Resolvemos experimentar um setor de escalada esportiva em Verdon. Fomos conhecer o Pas d’Issane, que fica a cerca de 15 minutos de carro de La Palud-sur-Verdon, seguidos por mais 20 minutos de caminhada por uma trilha bem definida. Segundo o guia, trata-se de um setor relativamente novo, com vias acessíveis que variam do 6º ao 7º grau na escala francesa e possuem até 30 metros de extensão. Por ser uma área de desenvolvimento recente, as vias têm um estilo mais atlético, graduação moderna e um padrão de proteção superesportivo.
Como a parede está voltada para o oeste, ela fica na sombra durante o período da manhã. Por isso, fizemos um esforço extra e acordamos mais cedo, às 7h, para aproveitar melhor as condições climáticas. Nos últimos dias, a temperatura tem baixado gradualmente: os termômetros marcam a casa dos 11 °C pela manhã e a máxima chega perto dos 24 °C à tarde.
Grande parte da trilha de aproximação compartilha o trajeto com a histórica trilha Martel, uma rota icônica que leva ao interior do cânion. O caminho refaz os passos da primeira expedição científica completa a desbravar e mapear o Verdon em 1905, liderada pelo renomado espeleólogo Édouard-Alfred Martel. Coincidentemente, no exato momento em que chegamos para iniciar a caminhada, um ônibus lotado de turistas encostou para fazer a travessia. Com isso, dividimos o trecho inicial da nossa jornada com essa verdadeira procissão…

Uma das minhas grandes preocupações em viagens internacionais é a superlotação nos picos de escalada, mas incrivelmente estamos tendo muita sorte nesse aspecto. Com exceção de apenas uma via, em todas as outras escalamos sem qualquer trânsito de pessoas. Mesmo durante o dia, cruzamos com pouquíssimos escaladores circulando pela região. Para as minhas preferências, o lugar está se revelando um autêntico paraíso. Nesse dia dedicado às linhas esportivas, também escalamos completamente sozinhos. Para não dizer que não havia ninguém por perto, logo na chegada ao setor avistamos alguns camurças — os antílopes dos Alpes — que saíram em disparada assim que nos notaram.

Ao todo, escalamos quatro vias de até o 7º grau brasileiro, todas no estilo à vista (on-sight). Sem exceção, foram linhas incríveis e memoráveis, apresentando aquele estilo físico de parede levemente negativa com agarras boas, daquelas que vão exigindo resistência e bombando os braços em banho-maria.


Por volta das 14h, o sol finalmente atingiu o setor. Como já estávamos satisfeitos e com a cabeça feita, decidimos encerrar as atividades e retornar ao estúdio, aproveitando o caminho para passar na vila e reabastecer nossos mantimentos.
Descanso
O dia seguinte marcou o nosso terceiro dia de descanso. Como os dois anteriores haviam sido descansos ativos, neste nos esforçamos para realmente não fazer nada. Pela manhã, conseguimos relaxar e, ao meio-dia, fomos almoçar no Lou, um bar e restaurante que fica no centro de La Palud. O local era o ponto de encontro clássico dos escaladores na “década de ouro” de Verdon e até hoje preserva essa atmosfera viva, com diversas fotos históricas e equipamentos antigos decorando as paredes.

Depois do almoço, o Tiagão quis visitar o museu do torno em Aiguines, localizado a cerca de 40 minutos de carro. O museu é simples, mas muito rico em acervo. A cidade é um pouco maior que La Palud e funciona como um reduto de artistas, exibindo vários ateliês e lojas de artesanato em madeira ao longo de sua rua principal.

Para finalizar o dia, fomos andar de pedalinho no rio Verdon. Essa é uma das principais atrações turísticas da região e fica lotada no verão. Achamos o valor cobrado um pouco salgado, especialmente porque só é permitido navegar dois quilômetros cânion adentro. Embora a entrada pareça estreita, o desfiladeiro depois se abre e se transforma em um lindo vale. Eu esperava um pouco mais da atividade, mas valeu pela experiência de mergulhar nas águas geladas.

Liberté Surveillée
No dia seguinte, o despertador tocou para mais uma escalada e o cenário havia mudado completamente: o tempo começou a virar rapidamente e o céu amanheceu tão carregado que parecia prever um temporal iminente. Mesmo assim, resolvemos escalar uma via na parte baixa do cânion, no setor do L’Imbut, pois ainda não conhecíamos aquele lado e a meteorologia geral indicava uma janela favorável. Escolhemos uma linha recomendada pelo anfitrião do nosso estúdio e corroborada pelo guia de escalada: a Liberté Surveillée. Ela possui 150 metros, graduação de 6b+ francês (equivalente a um VI Sup brasileiro) e foi aberta pelo conquistador local Pascal Faudou em 2010. O nome da via — “Liberdade Vigiada” — carrega uma ironia histórica perfeita sobre o Verdon moderno: você sente a exposição brutal e a imensidão vertical do cânion, mas progride sob a segurança (“vigilância”) das chapas esportivas brilhando na rocha.


A logística segue o autêntico estilo Verdon: você estaciona o carro no topo, em um mirante, faz uma sequência de rapéis no vazio absoluto (três de 50 metros) e recolhe as cordas. Uma vez na base, a única saída é escalando até o topo. Rapelamos a via sem problemas, mas, no último rapel, veio um balde de água fria: descobrimos que havia uma dupla logo à nossa frente na parede. Com isso, fomos obrigados a esperar na base.

Esperar a vez faz parte do esporte, mas o nervosismo aumentava a cada minuto quando olhávamos para cima e víamos o teto de nuvens pretas se fechando. Como as cordas de rapel já haviam sido recolhidas, a sensação de isolamento foi imediata; estávamos “presos” no fundo da garganta do cânion. Se desabasse uma chuva forte ali e molhasse a pedra, estaríamos em apuros seríssimos. Aquelas fotos dos pioneiros que havíamos visto no bar Lou no dia anterior deixaram de ser mera decoração. De repente, nos vimos sentindo exatamente o mesmo frio na barriga e a mesma vulnerabilidade psicológica que eles enfrentavam décadas atrás.
O casal da frente demorou a ganhar distância. Enquanto isso, permanecemos na base monitorando tudo: um olho no céu e o outro na dupla.
O Tiagão começou os trabalhos às 11h30, guiando a primeira enfiada de V grau. Era uma linha fácil, em rampa — um estilo ao qual estou bem habituado. Só que o Tiagão escalou visivelmente mais devagar que o normal, e percebi que ele sentia o cansaço acumulado dos dias anteriores. Assim que ele montou a P1, subi rapidamente e toquei direto até a P2. Ali a brincadeira de verdade iria começar. Até então, vínhamos escalando linhas mais tranquilas na viagem. Aquela seria a nossa verdadeira prova de fogo: uma via muito mais constante, exigindo várias enfiadas duras em sequência.

A terceira enfiada é um 6a+ francês. Ela segue por um diedro fendado magnífico, com o crux definido na virada de uma aresta. O que deixa tudo mais interessante é o peso histórico daquele trecho: a linha cruza e aproveita partes da L’Arcanson, uma via clássica aberta nos anos 70 pela lendária dupla Guyomar e Hautecoeur. Pensar que os pioneiros passavam por aquela fenda vertical sem nenhuma chapa, confiando a vida apenas a cunhas de madeira entaladas e proteções móveis rudimentares, impõe um respeito enorme. Na Liberté Surveillée, a proteção moderna do Faudou é um pouco mais espaçada, mas mantém um E1 tolerável. O grande desafio ali acaba sendo a sensação psicológica de exposição, já que a parede varia de totalmente vertical a negativa. Embora fosse possível proteger em móvel na fenda, confesso que não achei nada ruim ter as chapas ali ao lado.
Na P3, alcançamos um platô muito confortável onde fizemos uma pausa maior. O tempo seguia feio e pedia urgência, mas a quarta enfiada prometia ser ainda mais dura: um 6b sólido. Seria o nosso primeiro 6b de parede na região. Olhando de baixo, a linha parecia tranquila: mais um diedro estético, com fenda e agarras evidentes por fora. Toquei para cima me sentindo confiante, até notar que as chapas começavam a me jogar para fora do diedro, forçando a entrada em uma placa cinza e completamente lisa. Ali a ficha caiu: a enfiada não estava ganha. Eu já tinha esticado cerca de 30 metros de corda e conseguia ver pelo menos mais cinco chapas pela frente. Olhei para o cadeirinha e percebi que só me restavam duas costuras. Respirei fundo e entrei na face sabendo que a queda ali seria longa, embora limpa. Era o crux.

Para complicar, eu simplesmente não conseguia localizar a parada onde a enfiada terminava. Por pura sorte, um senhor francês que estava rapelando por uma via vizinha me viu consultando o croqui e “cantou a pedra”: gritou algo em francês e apontou para o lado. Eu não entendi uma única palavra, mas captei o gesto. Encontrei a parada logo ali e agradeci em francês, aliviado.
A enfiada seguinte seria o crux de toda a via, cotada em 6b+. O nosso verdadeiro ponto alto (highpoint) em vias de várias enfiadas (multipitch). A linha desenhava uma grande curva para a esquerda e depois retornava para a direita, superando um trecho negativo logo no final. Se no início do dia eu havia praguejado por pegar fila e ter que esperar a dupla da frente, ali, na hora do crux, mudei completamente de opinião e agradeci por sermos a “ficha dois”. O casal havia marcado as agarras com magnésio, o que facilitou muito a nossa leitura, pois o calcário local é extremamente texturizado — uma rocha onde tudo parece agarra, mas quase nada serve como apoio real.

A última enfiada foi super tranquila, um 6a+. Depois de encarar dois 6b e um 6b+ em sequência, parecia que nada mais nos afetava. Chegamos ao topo com os braços fadigados, mas com a alma lavada às 15h45, após 4h15 de escalada. Para mim, essa foi a via mais fantástica da viagem até agora, justamente pela dificuldade constante, pela sensação de exposição e pelo cenário incrível do cânion, que nesse ponto é muito mais estreito.
Para quem deseja repetir essa via, fica a recomendação técnica: são necessárias duas cordas de 50 metros, 14 costuras e algumas fitas longas para gerenciar o atrito da corda. O setor pega sombra durante o período da manhã.



