonix com Mount Blanc encoberto pelas nuvens.

Para o dia seguinte, a previsão apontava uma forte virada de tempo. Se na primeira semana tivemos céu de brigadeiro, a segunda seria de tempo ruim.

Fomos para o hotel apreensivos. À noite, jantamos num restaurante nepalês perto do hotel.

No dia seguinte, amanheceu com sol, mas ventava muito. Fomos cedo para a fila, mas o teleférico só foi liberado após longa espera, por conta dos ventos fortes a 4.800 m.

Assim que subimos, o passeio foi ventoso e gelado. Imagino o quanto deve ter sido difícil para quem foi escalar nesse dia.

Alpinistas no Aiguille du Midi.

À tarde, o tempo deteriorou de vez. Decidimos sair dali e voltar para a Suíça, em direção ao leste, fugindo da tormenta.

Furka

Cruzamos o país por um longo vale, passando por vários passos. Entre todos, sem dúvida o trecho entre Furka e Andrematt foi o meu favorito. Uma das estradas mais bonitas em que já estive.

Furka pass.

Dormimos num hotel de beira de estrada perto do passo Klause e, no dia seguinte, chegamos ao Parque Nacional Suíço.

Subida do Furka Pass.

No dia seguinte, fomos fazer uma visita geológica no empurrão mais famoso dos Alpes na região de Sardona, onde fica o Geoparque Arena Tectonic Sardona, considerado Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.

A ideia era visitar um afloramento no alto da montanha, mas como o tempo estava ruim e sem visibilidade nas partes altas, resolvemos visitar um afloramento chave na parte baixa. 

Seção geológica mostrando o thrust de Glarus, onde as camadas mais antigas (em azul) se sobrepõem às mais novas (em amarelo) durante a formação dos Alpes.

Essa estrutura foi fundamental para o avanço da geologia moderna: ao longo de mais de dois séculos, cientistas estudaram Sardona como um laboratório natural para entender como as montanhas se formam através da colisão de placas tectônicas.

O que torna Sardona especial é que ali rochas muito antigas foram empurradas sobre rochas muito mais jovens — o que é contrário à expectativa usual (na estratigrafia clássica). Esse empurrão tectônico é chamado thrust e interpreta-se que a camada de cima, mais antiga, deslizou aproximadamente 40km sobre a camada inferior.

Visitando o afloramento histórico. A camada de baixo é uma rocha mais nova e camada de cima, mais antiga.

Parque Nacional Suíço

A Suíça tem algumas peculiaridades. Em Fiesch e outros lugares, vimos caçadores com rifles a tiracolo. Fomos pesquisar e descobrimos que a caça é liberada em quase todo o país — proibida apenas em Genebra e no Parque Nacional Suíço, uma pequena área protegida de 178 km². Isso explica a enorme quantidade de cabeças de animais empalhados nas paredes de hotéis e restaurantes e, infelizmente, a notável ausência de vida selvagem.

Cervos no Parque Nacional Suíço.

No Parque Nacional, fizemos uma trilha de 12 km por um vale. Por sorte, era época de acasalamento dos cervos: os machos urravam alto para atrair as fêmeas. Isso facilitou a observação, mesmo à distância.

Schäfler

Com o mau tempo no encalço, arriscamos subir o Schäfler, uma crista de calcário íngreme, a 2.400 m. A previsão era incerta e, quando chegamos, o mirante já estava encoberto.

Passamos a noite num refúgio de montanha, na esperança de pegar uma janela de sol ao amanhecer. Mas amanheceu nevando e sem visibilidade. Descemos frustrados.

Amanhecer no refúgio de montanha.
Tempo virando em Schafler.

O tempo virou de vez em toda a Suíça, com nevascas nos Alpes e chuva intensa no norte da Itália. Fugimos para o norte, rumo à Alemanha.

Konstanz

Escolhemos Konstanz, cidade medieval preservada, na fronteira com a Suíça. Foi uma grata surpresa: viva e colorida, bem diferente de Zurique.

Konstanz, Alemanha.

Ali tivemos uma aventura gastronômica às cegas. Entramos em um restaurante típico num antigo porão do século XV. Sem sinal de celular, não conseguimos traduzir o cardápio. Pedi o que parecia o prato da casa.

Veio batata gratinada e dois pedaços grossos de carne bovina servidos sobre pedra quente. O problema? A carne mal havia passado pelo fogo. Estava crua e fria por dentro.

Comi um pedaço e estava macio, mas cru. O segundo pedaço, tentei fatiar e “grelhar” na pedra, deu certo, mas passou do ponto e ficou duro. Vivendo e aprendendo.

Apesar disso, Konstanz nos deixou ótima impressão. No dia seguinte, voltamos para a Suíça, já rumo ao Brasil.

Estátua da Impéria.
Nós!

Comentários

3 respostas em “Suíça”

Esse #ArimaTur tá diferente, kkkkkkk… Sensacional a viagem e postagem casal ?

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