Céüse, vivendo o sonho

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Tamanho do meu sorriso!

Se eu tivesse que escolher uma, somente uma, área de escalada nesta vida para conhecer, este lugar seria, sem dúvida, Céüse! Tanto é que na primeira oportunidade que eu tive de viajar para o velho mundo, vim seco para Céüse com os meus amigos Rafael Torres e Chico em 2008. Infelizmente naquela ocasião, o tempo não colaborou e nós nem conseguimos ver a falésia de longe porque o tempo estava fechado, frio e com neve por todos os lados. Nunca vou me esquecer daquela cena fúnebre que tomou conta de nós durante a volta de Céüse para Marselha. Foram 3h de estrada sem ninguém falar um ai, cada um mergulhado no seu mundo, tentando assimilar a frustração de não conhecer a “melhor área de escalada do mundo”. Naquela ocasião, eu prometi a mim mesmo, em silêncio, que um dia voltaria para Céüse!

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Céüse.

Foram necessários mais 5 anos de espera para voltar novamente a Céüse. E dessa vez com o meu amigo de longa data, o Andres que atualmente está morando na Itália.

Quando se fala de Céüse, logo vem a mente, pelo menos, cinco coisas:

1- Céüse, a melhor área de escalada do mundo. Todas as pessoas que conheceram esse lugar falam isso, e agora que eu estou conhecendo um pouco mais esse lugar, também posso engordar o caldo e falar: é o melhor lugar do mundo.

Esses dias, conhecemos uma brasileira em Céüse e ela nos contou que tinha ido escalar em uma área aqui perto e disse que era mais ou menos. Ai, respondi para ela: depois que conhece Céüse, qualquer outro lugar é mais ou menos!

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Escalador mandando um 9b no setor Demi Lune.

2- A falésia de Céüse fica no alto de uma montanha, a uns 1900m em relação ao nível do mar e o  camping 1200m. Ou seja, tem um desnível de quase 700m que é vencido com uma caminhada de 1h a 1h20, todos os dias. Uma hora para subir e uma hora para voltar.

Não vou negar que a caminhada é tranquila, até porque 1h morro acima o tempo todo cansa demais fisicamente e mentalmente. Mas com o tempo, a gente aprendi a acostumar o corpo e a levar para cima restritamente o necessário.

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Caminhada nossa de cada dia. 

3- Depois de caminhar uma hora morro acima, ainda tem que enfrentar os famosos esticões de Céüse, uma outra característica peculiar daqui. Outro dia, li que as vias são assim porque na época da conquista das vias, escaladores como Patrick Edlinger tinham pouca grana para comprar chapas e muita motivação para abrir as vias. Então acabaram batendo poucas chapas para conseguirem abrir o máximo de vias possíveis. É claro que com o tempo, algumas vias receberam chapas intermediárias, mas ainda há várias vias com proteções espaçadas, tipo 8 chapas em 25m.

Eu tento não entrar muito em vias assim porque faz mal para o coração, mas infelizmente as vias mais clássicas ainda são à moda antiga. Então, às vezes, tem que tomar coragem e se expor um pouco. Na verdade, com o tempo, e depois de alguns voos, a gente descobre que não é nada tão perigoso. Tendo uma boa segue e um brevê dá para se divertir bastante.

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Falta pouco!

4- Quando se fala Céüse, logo vem a mente o nome Patrick Edlinger, um escalador místico da França que infelizmente veio a falecer no ano passado. Ele tinha um estilo único de escalada com uma movimentação plástica e fluida. E também foi um dos grande conquistadores de Céüse. Na verdade foi ele que deslumbrou o potencial de Céüse e transformou ele no que é hoje. Muito obrigado sr. Edlinger! Mas na próxima encarnação, se estiver sem grana para comprar chapas, me chama que entro no racha!

5- A via mais mística de Céüse é com certeza a Biographie (9a+), uma via negativa de 40m que corta uma faixa de calcáreo azul. A via não foi equipada por Edlinger, mas por um outro grande escalador que contribuiu muito para Céüse, J. C. Lafaille. Na época da conquista a via foi considerada muito visionária para a sua época. A primeira ascensão só veio quando Arnaud Pett começou a trabalhar ela e acabou quebrando a via em 2 no meio da sessão negativa, estabelecendo assim um 8c+.

Em 1997, o menino prodígio Chis Sharma, em sua primeira visita a Céüse, encadenou a primeira parte a via e logo começou a trabalhar a via inteira. E só em 2001 ele finalmente mandou a via na íntegra, na visão visionária de Lafaille, estabelecendo o primeiro 9a+ da história.

Eu acompanhei parte dessa história nos vídeos, revistas e internet. Assisti em VHS, inúmeras vezes o Pett na Biographie e depois pela internet o Sharma mandando ela integral (Realization). Então, poder estar na base de uma via mística, ao vivo e a cores é algo indescritível. Não consegui nem me pendurar nas duas primeiras agarras da via, só tocar, mas já deu para sentir como a via é potente.

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Na base da via Biographie. Foto: Andres.

Enfim, Céüse é tudo isso e muito mais.

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Infelizmente, a internet no camping é uma droga e não estamos conseguido acessar o mundo real e/ou virtual constantemente. Também não estou conseguindo fazer fotos de escalada porque estamos em dois. Não tem como dar segue e fotografar ao mesmo tempo quando o meu amigo está no meio de um esticão na eminência de alçar um voo.

No blog do Andres, tem algumas postagens sobre a nossa trip. Para ler, clique aqui e aqui!

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3 Responses

  1. Bah…lendo o texto me lembrei daquele dia…foi chato…Aproveita e aperta bastante por aí! Abração!

  2. Massa as fotos e a descrição de Ceuse! Realmente voltar de lá pra Marseille na chuva sem nem ter visto a falésia foi meio triste. Me lebro da tua promessa de voltar, ainda bem que conseguiste logo e muito bem acompanhado!
    Abração!

  3. Pingback: Indian Creek

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