Ontem, o dia amanheceu nublado a chuvoso. Como já vínhamos acompanhando a meteorologia, a mudança no tempo não foi nenhuma surpresa. Por conta disso, decidimos antecipar o nosso dia de descanso para a quinta-feira, em vez de guardá-lo para a sexta. Na verdade, se quiséssemos muito escalar, seria possível; a região abriga diversos setores que permitem escalar mesmo sob chuva. No entanto, não nos empolgamos, até porque a previsão indicava instabilidade por apenas um dia e nossos corpos já pediam mais uma pausa.
Aproveitamos a folga para conhecer o histórico setor Ramiole, famoso por abrigar a via DNA, a segunda proposta de 9c francês do planeta. Equipada pelo francês Seb Bouin, a linha segue aguardando uma primeira repetição. Vale lembrar que o primeiro 9c da história foi a Silence, localizada na Noruega, onde atualmente o britânico Will Bosi trabalha firme na tentativa de uma primeira repetição. Já na DNA, o austríaco Jakob Schubert tem feito investidas constantes, inclusive transmitindo ao vivo suas tentativas. Será que veremos uma cadena dupla de 9c em breve?


Saindo de La Palud-sur-Verdon, o acesso ao setor leva cerca de uma hora de carro por estradas sinuosas, mas cercadas por paisagens espetaculares. Na sequência, há uma caminhada de meia hora na qual é altamente recomendável seguir equipado, devido a passagens bastante expostas no caminho. O setor é algo fora de série. A caverna é gigantesca e exibe linhas duras para todos os lados, com um predomínio impressionante de agarras em chorreras. Nesse dia, conhecemos o escalador português Filipe Ascensão, que estava trabalhando em um 8c francês de aproximadamente 60 metros. Embora ele não tenha alcançado a cadena naquele dia, foi impressionante testemunhar a movimentação dele na via. Saí de lá extremamente motivado para a jornada seguinte, cujo plano era dedicar mais um dia à escalada esportiva, desta vez no setor Hulk.

Hulk
No dia seguinte, fomos conferir o setor Hulk, seguindo mais uma boa recomendação local. Confesso que, na noite anterior, enquanto estudava o croqui e avaliava as fotos, não me senti muito atraído; visualmente, as linhas pareciam normais para o grau que pretendíamos escalar. Mas logo me lembrei de que o guia costuma enganar bastante com imagens que não fazem justiça aos setores, e Verdon é sempre uma caixinha de surpresas.
A aproximação, por si só, já é uma grande aventura: envolve a travessia do rio Verdon por uma tirolesa, uma caminhada por encosta íngreme e um lance vertical de 30 metros por uma escada de ferro bastante castigada pelo tempo e repleta de remendos. Praticamente todo o trajeto de acesso exige o uso de cadeirinha com a auto-segurança conectada a cordas fixas. Estimo um ganho de elevação na ordem de 150 metros a partir do fundo do cânion até atingirmos a enorme caverna cravada no meio da parede, onde ficam as bases das vias.


Para o nosso nível de escalada atual, as vias dali não são tão fáceis. O ideal para aproveitar o setor em sua plenitude é estar sólido no nono grau brasileiro (9a/9b). Começamos o dia em um 6a francês — cotado como V Sup, mas que no Brasil passaria facilmente por um VI grau consistente. Logo depois, entramos em um 7c brasileiro com características de 8a. De longe, a linha parecia feia: uma parede que varia de vertical a levemente negativa, cheia de regletes e agarras estranhas com movimentos muito específicos (tricks). O Tiagão não curtiu o estilo, principalmente porque estava incomodado por uma lesão no dedo que vem atrapalhando há alguns dias. Na entrada flash, caí no movimento final, mas entrei uma segunda vez e consegui mandar. Para quem aprecia escaladas técnicas e cheias de macetes, a linha é muito interessante.

Como as demais vias daquele setor seguiam o mesmo padrão, resolvemos subir o sarrafo e buscar algo mais desafiador para fugir dos regletes em buracos. Encontramos uma belíssima linha de 8b brasileiro, com cerca de 20 metros, formada por chorreras do início ao fim, chamada La Raie du Hulk. A linha era estética e imponente, exigindo passagens de uma chorreira para a outra com vários pontos para entalamento de joelho (knee-bars).
O Tiagão entrou primeiro para decifrar os movimentos, mas o contato com a textura agressiva das agarras machucou ainda mais o seu dedo e ele optou por descer. Entrei na sequência a flash, devidamente equipado com joelheira, mas acabei caindo porque o meu calcanhar escapou em um lance bobo. Provei os movimentos até o topo e percebi que a via casava perfeitamente com o meu estilo de escalada. Decidi dar mais uma tentativa. Tinha a plena convicção de que, se aquela via fosse perto de casa, estivesse descansado e munido dos betas corretos, passaria de primeira. Mas a realidade era outra: estávamos no fim da viagem, o cansaço acumulado pesava e os betas haviam sido tirados na pressa.

O Tiagão deu mais um pegue, mas não rolou. Logo em seguida, me equipei sabendo que aquela seria a minha última chance na via. Para ter sucesso, eu precisava encontrar mais dois entalamentos de joelho cruciais que havia deixado passar na primeira entrada. Sabia que se descobrisse esses pontos de descanso para recuperar os braços, as chances de cadena seriam reais. Como tínhamos apenas uma joelheira, coloquei-a na perna esquerda.

Toquei para cima até o primeiro entalamento que eu já conhecia, mas que ajuda pouco por estar muito no início. Superei um pequeno crux e comecei a buscar o segundo entalamento. Bingo! Encontrei no ponto exato onde havia lido. Ali, soube que a cadena era possível. Descansei o quanto pude e toquei a sequência seguinte de chorreras até atingir o segundo crux. Na primeira tentativa, passei por esse trecho usando a força pura; agora, com os braços torados, o movimento antigo não saía de jeito nenhum. No desespero, quase caindo, mudei a leitura no improviso e passei pelas pontas buscando último entalamento. Encontrei um encaixe para o joelho direito — justamente o lado que estava sem a joelheira —, mas naquela altura do campeonato, era aguentar a dor na pele ou aceitar a queda!
Recuperei o fôlego e toquei o final da via. Dali para cima eu sabia que a linha suavizava, bastando trabalhar o posicionamento dos pés. A cadena saiu!
Para mim, essa foi disparada a linha esportiva mais linda de toda a viagem e, com certeza, uma das melhores que já experimentei na vida. Com certeza vai direto para o meu Top 10 pessoal.
Afin que nul ne meure
Hoje foi o nosso último dia de escalada e, para fechar as férias com chave de ouro, voltamos ao setor La Carelle, onde, no nosso segundo dia de viagem, havíamos escalado a via Chlorochose. Retornar ao mesmo paredão dez dias depois foi uma experiência fantástica, pois deixou muito nítida a nossa evolução em vários aspectos ao longo da trip. Se no início sofremos com sapatilhas apertadas, desta vez estávamos mais espertos, usando calçados mais confortáveis; se antes o rapel no abismo causava um baita frio na barriga, agora já nos movimentávamos com muito mais naturalidade.
Para a despedida, escolhemos a via Afin que num ne meure, localizada no extremo oposto do setor. A rota começa jogando o escalador para a esquerda, a partir de um platô comum a várias outras linhas, e depois sobe de volta em direção ao mirante, totalizando aproximadamente 180 metros de extensão divididas em 5 enfiadas. O grau máximo é um 6a+ francês (um VI grau brasileiro) e o padrão de proteção é E1, sem surpresas pelo caminho.

Assim como na nossa primeira experiência ali, por ser um setor muito popular, pegamos bastante trânsito tanto na linha de rapel quanto na própria via — o fato de ser um sábado com certeza contribuiu para lotar as paredes. Encontrar o início da rota foi simples. Mesmo com alguns pequenos erros no croqui, a navegação fluiu muito bem, pois já estávamos nos acostumando com a leitura daquele calcário.
Comecei os trabalhos guiando uma enfiada de 5c+ em diagonal com boas agarras. O guia cota como V Sup, mas no Brasil seria um VI grau sem dúvidas. Na sequência, o Tiagão assumiu a liderança em outro 5c+ extremamente estético, em uma rocha de primeira qualidade. Logo depois, toquei o primeiro 6a do dia, que apresentava um crux bem protegido logo na saída da parada.

Na P3, fizemos uma pausa prolongada para contemplar os abutres — que são um show à parte em Verdon — e também para ceder passagem a uma dupla mais veloz que vinha logo atrás. Os abutres-fauves da região foram reintroduzidos na década de 1990 e hoje habitam os paredões de calcário, aproveitando as correntes térmicas do vale para planar. Não é raro que essas aves passem a menos de cinco metros de distância da gente. Como a envergadura delas ultrapassa os 2,5 metros, podendo atingir quase 2,8 metros, a sensação visual é a de estar escalando ao lado de pterodáctilos em pleno período Jurássico.

A quarta enfiada trouxe outro 6a com um crux técnico em slab, mas nada aterrorizante para quem já está habituado aos granitos brasileiros. Já a última enfiada é o crux oficial da via, mas a linha é tão espetacular que a gente até esquece a dificuldade, torcendo para que a enfiada não acabe.


Wide is love
Após concluirmos a via, almoçamos no mirante do setor e decidimos escalar a última enfiada de uma linha megafamosa de Verdon: a Wide is Love (6a francês). Esse trecho final ficou célebre porque vários escaladores aparecem solando-o em filmes clássicos de montanha — entre eles o lendário Alain Robert, que inclusive fez a ascensão com os pés descalços. Naturalmente, nós optamos pelo uso da corda e da sapatilha: rapelamos até a parada intermediária e voltamos escalando. A linha em si é bem tranquila e apenas um pouco polida, mas nada excessivo. Contudo, não consegui me imaginar solando ali devido à exposição impressionante do paredão; sem dúvida, foi a face mais aérea que escalamos na viagem. A enfiada é muito bem protegida, com chapas a cada dois metros e apresentando um esticão um pouco mais longo apenas no final, mas longe de ser apavorante.


Finalizamos as férias com chave de ouro: foram 12 dias de escalada sob condições meteorológicas perfeitas, respirando o ar puro e o aroma típico da Provença. Saio daqui com a certeza absoluta de que voltarei, pois ainda há muitas linhas de altíssima qualidade para provar. Agradeço demais ao Tiagão pela parceria firme nas via, as infinitas conversas aleatórias e pelas inúmeras sessões de fotografia ao amanhecer e ao entardecer.
Guia Prático de Viagem e Dicas de Logística em Verdon
Para ajudar quem está planejando uma barca de escalada para a região, reuni as principais observações práticas e logísticas da nossa vivência:
Base e Estrutura Local
- A Cidade-Sede: A melhor opção de base é a vila de La Palud-sur-Verdon. Fica a cerca de 2h30 de carro de Marselha. Embora a distância seja de apenas 150 km, os últimos 50 km são feitos por estradas extremamente sinuosas.
- Comércio Essencial: A vila oferece a estrutura básica necessária: hotéis, áreas de camping, restaurantes, padaria, um mercado simples e uma pequena loja de escalada. O centrinho é minúsculo e pode ser percorrido de ponta a ponta em menos de cinco minutos. Não há farmácias nem hospitais no local.
- Horários de Funcionamento: O comércio local adota rigidamente o horário de sesta (fecha após o almoço e reabre apenas no fim da tarde), com exceção do mercado. Aos domingos, os estabelecimentos fecham. Além disso, os restaurantes não funcionam todos os dias da semana, exigindo planejamento.
- Transporte Obrigatório: De La Palud até os setores, as distâncias variam de 4 km a 30 km (se você optar por acessar o lado oposto do cânion). Estar de carro é fundamental. Algumas pessoas utilizam bicicletas elétricas, que podem ser alugadas em uma empresa na própria vila.

Orientação e Literatura Técnica
- Sinalização: Os setores de escalada são organizados de acordo com os mirantes e pontos turísticos, que por sua vez estão mapeados no Google Maps e devidamente sinalizados nas estradas. Há sinal de celular na maior parte da região, inclusive nos fundos do cânion.
- Os Guias de Escalada: O guia mais recente é o Verdon, de Bruno Clément, lançado em 2025. Existem duas versões: uma mais simples que cobre apenas a margem direita e outra completa que traz também os croquis da margem esquerda (a diferença de preço é pequena). Ambos os textos estão em francês e inglês e são facilmente encontrados no comércio local. Há também o guia de 2023 escrito por Arnaud Petit (Parois de Légende), que me pareceu excelente.
- Margem de Erro: Os guias impressos possuem pequenos erros no traçado das vias e no posicionamento exato das paradas. Use-os como apoio e não como fonte infalível. As descrições textuais das rotas são muito simples ou inexistentes. É recomendável complementar as informações em plataformas online, como o site CampToCamp, para evitar contratempos.
Equipamentos e Técnicas de Parede
- O Kit Básico: Para a maioria das vias, você precisará de duas cordas de 50 metros (gêmeas ou duplas), 14 costuras normais, algumas fitas longas para gerenciar o atrito da corda em vias sinuosas e uma sapatilha confortável (comfy). O uso de capacete é obrigatório devido ao tráfego no topo e à presença de cascalho e pedras soltas.
- Proteção Móvel: Embora algumas linhas exijam equipamentos móveis (exigindo peças grandes como o cam #5), a imensa maioria das rotas clássicas e modernas é totalmente clipada em proteções fixas (parabolts de 12 mm ou grampos químicos confiáveis).
- Logística de Carga: Escalamos carregando mochilas em todas as vias. Muitas cordadas preferem deixar a mochila no topo ou levar apenas uma para os dois escaladores. O manuseio depende da extensão da rota; vimos duplas içando haulbags, mas a estratégia não nos pareceu prática para o perfil das vias.
- Calçados na Parede: Algumas duplas preferem não levar tênis para a via para economizar peso. Se a sua sapatilha for confortável o suficiente, vale a pena rapelar calçado nela e deixar os tênis no topo. Evite ficar descalço nas paradas, pois a rocha é extremamente pontiaguda e desconfortável. Uma dica útil é prender a sapatilha ao tornozelo com um cordelete se você pretende tirá-la nas paradas mais expostas; se ela cair dali, a escalada acaba.
- Manejo de Cordas: Cuidado redobrado ao lançar as cordas no rapel, pois sempre pode haver escaladores operando abaixo. Da mesma forma, proteja-se ao escalar, pois cordas de outras cordadas podem cair repentinamente sobre você. A maioria esmagadora escala com cordas duplas devido à necessidade dos rapeis; não vimos ninguém escalando com tagline.
Estratégia e Atividades de Descanso
- Sol e Sombra: A maioria das paredes está voltada para o sul, recebendo sol pleno durante o dia e entrando em sombra no período da tarde. Dependendo da via e da temperatura, pode ser muito mais vantajoso estrategicamente planejar a escalada para o período vespertino.
- Mito da Rocha Polida: Fala-se muito sobre o polimento crônico das agarras em Verdon, mas não achei nada exagerado. Já escalei vias muito mais gastas em outros lugares do mundo. A textura das placas cinzas de calcário é simplesmente espetacular.
- Dias de Folga: A principal atração turística são os próprios cânions. O circuito da Route des Crêtes passa pelos principais mirantes e vale muito o passeio de carro para entender a geografia dos setores. Há também trilhas estruturadas que descem até o fundo da garganta. O passeio de pedalinho ou caiaque na boca do cânion é imperdível e permite até arriscar algumas linhas de Deep Water Soloing(DWS) — cujos croquis constam no guia oficial. Por fim, a visita à charmosa vila de Moustiers-Sainte-Marie é um passeio clássico e obrigatório.
- Temporada das Lavandas: Os campos de lavanda florescem entre abril e agosto. As estradas que levam a La Palud cruzam imensas plantações roxas. Vale muito a pena estacionar o carro por alguns minutos apenas para contemplar o visual e sentir o aroma marcante da Provença.


