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Gorges du Verdon. Parte 4 de 4

Ontem, o dia amanheceu nublado a chuvoso. Como já vínhamos acompanhando a meteorologia, a mudança no tempo não foi nenhuma surpresa. Por conta disso, decidimos antecipar o nosso dia de descanso para a quinta-feira, em vez de guardá-lo para a sexta. Na verdade, se quiséssemos muito escalar, seria possível; a região abriga diversos setores que permitem escalar mesmo sob chuva. No entanto, não nos empolgamos, até porque a previsão indicava instabilidade por apenas um dia e nossos corpos já pediam mais uma pausa.

Aproveitamos a folga para conhecer o histórico setor Ramiole, famoso por abrigar a via DNA, a segunda proposta de 9c francês do planeta. Equipada pelo francês Seb Bouin, a linha segue aguardando uma primeira repetição. Vale lembrar que o primeiro 9c da história foi a Silence, localizada na Noruega, onde atualmente o britânico Will Bosi trabalha firme na tentativa de uma primeira repetição. Já na DNA, o austríaco Jakob Schubert tem feito investidas constantes, inclusive transmitindo ao vivo suas tentativas. Será que veremos uma cadena dupla de 9c em breve?

Escalador local trabalhando um 9a.
Textura da rocha.

Saindo de La Palud-sur-Verdon, o acesso ao setor leva cerca de uma hora de carro por estradas sinuosas, mas cercadas por paisagens espetaculares. Na sequência, há uma caminhada de meia hora na qual é altamente recomendável seguir equipado, devido a passagens bastante expostas no caminho. O setor é algo fora de série. A caverna é gigantesca e exibe linhas duras para todos os lados, com um predomínio impressionante de agarras em chorreras. Nesse dia, conhecemos o escalador português Filipe Ascensão, que estava trabalhando em um 8c francês de aproximadamente 60 metros. Embora ele não tenha alcançado a cadena naquele dia, foi impressionante testemunhar a movimentação dele na via. Saí de lá extremamente motivado para a jornada seguinte, cujo plano era dedicar mais um dia à escalada esportiva, desta vez no setor Hulk.

Na saída da via DNA.

Hulk

No dia seguinte, fomos conferir o setor Hulk, seguindo mais uma boa recomendação local. Confesso que, na noite anterior, enquanto estudava o croqui e avaliava as fotos, não me senti muito atraído; visualmente, as linhas pareciam normais para o grau que pretendíamos escalar. Mas logo me lembrei de que o guia costuma enganar bastante com imagens que não fazem justiça aos setores, e Verdon é sempre uma caixinha de surpresas.

A aproximação, por si só, já é uma grande aventura: envolve a travessia do rio Verdon por uma tirolesa, uma caminhada por encosta íngreme e um lance vertical de 30 metros por uma escada de ferro bastante castigada pelo tempo e repleta de remendos. Praticamente todo o trajeto de acesso exige o uso de cadeirinha com a auto-segurança conectada a cordas fixas. Estimo um ganho de elevação na ordem de 150 metros a partir do fundo do cânion até atingirmos a enorme caverna cravada no meio da parede, onde ficam as bases das vias.

Travessia do Rio Verdon.
Aproximação.

Para o nosso nível de escalada atual, as vias dali não são tão fáceis. O ideal para aproveitar o setor em sua plenitude é estar sólido no nono grau brasileiro (9a/9b). Começamos o dia em um 6a francês — cotado como V Sup, mas que no Brasil passaria facilmente por um VI grau consistente. Logo depois, entramos em um 7c brasileiro com características de 8a. De longe, a linha parecia feia: uma parede que varia de vertical a levemente negativa, cheia de regletes e agarras estranhas com movimentos muito específicos (tricks). O Tiagão não curtiu o estilo, principalmente porque estava incomodado por uma lesão no dedo que vem atrapalhando há alguns dias. Na entrada flash, caí no movimento final, mas entrei uma segunda vez e consegui mandar. Para quem aprecia escaladas técnicas e cheias de macetes, a linha é muito interessante.

Na base da via.

Como as demais vias daquele setor seguiam o mesmo padrão, resolvemos subir o sarrafo e buscar algo mais desafiador para fugir dos regletes em buracos. Encontramos uma belíssima linha de 8b brasileiro, com cerca de 20 metros, formada por chorreras do início ao fim, chamada La Raie du Hulk. A linha era estética e imponente, exigindo passagens de uma chorreira para a outra com vários pontos para entalamento de joelho (knee-bars).

O Tiagão entrou primeiro para decifrar os movimentos, mas o contato com a textura agressiva das agarras machucou ainda mais o seu dedo e ele optou por descer. Entrei na sequência a flash, devidamente equipado com joelheira, mas acabei caindo porque o meu calcanhar escapou em um lance bobo. Provei os movimentos até o topo e percebi que a via casava perfeitamente com o meu estilo de escalada. Decidi dar mais uma tentativa. Tinha a plena convicção de que, se aquela via fosse perto de casa, estivesse descansado e munido dos betas corretos, passaria de primeira. Mas a realidade era outra: estávamos no fim da viagem, o cansaço acumulado pesava e os betas haviam sido tirados na pressa.

Tiagão no descanso.

O Tiagão deu mais um pegue, mas não rolou. Logo em seguida, me equipei sabendo que aquela seria a minha última chance na via. Para ter sucesso, eu precisava encontrar mais dois entalamentos de joelho cruciais que havia deixado passar na primeira entrada. Sabia que se descobrisse esses pontos de descanso para recuperar os braços, as chances de cadena seriam reais. Como tínhamos apenas uma joelheira, coloquei-a na perna esquerda.

Preparando para entrar na seção principal.

Toquei para cima até o primeiro entalamento que eu já conhecia, mas que ajuda pouco por estar muito no início. Superei um pequeno crux e comecei a buscar o segundo entalamento. Bingo! Encontrei no ponto exato onde havia lido. Ali, soube que a cadena era possível. Descansei o quanto pude e toquei a sequência seguinte de chorreras até atingir o segundo crux. Na primeira tentativa, passei por esse trecho usando a força pura; agora, com os braços torados, o movimento antigo não saía de jeito nenhum. No desespero, quase caindo, mudei a leitura no improviso e passei pelas pontas buscando último entalamento. Encontrei um encaixe para o joelho direito — justamente o lado que estava sem a joelheira —, mas naquela altura do campeonato, era aguentar a dor na pele ou aceitar a queda!

Recuperei o fôlego e toquei o final da via. Dali para cima eu sabia que a linha suavizava, bastando trabalhar o posicionamento dos pés. A cadena saiu!

Para mim, essa foi disparada a linha esportiva mais linda de toda a viagem e, com certeza, uma das melhores que já experimentei na vida. Com certeza vai direto para o meu Top 10 pessoal.

Afin que nul ne meure

Hoje foi o nosso último dia de escalada e, para fechar as férias com chave de ouro, voltamos ao setor La Carelle, onde, no nosso segundo dia de viagem, havíamos escalado a via Chlorochose. Retornar ao mesmo paredão dez dias depois foi uma experiência fantástica, pois deixou muito nítida a nossa evolução em vários aspectos ao longo da trip. Se no início sofremos com sapatilhas apertadas, desta vez estávamos mais espertos, usando calçados mais confortáveis; se antes o rapel no abismo causava um baita frio na barriga, agora já nos movimentávamos com muito mais naturalidade.

Para a despedida, escolhemos a via Afin que num ne meure, localizada no extremo oposto do setor. A rota começa jogando o escalador para a esquerda, a partir de um platô comum a várias outras linhas, e depois sobe de volta em direção ao mirante, totalizando aproximadamente 180 metros de extensão divididas em 5 enfiadas. O grau máximo é um 6a+ francês (um VI grau brasileiro) e o padrão de proteção é E1, sem surpresas pelo caminho.

Assim como na nossa primeira experiência ali, por ser um setor muito popular, pegamos bastante trânsito tanto na linha de rapel quanto na própria via — o fato de ser um sábado com certeza contribuiu para lotar as paredes. Encontrar o início da rota foi simples. Mesmo com alguns pequenos erros no croqui, a navegação fluiu muito bem, pois já estávamos nos acostumando com a leitura daquele calcário.

Comecei os trabalhos guiando uma enfiada de 5c+ em diagonal com boas agarras. O guia cota como V Sup, mas no Brasil seria um VI grau sem dúvidas. Na sequência, o Tiagão assumiu a liderança em outro 5c+ extremamente estético, em uma rocha de primeira qualidade. Logo depois, toquei o primeiro 6a do dia, que apresentava um crux bem protegido logo na saída da parada.

Chegando na P3 da via.

Na P3, fizemos uma pausa prolongada para contemplar os abutres — que são um show à parte em Verdon — e também para ceder passagem a uma dupla mais veloz que vinha logo atrás. Os abutres-fauves da região foram reintroduzidos na década de 1990 e hoje habitam os paredões de calcário, aproveitando as correntes térmicas do vale para planar. Não é raro que essas aves passem a menos de cinco metros de distância da gente. Como a envergadura delas ultrapassa os 2,5 metros, podendo atingir quase 2,8 metros, a sensação visual é a de estar escalando ao lado de pterodáctilos em pleno período Jurássico.

Rasante do abutre.

A quarta enfiada trouxe outro 6a com um crux técnico em slab, mas nada aterrorizante para quem já está habituado aos granitos brasileiros. Já a última enfiada é o crux oficial da via, mas a linha é tão espetacular que a gente até esquece a dificuldade, torcendo para que a enfiada não acabe.

Finalizando a via.
Cumbre!

Wide is love

Após concluirmos a via, almoçamos no mirante do setor e decidimos escalar a última enfiada de uma linha megafamosa de Verdon: a Wide is Love (6a francês). Esse trecho final ficou célebre porque vários escaladores aparecem solando-o em filmes clássicos de montanha — entre eles o lendário Alain Robert, que inclusive fez a ascensão com os pés descalços. Naturalmente, nós optamos pelo uso da corda e da sapatilha: rapelamos até a parada intermediária e voltamos escalando. A linha em si é bem tranquila e apenas um pouco polida, mas nada excessivo. Contudo, não consegui me imaginar solando ali devido à exposição impressionante do paredão; sem dúvida, foi a face mais aérea que escalamos na viagem. A enfiada é muito bem protegida, com chapas a cada dois metros e apresentando um esticão um pouco mais longo apenas no final, mas longe de ser apavorante.

Confirmando a linha da via.
Uma selfie na Wide is love.

Finalizamos as férias com chave de ouro: foram 12 dias de escalada sob condições meteorológicas perfeitas, respirando o ar puro e o aroma típico da Provença. Saio daqui com a certeza absoluta de que voltarei, pois ainda há muitas linhas de altíssima qualidade para provar. Agradeço demais ao Tiagão pela parceria firme nas via, as infinitas conversas aleatórias e pelas inúmeras sessões de fotografia ao amanhecer e ao entardecer.

Guia Prático de Viagem e Dicas de Logística em Verdon

Para ajudar quem está planejando uma barca de escalada para a região, reuni as principais observações práticas e logísticas da nossa vivência:

Base e Estrutura Local

  • A Cidade-Sede: A melhor opção de base é a vila de La Palud-sur-Verdon. Fica a cerca de 2h30 de carro de Marselha. Embora a distância seja de apenas 150 km, os últimos 50 km são feitos por estradas extremamente sinuosas.
  • Comércio Essencial: A vila oferece a estrutura básica necessária: hotéis, áreas de camping, restaurantes, padaria, um mercado simples e uma pequena loja de escalada. O centrinho é minúsculo e pode ser percorrido de ponta a ponta em menos de cinco minutos. Não há farmácias nem hospitais no local.
  • Horários de Funcionamento: O comércio local adota rigidamente o horário de sesta (fecha após o almoço e reabre apenas no fim da tarde), com exceção do mercado. Aos domingos, os estabelecimentos fecham. Além disso, os restaurantes não funcionam todos os dias da semana, exigindo planejamento.
  • Transporte Obrigatório: De La Palud até os setores, as distâncias variam de 4 km a 30 km (se você optar por acessar o lado oposto do cânion). Estar de carro é fundamental. Algumas pessoas utilizam bicicletas elétricas, que podem ser alugadas em uma empresa na própria vila.
Amanhecer em Verdon.

Orientação e Literatura Técnica

  • Sinalização: Os setores de escalada são organizados de acordo com os mirantes e pontos turísticos, que por sua vez estão mapeados no Google Maps e devidamente sinalizados nas estradas. Há sinal de celular na maior parte da região, inclusive nos fundos do cânion.
  • Os Guias de Escalada: O guia mais recente é o Verdon, de Bruno Clément, lançado em 2025. Existem duas versões: uma mais simples que cobre apenas a margem direita e outra completa que traz também os croquis da margem esquerda (a diferença de preço é pequena). Ambos os textos estão em francês e inglês e são facilmente encontrados no comércio local. Há também o guia de 2023 escrito por Arnaud Petit (Parois de Légende), que me pareceu excelente.
  • Margem de Erro: Os guias impressos possuem pequenos erros no traçado das vias e no posicionamento exato das paradas. Use-os como apoio e não como fonte infalível. As descrições textuais das rotas são muito simples ou inexistentes. É recomendável complementar as informações em plataformas online, como o site CampToCamp, para evitar contratempos.

Equipamentos e Técnicas de Parede

  • O Kit Básico: Para a maioria das vias, você precisará de duas cordas de 50 metros (gêmeas ou duplas), 14 costuras normais, algumas fitas longas para gerenciar o atrito da corda em vias sinuosas e uma sapatilha confortável (comfy). O uso de capacete é obrigatório devido ao tráfego no topo e à presença de cascalho e pedras soltas.
  • Proteção Móvel: Embora algumas linhas exijam equipamentos móveis (exigindo peças grandes como o cam #5), a imensa maioria das rotas clássicas e modernas é totalmente clipada em proteções fixas (parabolts de 12 mm ou grampos químicos confiáveis).
  • Logística de Carga: Escalamos carregando mochilas em todas as vias. Muitas cordadas preferem deixar a mochila no topo ou levar apenas uma para os dois escaladores. O manuseio depende da extensão da rota; vimos duplas içando haulbags, mas a estratégia não nos pareceu prática para o perfil das vias.
  • Calçados na Parede: Algumas duplas preferem não levar tênis para a via para economizar peso. Se a sua sapatilha for confortável o suficiente, vale a pena rapelar calçado nela e deixar os tênis no topo. Evite ficar descalço nas paradas, pois a rocha é extremamente pontiaguda e desconfortável. Uma dica útil é prender a sapatilha ao tornozelo com um cordelete se você pretende tirá-la nas paradas mais expostas; se ela cair dali, a escalada acaba.
  • Manejo de Cordas: Cuidado redobrado ao lançar as cordas no rapel, pois sempre pode haver escaladores operando abaixo. Da mesma forma, proteja-se ao escalar, pois cordas de outras cordadas podem cair repentinamente sobre você. A maioria esmagadora escala com cordas duplas devido à necessidade dos rapeis; não vimos ninguém escalando com tagline.

Estratégia e Atividades de Descanso

  • Sol e Sombra: A maioria das paredes está voltada para o sul, recebendo sol pleno durante o dia e entrando em sombra no período da tarde. Dependendo da via e da temperatura, pode ser muito mais vantajoso estrategicamente planejar a escalada para o período vespertino.
  • Mito da Rocha Polida: Fala-se muito sobre o polimento crônico das agarras em Verdon, mas não achei nada exagerado. Já escalei vias muito mais gastas em outros lugares do mundo. A textura das placas cinzas de calcário é simplesmente espetacular.
  • Dias de Folga: A principal atração turística são os próprios cânions. O circuito da Route des Crêtes passa pelos principais mirantes e vale muito o passeio de carro para entender a geografia dos setores. Há também trilhas estruturadas que descem até o fundo da garganta. O passeio de pedalinho ou caiaque na boca do cânion é imperdível e permite até arriscar algumas linhas de Deep Water Soloing(DWS) — cujos croquis constam no guia oficial. Por fim, a visita à charmosa vila de Moustiers-Sainte-Marie é um passeio clássico e obrigatório.
  • Temporada das Lavandas: Os campos de lavanda florescem entre abril e agosto. As estradas que levam a La Palud cruzam imensas plantações roxas. Vale muito a pena estacionar o carro por alguns minutos apenas para contemplar o visual e sentir o aroma marcante da Provença.
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Gorges du Verdon. Parte 3 de 4

Resolvemos experimentar um setor de escalada esportiva em Verdon. Fomos conhecer o Pas d’Issane, que fica a cerca de 15 minutos de carro de La Palud-sur-Verdon, seguidos por mais 20 minutos de caminhada por uma trilha bem definida. Segundo o guia, trata-se de um setor relativamente novo, com vias acessíveis que variam do 6º ao 7º grau na escala francesa e possuem até 30 metros de extensão. Por ser uma área de desenvolvimento recente, as vias têm um estilo mais atlético, graduação moderna e um padrão de proteção superesportivo.

Como a parede está voltada para o oeste, ela fica na sombra durante o período da manhã. Por isso, fizemos um esforço extra e acordamos mais cedo, às 7h, para aproveitar melhor as condições climáticas. Nos últimos dias, a temperatura tem baixado gradualmente: os termômetros marcam a casa dos 11 °C pela manhã e a máxima chega perto dos 24 °C à tarde.

Grande parte da trilha de aproximação compartilha o trajeto com a histórica trilha Martel, uma rota icônica que leva ao interior do cânion. O caminho refaz os passos da primeira expedição científica completa a desbravar e mapear o Verdon em 1905, liderada pelo renomado espeleólogo Édouard-Alfred Martel. Coincidentemente, no exato momento em que chegamos para iniciar a caminhada, um ônibus lotado de turistas encostou para fazer a travessia. Com isso, dividimos o trecho inicial da nossa jornada com essa verdadeira procissão…

Aproximação Nutella.

Uma das minhas grandes preocupações em viagens internacionais é a superlotação nos picos de escalada, mas incrivelmente estamos tendo muita sorte nesse aspecto. Com exceção de apenas uma via, em todas as outras escalamos sem qualquer trânsito de pessoas. Mesmo durante o dia, cruzamos com pouquíssimos escaladores circulando pela região. Para as minhas preferências, o lugar está se revelando um autêntico paraíso. Nesse dia dedicado às linhas esportivas, também escalamos completamente sozinhos. Para não dizer que não havia ninguém por perto, logo na chegada ao setor avistamos alguns camurças — os antílopes dos Alpes — que saíram em disparada assim que nos notaram.

Antílope dos Alpes.

Ao todo, escalamos quatro vias de até o 7º grau brasileiro, todas no estilo à vista (on-sight). Sem exceção, foram linhas incríveis e memoráveis, apresentando aquele estilo físico de parede levemente negativa com agarras boas, daquelas que vão exigindo resistência e bombando os braços em banho-maria.

Tiagão num VI SUP super clássico do setor.
Escalada de excelente qualidade e negativa bombante.

Por volta das 14h, o sol finalmente atingiu o setor. Como já estávamos satisfeitos e com a cabeça feita, decidimos encerrar as atividades e retornar ao estúdio, aproveitando o caminho para passar na vila e reabastecer nossos mantimentos.

Descanso

O dia seguinte marcou o nosso terceiro dia de descanso. Como os dois anteriores haviam sido descansos ativos, neste nos esforçamos para realmente não fazer nada. Pela manhã, conseguimos relaxar e, ao meio-dia, fomos almoçar no Lou, um bar e restaurante que fica no centro de La Palud. O local era o ponto de encontro clássico dos escaladores na “década de ouro” de Verdon e até hoje preserva essa atmosfera viva, com diversas fotos históricas e equipamentos antigos decorando as paredes.

Enchendo o tanque no dia de descanso.

Depois do almoço, o Tiagão quis visitar o museu do torno em Aiguines, localizado a cerca de 40 minutos de carro. O museu é simples, mas muito rico em acervo. A cidade é um pouco maior que La Palud e funciona como um reduto de artistas, exibindo vários ateliês e lojas de artesanato em madeira ao longo de sua rua principal.

Pacata vila de Aiguines.

Para finalizar o dia, fomos andar de pedalinho no rio Verdon. Essa é uma das principais atrações turísticas da região e fica lotada no verão. Achamos o valor cobrado um pouco salgado, especialmente porque só é permitido navegar dois quilômetros cânion adentro. Embora a entrada pareça estreita, o desfiladeiro depois se abre e se transforma em um lindo vale. Eu esperava um pouco mais da atividade, mas valeu pela experiência de mergulhar nas águas geladas.

Entrada do canyon de Verdon.

Liberté Surveillée

No dia seguinte, o despertador tocou para mais uma escalada e o cenário havia mudado completamente: o tempo começou a virar rapidamente e o céu amanheceu tão carregado que parecia prever um temporal iminente. Mesmo assim, resolvemos escalar uma via na parte baixa do cânion, no setor do L’Imbut, pois ainda não conhecíamos aquele lado e a meteorologia geral indicava uma janela favorável. Escolhemos uma linha recomendada pelo anfitrião do nosso estúdio e corroborada pelo guia de escalada: a Liberté Surveillée. Ela possui 150 metros, graduação de 6b+ francês (equivalente a um VI Sup brasileiro) e foi aberta pelo conquistador local Pascal Faudou em 2010. O nome da via — “Liberdade Vigiada” — carrega uma ironia histórica perfeita sobre o Verdon moderno: você sente a exposição brutal e a imensidão vertical do cânion, mas progride sob a segurança (“vigilância”) das chapas esportivas brilhando na rocha.

Parede do setor L’imbut. A via transcorre na parte esquerda.

A logística segue o autêntico estilo Verdon: você estaciona o carro no topo, em um mirante, faz uma sequência de rapéis no vazio absoluto (três de 50 metros) e recolhe as cordas. Uma vez na base, a única saída é escalando até o topo. Rapelamos a via sem problemas, mas, no último rapel, veio um balde de água fria: descobrimos que havia uma dupla logo à nossa frente na parede. Com isso, fomos obrigados a esperar na base.

Separando o material. O carro fica na beira do canyon.

Esperar a vez faz parte do esporte, mas o nervosismo aumentava a cada minuto quando olhávamos para cima e víamos o teto de nuvens pretas se fechando. Como as cordas de rapel já haviam sido recolhidas, a sensação de isolamento foi imediata; estávamos “presos” no fundo da garganta do cânion. Se desabasse uma chuva forte ali e molhasse a pedra, estaríamos em apuros seríssimos. Aquelas fotos dos pioneiros que havíamos visto no bar Lou no dia anterior deixaram de ser mera decoração. De repente, nos vimos sentindo exatamente o mesmo frio na barriga e a mesma vulnerabilidade psicológica que eles enfrentavam décadas atrás.

O casal da frente demorou a ganhar distância. Enquanto isso, permanecemos na base monitorando tudo: um olho no céu e o outro na dupla.

O Tiagão começou os trabalhos às 11h30, guiando a primeira enfiada de V grau. Era uma linha fácil, em rampa — um estilo ao qual estou bem habituado. Só que o Tiagão escalou visivelmente mais devagar que o normal, e percebi que ele sentia o cansaço acumulado dos dias anteriores. Assim que ele montou a P1, subi rapidamente e toquei direto até a P2. Ali a brincadeira de verdade iria começar. Até então, vínhamos escalando linhas mais tranquilas na viagem. Aquela seria a nossa verdadeira prova de fogo: uma via muito mais constante, exigindo várias enfiadas duras em sequência.

Tiagão na saída da via com o negativo a espreita.

A terceira enfiada é um 6a+ francês. Ela segue por um diedro fendado magnífico, com o crux definido na virada de uma aresta. O que deixa tudo mais interessante é o peso histórico daquele trecho: a linha cruza e aproveita partes da L’Arcanson, uma via clássica aberta nos anos 70 pela lendária dupla Guyomar e Hautecoeur. Pensar que os pioneiros passavam por aquela fenda vertical sem nenhuma chapa, confiando a vida apenas a cunhas de madeira entaladas e proteções móveis rudimentares, impõe um respeito enorme. Na Liberté Surveillée, a proteção moderna do Faudou é um pouco mais espaçada, mas mantém um E1 tolerável. O grande desafio ali acaba sendo a sensação psicológica de exposição, já que a parede varia de totalmente vertical a negativa. Embora fosse possível proteger em móvel na fenda, confesso que não achei nada ruim ter as chapas ali ao lado.

Na P3, alcançamos um platô muito confortável onde fizemos uma pausa maior. O tempo seguia feio e pedia urgência, mas a quarta enfiada prometia ser ainda mais dura: um 6b sólido. Seria o nosso primeiro 6b de parede na região. Olhando de baixo, a linha parecia tranquila: mais um diedro estético, com fenda e agarras evidentes por fora. Toquei para cima me sentindo confiante, até notar que as chapas começavam a me jogar para fora do diedro, forçando a entrada em uma placa cinza e completamente lisa. Ali a ficha caiu: a enfiada não estava ganha. Eu já tinha esticado cerca de 30 metros de corda e conseguia ver pelo menos mais cinco chapas pela frente. Olhei para o cadeirinha e percebi que só me restavam duas costuras. Respirei fundo e entrei na face sabendo que a queda ali seria longa, embora limpa. Era o crux.

O grande diedro da 4a enfiada.

Para complicar, eu simplesmente não conseguia localizar a parada onde a enfiada terminava. Por pura sorte, um senhor francês que estava rapelando por uma via vizinha me viu consultando o croqui e “cantou a pedra”: gritou algo em francês e apontou para o lado. Eu não entendi uma única palavra, mas captei o gesto. Encontrei a parada logo ali e agradeci em francês, aliviado.

A enfiada seguinte seria o crux de toda a via, cotada em 6b+. O nosso verdadeiro ponto alto (highpoint) em vias de várias enfiadas (multipitch). A linha desenhava uma grande curva para a esquerda e depois retornava para a direita, superando um trecho negativo logo no final. Se no início do dia eu havia praguejado por pegar fila e ter que esperar a dupla da frente, ali, na hora do crux, mudei completamente de opinião e agradeci por sermos a “ficha dois”. O casal havia marcado as agarras com magnésio, o que facilitou muito a nossa leitura, pois o calcário local é extremamente texturizado — uma rocha onde tudo parece agarra, mas quase nada serve como apoio real.

Crux da 5a enfiada.

A última enfiada foi super tranquila, um 6a+. Depois de encarar dois 6b e um 6b+ em sequência, parecia que nada mais nos afetava. Chegamos ao topo com os braços fadigados, mas com a alma lavada às 15h45, após 4h15 de escalada. Para mim, essa foi a via mais fantástica da viagem até agora, justamente pela dificuldade constante, pela sensação de exposição e pelo cenário incrível do cânion, que nesse ponto é muito mais estreito.

Para quem deseja repetir essa via, fica a recomendação técnica: são necessárias duas cordas de 50 metros, 14 costuras e algumas fitas longas para gerenciar o atrito da corda. O setor pega sombra durante o período da manhã.

Amanhecer em Verdon.
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Teju

Tejuçuoca, ou simplesmente Teju, se você achou o nome original cacofônico, é uma pequena cidade do Ceará, distante 140 km da capital, Fortaleza.

Segundo o último dado do Censo do IBGE de 2022, Teju possui 17 mil habitantes e está encravada no meio da Caatinga, aos pés da Serra da Caboretinga.

A estrada que leva a Teju é uma série de retas intermináveis que cortam o bioma da Caatinga. Nessa época do ano, a vegetação está totalmente verde por causa do fim do período chuvoso.

A monotonia da estrada me permitiu relembrar a época em que passei um mês pela Caatinga com o meu amigo e geólogo Tiago Agne, em 2006, mapeando a geologia da região de Iguatu, também no Ceará, para o meu mestrado. Aquela experiência foi o meu primeiro contato com o bioma e, desde então, tenho um apreço especial por sua flora e fauna.

A gente costuma ter uma imagem distorcida da Caatinga, sempre achando que é tudo muito seco e terroso. O fato, porém, é que se trata de um bioma muito dinâmico e sazonal, com épocas de seca e de chuva bem definidas ao longo do ano.

Após Teju, a estrada passou a ser de terra batida, mas logo vi que havia sido recém-refeita com patrola, por isso estava bem transitável, apesar dos pequenos alagados. Supus que a organização do Encontro de Escalada do Nordeste  – EENe – tivesse conseguido essa manutenção junto à prefeitura local para o evento.

Igreja de Tejuçuoca – CE.

O Encontro de Escalada do Nordeste já é um evento consagrado no cenário nacional e acontece anualmente em algum pico novo da região. Para esta edição, a vigésima terceira, a Janine, uma das organizadoras, me procurou perguntando se eu poderia ministrar uma oficina e dar uma palestra em uma das noites. Na verdade, esse convite havia sido feito no ano retrasado. Infelizmente, naquela oportunidade não pude ir porque já tinha me comprometido com o Seu Manuel para o evento em Caçapava do Sul (RS), que coincidia com a mesma data.

Guia de Tejuçuoca.

À medida que a estrada me levava cada vez mais para o interior da Caatinga, a civilização ia ficando para trás e parecia que eu estava indo em direção a um lugar totalmente ermo. Comecei a pensar: “Quem em sã consciência viria para um evento nesse fim de mundo? Quantas pessoas virão? Será que o pessoal de fora do Ceará vai viajar até aqui? Será que a galera de Fortaleza vem? Será?”

De repente, avistei uma placa anunciando o evento. Logo depois, vi muitos carros e, atrás deles, uma imensidão de barracas. Fiquei pasmo e incrédulo ao ver tanta gente e toda aquela estrutura montada no meio do nada!

Local sede do evento.
Vida noturna.
Via Láctea.

Com tanto público, na noite da minha palestra, a casa estava cheia. Num dado momento, todos os assentos em frente ao palco principal estavam ocupados, e o restante do pessoal precisou assistir em pé. Segundo a organização, foram mais de 180 inscritos.

Mais uma vez, falei sobre a escalada em Yosemite, da temporada de 2024, quando o Dani e eu repetimos a Northwest Regular Route do Half Dome.

Falando sobre Yosemite. Foto: Fred.
Forró pós-palestra.

Já se passaram quase dois anos desde aquela escalada épica. Ao final da apresentação, achei que me faltou um pouco de emoção. Parecia que aquele sentimento de ter escalado a via havia esfriado, e me senti um pouco mal com o meu desempenho. Tive a sensação de não ter conseguido transmitir a vibração que senti naqueles dias na montanha.

No entanto, à medida que fui conversando com as pessoas após a palestra, comecei a me sentir melhor. Quando olhava para os olhos vidrados dos mais novos, dizendo que aquilo os inspirava, senti que a mensagem havia sido passada. Consegui plantar uma pequena semente na mente deles, do mesmo jeito que aquele relato da Beth fez comigo quando ela escreveu para o Mountain Voices em 1994.

No dia seguinte, à tarde, ministrei a oficina de escalada solitária, nos mesmos moldes da que fiz no ano passado em Itatim. Falar sobre escalada solitária é sempre interessante; acho que muita gente participa mais por curiosidade do que pela intenção de praticar, mas sempre rola uma interação bem legal.

Nesse dia, também participei de outras atividades do evento. Costumo não acompanhar muito a programação paralela, mas dessa vez quis fazer diferente. Antes da minha oficina, integrei uma geotrilha para conhecer a geologia e a biologia da área com o geógrafo Will e o biólogo Arthur.

Estudando as cavernas.
O show das azaléias.
Lagartixa no mármore.

A área de escalada de Teju fica no MONA Furna dos Ossos, criado em 2025, que abrange uma área de 60 hectares. Um aspecto fascinante é que a rocha do local é um mármore, muito parecido com o do Cipó, em Minas Gerais. Aliás, quando a Janine me falou que o evento seria em um pico de mármore no Ceará, não acreditei e fui pesquisar nos livros de geologia.

Entardecer no MONA Furna dos Ossos.

Essa rocha é uma raridade na região, pois sua ocorrência é geologicamente muito restrita e representa uma lasca de uma antiga plataforma carbonática de idade paleoproterozoica. Em outras palavras: é uma rocha antiga para chuchu! Uma curiosidade geológica interessante é que, diferentemente da maioria dos calcários (chamamos de mármore quando o calcário sofre o processo de metamorfismo), a rocha de Teju não foi formada por organismos, pois nessa época, a vida na Terra era composta apenas por microrganismos simples, sem estruturas rígidas ou conchas para precipitar carbonato de cálcio. O mais incrível é que essa lasca está encravada bem no meio da Caatinga, tornando o lugar único!

Contudo, o aspecto geológico que realmente atrai os turistas e escaladores são os espeleotemas que se espalham pelas cavernas, dolinas e furnas.

Provavelmente uma Cabeça de Frade, espécie endêmica do Nordeste Brasileiro.

A escalada em Teju é relativamente recente. Em 2000, o escalador André Ilha, andando pela região, ouviu falar do lugar e fez uma primeira visita, mas sem conquistar nada. Sete anos depois, em 2007, ele retornou e abriu as primeiras vias, todas em móvel e utilizando árvores como ancoragem natural para o rapel. Nesse mesmo ano, ele espalhou a notícia sobre o potencial do lugar para os escaladores locais, e a novidade logo caiu no gosto da galera. Afinal de contas, não é qualquer um que tem um maciço de mármore no quintal de casa!

A partir dali, a região foi ganhando linhas novas e mais modernas. Para este evento, o pico recebeu um mutirão de aberturas, totalizando quase 200 vias, divididas em 4 setores de escalada. Para ver o croqui de Teju, clique aqui!

Embora a rocha lembre um pouco o mármore do Cipó, os corredores, salões e furnas remetem muito à Lapinha (MG). O estilo das linhas também lembra o de lá, embora existam aspectos geomorfológicos bem distintos. As vias em geral são curtas e o estilo varia bastante de acordo com o setor.

Escalador Flávio Leone (RJ) na via Arranca Tampão (V), Setor Furna do Sino, Zona 4.

A minha primeira escalada em Teju foi na via Bunda Canastra (VI SUP) – Setor Antilopes – Zona 4. Definitivamente, não deve ser a melhor opção para começar no pico. Logo na saída, em um negativo, estranhei a textura das agarras: embora não fossem polidas, escorregavam mais do que a média. Era preciso fazer muita força no agarrão para não ser ejetado. Diria que a minha introdução em Teju foi, no mínimo, “tijolante”. 

Passado o susto inicial, logo descobri que aquilo era a exceção, e não a regra, pois depois escalei várias linhas excelentes.

Em geral, as vias de Teju são verticais a levemente negativas, com agarras boas e, por vezes, um pouco abrasivas. Não é uma regra, mas na maioria das vias em que entrei o crux ficava logo na saída; no final, as agarras surgiam e davam um alívio. As linhas são mais curtas, com cerca de 10 a 12 metros, mas exigem bastante costuras por serem bem protegidas.

JJ na via Sujeito de Sorte (8a), Setor Arco de Deus, Zona 4.

Dois pontos chamaram a minha atenção. O primeiro: em algumas vias, há árvores e galhos muito próximos à linha da via, tornando uma eventual queda perigosa (talvez um serviço simples de poda bastaria para resolver o problema). O segundo aspecto foram as paradas das vias: 90% delas são em Pingo ou Duplas da Bonier, ou seja, é necessário rapelar para limpar a via. Por isso, é preciso andar sempre com o kit de limpeza.

Entardecer na Caatinga.

Na noite de sábado, rolou a segunda palestra do evento com o Frederico dos Santos, do Rio de Janeiro. O Fred é um dos voluntários da comissão de segurança da UIAA e o maior expert em proteções fixas do Brasil na atualidade, com amplo conhecimento sobre as normas que regem a colocação de grampos químicos e chapeletas. No dia anterior, ele ministrou uma oficina na qual os participantes ajudaram na manutenção de duas vias clássicas do setor Furna do Jardim – Zona 3 – (vias Puro Malte -7a e Maria Isabel – 7b), substituindo as proteções antigas e deterioradas por novos grampos químicos de aço inox. Como eu nunca havia trabalhado com químicos, foi uma excelente oportunidade para aprender o “beabá” da coisa, até porque tenho alguns em casa que comprei para reformar umas vias que precisam de atenção especial no Espírito Santo.

Palestra do Fred.
Oficina de proteções químicas.
Entardecer no mirante.
Música Clássica na pedra com escalador e celista João Torres.

Ao longo desses dias, conheci muita gente nova, conversei com tantas outras e dividi a ponta da corda com escaladores e escaladoras de todo o Brasil. Como sou péssimo para lembrar nomes, é claro que esqueci o de quase todo mundo, mas o que ficou guardado na minha memória foi a expressão de sorriso fácil de cada um que encontrei. Quando dizem que o povo do Nordeste é diferenciado, com certeza estão se referindo a isso.

Muito obrigado pela receptividade e até Cuó!

Foto oficial do evento.
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Senhor Behne

A história do montanhismo é contada por grandes feitos, conquistas e escaladas épicas; por outro lado, também há pessoas que nunca escalam, nem sabem o que é um nó em oito, mas que têm, e tiveram, papel importante na história do esporte. Pessoas como o senhor Behne, proprietário do Campo-Escola Behne em Ivoti – RS, que desde 1995 permite que, todos os finais de semana, desconhecidos entrem em suas terras para praticar seu hobby dentro de sua propriedade.

No início da semana, minha mãe me ligou e, só pelo tom de voz, já sabia que era para passar alguma notícia ruim. Ela me informou o falecimento do nosso vizinho, o senhor Behne, aos 87 anos. Nós o chamávamos de “o senhor leiteiro” em japonês porque, por muito tempo, ele nos fornecia leite diariamente.

No feriado de Carnaval deste ano, como de praxe, viajei para o Sul e aproveitei para escalar no Behne. Às vezes, gosto de ir durante a semana, quando tem menos gente, para escalar sozinho. É aquele momento nostálgico que ajuda a conectar com a própria origem. Nesse dia em particular, resolvi descer a pé — em geral, vou de carro. Passei em silêncio pela casa do senhor Behne, como sempre, e fui escalar. Depois da atividade, passei novamente em frente à residência e, como de costume, olhei para dentro da casa em estilo enxaimel preservado, com um belo jardim em volta. Na mesma hora, quase por coincidência, o senhor Behne também botou a cabeça para fora e me viu. Antigamente, era mais comum encontrá-lo pela propriedade. Pessoa muito ativa, sempre estava na lida do trabalho, mas, com a idade, ficou mais reservado e era difícil encontrá-lo na rua.

Acenei e fui ao seu encontro. Passei pela porteira de madeira que estava solta, quase terminei de quebrá-la, e me aproximei. Acho que ele nunca soube bem o meu nome, pois para ele sempre fui o “filho do Arima”. Nos cumprimentamos e ele me convidou para sentar em uma cadeira na sacada.

Não sei por quanto tempo ficamos conversando, mas ficamos relembrando coisas do passado longínquo. Com a voz calma e mansa de sempre, me perguntou de pessoas que não via há muito tempo e ficamos jogando conversa fora, até que achei que ele estava cansando de ficar ali. Despedi-me sem saber que seria a última vez que iria falar com ele. Lembro que saí de lá feliz. Feliz em tê-lo encontrado aleatoriamente e ver que ele ainda estava bem de saúde e muito lúcido.

Para mim, o senhor Behne foi muito mais que um vizinho; foi a pessoa que permitiu que eu pudesse alçar voo para o mundo por meio da escalada. Se ele não tivesse deixado que nós, um bando de crianças, brincássemos nas terras dele, talvez eu nunca tivesse conhecido o esporte do jeito que conheço. Talvez nem tivesse seguido no montanhismo. E mais tarde, se não tivesse permitido que outros montanhistas frequentassem suas terras, hoje o montanhismo gaúcho não teria o pico de escalada mais frequentado do Rio Grande do Sul.

A comunidade do montanhismo gaúcho perde um grande incentivador do esporte. O senhor Behne não precisou escalar montanhas para se tornar um grande montanhista; bastou abrir as portas de sua casa. Que o exemplo de acolhimento da família Behne continue inspirando novas gerações de escaladores a zelarem por essa propriedade com o mesmo respeito e carinho que ele sempre nos dedicou. Obrigado por nos deixar subir alto a partir do seu quintal.

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ATEES 2026 – Abertura da temporada de escalada 2026 – release

Aconteceu no último final de semana, dias 16 e 17 de maio, a tradicional Abertura da Temporada de Escalada do Espírito Santo. O evento foi organizado pela Associação Capixaba de Escalada, nas dependências do Lazer Furlan, em Castelo – ES.

Infelizmente, por motivos pessoais, não pude participar da edição de 2025, então este ano estava bem ansioso para ir.

Embora o evento começasse oficialmente no dia 16, muita gente — inclusive eu — se adiantou e subiu para a cidade de Castelo logo na sexta-feira.

Como de praxe, fui direto para o Abrigo de Montanha de Apeninos (AMA), um pequeno refúgio que fica aos pés da parede de Apeninos.

Por sorte, este ano São Pedro colaborou e fomos agraciados com dois dias de muito sol e calor.

Amanhecer na região com o Forno Grande ao fundo.
Abrigo de Montanha Apeninos.

No sábado, a galera desceu em peso para Apeninos e o dia foi de muita escalada.

Fiquei sabendo que, além da movimentação por lá, uma cordada repetiu a via Normal da Pedra Pontuda.

Via Castelo de Greysckull.
Torcida ilustre.
Via Castelo de Grayskull.
Croqui do setor.
Via Cinderela.
Base da via.
Via Cinderela.
Setor do Totem.
Via Rapunzel.
Via Ruiva.

No sábado à noite, a confraternização aconteceu no Lazer Furlan, onde o Andinho e sua família prepararam aquela costela que já entrou para o cardápio oficial do evento!

Hora da janta!

Depois do jantar, a expectativa ficou por conta do bingo, que sorteou diversos brindes, incluindo diárias de hospedagem e uma corda de escalada.

Hora do bingo.
B de bola!
E a corda foi para Ipatinga!

No domingo, o dia começou com o clássico café da manhã. Logo após a foto oficial, algumas pessoas aproveitaram para escalar mais um pouco, enquanto outras adiantaram o retorno para casa.

Amanhecer de domingo.
Cachoeira do Furlan.
Café da manhã.
Separando os equipos.
Pessoas estranhas.
Cachoeira.
Foto oficial.
Via Café Doce, setor Furlan.
Fim da fenda fina, Setor Furlan.
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40 vias esportivas do Espírito Santo

Recentemente publiquei aqui um banco de dados das vias de escalada do Espírito Santo. A partir desse banco de dados, elaborei uma lista das 40 vias esportivas clássicas do estado. Tentei fazer um apanhado das melhores vias esportivas por grau que considero as mais bonitas e representativas.

O universo amostral foi de 756 vias esportivas. Aqui, entende-se por esportivas as vias de uma única enfiada, independentemente do grau ou do tipo de proteção.

Vamos à lista por grau!

Avalanche (9c).

Quinto grau

Há 106 vias de quinto grau (V e V SUP) no estado, sendo as mais clássicas:

  1. Sargento (V SUP) – Morro do Moreno – Vila Velha. Via histórica que marca o nascimento da escalada esportiva no estado.

  2. Demolidor (V SUP) – Morro do Moreno – Vila Velha. Via em móvel que transcorre por um diedro. Inicialmente foi graduada em 7a.

  3. Agarras Soltas (V SUP) – Morro do Moreno – Vila Velha. Um V SUP com cara de VI. Possui um crux bem definido no início e depois segue em agarrões.

  4. Rapunzel (V) – Apeninos – Castelo. Via bem agradável em agarras grandes.

Demolidor (V SUP)

Sexto grau

Na casa do sexto grau, há 133 vias, das quais as mais clássicas são:

  1. Noventa Graus (VI) – Morro do Moreno – Vila Velha. Um clássico do setor com uma pitada de pimenta.

  2. Optimus Prime (VI) – Calogi – Serra. Excelente via de continuidade, sem crux definido, que tijola até os mais experientes.

  3. Gran Reserva (VI) – Totem da Lajinha – Pancas. Via em móvel por um grande diedro em arco, toda protegida em peças pequenas.

  4. Poseidon (VI) – Polese – João Neiva. Um clássico do setor. Escalada em agarra que exige leitura rápida.

  5. Sereia (VI SUP) – Polese – João Neiva. Via estética que transcorre por cima de uma piscina. Tem um boulder interessante na saída.

  6. Aurora Tropical (VI) – Pedra da Fortaleza – João Neiva. Via mista bem eclética, que exige um pouco de tudo — inclusive coragem.

  7. Castelo Ra-Tim-Bum (VI SUP) – Apeninos – Castelo. A via mais repetida e clássica de Apeninos. São 30 m de puro desfrute!

  8. Petit Céüse (VI SUP) – Cabeça de Elefante – Colatina. Uma via ímpar em gnaisse com buracos e lances em agarras.

Dante na via Castelo Ra-Tim-Bum (VI).

Sétimo grau

Na casa dos sétimos, a mesa é bem farta, com 197 vias catalogadas:

  1. As Aparências Enganam (7a) – Morro do Moreno – Vila Velha. A via mais clássica e frequentada do setor da Barriga. Muita gente escala apenas a primeira parte, que é um VI.

  2. Castelo de Grayskoll (7b) – Apeninos – Castelo. Outra clássica do setor, com um crux bem definido no final que derruba muita gente.

  3. Castelo de Areia (7a) – Apeninos – Castelo. Uma versão mais fácil de Castelo de Grayskoll. O crux é a virada de um teto no início.

  4. Terceira Faixa (7c) – Apeninos – Castelo. Via negativa em agarras grandes. Fácil para o grau!

  5. Poulmedo (7a) – Amarelos – Guarapari. A via mais clássica do setor. Escalada de continuidade em agarras boas, sem crux definido.

  6. Ganesh (7c) – Elefante – Guarapari. Clássico do setor. Escalada curta e negativa em agarras.

  7. Trem da Morte (7c) – Calogi – Serra. Mais um clássico de Calogi. Via de introdução ao Totem!

  8. Hermione (7a) – Uliana – Venda Nova do Imigrante. Uma das vias mais impressionantes do setor pelo estilo da rocha. A escalada transcorre por uma espécie de pilar.

  9. Twist Carpado (7a) – Capeta – Viana. Via de entrada do setor dos Capetas. Um pouco abrasiva e exposta, mas muito bonita.

  10. Pede para Sair (7c) – Estacionamento – Viana. Escalada super completa, com vários crux em sequência.

  11. Consequência de uma Sequência (7c) – Morro do Moreno – Vila Velha. Um 7c old school. Para algumas pessoas, pode ser 8a. Independente do grau, é uma bela via técnica.

  12. Mimosa do 52 – Marechal Floriano. Belíssimo diedro em arco, todo em móvel, com um crux no final onde a fenda fica cega.

Yasmin na via “As aparências enganam” (7a), Setor da Barriga, Morro do Moreno, Vila Velha – ES.

Oitavo grau

No mundo do oitavo grau, há 103 vias no estado, sendo as mais clássicas:

  1. Café Doce (8a) – Furlan – Castelo. Uma via ímpar, com bela movimentação. Super fotogênica!

  2. Chá Verde (8a) – Furlan – Castelo. Escalada que impressiona pela qualidade das agarras. Crux no final, que dá o grau da via.

  3. Expresso da Meia-Noite (8a) – Calogi – Serra. O 8a mais famoso do estado. Escalada de pura continuidade, sem crux definido.

  4. Linha Final (8b) – Calogi – Serra. Mais um clássico de Calogi. Via super popular, com um crux na última agarra.

  5. Astronauta de Pedra (8c) – Uliana – Venda Nova do Imigrante. Escalada super agradável, com descansos e um final incrível em negativo.

  6. Mestre Amaral (8b) – Uliana – Venda Nova do Imigrante. Via de continuidade com um crux no final. A melhor do grau no setor.

  7. Matrix (8b) – Morro do Moreno – Vila Velha. Via longa e técnica, que exige bom jogo de pés.

  8. Falcão Negro (8a) – Tonho – Vargem Alta. Escalada negativa em mármore — algo bem raro por aqui! Lembra o Cipó.

  9. Flor do Brasil (8b) – Parede das Flores – Castelo. Escalada negativa a teto, um estilo pouco comum por aqui.

  10. Exército de um Homem Só (8b) – Soído Vertical – Domingos Martins. Uma das melhores vias mistas nesta graduação. Crux no final, chegando na parada.

Flor do Brasil (8b). Foto: Yasmin.

Nono grau

Na casa do nono grau, há apenas 35 vias, mas várias de excelente qualidade:

  1. Capuccino (9a) – Furlan – Castelo. Sem dúvida, a linha mais estética da parede.

  2. Avalanche (9c) – Calogi – Serra. Primeiro 8a francês do estado. Via super estética, com vários crux ao longo da linha.

  3. Transmanchuriana (9a) – Calogi – Serra. Escalada de muita continuidade, com um boulder no final.

  4. Batida Macabra (9a) – Calogi – Serra. Outra clássica do setor. Via bem diluída e de continuidade. Soft para o grau.

  5. Linha Transiberiana (9a) – Calogi – Serra. Via longa de continuidade, com um crux bem definido no final. Já foi mais fácil, mas após a quebra de algumas agarras, o grau se consolidou.

  6. Moagem Grossa (9b) – Uliana – Venda Nova do Imigrante. Via que exige bastante resistência e força para vencer o crux. Uma das únicas vias do setor sem quebra de sequência.

Alex Mendes na via Capuccino (9a), Furlan, Castelo.

Para quem quiser saber mais sobre as tradicionais, tem esse post que falo das 50 clássicas do Espírito Santo!

Em 2013, escrevi um post parecido com as 10 vias esportivas do ES.

E ai, já mandou todas da lista?

Polese.
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Roadtrip Bahia

Atenção: post longo!

Trago aqui o relato da viagem que fiz com o Afeto por Itatim e Lençois na Bahia durante as últimas duas semanas.

Só para entender, ao longo da viagem, parei três vezes, durante os dias de descanso, para escrever as impressões: Parte 1, Parte 2 e Parte3.

Parte 1

Mesmo após dois dias de escalada intensa, hoje acordei às 5h da manhã para ver o nascer do sol — que não aconteceu porque amanheceu nublado e chuvoso em Itatim, Bahia. E agora, às 15h, o sono está cobrando seu preço.

Já estamos na cidade de Lençóis, a 4h de carro de Itatim, sentindo todo o poder do sol, jogados no sofá duro da casa que alugamos para passar a semana. O Afeto está estirado no chão, usando os 240 m de corda que trouxemos como travesseiro e “gastando” a internet.

Cidade de Lençóis.

Nossa viagem começou há 3 dias, quando nos encontramos no aeroporto de Salvador, alugamos um carro e rumamos a Itatim, distante 3h da capital.

O destino principal da trip é Lençóis, mas de Salvador a Lençóis a perna seria muito longa, umas 8h; então resolvemos fazer um “stopover” em Itatim para escalar dois dias antes de seguir viagem.

Chegamos no final do dia ao Refúgio Frei, do brother Ismael, conterrâneo que foi parar lá após rodar pelo Brasil e recém-inaugurou um pequeno refúgio.

Como um bom gaúcho, nos aguardou com um belo churrasco à moda gaúcha, com direito a maionese caseira de ovo. Os gaúchos entenderão.

Separadando os equipos.

No dia seguinte, o dia amanheceu feio. Uma instabilidade marítima trouxe bastante umidade que, dessa vez, a serra não conseguiu segurar e levou chuva à Caatinga. Nessa época do ano, as primeiras chuvas da estação trazem um pouco de frescor para a região castigada pela seca. A paisagem, antes opaca, começa a ganhar tons verdes, dando uma cor especial.

Essa foi minha segunda ida a Itatim em menos de um mês e a primeira visita do Afeto ao paraíso dos inselbergs baianos.

Cachorro do mato.

Jararaca

Com as paredes molhadas, resolvemos passar o domingo no setor de escalada esportiva mais clássico de Itatim: a Jararaca.

O setor é um grande anfiteatro de gnaisse no meio da parede, crivado de vias. Em geral, essas feições geológicas são ou de rocha pobre, ou lisas e sem agarras, mas aqui, nessa única “cueva” de Itatim, há tantas agarras grandes e boas que até os simples mortais podem sentir o gostinho de escalar numa caverna.

Chegamos ao setor sem pressa, pois sabíamos que tínhamos poucas balas no pente. Mesmo sendo acessíveis, a maioria das vias fica na casa do oitavo e o estilo de escalada é bem peculiar, exigindo um certo processo de aprendizado.

Começamos os trabalhos num 7b amigo, mas assim que o Afeto entrou sacando, já na segunda agarra reclamou que elas estavam “babadas”.

Nossa aproximação foi embaixo da água, e ali já deu para sentir que a cueva poderia estar úmida, porque a face da rocha ficava voltada para o spray da chuva.

Logo em seguida, entrei na via e tratei de tentar entender o estilo da cueva. Se você é fraco, é preciso achar os entalamentos à medida que vai escalando para aliviar os braços e ter energia para chegar na corrente que fica lá na casa do chapéu, na borda da caverna.

Na via “A bruxa. Foto: Caio Afeto.

Depois tentei à vista um 8b clássico chamado A Bruxa, mas acabei pulando um descanso-chave e faltou energia para clipar a parada.

Aproveitando as costuras do Afeto, tentei outro 8b em flash, mas, a essa altura do campeonato, minhas energias estavam no fim e caí novamente no final.

Tomei um voo no boulder final e fiquei balançando na corda. De repente, comecei a me sentir nauseado. Ficar descansando de cabeça para baixo, somado à falta de prática nesse tipo de terreno, me deixou mal e tive que descer.

Jardineiro

Face norte do Enxadão.

No dia seguinte, acordamos um bagaço. O tempo, por outro lado, já amanheceu mais estável. As chuvas esparsas da manhã foram bem fracas e tudo indicava que teríamos um bom dia para fazer parede.

Mesmo destruídos do dia anterior, resolvemos — ou melhor, eu escolhi — entrar na Jardineiro (6o, VIIa, E2, D3, 310m), no Morro do Enxadão.

Sob condições normais, parecia uma escalada tranquila, mas a gente estava bem cansado e, para o Ismael, seria o limite do grau. Dias atrás, ele mandou seu primeiro 7a e essa via tem 9 enfiadas, com duas enfiadas de 7a.

Segundo o novo guia de escalada, o livro do Daflon & Cíntia, e alguns relatos que li na internet, a melhor estratégia seria escalar à tarde, quando a pedra fica na sombra.

Como vi que as cordadas levavam de 3 a 8h, achei melhor entrar um pouco antes do meio-dia para ter uma gordurinha e ir preparado para descer à noite.

Por volta das 10h30, saímos do refúgio e chegamos à base da via sem dificuldades.

Combinamos de escalar em blocos para ganhar tempo nas transições. Eu pegaria o primeiro bloco até a metade da parede e o Afeto, a outra metade.

Por volta das 11h30, iniciamos a escalada. Toquei a primeira enfiada sem grandes dificuldades e depois emendei a 2ª com a 3ª. Ganhamos um bom tempo, mas sofri para puxar a corda, principalmente no final da enfiada.

Depois toquei a quarta, que já foi mais curta, 30 m. Com menos atrito, a escalada fluiu melhor, mas uma chuva de um minuto “babou” as agarras e exigiu atenção extra.

Tocando o primeiro bloco. Foto: Afeto.

Na P4 fizemos um descanso maior para troca de bloco.

A partir dali, o Afeto assumiu a ponteira e o Ismael e eu fomos de segundo até o cume.

O primeiro 7a da via fluiu bem. Já o segundo achei um pouco mais difícil, porque precisa usar uma agarra estranha.

A escalada fluiu bem, mesmo com a verticalidade da rocha. O Ismael, que não está acostumado com a graduação, mandou bem e subiu todas as enfiadas sem roubar, mesmo levando um jumar de backup.

Ismael escalando.

Chegamos no cume às 16h30, após 5h de escalada.

Bromélias no cume.

Fizemos um lanche rápido e ficamos no cume 30 minutos cronometrados, porque sabíamos que a descida seria difícil.

Logo no segundo rapel, a corda prendeu num grampo e o Afeto teve que calçar a sapatilha para recuperar a corda.

Estávamos com duas cordas, mas resolvemos descer de 30 em 30 por causa dos bicos, grampos e principalmente do vento.

Para ganhar tempo, utilizamos uma técnica em que sempre tínhamos dois rapéis na sequência montados para otimizar o uso das cordas. Com isso, em 1h30 conseguimos realizar 10 rapéis e chegar ao chão às 18h, já com as luzes das lanternas.

Pelo menos para mim, foi uma escalada superdivertida, mas, mesmo assim, cheguei cansado à base.

Dali, fomos direto para o Umburguer comer hambúrguer com fritas e um sorvete de açaí de sobremesa.

Croqui da via.

Parte 2

Após três dias de escalada, hoje é nosso dia de descanso. Para mim, a sensação é de que hoje é o primeiro dia de descanso da viagem, já que no outro fizemos toda aquela função de sair de Itatim para Lençóis. A idade mostra que há diferença entre não escalar um dia e passar o dia ativamente fazendo outras coisas.

Assim que chegamos a Lençóis, colamos com o Rudy e a Luan, escaladores locais e conquistadores da maioria das vias mais modernas.

Pai Inácio, esportivas

Pai Inácio.

Começamos os trabalhos nas vias esportivas do Pai Inácio, um setor supernovo que ainda nem possui croqui publicado. Esse setor fica à direita da via Pauliceia Baiana, provavelmente a mais clássica da pedra.

Nossa ideia original era fazer essas esportivas para nos adaptar à rocha e ao estilo local.

A geologia da Chapada é única. Talvez somente nos tepuis de Roraima haja escaladas nesse tipo de rocha e estilo.

Como o Rudy é um profundo conhecedor e equipador do setor, nos recomendou começar os trabalhos numa via chamada Gravatinha (7b), a mais fácil do setor. Para me incentivar mais ainda, falou que havia um lindo diedro em móvel.

Afeto nas esportivas do Pai Inácio.

Carreguei o rack e fui à luta. Logo de cara, ficou claro que a leitura no quartzito da Chapada seria difícil. Pouco magnésio, muitas marcas falsas e batentes variados. Em poucos metros, senti o flash pump, mas segui. À medida que ia subindo, a escalada ficava cada vez mais difícil e logo identifiquei o crux. Só de olhar, eu sabia que iria cair. Insisti no crux, mas acabei caindo. Tentei isolar o lance, mas não consegui tirar o movimento-chave. Comecei a sentir a pele na rocha áspera e resolvi desistir, porque ainda tínhamos vários dias de escalada pela frente.

Logo em seguida, o Afeto também entrou para aquecer e… mesma coisa. Ele desequipou no meio da via e o aquecimento estava feito.

Descemos e fomos xingar o Rudy. Nossa incompetência era culpa do Rudy. Aí veio a primeira lição da Chapada: as vias daqui são sandbags!

Já tinha ouvido falar sobre isso, mas não imaginava que fosse tanto assim.

Depois entramos num 7c do lado. Confesso que fiquei com receio. Se eu nem estava isolando um 7b, o que esperar de um 7c? Nem sair do chão?

O Pedrão, outro escalador radicado de São Paulo que também estava conosco, equipou a via. Pelo menos já peguei sacado.

Essa via já fluiu melhor. Após um boulder na saída, parecia que iria sair à flash, mas me embananei numa leitura mais acima e não vi uma agarra chave.

O Afeto entrou em seguida em flash e mandou a primeira via da trip na Chapada.

Logo em seguida, dei mais um pega e a cadena saiu mais de boa.

Jogando conversa fora.

Segunda lição da Chapada: escalar à vista é mais difícil. O flash fica bem mais fácil; e de segundo é bem mais de boa. Sempre será difícil achar as agarras.

Encerramos o primeiro dia com muitos aprendizados e fomos comemorar a surra no centrinho de Lençóis.

Centrinho.

Barro Rosa

No dia seguinte, o Rudy e a Luan nos “aplicaram” num setor chamado Barro Rosa. Esse setor tem uma caminhada de uns 40 minutos por um lajão com pouco ganho de elevação.

À primeira vista, o setor assusta pela negativa das vias e pelo aspecto de pouca agarra.

Além disso, eu estava cansado dos dias anteriores, então parecia que iria faltar força.

Nesse dia, o Coisinha, escalador de São Paulo e parceiro de trip para a Espanha em 2012, nos acompanhou na escalada.

Coisinha escalando no Barro Rosa.

Entre atualizar as conversas e outras fofocas, comecei aquecendo num 7a que foi regraduado para 7b esses dias.

O fantasma do 7b do dia anterior nos assombrava, mas fomos à luta.

Entrei sacando e logo descobri que as agarras eram boas, mesmo naquela negatividade. Além disso, há bons descansos que não são visíveis do chão. Mas, no final, mais um erro de leitura numa agarra marcada de magnésio me fez perder o à vista.

Depois, o Afeto entrou na mesma via e mandou sem grandes problemas.

Uma vez aquecido, a Luan disse que tínhamos que entrar na Pink Floyd (8a), uma obra-prima do setor.

O Afeto entrou à vista e foi “sacaneado” por um tick mark falso logo na saída, perdendo o à vista. Depois subiu isolando e, logo em seguida, mandou a via.

Aproveitei a oportunidade para tentar em flash, já que com os betas, a escalada ficava mais fácil, mas acabei me embananando no final.

Foto: Rudy Proença.

No pega seguinte, caí da última agarra e só consegui a cadena na entrada seguinte.

Foi uma cadena amarga, mas ali aprendi mais uma lição importante: se no à vista caí bombado, na terceira entrada mandei sobrando. Ou seja, uma vez familiarizado, a via fica mais fácil e você começa a achar que esses decotadores têm alguma razão.

Beco da Coruja

No dia seguinte, o ideal seria descansar, mas como já estávamos com os equipos por ali, achamos melhor deixar tudo no setor do lado, Beco da Coruja, e voltar no dia seguinte mais leves.

O terceiro dia foi mais difícil. Mesmo após uma boa noite de sono, o cansaço não havia ido embora.

A aproximação, mesmo mais leve, foi mais dura por causa do forte calor que refletia na laje preta.

Nesse dia, o Potter, escalador gaúcho que se mudou para Lençóis, nos acompanhou juntamente com o Rudy e a Luan.

Mesmo estando perto do Barro Rosa, o setor é totalmente diferente. Lembrou um pouco o Setor da Perseguida na Serra do Cipó. Outro aspecto que chamou minha atenção foi a vegetação exuberante do local. Parece um pequeno oásis no meio do cerrado (?).

As vias desse setor são mais verticais a levemente negativas e a graduação mais amena.

Aquecemos num 6c bem justo. Foi minha primeira escalada que fluiu de verdade em dois dias. Depois entramos na via Feijões Mágicos, via benchmark do setor. O Afeto ainda tocou a extensão desse 7a, que vira um 8a após virar um teto.

Afeto escalando no Beco da Coruja.

Em seguida, entrei num 7b recomendado, Mundo de Greyshull, mas achei um pouco cruxy.

Dali, resolvemos entrar num negativo de 45°, onde a Luan e o Potter estavam batalhando.

Inicialmente, não estava nos meus planos entrar numa via tão negativa no terceiro dia, pois estava além da minha capacidade, mas não resisti depois que o Afeto mandou em flash. A via tinha muito da minha escola: negativo de quatro chapas e um final tranquilo.

Dessa vez, aproveitei todos os betas e mandei em flash também.

Logo em seguida, o Potter, aproveitando a porteira aberta, também mandou a via.

Potter escalando a via Tetânica (8a).

Lição do terceiro dia: uma vez adaptado, a escalada começa a fluir melhor.

Agora é descansar de verdade! Nada de descanso ativo! Tomara que o Afeto pense o mesmo!

Parte 3

Após o dia de descanso, fomos, Afeto e eu, escalar a via Pauliceia Baiana no Morro do Pai Inácio.

Dia de descanso.

Pai Inácio

Deixo aqui as impressões pessoais que escrevi logo depois da escalada:

1ª enfiada: a via começa num grande diedro, bem óbvio quando visto do mirante. Em alguns textos falam “posto de gasolina”, mas agora é um restaurante com hotel (2025). Cuidado para não confundir com o diedro da direita, que parece muito, mas a linha é lá na esquerda.
Como já tínhamos feito essa trilha dias atrás para ir nas esportivas, levamos 15 minutos de aproximação.
Choveu um pouco pela manhã e, mesmo começando mais tarde, às 9h, o início da via estava úmido. Não sei dizer se é sempre assim, mas achei estranho e um tanto desconfortável.
A enfiada segue por um diedro bem protegido e depois uma travessia por baixo de um teto leva para uma canaleta. A travessia é mal protegida, mas os lances são fáceis. Ao final da canaleta, um buraco formado por blocos entalados te leva a um platô confortável. Como usei todas as peças médias, ficou ruim montar uma parada nas micros. Com isso, usei 4 peças para garantir redundância. Dica: reservar um #2 para a parada.

Rack e fitas: usei como referência o livro das 50 clássicas. Lá recomenda 12 costuras; levamos menos e compensamos com algumas fitas de 60 cm com um mosquetão. Além disso, levamos fitas de 120 cm, 180 cm e duas de 240 cm. Todas tiveram muita serventia por causa das travessias e tetos. Os nuts substituímos por um jogo completo de nut offset. De corda, levamos uma de 60 m; se tivéssemos uma de 50 m, agilizaria mais ainda.

2ª enfiada: começa num lance aéreo virando um balcão. O lance é protegido, mas acho que, em caso de queda, poderá dar platô. Depois entra numa canaleta com cactos até um platô OK. Nessa parada usamos peças médias a pequenas num bloco. Estranho, mas OK!

3ª enfiada: segue pela fenda da direita (pela esquerda é furada). Depois, um lance negativo em agarra te leva a uma virada, o crux da enfiada. Algumas agarras são suspeitas, mas nada difícil. A parada foi num bloco razoável por falta de opção. Lembro que usei 2x #2 e mais alguma coisa. À esquerda tem uma Pingo de alguma outra via nova.
Usamos a contagem de enfiadas do livro do Daflon e não emendamos com a travessia para cortar o atrito.

Afeto na 3a enfiada.

4ª enfiada (travessia): de boa, um pouco aérea, mas OK. O difícil é achar o final da travessia para tocar para cima. A dica é não passar de um grande diedro que vem de baixo. Nessa parada usamos peças pequenas (micros) e uma peça média. Parada pequena num platô apertado.

5ª enfiada (crux da via): começa com lances em blocos encaixados e muito suspeitos. As peças ficam igualmente suspeitas, mas sempre em agarras boas. Uma travessia por baixo do teto te leva para uma chaminé/diedro fechado de meio corpo. A travessia é mal protegida, mas dentro do diedro/chaminé há boas colocações. Usei um #0.75 e um #1 ou #2 (não lembro). Depois, um lance aéreo pela direita te leva a um grande platô. Essa foi a parada mais “bomba” de toda a via. Usei uns nuts médios a grandes e um #3.

Última enfiada: segue pela esquerda num grande varandão até virar uma aresta. Depois há a opção de sair pelo mato, ou pela face, com várias agarras horizontais que também servem de proteção. A última opção é a mais estética. Parada no cume usando uma árvore.

Escalamos a via em 3h, iniciando às 9h30 e finalizando às 12h30. Em meados de outubro, conseguimos escalar na sombra até a 5ª enfiada; depois o sol pegou.

Esse dia foi bem light, mas à noite sentimos o efeito do sol e ficamos um pouco cansados.

Cume!

Mundo Perdido

No dia seguinte, resolvemos entrar na via Mundo Perdido na Pedra do Camelo, conquistada parcialmente em solitária pelo Rudy em quatro dias de parede. Segue abaixo o relato que fiz depois da escalada:

Achar o início da via já foi um crux. No desenho do croqui não fica muito claro e, pela natureza do lugar, não tem como se afastar da parede para ver de longe a pedra. Só achamos a base de primeira porque, no dia anterior, vi um vídeo do Elder que filmou em primeira pessoa a escalada da 1ª enfiada. Ali deu para ver bem o diedro da saída. Na verdade, tem um pequeno totem com diedro nos dois lados. O início fica no diedro da direita.

Arte: Rudy Proença.

1ª enfiada: sai protegendo nesse totem e logo segue pela face da pedra, onde há 2 chapeletas. Depois continua protegendo nas fendas horizontais até a parada, que fica um pouco à esquerda. Tem um Bonier dupla mais alto e uma Pingo num platô.

2ª enfiada: segue virando um balcão (crux) e sobe buscando um diedro não muito evidente. Nesse trecho há algumas agarras estranhas, soltas, e depois domina um platô igualmente cheio de blocos soltos. Essa enfiada é toda em móvel, exceto na base do diedro, onde há uma chapa numa parede laranja, antes de um lance técnico.
É possível juntar as duas primeiras enfiadas, mas como tive uma experiência ruim na Jardineiro, resolvemos escalar sem emendar.
Até esta enfiada, devido à inclinação positiva da parede, escalamos com as mochilas. Dali para cima, içamos a mochila com uma tagline por causa da negatividade da rocha.

Afeto no início da 2a enfiada.

Rack: corda de 60 m, tagline de 60 m, 1x #0.1–#4, 2x #0.4–#2, 14 costuras e um jogo de nut offset. Esse rack é o recomendado pelos conquistadores e foi bem confortável. Quem conhece a via poderá levar menos peças, talvez dispensando os microfriends para aliviar peso.

3ª enfiada: onde começa a brincadeira. A enfiada é negativa, com chapas logo na saída, e segue em móvel por uma espécie de diedro até a parada. Apesar da negatividade, há diversos platôs e pontos de descanso que ajudam a aliviar o braço. No trecho em móvel, as proteções são regulares e sólidas.

4ª enfiada (crux da via, ~45 m): possui aproximadamente 14 chapas, mas há trechos em que precisa completar com peças, incluindo laçada de buraco. A enfiada é bem negativa, mas há pontos de descanso ao longo da enfiada após cada lance mais negativo, principalmente entalando o joelho. O lance mais estranho é na chegada, logo depois de um diedro, numa travessia na base do teto para chegar na parada. Ali a rocha é mais duvidosa, exigindo boas escolhas.
A P4 marca o fim do trecho negativo.

Chegando na P4. Foto: Afeto.

5ª enfiada: segue toda em móvel, sempre protegendo nas gavetas. Há boas colocações ao longo da enfiada e a rocha é bem sólida. O mais difícil é a navegação, pois há diversos caminhos. Após a primeira virada de balcão e subir uma placa com várias gavetas, buscar um platô com mato mais acima. Acima desse platô há uma fenda vertical que forma um diedro fechado e, logo acima, contornando pela direita, a parada.

Afeto limpando a 5a enfiada.

6ª enfiada: mira o platô mais evidente acima. Segue em móvel praticamente reto para cima. O ponto da virada é facilmente visualizado por uma falha na vegetação. O crux da enfiada é justamente nessa virada, onde precisa dominar dois pés de canela-de-ema e rezar para não soltar; por isso, é importante colocar boas peças antes.
No platô, acabamos saindo da via e finalizamos a escalada pela chaminé da esquerda, subindo a linha mais natural da rocha. A via original sai pela direita por uma enfiada de 7a, mas não vimos a linha com facilidade por causa da vegetação.

Chegamos ao cume às 16h30, após 6h de escalada.

Cume!

A descida caminhando é bem macetosa. É mandatório ter o tracklog, principalmente no cume. Além disso, há um longo trecho de corda fixa na descida da grota que exige atenção e braço, pois há trechos negativos.

Por sorte, o Rudy e o Claudiney vieram repetindo a via e nos encontramos no cume. Com isso, a descida foi bem tranquila.

Como a viagem estava no final e ainda havia muita pedra para conhecer, suspendemos o descanso depois das duas trads e resolvemos escalar os outros dois dias, totalizando quatro dias on.

Barro Roxo

No terceiro dia, o Rudy e a Luan nos aplicaram no setor Barro Roxo, um clássico de Lençóis! Visita mais do que obrigatória!

Afeto dando o último pegue no Setor Barro Roxo.

Já conheci muitos setores, mas o Barro Roxo é diferenciado: parede negativa, agarras boas e muita continuidade. Lembra um pouco o Barro Rosa, mas sem os descansos — e com o dobro da distância de caminhada.

Beija-flor-de-gravata-vermelha, espécie endêmica da Chapada Diamantina.

A aproximação foi sofrida por causa do sol do meio-dia e também por causa da escalada do dia anterior.

Luan escalando no Barro Roxo.

A escalada até que rendeu dentro do possível. Saí de lá bem motivado a retornar um dia para provar outras vias e resolver as pendências.

Claudiney, Afeto, Luan, Rudy e eu.

Barro Branco

No quarto dia, fomos conhecer o setor Barro Branco, um pico de metaconglomerado com quase nada de caminhada.

Conglomerado é uma rocha bem familiar para mim e tenho bastante apreço por esse tipo de escalada.

Rudy amassando uns seixos num 9a.

Achei o metaconglomerado do Barro Branco incrível! Padrão internacional! Não imaginava que no Brasil poderia haver um conglomerado com tamanha qualidade.

Luan na via “O Alquimista” (8a).

Como estávamos no final da viagem, senti um pouco a pele e, mais ainda, o cansaço. Pela quantidade de vias com qualidade acima da média, sem dúvida é um setor para voltar.

Tentando um 8b a flash, só tentando mesmo…

No dia seguinte, iniciamos o longo caminho de volta para casa. Assim como na ida, na volta paramos em Itatim para pernoite. A ideia era escalar à tarde, mas estávamos tão cansados que só fomos ver o pôr do sol de uma pedreira.

Entardecer em Itatim.

Agradecimento a todos que tornaram esta roadtrip inesquecível: ao Afeto, parceiro de cordada e de risadas; ao Ismael, pela hospitalidade no Refúgio Frei e pelo churrasco à moda gaúcha; ao Rudy e à Luan, pela parceria, betas precisos e por abrir as portas da Chapada; ao Pedrão, Potter, Claudiney e ao Coisinha, pela presença e energia boa nas esportivas. Valeu demais por cada conversa, beta, escalada e pôr do sol compartilhado!

Morro da Toca, Itatim.
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Itatim, o fruto proibido

Conhecer as escaladas de Itatim, na Bahia, sempre esteve nos meus planos, mas também sabia que seria como provar o fruto proibido do livro de Gênesis. Por isso, procrastinei bastante, mas, como diz uma anedota antiga: se a montanha não vem a Maomé, Maomé vai à montanha!

A oportunidade surgiu no início do ano, quando o pessoal da organização do Encontro de Escalada de Itatim me convidou para palestrar no evento que aconteceria em setembro.

Entendi que o mundo estava conspirando a favor para conhecer Itatim, que eu estava fadado a cometer o crime de provar o granito vertical com agarras e acabei aceitando o convite sem pensar muito.

Cheguei em Itatim no dia 3, quinta-feira, no final do dia, e logo me encontrei com o Porko e o Chuck, ambos do Espírito Santo, que haviam chegado de carro no dia anterior.

Na sexta-feira, fiquei em home office, ou melhor, “sítio office”, no local sede do evento. Quando “sextou”, fechei o notebook e partimos para uma escalada expressa no final do dia, ali no Morro da Toca.

Dias antes, conversei com o escalador Daniel Casas, que passou uns dias pela região e me deixou uma pequena lista de vias legais para repetir.

Lapso de Memória (5º, VIIb, E3, D1, 85m)

Olhei a lista e, pela proximidade, fomos na via Lapso de Memória (5º, VIIb, E3, D1, 85m), na face sul do Morro da Toca, conquistada pelo Dilsinho e companhia em 2009.

Como estávamos em quatro, fechei uma cordada com o Ismael, escalador gaúcho perdido na Bahia e refugeiro do Refúgio Frei, onde o Porko e o Chuck estavam hospedados. Os dois fecharam outra cordada que subiria logo em seguida.

Conforme a descrição do novo croqui de Itatim, 2a edição, que seria lançado no encontro, sabia que o crux estava logo na saída, num lance protegido em chapa.

Começar os trabalhos em Itatim, fazendo um boulder de VIIb logo de cara, não me pareceu uma boa ideia, mas era o que tínhamos para hoje. Achei uma sequência interessante e fiz a saída com certa facilidade para um VIIb. Logo em seguida, apareceu um segundo crux (VI SUP). Como a via é mista, sabia que esse trecho seria em peças. Procurei um lugar para proteger e nada. Logo comecei a entender que as fendas de Itatim não são bem fendas, mas sim canaletas de água mais profundas. Quando olhamos essas canaletas de longe, parece que a parede oferece infinitas possibilidades de colocações, mas quando metemos a cara, descobrimos, para nosso pavor, que nem tudo que reluz é ouro.

Consegui socar um #0.75 meia-bomba e reforcei com um #0.5 psicológico. Sabia que as peças não aguentariam uma queda e que provavelmente daria chão, então tratei de passar consciente o lance. Mais acima, a enfiada ficou mais vertical a negativo e as canaletas seguiam sem oferecer boas colocações, mas felizmente as agarras eram boas e logo cheguei à parada.

Na primeira enfiada. Foto: Chuck.

Confesso que fiquei chocado com a minha primeira escalada. Logo pensei no que nos aguardava para os próximos dias.

Chamei o Ismael, que subiu recolhendo, e o Chuck, sabiamente, também subiu de corda de cima para pular essa enfiada.

Dali para cima, a escalada ficou mais amena e logo batemos no cume do Morro da Toca.

Chuck chegando no final da via.
Cume!
Foto no cume!
Caatinga.

Depois, seguimos até a rodoviária de Itatim para buscar o Karapeba, que vinha de ônibus, e fomos direto até o local sede do evento para encontrar com a galera. Mas nós, e pelo visto os outros também, estávamos muito cansados e, por volta das 23h, já estávamos no saco de dormir.

Garantindo o meu guia diretamente com o autor!

Auto da Compadecida (4º, VI, E2, D1, 185m)

Amanhecer em Itatim com a Pedra Aguda ao fundo.

Para o sábado, planejamos uma escalada mais tranquila, pois além do susto, estávamos cansados da semana e da longa viagem do Espírito Santo até Itatim.

Resolvemos atear fogo na lista do Dani e fomos buscar uma escalada mais tranquila, acabamos por escolher a via Auto da Compadecida (4º, VI, E2, D1, 185m), na Ponta Aguda.

Ponta Aguda.

Como iríamos escalar em cinco pessoas, ficamos com receio do sol, pois a via fica com a face voltada para o norte, então resolvemos entrar cedo pela manhã.

Acordamos às 5h e, às 6h, já estávamos na base da via nos encordando. Para agilizar a escalada, o Porko e o Chuck fecharam uma cordada e entraram na via ao lado, Shaolin do Sertão (5º, V SUP, E2, D1, 175m), enquanto nós — Karapeba, Ismael e eu — fomos na Auto da Compadecida.

Karapeba abrindo os trabalhos.
Chuck e Porko na via.

Como ambas as vias são em fixa, a escalada fluiu bem e não tivemos muitos problemas com a navegação. Só achei que a 3ª e a 4ª enfiada não eram III SUP. Nunca vi um III SUP de 30m com seis proteções…

Eu, Ismael e Karapeba na via. Foto: Chuck.

Chegamos no cume às 8h, após duas horas de escalada. Por sorte, o dia amanheceu com sol entre nuvens e fomos beneficiados pelo vento da manhã.

Como ainda tínhamos muito tempo, descemos da pedra e voltamos ao Morro da Toca para escalar mais uma trad na sombra.

Foto no cume!
Vista do cume.

Conjunção de Saturno (5º, VI SUP, E2, D1, 140m)

Dessa vez, escolhemos — ou melhor, eu escolhi — a Conjunção de Saturno (5º, VI SUP, E2, D1, 140m), na face oeste do Morro da Toca, por estar na sombra.

Morro da Toca.

Chegando lá, constatamos que a via deveria ser ótima, pois estava ocupada. Inicialmente pensamos em entrar nela e na Crepúsculo, que fica ao lado, mas a via Crepúsculo também estava ocupada.

Esperamos um pouco e logo entramos, Karapeba e eu, na Conjunção de Saturno, que estava mais livre. Em seguida, o Chuck e o Porko entraram também, mas em outra cordada.

Karapeba na via. Ao fundo Chuck e Porko na mesma via.

A escalada fluiu bem, mas a essa altura do dia o sol começou a nos castigar e a incomodar.

Sem dúvida, as melhores enfiadas são a 3ª e a 4ª, mais técnicas, numa placa mais vertical. Diferentemente do dia anterior, a via é toda em chapa, com padrão esportivo, então a escalada fluiu bem e logo chegamos ao cume.

Do cume, resolvemos descer pela via Crepúsculo, pois pela Conjunção não parecia uma boa ideia. O granito de Itatim forma diversos bicos e pontas que têm tudo para prender a corda no rapel. Confesso que achei todos os rapéis estranhos. Parecia que a qualquer hora a corda iria prender em alguma coisa, mas no fim deu tudo certo!

Vegetação típica do cume.

Como estávamos com uma corda de 60m, tivemos que levar uma tagline, pois em várias vias o rapel é feito com uma corda de 70m. É um padrão estranho que eu não sabia, mas fica a dica: leve uma corda de 70m para Itatim, vai facilitar a vida em várias vias, mas se puder, opte sempre em descer caminhando.

Entaredecer nos inselbergs de Itatim.

Depois da escalada, ministrei uma pequena oficina introdutória sobre escalada solitária, dentro da programação oficial do evento. Não tenho certeza, mas acho que essa foi a primeira oficina/workshop de escalada solitária do Brasil.

Oficina sobre escalada solitária. Foto: Ismael.

Já à noite, dei uma palestra sobre as escaladas em Yosemite, nos mesmos moldes da que fiz este ano em Caçapava do Sul (RS). Depois, ainda rolou sorteio de brindes dos patrocinadores e, para fechar a noite, um show com a banda Patatins, formada por escaladores locais, com várias músicas autorais relacionadas à escalada local. Muito bacana!

Palestra sobre Yosemite. Foto: Joyce.

Jardim Celestial (6º, VI SUP, E2, D1, 145m)

O domingo amanheceu chuvoso, com uma garoa persistente — uma boa desculpa para sair mais tarde e descansar um pouco mais.

Para o domingo, deixei o Chuck escolher uma via. Não sei onde ele arrumou, mas apareceu com a ideia de repetir a Jardim Celestial (6º, VI SUP, E2, D1, 145m), na face norte do Morro do Crocodilo.

Partimos para a pedra por volta das 9h e logo chegamos à base da via. Achei a aproximação dessa face muito bacana, por atravessar uma região de caatinga com várias plantas diferentes, todas muito espinhentas.

Caminhada para o Crocodilo.

Comecei os trabalhos tocando a 1ª enfiada em móvel. A essa altura do campeonato, já sabia que aquelas canaletas/fendas eram “fendas fakes” e que as colocações eram bem macetosas. A segunda enfiada ficou com o Chuck, que sentiu na pele o que é proteger no granito de Itatim enquanto o sol da face norte nos fritava na parede.

Chuck limpando a 1a enfiada.

Mais acima, a via leva para dentro de uma chaminé, que na verdade é uma canaleta maior forrada de agarras. Tem tanta agarra dentro que chega a incomodar as costas enquanto subimos em chaminé.

Escalando chaminé em Itatim…
Chaminé diferente, com agarras!

Depois a via fica mais fácil e logo já estávamos no cume, depois de três horas de escalada.

O rapel foi pela via Sextão de Brincadeira. Rapel tranquilo, mas muito intimidador por causa dos bicos de pedra. Não queira fazer esse rapel com vento!

Arco da Toca (5º, VIIa, E3, D1, 130m)

O dia estava acabando, assim como as nossas energias, mas ainda tínhamos o gran finale: o Arco da Toca!

Para essa escalada, chamei o Karapeba que, enquanto estávamos no Crocodilo, havia escalado uma via com a Joyce, na Toca.

Entramos na via Arco da Toca (5º, VIIa, E3, D1, 130m), no Morro da Toca, por volta das 14h30. Eu esperava que essa via fosse ter muito trânsito durante todo o evento, mas estava bem tranquila, quase sem movimento.

No meio da tarde, a face fica na sombra e a escalada se torna mais prazerosa. Além disso, nesse dia o vento estava mais forte que o habitual. Logo que comecei a escalada, por duas vezes quase perdi o equilíbrio com as rajadas de vento. Aliás, a 1ª enfiada é quase um solo de III, porque nos únicos lugares onde as peças cabem, elas não têm muita serventia.

A 2ª enfiada ficou com o Karapeba, que subiu rapidinho, e logo chegamos à cereja do bolo da via: a 3ª enfiada. Essa enfiada me lembrou muito as vias de Calogi, numa versão mais fácil. Por sorte, encontrei todas as agarras com marca de magnésio da galera que escalou no evento, então achei mais fácil. O difícil nessa enfiada é acreditar que algumas agarras não vão quebrar na sua mão.

Karapeba na 2a enfiada.

O Karapeba subiu de segundo, mas, quando chegou na P3, arriou a bateria após tantos dias de escalada e me ofereceu a ponta da corda novamente. Agradeci de bom grado e fui para o que é, para mim, a melhor enfiada da via! A 4ª enfiada transcorre em travessia à direita pela borda do teto gigante, que dá uma sensação de exposição surreal. Sem dúvida, o psicológico pesa se não estiver acostumado a escalar negativos e tetos.

Quarta enfiada.

Diferentemente da 3ª enfiada, a 4ª é mais física e menos técnica. Como a enfiada vai à direita, tora mais o braço direito, pois todas as costuras são feitas com a mão esquerda.

Depois da virada, a pedra perde inclinação e a última enfiada foi somente um protocolo para ganhar o cume. Aliás, foi muito legal voltar ao cume no último dia para fechar com chave de ouro a trip.

No dia seguinte, ainda achei disposição para subir o Napoleão antes do amanhecer, tirar umas fotos e depois pegar a estrada para Salvador, rumo à Vitória, na terra dos granitos lisos e sem agarras de mão!

Amanhecer em Itatim.

Por fim, gostaria de agradecer à organização pelo convite e pelo excelente evento de altíssimo nível. Itatim tem o melhor granito do Brasil e também tem os melhores escaladores e escaladoras!

Agradecimentos também aos parceiros de cordada: Ismael, Karapeba, Chuck, Joyce e Porko, que fizeram a vibe do bonde dos capixabas!

Gravatás com Enxadão ao fundo.
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11o Encontro dos Montanhistas

Aconteceu no último feriadão de Páscoa/Tiradentes, entre os dias 18 e 21 de abril, o 11o Encontro dos Montanhistas nas dependências do Camping Galpão de Pedra, na cidade de Caçapava do Sul – RS.

O evento marcou a retomada dos famosos Encontros de Escalada que eram bastante comuns na virado século, mas que nos últimos tempos estava um pouco esquecido.

A grande novidade dessa retomada, após um jejum de mais de uma década, foi a organização do evento que, pela primeira vez, ficou a cargo das filhas, filho e nora do seu Manuel.

O evento contou com a participação de aproximadamente 100 escaladores que vieram de diversas partes do Brasil e até mesmo do exterior (Argentina e Uruguai).

Escalador Tiago Mohr voando na Pedra do Leão.

Em 2022, quando estive com Afeto e o Graveto no Camping Galpão de Pedra, o seu Manuel já falou que tinha a intenção de voltar a realizar um encontro de escalada e que contava com a minha presença como um dos palestrantes. Sem pestanejar, aceitei o convite e três anos depois, lá estava eu, todo remendado, pisando em Caçapava do Sul.

Pedra do Segredo ao entardecer.

Devido ao acidente da semana passada, não pude escalar, mas por sorte os pés escaparam, então aproveitei para caminhar e subir algumas montanhas mais fáceis para fotografar e queimar um pouco as calorias após esbanjar muita cuca com nata!

Pedra da Abelha.
A santa da Pedra Redonda.

Acho que o principal objetivo do evento foi reunir os antigos escaladores, tinha gente que não via há mais de 20 anos, assim como misturar a nova geração que não para de brotar. Confesso que tenho certa dificuldade para acompanhá-los, pois sempre que desço para o Sul conheço mais gente nova.

Escalador uruguaio escalando na Pedra do Leão.

Como palestrante, na primeira noite falei sobre a escalada no Half Dome e na segunda, sobre Estilo na Escalada Esportiva. Além disso, no segundo dia, fiz um pequeno workshop sobre escalada tradicional. Já no domingo pela manhã, tivemos uma palestra sobre Primeiros Socorros, ministrada pelo montanhista e médico Arno Britz. E todos os dias, de manhã cedo, tivemos seções de yoga com a escaladora Alice Carasai que deixou tudo alinhado para o dia.

Abertura oficial do evento.
Prática de yoga.

No sábado à noite, tivemos o grande churrasco de confraternização que ficou a cargo do Mano, filho do Seu Manuel, que começou os preparativos ainda pela manhã. Então imaginem como estava o churrasco à noite! Preciso confessar que aceitei palestrar só para comer esse churrasco!

Os churrasqueiros!

No mais preciso agradecer a família Teixeira que sempre me recebe de braços abertos desde 1997. Sempre que vou lá volto mal acostumado porque sou muito bem tratado. Agradecimentos também a todos os presentes que assistiram às palestras e participaram das discussões. Espero ter plantado uma pequena semente.

Foto oficial do evento!
Foto: Larissa.

Nos vemos em setembro de 2026!

Entardecer.
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Escalada Testemunho

Na geografia e geologia, o termo “morro testemunho” é utilizado para designar uma elevação topográfica que se destaca sob um relevo mais baixo e aplainado, sendo ele, uma feição residual não aplainado.

No Rio Grande do Sul, ao longo da base da Serra Gaúcha, conhecida como Depressão Central, ocorre uma extensa faixa sedimentar onde afloram, entre outros, os famosos arenitos, de origem eólica, da Formação Botucatu. E junto a essa faixa, que começa próximo ao litoral gaúcho e segue até a fronteira com o Uruguai, é bastante comum encontrar os tais morros testemunhos.

Seção geológica simplificada mostrando contextualização dos morros testemunhos.

Alguns exemplos famosos desses morros testemunhos são: o Morro do Itacolomi, Morro do Sapucaia, Pudim, Itacolomi do Passo do Sobrado, Cerro Itaquatiá, Cerro de Palomas, Yeye entre outros.

Por ser um morro residual resistato, é comum aflorar paredes escarpadas ao redor do morro, com grande potencial para a prática da escalada. Aliás, a história do montanhismo gaúcho começou justamente num desses morros testemunhos, com a conquista do Morro do Itacolomi em 1952. Logo, devido ao potencial dessas paredes, inúmeros morros testemunhos foram sendo explorados pelos pioneiros. Atualmente, praticamente todos os morros testemunhos do Rio Grande do Sul são áreas consagradas de escalada.

O estilo de escalada nesses morros testemunhos é bem peculiar por apresentar diversas características únicas, independentemente do morro que for escalar.

Em todos eles, há uma aproximação com bom ganho de elevação e é bem comum, no trecho final, fazer algum trepa-pedra; já os setores de escalada são pequenos com menos de meia dúzia de via por setor, exigindo constante migração de setor ao longo do dia; as tais mudanças de setor são sempre por trilhas íngremes que por vezes exigem lances de escalaminhada e até mesmo pequenos rapéis numa vegetação bem característica de altitude.

Outro elemento comum nesse tipo de ambiente são as abelhas e marimbondos, que compartilham o mesmo espaço com os escaladores. Por isso, é bastante comum ocorrer encontros infortúnios onde sempre acabamos tomando algumas picadas, seja no meio da escalada e/ou na trilha.

Morro Yeye, um exemplo de morro testemunho. Imagem: Tiago Mohr

As escaladas em si também são bem peculiares em termos de estilo. As vias são, em geral, vias mais curtas, aproximadamente 15m de extensão, prevalecendo uma escalada mais técnica num arenito super compacto.

Foi também nesses morros testemunhos que surgiu o que chamamos de “estilo gaúcho” de escalada, sendo justamente essas vias curtas e bem bolderísticas, por vezes com movimentações muito específicas, um verdadeiro pesadelo para escalada à vista.

Há também vias em paredes mais esburacadas que sempre atraem os nossos olhares e desafiam a imaginação, mas, em geral, essas paredes esburacadas pela ação dos ventos e água são os locais preferidos dos marimbondos que gostam de pegar os escaladores mais desavisados.

Lembrei de tudo isso porque no último final de semana, entre o Natal e o Ano Novo, estive com Tiagão e Andrew pelo Morro Yeye em Montenegro.

Tiago Mohr na via Pranayama (8a).
Via Totem Tolotti (6c) Imagem: Tiago Mohr
Andrew trabalhando a via Pranayama (8a).

Embora o berço da minha escalada esteja intrinsecamente ligado ao Behne, nos meus primórdios da escalada vagamos bastante por esses morros testemunhos, principalmente o Itacolomi e o Pudim.

Pelo fato de o Yeye também ser um morro testemunho, o estilo de escalada é muito parecido com o Itacolomi e o Pudim. Por isso, a escalada do final de semana resgatou um pouco as memórias dessa época, quando acordávamos cedo, pegávamos 3 ônibus e passávamos o dia escalando pelos setores, tomando picada de marimbondo e espanco das vias “estilo gaúcho”. Desde então, o tempo passou, mas algumas coisas seguem imutáveis como as ardidas picadas de marimbondo, as intermináveis caminhadas e o espanco das vias!

Já escalei por vários picos de escalada do Brasil e exterior e posso garantir que a escalada nos morros testemunhos do Rio Grande do Sul é única e genuinamente gaúcha. Recomendo fortemente aos novos escaladores e visitantes que conheçam um pouco desse patrimônio que ultimamente anda um pouco esquecido.

Behne e Noel

Aproveitando a visita ao Rio Grande do Sul, atualizei a parte gráfica do croqui do Behne, refiz os desenhos e fiz algumas correções. Para ver o croqui atualizado, clique aqui!

Já em Noel Rocks, inclui algumas vias novas do Setor Psicodélico. Para acessar, clique aqui!

Pardal trabalhando a via Coquetel de Força (9b), Behne.
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Resumo da semana

FFA da Transatlântico (10a)

Neste post, falei sobre a primeira ascensão feminina da via Avalanche pela escaladora Janaina Basto. Nesta mesma postagem, em uma entrevista, ela falou que gostaria de aproveitar o embalo e tentar a variante Transatlântico (10a) que têm uma saída mais direta. 

E agora, no mês passado, a Jana realizou a 3a repetição da Transatlântico após trabalhá-la por alguns dias. Com isso, ela se torna a primeira escaladora capixaba a mandar uma 10a.

Jana na via Avalanche.

Calogi Fechamento

Semanas depois, fomos surpreendidos por uma notícia muito triste. Num belo dia, numa bela manhã, apareceu uma placa na entrada de Calogi informando que a área de escalada estava fechada.

Na verdade, nos bastidores, já estava se desenrolando um movimento por parte dos proprietários em querer fechar o local por conta da postura de alguns escaladores: pessoas mal-educadas, consumo de entorpecentes, uso de imagem não autorizada, entre outras.

Graças a uma boa relação com os proprietários, ainda temos um canal de conversa aberto e estamos conseguindo articular uma reabertura mais restritiva. Espero, em breve, trazer boas notícias, mas por hora o local segue fechado e peço que respeitem a vontade do proprietário!

As idas e vindas de Calogi já fazem parte da história do local. Não foi a primeira vez, nem deverá ser a última. Mas sempre me entristece profundamente quando isso acontece, pois os problemas sempre são recorrentes e se resume a uma palavra: comportamento! 

Esse é um problema generalizado que não se resume apenas ao Calogi, mas a vários picos de escalada no Brasil. Infelizmente eu não consigo ver uma luz no fim do túnel nessa questão, pois acredito que os princípios básicos de educação se moldam em casa, ainda crianças. Acho que você não consegue educar um adulto a dar “bom dia” quando se entra nas terras dos outros se não aprendeu isso em casa.

Face sul do Calogi

Guia de Pancas

Saiu hoje, um pequeno Guia de Escalada de Pancas, feito especialmente para o XIII Encontro Capixaba de Escalada que irá acontecer em duas semanas.

Desde o lançamento do livro Escalada Capixaba, em 2018, o quantitativo de vias em Pancas mais do que dobrou. Por isso achei importante fazer esse resgate e registro para mostrar o real potencial da região. Hoje, Pancas é a cidade com mais vias no Espírito Santo, com um total de 99 vias, entre esportivas e tradicionais. Além disso, é a cidade que mais recebe escaladores de fora do estado. Por outro lado, ironicamente, Pancas é a cidade menos frequentada por escaladores locais. Inclusive há muitos escaladores locais que nunca foram a Pancas. Outro dado interessante é que atualmente não há escalador ativo em Pancas. Por essas e outras, a Associação Capixaba de Escalada resolveu levar esse encontro para lá para resgatar um pouco o montanhismo na região. 

Entardecer em Pancas
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FFA da via Avalanche

No dia 31 de maio, a escaladora Janaina Bastos realizou a primeira ascensão feminina (FFA) e a 6a repetição da via “Avalanche” (9c), Calogi – ES.

Vale lembrar que em 2021 ela fez o FFA da via “Batida Macabra” (9a), também em Calogi e se tornou a primeira escaladora a mandar um 9a no Espírito Santo.

Desde então, ela despachou rapidamente os outros nonos do setor e começou a trabalhar a via Avalanche. Nos últimos tempos, ela aumentou o foco na via e a tão desejada cadena finalmente aconteceu no último dia de maio.

Acompanhando todo processo e vendo seu potencial, para mim estava claro que era uma questão timing, pois nos treinos demonstrava claramente que tinha a condição física necessária para mandar, mas faltava um alinhamento mental que, às vezes, é mais difícil do que o condicionamento físico. Também acho que o clima nos últimos meses não ajudou muito nesse processo. A Avalanche é uma via de agarras pequenas que exige escalar eficientemente, sem perder muito tempo passando magnésio.

Na seção crux da via.

Por hora, a lista dos repetidores está assim:

2011 – Naoki Arima

2012 – Caio Afeto

2013 – Felipe Alves

2020 – Alex Mendes

2023 – Eric Telles

2024 – Janaina Bastos

Digo por hora, porque a fila de gente trabalhando a via está grande. Deve ser a via mais frequentada nos últimos tempos em Calogi. Logo logo teremos mais repetições.

No crux final da via.

Segue uma pequena entrevista que fiz com a Jana depois da cadena, onde ela conta um pouco mais sobre a via, processo e desafios.

1- Jana, de onde e como surgiu a ideia de “projetar” a Avalanche?

Já tinha feito todos os nonos do primeiro andar, inclusive a Contra-avalanche que é um 9b. Todas saíram bem rápido. Daí surgiu a ideia de entrar na Avalanche. De cara, já percebi que ia ser bem dura e que o processo não seria tão rápido quanto foi com as outras vias. Agora, o fator que mais contou para eu projetar a Avalanche foi a minha idade. Comecei a escalar com 34 anos e se eu quisesse mandar alguma coisa difícil teria que ser por agora porque depois dos 40 tudo fica mais difícil, né?
Tenho total consciência que eu deveria escalar um volume maior de 9a e 9b antes de entrar num 9c. Mas, aqui não temos muitas opções. Então, devido a esse fator, mais o fator idade, resolvi encarar o desafio.

2- Você fez alguma preparação específica para via? Existe alguma característica específica que a via exige?

Venho treinando desde comecei a escalar. Gosto muito da rotina de treino. Para a Avalanche comecei a treinar mais resistência de força. Teve um momento que tive que pegar mais leve nos treinos por conta de uma epicondilite e quando voltei a escalar a via, percebi que estava com os dedos um poucos fracos e que seria interessante treinar força de dedos em agarras pequenas. Comecei a treinar finger em casa só na agarra de 10 mm e com lastro. Isso me ajudou muito, porque já não achava as agarras da via ruins e conseguia bater meu braço em vários trechos. Também treinei algumas remadas e nesse ponto o Moonboard deu aquele power.
Pra mim, a via exigiu muita resistência de força porque grande parte dos moves são bem dinâmicos para mim. Outro ponto é aceitar os descansos.

3- Fale um pouco sobre a sua rotina de treinamento.

Por mim eu treinava todo dia rsrs. Mas, descanso também é treino, né?
Costumo treinar mais de leve na segunda e quarta. Geralmente faço uma corridinha pra manter o cardio em dia, faço umas séries de finger e, de vez em quando faço uns abdominais. Terça e quinta é sagrado ir pra ACE fazer um treino completo. Daí costumo aquecer, fazer um fortalecimento e depois vou para o muro. Nesse ponto do treino, Felipe me ajuda muito montando algumas vias pra mim. Sexta é descanso absoluto e fim de semana é rocha. Nessas últimas semanas, fiz treinos mais leves para chegar descansada na Avalanche.

3- Ao longo do processo, você pensou em desistir?

Cheguei a pensar, mas logo desisti de desistir porque minha personalidade não me permite desistir de nada. Ainda mais quando é algo que quero muito e que sei que tenho condições de conseguir e que só depende de mim.

4- Imagino que o momento mais gratificante desse processo foi costurar a parada, e a momento mais difícil?

Foi bom demais costurar aquela parada. Chorei de emoção. Momento difícil, foram vários. Foi quando tive que dar um tempo da via por causa de uma epicondilite. Não conseguia nem pentear o cabelo. Foi o período mais difícil. Depois, foi encarar a frustração todo final de semana que eu não mandava a via sabendo que dava para ter mandado.

5- E agora? A temporada nem começou e já está sem projeto. Já projetou alguma coisa para 2024?

Vixe, tem várias vias que quero: Transmanchuriana, 4×4, todas as vias do Arapuca… Mas, queria muito experimentar a Transatlântico para aproveitar o embalo.

6- Vejo que a escalada feminina está crescendo no estado, o que o você diria para quem está ingressando nesse mundo?

Diria para treinar duro, ser persistente e não esquecer nunca de se divertir, afinal de contas é pra isso que a gente escala.

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ATEES 2024 – Release

Aconteceu no último final de semana, dias 20 e 21 de abril, a 10a edição da Abertura da Temporada de Escalada do Espírito Santo na cidade de Castelo, um evento organizado pela Associação Capixaba de Escalada.

O evento deste ano teve 114 inscritos, batendo o recorde de 2014. Posso garantir que só não foi mais gente porque, nós da organização, fechamos as vagas no final por atingir a capacidade máxima da estrutura do evento.

Este ano, mais uma vez, a negociação com o São Pedro foi um sucesso, pois fomos agraciados com a chegada da primeira frente fria do ano. O lado ruim é que na 5a feira choveu bastante na região e a 6a feira não foi suficiente para deixar a rocha completamente seca para o sábado.

Oficialmente o evento começa apenas no sábado, mas já está virando tradição as pessoas subirem na sexta-feira para aproveitar melhor o final de semana. Eu mesmo fiz a peregrinação de 4h para subir na sexta-feira até a casa da tia do DuNada em Apeninos, onde rolou uma pequena concentração.

Parede de Apeninos.

Já no sábado, devido ao tempo instável, convidei o Léo e a Samira para voltarem à Pedra Nogueira para conquistar um totem que havíamos visto na semana passada. O plano inicial era para o DuNada e o Porko irem também, mas de manhã cedo, assim que todos entraram no carro para sair, o carro do Porko não “bateu arranque” e eles tiveram que ficar para resolver o problema da bateria.

Aproveitei a volta para entregar ao senhor Agostinho, o proprietário das terras, um exemplar da camiseta oficial do evento em agradecimento a todo carinho que temos recebido nos últimos finais de semana na região.

Entrega da camiseta.

A conquista do totem foi bem tranquila. Eu havia imaginado uns 40m de via, mas no final, ela ficou com 70m, dividida em duas enfiadas, onde batemos apenas duas chapeletas no final para o rapel. A via em si ficou fácil, com um crux de IV SUP na transição de um sistema de fendas para outra. Para o Léo, que começou a escalar no ano passado, essa foi a primeira tradicional móvel dele. Já para Samira, foi a estréia das novas peças recém-adquiridas. E também foi a primeira conquista da dupla.

Separando o material.
P1 da via.

Batizamos a via de “Meus novos amigos” em referência às novas peças da Samira. Amigos, friends…. Sacaram?

Samira na última enfiada.
Equipe!

Após a conquista, o Chuck e a Bella nos encontraram na base da via e descemos juntos até o Bar do Senhor Agostinho, onde a festa estava “pocando”, em bom capixabês! Assim como na semana passada, mais uma vez, fomos recebidos com muita festa e carinho após a conquista do totem. Comemos um pratão de churrasco, tiramos muitas fotos com o pessoal e fizemos aquela social importante.

A festa estava animada.

A noite, a concentração foi no lazer Furlan, onde foi servida a tradicional janta da Abertura. Depois tivemos a palestra do escalador e engenheiro Felipe Sertã que falou sobre as boas práticas na abertura de novas vias. Por fim, tivemos o sorteio dos brindes dos apoiadores.

Palestra do Sertã.
Sono e atenção na mesma foto.
Palestra.
Sorteio de brinde.

Domingo começou cedo, com café da manhã sendo servido na mesa às 7h e logo em seguida tivemos uma prática de yoga com a professora Tais Valle.

Amanhecer na região.
Café da manhã.
Prática de yoga.
Camiseta oficial do evento.

E para fechar a programação oficial, a super tradicional foto oficial do evento!

Foto oficial do evento.

Depois disso, uma turma começou a adiantar o retorno, enquanto outros foram queimar as calorias em Apeninos.

Todos de amarelo em Apeninos!
Jana trabalhando a clássica 4×4 (8c).

Venho participando desses encontros desde 2009, quando tivemos o primeiro Encontro em Castelo. A percepção que tenho é que por vários anos, os encontros foram entre “conhecidos”. E esse ano, pela primeira vez, tive a sensação de ver muitas caras novas entre os mais antigos. Isso é mais uma prova de que a escalada capixaba está vivendo uma fase de transição entre gerações de escaladores.

Outra prova disso é que a comissão organizadora desse ano também foi composta por “caras” novas, o que é muito positivo e renovador. Às vezes, me sinto cansado de ficar à frente desses eventos por tantos anos e acredito que outras pessoas também se sintam assim. Em várias ocasiões quis sair um pouco desse circuito, mas quando vejo gente nova querendo trabalhar, a motivação volta e acabamos postergando a aposentadoria por mais um ano.

Lazer Furlan com Forno Grande ao Fundo.

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Apeninos trip

Lá por volta de 2010, quando começamos a desenvolver a parede de Apeninos em Castelo, sempre comentávamos que um dia tínhamos que ir lá só escalar, sem levar furadeira, e curtir um pouco o lugar… mas isso nunca aconteceu… Foi preciso esperar 14 anos para finalmente fazer isso no último feriado de Nossa Senhora da Penha.

Foram três dias de escalada sem compromisso, repetindo as vias clássicas e relembrando porque elas são clássicas, mesmo depois de 14 anos.

Éric trabalhando a via Terceira Faixa (7c)
Porko na via Castelo Ra Tim Bum (VI)

Para fechar com “chave de ouro” a estadia “curtição”, Porko, Eric e eu ficamos no Abrigo de Montanha de Apeninos- AMA, o primeiro abrigo de montanha do Espírito Santo que fica aos pés da pedra! Um luxo!

Abrigo de Montanha Apeninos.

Escalar com o Porko sempre é sinônimo de luxo e pouca escalada! Então o churrasco comeu solto! Não só na janta, mas também no almoço e quase no café da manhã.

Café da manhã.
Carne na brasa, ou no fogo?

Para não dizer que deixei a furadeira em casa, assim que os dois foram embora no domingo, conquistei uma via (projeto), à direita da via Contramão (7b), batizada de “Homem de 4 mil anos”. 

No sábado, enquanto me dirigia para Apeninos, dei um pulo na Gruta de Limoeiro que fica ali perto para conhecer o local. Na verdade, já tinha ido há 17 anos, mas agora o local ganhou mais infraestrutura e as visitas são guiadas. O guia Nícolas me apresentou a gruta e contou toda história do local, inclusive sobre a descoberta dos restos mortais de um indígeno da idade antiga, datado em 4 mil anos. Achei aquilo incrível, então resolvi fazer essa pequena homagem ao antigo morador da região.

Gruta do Limoeiro.

Já na segunda-feira, foi feriado estadual, conquistei uma via à esquerda do setor 4×4. Havia visto essa linha na Abertura da Temporada do ano passado. A linha segue por um grande diedro em arco para direita e me pareceu bem óbvia e promissora. Resolvi conquistá-la em solitária e em artificial, aproveitando a fenda, mas assim que coloquei a terceira peça, um Totem Preto, ela sacou com o peso porque a rocha se esfarelou e tomei um voo. Parei num Totem Amarelo e acabei machucando um pouco o joelho no impacto. Por causa desse incidente, no mínimo aterrorizador, batizei a via de “Joelho de Porco”. A via ficou Ok, a rocha é um pouco decomposta, mas diria que ficou interessante. Bati algumas chapas para melhorar a proteção, mas a via requer complemento com peças pequenas (até #.75).

Apeninos no primeiro plano e o Forno Grande ao fundo.

Assim que desci da via, visualizei uma linha à direita com potencial para ser uma escalada bem agradável. Bati as chapas e logo em seguida o Xerxes e a Lu apareceram no setor para prová-la. A via ficou ótima, mas a saída acabou destoando um pouco, por isso foi batizada de “A saída te condena”. O lance não foi isolado, mas deve ser um 7a. 

Lu trabalhando o projeto “A saída te condena”.

Na longa volta para Vitória, ainda passei novamente na região de Limoeiro para conferir o potencial para novas vias numa montanha que, no mínimo, é diferente geologicamente. Fico impressionado como tem pedra nesse lugar, um verdadeiro paraíso para quem gosta de conquistar!

Montanhas de Castelo, essa pedra tem pontencial!

Daqui a duas semanas estarei de volta, agora para Abertura da Temporada de Escalada, um evento super clássico do calendário capixaba. Espero que o São Pedro nos envie um pouco de frio, porque o calor está complicado por aqui!

Forno Grande ao amanhecer
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Setor Arapuca

Para quem vê o Calogi de frente, uma parede à direita sempre chama a atenção pela imponência e cor alaranjada. Uns 13 anos atrás, passei na base e achei muito lisa, sem potencial para novas vias.

Tempos atrás o Alequinho passou por lá e achou que poderiam sair algumas vias de 10o grau.

Mais recentemente o Felipe e a Jana também passaram por lá e viram que mais para direita, na parte escura, a parede poderia receber algumas vias mais fáceis.

No mês passado, Chuck e eu abrimos uma variante ali perto, na Arapuca. Aproveitando que estávamos por lá, fomos dar uma olhada no setor novamente. De fato, o lado direito parecia muito mais promissor do que o lado esquerdo alaranjado.

Fiquei na dúvida sobre desenvolver esse setor, pois a maioria do pessoal que vai para o Calogi não passa do Totem. O Setor Excluído é praticamente um setor esquecido e o Vale Perdido anda bem abandonado nos últimos tempos. E esse setor novo fica mais longe e com uma aproximação bem marota. Sempre que vou lá me perco na volta…

Como o verão é um período propício para desenvolver novas áreas esportivas, já que não tem como fazer parede nesse calor, resolvi iniciar a investida nesse setor ermo com a Jana e o Felipe.

Iniciando os trabalhos. Foto: Jana

Após duas investidas equipamos 8 vias, duas mistas e 6 fixas. Dessas, apenas duas foram encadenadas e o resto segue como projeto, mas todas são bem factíveis. Em algumas, chegamos a isolar todas passadas. 

Com isso meio que finalizamos o lado direito do setor. Agora o desenvolvimento segue para esquerda em direção à parede laranja. Devido à complexidade desse lado, imagino que o ritmo do trabalho caia um pouco. Até então conseguíamos acessar o topo pelo lado, mas agora ficará mais difícil e trabalhoso acessar o topo.

Jana trabalhando a via “Árvore Proibida” (8a).

O setor tem se mostrado uma grata surpresa. Vias curtas, mas bem estéticas e diversificadas. A opção de poder escalar em móvel também é um charme. Se o pessoal deixar a preguiça de lado, garanto que encontrão bons projetos para o verão!

Felipe isolando um projeto hard sem nome, via #4 no croqui.

Por hora, devemos fazer um pequeno recesso de final de ano, mas em 2024, com certeza, voltaremos para dar continuidade aos trabalhos e quando chegar a temporada cair dentro com força total nos projetos!

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Militão

Há uns 12 anos, quando vim morar no Espírito Santo, surgiu um rumor sobre uma possível área de escalada no norte do estado. Foi descrita como uma floresta de blocos imersa numa mata exuberante, mas sem potencial por apresentar poucas agarras.

Sempre quis saber onde ficava esse lugar, mas nunca consegui achá-lo no Google Maps. Até que um dia o Iury encontrou um video no You Tube sobre um tal de Gruta do Militão em São Roque do Canaã. Na hora, associei a gruta com esse lugar e fiquei bastante curioso para saber mais sobre o local.

Enquanto estava fora, o Iury e a turma do Colaboulder fizeram duas visitas à região para negociar o acesso à pedra. De início, o proprietário foi bastante relutante em permitir o acesso, mas após algumas conversas, o pessoal conseguiu finalmente a autorização (com várias ressalvas).

No último sábado, Chuck e eu, juntamente com a Cíntia, Eduarda, Iury, Luca e Wesley fomos desbravar o local.

A área fica a leste da cidade de São Roque do Canaã, próximo à localidade de São Jacinto. Geologicamente fica no que os geólogos chamam de Lineamento Vitória-Colatina, uma feição estrutural de caráter regional que é possível observar claramente nas imagens de satélite. De fato, o local é bem singular. Numa rápida olhada, presumi que no passado geológico, ali tivesse um totem, ou até mesmo um pontão que pela ação erosiva desmoronou e formou uma enorme pilha de blocos, alguns com mais de 30m de altura. O empilhado de blocos formou uma intrincada rede de grutas, corredores e passagens estreitas.

Já rodei bastante esse Estado e é a primeira vez que vejo uma feição dessas. O mais próximo que já vi foi no setor Vale Perdido em Calogi que também se formou num processo bem parecido, mas numa escala menor.

Por ser um complexo de blocos empilhados, a caminhada e orientação são bem mais difíceis. Nessa primeira visita mal conseguimos ver tudo e muito menos explorar o potencial do local. Sem dúvida é um lugar que precisa bater muita perna para entender e conhecer todos os cantos.

Nessa primeira visita fomos direto a um bloco que o Iury classificou como o setor mais fácil. Um bloco negativo com vários buracos de uns 20m de altura que fica logo na entrada do setor.

Montamos um rapel e logo começamos a avaliar mais de perto os tais buracos. Logo vimos que a rocha era bastante decomposta com grandes lacas suspeitas. Conseguimos achar uma linha que evitasse essas lacas e ali nasceu a via “.50”, a primeira via do setor. A via ficou com aproximadamente 15m de extensão e o grau sugerido foi um 7b (aguardando novas repetições para confirmar o grau). Devido à qualidade da rocha, a 3a proteção não ficou no melhor lugar; por isso, há um runout entre a segunda e a terceira que exige um pouco de atenção. Se cair puxando corda é chão!

Luca equipando a via .50.

Depois dali, fomos num outro bloco, ali perto, e abrimos uma via em mista. A via, batizada de “Soldado Raso” começa numa placa tecnik protegida com duas chapas. Depois entra num diedro em móvel até virar o tetinho e seguir por mais três proteções fixas até o cume do bloco, totalizando 20m de via. Grau sugerido VI. Levar Camalot do #.4 até #1.

Conquistando a via “Soldado Raso”.

Já mais para o final do dia, voltamos as nossas atenções para um bloco que fica logo na entrada, onde vimos um bom potencial para alguns boulders e uma fenda frontal de mão. Nesse bloco abrimos dois V0’s, “Tiro de Festim”, um boulder que começa na aresta e “Tiro de Borracha” que começa um pouco mais a direita e junta com a “Tiro de Festim”. Mais à direita abrimos a “Tiro certeiro” uma fenda frontal de mão que acaba numa árvore. Escalei a fenda em móvel, mas é possível escalar em highball com alguns crashs (V0).

Agradecimento ao Iury e a turma Colaboulder pelo convite e por viabilizar o acesso. Espero voltar num futuro breve para seguir explorando melhor o local e conquistar novas linhas.

A turma!
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Setor Peroba

No mês passado, a Sarinha e o Cássio, após uma exploração pelo interior de Paraju, em Marechal Floriano – ES, descobriram uma parede com potencial para vias esportivas e anunciaram a descoberta num grupo de conversa.

Segundo eles, seria o novo Calogi! Uma parede de uns 60m de altura com uns 150m de extensão e muitas agarras!

Olhando as fotos, a primeira vista, lembrou um pouco a parede vertical de Soído. Dei uma olhada no mapa geológico do Espírito Santo e constatei que está inserido no mesmo litotipo.

Existe uma ampla região a norte de Marechal Floriano que se estende até Itarana onde não é comum encontrar afloramentos rochosos. O relevo é bem montanhoso, mas sem afloramentos. É uma região que nunca dei muita atenção e nem fiz muita questão de sair explorando.

Por isso, quando saiu essa notícia fiquei bem surpreso e até mesmo curioso em saber mais sobre o local.

A ideia de visitar o setor foi meio de última hora. Convidei o Graveto para escalar no domingo e ele falou que a Sarinha estava na pilha de apresentar o setor.

Como a Sarinha e o Cássio já tinham feito a frente, foi tudo muito mais fácil. Inclusive já estiveram antes abrindo toda trilha. Deixando o caminho livre para 1a investida.

Chegamos na parede por volta das 9h e fiquei bem surpreso com que vi. Primeiro pelo tamanho da parede. E depois, constatei que a parede era voltada para sul, ou seja, sombra o dia inteiro. Esportiva em face norte ninguém merece aqui no Espírito Santo.

Realizamos um rápido reconhecimento de toda extensão da parede com a Sarinha nos guiando e apresentando o potencial do lugar.

Conforme esperado e dentro do padrão, a parede é bonito, o lugar é incrível, mas senti falta de agarras. Na verdade, até tem bastante agarras, mas quando olhamos no detalhe, faltam agarras em seções de ligação. Nesse sentido lembrou muito Soído Vertical que aparentemente parece tudo liso. Esse é um tipo de setor que exigirá muito trabalho minucioso para encontrar as linhas corretas. Não será nada fácil abrir as vias e muito menos escalá-las!

Após o reconhecimento, concentramos os esforços no primeiro setor que fica logo na entrada por apresentar maior potencial para várias vias.

Começamos pela linha mais óbvia numa parede que mescla agarras e fendas. E assim abrimos a “Óleo de Peroba”, um V (talvez IV sup) misto com duas chapas, uma na saída e outra no final, antes da parada dupla.

Conquistando a 1a linha do setor. Foto: Sarinha.
Sarinha na via Óleo de Peroba.

Logo em seguida abrimos a “Óleo de Dendê”, outro V móvel com apenas uma proteção fixa. Ambas vias ficaram muito boas por mesclar elementos da esportiva com trad. Além disso, as vias requerem peças pequenas, algo bem incomum por esses lados.

Por fim, abrimos uma linha à direita, toda em fixa, que começa com um boulder maroto e depois segue até a virada do teto, batizada de “Óleo de Tandera”(7c).

Graveto na saída da via Óleo de Tandera (7c).

Ao longo do dia, a medida que íamos abrindo as vias, fomos trabalhando e encadenando, por isso todas as linhas já são vias e não projetos.

Por hora continuo sem previsão de retorno, mas estou bem motivado para voltar lá quanto antes.

Agradecimento a Sarinha pela escalada do dia. E ao Graveto por tirar todas as passadas da Óleo de Tandera.

Todas as vias estão protegidas com chapeletas de inox (Pingo) e parada de argola (Smile), graças da Associação Capixaba de Escalada que subsidia as conquistas no Estado aos seus sócios.

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As vias esportivas mais duras do Espírito Santo

Em 2020, durante a pandemia, escrevi um post sobre as vias mais difíceis do Espírito Santo.

Com o fim da pandemia, começou o que muitos chamam de “novo normal”. E parece que na escalada o “novo normal” são as vias de dois dígitos, pois a lista sofreu inúmeras atualizações.

Como recentemente tivemos algumas repetições interessantes que não ficaram registrados no blog, resolvi escrever novamente sobre o assunto.

No mês passado, o escalador Alex Mendes equipou e mandou a extensão da via Brincadeira de Criança (Amarelos), acrescentando um V9 depois do 9c, e assim nasceu a Sem Brincadeira, segundo 11a do Estado.

Dias depois, o escalador Felipe Alves mandou a 1a repetição da via Centenário (10c), no Setor Vale Perdido em Calogi, via equipada pelo Alex Mendes.

E no último final de semana, tivemos a ascensão mais rápida da via Avalanche (9c) no Calogi pelo escalador Eric Teles de Friburgo (RJ) que mandou a via na 2a entrada.

Segue a lista atualizada!

NOMEGRAULOCALEQUIPADORESFAANOREPETIÇÕES
1Sem Brincadeira11aAmarelosAlex MendesAlex Mendes2023
2Limite do Amanhã11aCalogiAlex MendesAlex Mendes2021
3Centenário10cCalogiAlex MendesAlex Mendes2021Felipe Alves
4Ressurreição10bMorro do MorenoCaio Afeto, Breno KusterAlex Mendes2023
5Karma10bSoídoAlex MendesAlex Mendes2022
6Thor10aMorro do MorenoCaio AfetoCaio Afeto2017Alex Mendes, Felipe Alves
7Transatlântico10aCalogiDiogo Rebit, Felipe AlvesFelipe Alves2013Naoki Arima, Alex Mendes
8Evolução da Espécie10aUlianaAlex Mendes, Naoki Arima, DanteAlex Mendes2021
9Avalanche9cCalogiCaio Afeto, Naoki ArimaNaoki Arima2011Felipe Alvares, Felipe Alves, Caio Afeto, Alex Mendes, Eric Teles
10Brincadeira de Criança9cAmareloCoelhoFelipe Alves Alex Mendes
Calogi. Foto: Alexandra.
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Máquina do Tempo

Há um ano estive no Malakoff (RS) escalando com os “locais” e vi que no croqui, elaborado pelo Caio, tinha uma linha inacabada nas Paredes Pequenas, de autoria desconhecida. Na hora lembrei que essa via era minha. Tinha começado a conquista no Carnaval de 1998 com o Bairros e ficou por isso.

Nas minhas anotações (tenho um caderno com todas as escaladas registradas) achei assim escrito:

“Eu, Jonas e Bairros fomos para uma parede onde comecei uma via, finalizando com 2 chapeletas; a via segue provavelmente em piton.”

E também achei essa foto da conquista:

Durante a conquista em 1998. Foto: Jonas.

Desfeito o mistério, prontamente autorizei o Caio a finalizar a via, pois a linha era muito promissora.

Em agosto do ano passado, 2 meses depois, Caio e Tiagão equiparam a via acrescentando 3 chapas na parte sem fenda, mais a parada. Assim nasceu a via “Máquina do Tempo” uma incrível via mista de 40m graduada em 7b (de Malakoff).

Para fechar o ciclo de 25 anos estava faltando apenas uma coisa: eu mandar a via!

Sabia que as melhores condições para entrar em qualquer via do Malakoff eram durante o inverno, então quando surgiu a oportunidade no último final de semana, não deixei passar em branco.

Subi no domingo com Tiagão que também tinha uma pendência na Acácia Negra (8c) e fomos à luta!

Em algum momento desse processo coloquei na minha cabeça que queria mandar essa via sacando e de primeira. Não seria bem flash porque eu já tinha escalado há 25 anos os primeiros metros, mas cismei que tinha que ser de primeira.

Inclusive nos últimos meses, pensando nessa possibilidade, direcionei os meus treinos para aguentar escalar “lastreado” uma via de 40m.

Entrei na via às 11h da manhã, sem aquecimento, então sabia que seria maldiçoado pelo flash pumping. Logo na saída, me estranhei e meu batimento cardíaco disparou num lance não esperado. Depois, a sequência deu uma facilidade até chegar no ponto onde abandonei a conquista em 1998. De um bloco confortável, voltei no tempo e fiquei ali pensando na vida enquanto esperava me reestabelecer um pouco. Dali para cima sabia que viria a pancadaria. Sabia que eram 3 chapas na vertical e depois as peças voltariam. A face não é difícil, desde que você saiba onde estão as agarras e por onde passa a linha da via. Passei relativamente bem esse trecho, mas assim que as peças voltaram, o flash pumping chegou com tudo e subi me arrastando até um platô salvador que fica no terço final da via. Acho que fiquei pelo menos uns 15 minutos nesse platô tentando me recompor. Dali para cima uma fenda frontal que começa em dedo e termina em mão me aguardava até a parada final. Se não estivesse tão bombando passaria fácil, mas estava muito ruim. Se não fosse essa besteira de querer mandar de 1a já tinha desistido, mas não existe mandar de 1a na 2a entrada, então dei muita gana no trecho final. Assim que o relógio marcou uma hora de escalada, finalmente cheguei na parada. Estava destruído, mas me senti feliz como a muito não sentia por uma via.

Na saída da via. Foto: Tiago Mohr.

Depois disso voltamos ao projeto do Tiagão que aproveitou o bonde e mandou na 2a entrada do dia, anotando mais um 8c para lista.

Resolvidas as pendências do dia, nos encontramos com Ramiro e Luzzi que estavam trabalhando uma via recém-equipada, “Caminhos Quânticos”. Vi o Ramiro fazer o FA e logo em seguida aproveitei a porteira aberta para fazer uma entrada flash. Embora a Máquina do Tempo seja uma letra mais fácil, achei ela muito mais dura que a Caminhos Quânticos (7c). Mas provavelmente isso seja devido ao estilo da via. Uma coisa é subir com lastro de 5kg e perder segundos preciosos sacando uma peça, outra é subir com as costuras na parede e clipar a corda em um segundo. São as pluralidades da escalada! Depois, o Luzzi fez a 2a repetição da via e por pouco o Tiagão não levou a cadena dupla do dia.

Luzzi na via “Caminhos Quânticos” (7c).

Para repetir a “Máquina do Tempo” recomendo: 2 cordas de 50m (não precisa ser dupla); 2 jogos de Camalot do #.3 ao #2; 1x #3 e #6 (importante); mais 1x #.5 e #.75; e 5 costuras. Um jogo de nut também tem serventia (opcional).

Entardecer.

Já no dia anterior, para fazer um aquece, fui ao Behne e repeti a 1a via que abrimos no local em 1995, a via Pig, uma via mista que transcorre por um belo diedro fendado. A via é graduada em 6c desde sempre, mas hoje, após ter escalado algumas fendas por aí, acho que o grau correto seja V. Antigamente escalávamos essa via em oposição, mas escalando de frente, entalando as mãos, a via fica muito mais fácil e tranquila.

Para repetir a Pig: 1x Camalot #1 ao #4 e 3 costuras.

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ATEES 2023, release

Aconteceu no último final de semana, na cidade de Castelo, a 8a edição da Abertura da Temporada de Escalada do Espírito Santo, edição especial de 20 anos da Associação Capixaba de Escalada.

O evento começou oficialmente no sábado, mas já na 6a feira, muita gente adiantou a subida para escalar cedo no sábado. Até porque de Vitória até Castelo são umas 3h de muitas curvas e caminhões.

Assim como no ano passado, também me adiantei e subi na 6a para o Abrigo de Montanha Apeninos – AMA para ficar na “cara do gol”. À noite, DuNada e eu ainda fizemos um churrasco e ficamos botando conversa fora enquanto mais gente ia chegando noite à dentro no abrigo.

Uma década atrás, na época da construção do Abrigo, DuNada e eu rodávamos muito pela região conquistando muitas vias, esportivas e tradicionais, então foi muito legal relembrar um pouco aquela época de ouro, junto ao abrigo que sonhamos em construir um dia.

Churrasco no Abrigo de Montanha Apeninos.

No sábado, o povo desceu em peso à Parede de Apeninos e o pico ficou lotado, com direito a fila nas vias mais clássicas. Segundo a organização foram 80 inscritos. Considerando o dado do último censo foi como se todos os escaladores do Estado estivessem no pico nesse dia!

Parede de Apeninos e o totem.
Camiseta oficial (e amassada) do evento.

Se no ano passado, a Abertura foi marcada pela chuva, esse ano o São Pedro nos presenteou com um belo dia escaldante! Tipicamente, no mês de maio, as temperaturas são mais amenas, mas esse ano, devido às mudanças climáticas, maio promete ser mais quente e chuvoso do que a média. Inclusive, no momento que escreve este post está chovendo lá fora…

Rodrigo escalando a via Loira (7b).
Galera no setor.
Matheus escalando a via Phillomedusa (VI).
Macacada presente no encontro.

Além da galera que ficou nas esportivas de Apeninos, tivemos um trio que repetiu a Chaminé Castelo Cachoeiro, uma tradicional de 3 enfiadas que transcorre pela lateral do totem. Na Pedra Pontuda, distante a uma hora de Apeninos, duas cordadas repetiram a via Normal que leva ao seu cume. Já no Lazer Furlan, sede do evento, uma galera também ficou escalando os blocos do entorno.

Escaladores no cume do totem.

Da minha parte resolvi quitar as pendências de várias vias que nunca tinha entrado. Entrei em quatro vias no canto direito do totem: Agulha Escarlate (7b), Sapo Cururu (VI Sup), Phillomedusa (VI) e Sapo de Franja (7b). São todas vias conquistadas pelo Dunada e CIA em 2014 e possuem quase 30m de extensão. Escalar essas vias foi bom para relembrar o estilo de escalada de Apeninos: abaulados sujos intercalados com agarras boas. Infelizmente as vias estão um pouco esquecidas e consequentemente sujas, mas as proteções estão boas e dá para se divertir bastante e xingar o DuNada por ser pão duro com as chapas em alguns momentos.

A noite, a concentração foi no Lazer Furlan onde matamos a fome após um dia inteiro de escalada. Para mim é sempre uma satisfação imensurável encontrar a família Furlan. Não canso de escrever isso no blog toda vez que volto de lá.

Concentração no Furlan
Resenha. Foto: Luca.

Depois da janta tivemos uma pequena mesa redonda sobre os 20 anos da ACE com a presença de 3 dos 26 fundadores da associação: Felipe Alves, Oswaldo Baldin e Zé Márcio que ainda seguem na ativa e agregando à nossa comunidade. Após a mesa, foi a vez do nosso palestrante convidado, Alex Mendes a falar um pouco mais sobre motivação na escalada. Quem conhece a figura sabe que motivação é com ele mesmo!

Alex Mendes palestrando.

Intercalado a tudo isso tivemos o tradicional sorteio de brinde dos nossos apoiadores e do nosso patrocinador Cachaçaria Flor do Brasil. Esse ano, graças aos esforços dos nossos captadores, tivemos 19 apoiadores para o evento, um número recorde!

Entrega do brinde principal.

Devido ao adiantado da hora, esse ano não tivemos o tradicional bingo cantado pelo Andinho e pulamos direto para o momento integração com direito a escalada noturna na fenda em móvel. Esse ano, o contemplado foi o Chuck Noia que fez aniversário no dia do evento.

Só sei que, depois disso, a resenha foi longa, mas por volta de 1h30 me recolhi ao crashpad e não sei o que aconteceu depois.

Domingo amanheceu despretensioso. Aos poucos a galera foi se reunindo em volta do café da manhã e logo as resenhas recomeçarem. Também tivemos a tradicional aula de ioga, dessa vez ministrada pela Lu e logo em seguida a tradicional foto oficial.

Amanhecer na região de Pedregulho.
Lua.
Café da manhã.
Café da manhã.
Área de Camping.
Lazer Furlan.
Prática de yoga.
Bem ti vi.
Pico do Forno Grande.
Foto oficial do evento.

Depois o povo foi se espalhando. Uns adiantaram a volta à Vitória, outros ficaram se hidratando e muitos foram escalar. Até onde fiquei sabendo e vi, três ascensões merecem destaque nesse dia: a Jana mandou a clássica “Café Doce” (8a, era 8b, mas acharam uma sequência mais fácil) e o Alequinho mandou à vista a via Capuccino (9a/b), ambas na Falésia do Furlan. No dia anterior, o Felipe Alves realizou a 6a repetição dessa mesma via que é considerada a mais difícil de Castelo.

Da minha parte, voltei a escalar na falésia do Furlan depois de cinco anos. Tenho um carinho muito especial por esse pedaço de pedra porque foi uma espécie de marco na minha trajetória de escalada na região. Descobrir, explorar e escalar essas vias me ensinou muito sobre, os limites da motivação e resiliência.

Jana na Aresta BOPE (7b).
Alex Mendes a vistando Capuccino (9a/b).
Jana na Café Doce (8a).
Na mesma via. Foto: Breno.

Fazendo um balanço geral de tudo que aconteceu e vi nesse final de semana, posso dizer que o evento foi um sucesso sob todos os aspectos, mas um ponto chamou mais a minha atenção: a presença massiva de escaladores novos. Acho que esse foi o evento onde tivemos a maior presença de caras novas. Espero que esse evento marque o início de uma nova fase da escalada capixaba, pois a escalada está precisando de sangue novo na veia!

Região de Caxixe ao entardecer.
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Casotti, novo pico de escalada

Eu tenho a seguinte teoria sobre a evolução da escalada no Espírito Santo:

O esporte só irá crescer de fato quando a escalada do interior ganhar força. Não que a galera da capital seja incompetente, mas é porque as montanhas estão no interior do Estado.

Um exemplo clássico: Pancas! Tem a maior densidade de montanhas, atrai escaladores até de fora do Estado, mas não tem um escalador ativo! É quase um paradoxo! Isso acaba refletindo no desenvolvimento da escalada na região que fica dependente dos escaladores da capital ou fora do Estado. Consequentemente, acaba comprometendo o desenvolvimento do esporte naquele região. Se deslocar 3h, no caso de Pancas, desembolsar um tanque, material de conquista e ainda ter tempo para abrir uma via nova não é fácil para ninguém e não está ao alcance de qualquer um.

Agora, uma vez que se tem uma comunidade de escalada estabelecida na região, tudo acaba ficando menos oneroso e mais rápido. Escaladores locais tem mais tempo para desbravar a região em busca de novos picos, pois não precisam se deslocar tanto, conhecem melhor a região e tem mais tempo disponível para abrir novas vias.

Um exemplo clássico foi quando o DuNada se mudou para região de Castelo, logo que ele chegou, surgiu uma nova safra de escaladores locais e várias vias novas na região.

Outro exemplo mais recente é Colatina. Embora a cidade já tivesse uma história, no momento que o Iury começou a agitar a galera, criando o Colaboulder e a desbravar o interior em busca de novas áreas de escalada, o esporte deu um boom na região. Em pouco tempo surgiram dois picos de escalada esportiva (Polese e Cabeça de Elefante) que estavam na cara do gol, mas que faltava alguém da região com “o espírito do facão”!

Casotti

No último feriado (01/05) fomos, Felipe Alves e eu, conferir mais uma pedra que os “desbravadores” de Colatina acharam na região de Povoação de Baunilha.

Essa é uma parede bem pequena quando comparada com as pedras que tem na região. É uma legítima parede que jamais iríamos checar (eu pelo menos) porque é pequena, longe da estrada e somente alguém da região com disposição para fazer esse trabalho inicial. Trabalho esse que ainda inclui procurar o dono das terras e explicar as intenções.

Com tudo isso feito, o Iury me bombardeou com mensagens de texto, video e áudio na intenção de me baratinar fazendo mil propagandas do local. E para garantir o efeito, mandou as mensagens para o Felipe Alves também! Assim a pressão seria dupla!

Sou galo velho nessas coisas. Quando queremos convencer as pessoas, só falamos das partes boas e sempre omitimos as partes ruins, como, por exemplo, a aproximação de 25 minutos com ganhos de elevação de uns 200m por um pasto limpo sem sombra.

Saímos de Vitória às 6h30 e às 8h30 nos encontramos com o pessoal de Colatina na entrada da propriedade. Primeiro caó do dia: Iury tinha falado que iria ter 4 carregadores para levar o material de conquista, mas na hora tinha só um, o Luca!

Como os meninos já tinham feito a primeira conversa com os donos das terras parecíamos que éramos da casa. Sempre é importante registrar a hospitalidade do povo do interior que nos recebe de braços abertos, mesmo por vezes, sem entender bem o que vão fazer naquelas pedras.

Aproximação pela propriedade da família Casotti.

A aproximação foi um pouco sofrida. A mochila pesada, o calor e a apreensão incomodaram, mas chegamos na base.

A parede é realmente pequena, me venderam como 40m, mas tinha a metade, tudo bem. A rocha parecia ser o clássico granada ganisse do Complexo Nova Venécia, igual que tem em Viana, Amarelos, Calogi e por aí. O diferencial dali é que o bandamento é subvertical, bem incomum. Outro aspecto que chamou a atenção foi a orientação da parede com face voltada para sul, garantindo sombra na maior parte do ano. Eu tenho uma teoria de que as melhores paredes esportivas têm a face voltada para sul e essa poderia ser um exemplo.

Vista geral da parede.

A primeira vista achamos a parede ok. Pareceu uma parede tímida que conseguiríamos entender seu verdadeiro potencial a medida que fôssemos esmiuçando a pedra, assim como acontece nas Paredes Verticais de Soído em Domingos Martins.

Resolvemos iniciar os trabalhos pela fissura mais óbvia que corta a parede de uns 15m que acaba num buraco. 

O Iury e Luca fizeram o trabalho sujo de dar a volta e fixar a corda. Em seguida fui pela corda fixa conferir a fenda, mas logo descobri que seria possível abriu uma via incrível à esquerda. A medida que ia subindo, ia surgindo cada vez mais agarras e aquilo foi nos empolgando, pois vimos que a parede tinha agarras.

Bati um top na esquerda, já no final da parede e desci marcando para o Luca subir furando, enquanto isso fui estudar a fenda da direita, onde bati um top no último buraco.

Em pouco tempo já tínhamos duas vias na parede.

Iniciamos os trabalhos na fissura que subi com as peças pré colocadas e desci satisfeito com a via. Não é todo dia que achamos uma fissura de dedo de 15m que acaba num buraco. O Felipe repetiu a via e depois o Perna, Luca e Iury mandaram de top. A via, batizada de “Trabalho Forçado” ficou graduada em V e requer um jogo de móveis do micro ao #1 (#.5-#.75 repetido) mais um jogo de nut pequeno. Embora o grau seja baixo, não considero uma via para quem está começando nas peças, pois exige colocações estratégicas e precisas, já que a fenda não é contínua.

Luca equipando a via Trabalho Infantil.

Em seguida provamos o projeto do lado, batizado de “Trabalho Infantil”, em homenagem ao Luca, o equipador. Entrei isolando as passadas e depois o Felipe Alves fez o FA em flash da via. Depois entrei novamente e fiz a primeira repetição. Chegamos num consenso de que a via seria um 8b com um longo crux na seção final até a virada.

Felipe Alves fazendo o FA da via Trabalho Infantil. Foto: Iury.

Essa via foi, sem dúvida, uma grata surpresa. A via é bem alta, 18m, e negativa com um crux bem diluído que vai minando até chegar num clássico “pra que isso”. Via recomendadíssima!

Depois partimos para uma terceira linha que visualizamos mais à direita. A linha segue uma fenda estranha em diagonal à esquerda e logo some.

Dessa vez o Perna e o Luca deram a volta e fixaram a corda para que eu pudesse dar uma olhada mais de perto.

A essa altura, o tempo começou a dar sinal de que iria virar e que seria apenas uma questão de tempo para o mundo cair. A medida que o tempo ia passando, tempo fechava mais ainda, dando um ar apocalíptico, por isso aproveitei que estava na corda e já fui equipando a via. Mais uma vez consegui estabelecer a parada no topo da parede, usando a extensão total da parede, uns 20m.

Batizamos esse projeto de “Livro de Excalibur”, devido a uma agarra que lembra um livro encravado na rocha.

Terminei de equipar a via já sob a luz das lanternas e assim que toquei no chão, só deu tempo para jogar tudo para dentro da mochila e sair fugido da chuva morro abaixo!

Minhas impressões finais sobre a nova parede é que não será uma parede popular, porque a galera da esportiva não curte caminhar mais do que 5 minutos para chegar no setor, esse tem 20-30min. Além disso, as vias que estão saindo e as que virão, não serão tão fáceis. Por outro lado, a parede fica na sombra o dia inteiro o que é muito interessante! Na minha opinião, as duas vias que tem até agora valem a viagem!

Esse é um grande dilema que até conversei um pouco com o Felipe nesse dia, sobre abrir vias que não são repetidas ou frequentadas. Até que ponto isso é válido e benéfico para o crescimento do esporte. Antigamente achava que as vias eram para geração do futuro, mas hoje vejo que o futuro chegou e as vias seguem lá sem repetição. No fim, chego a conclusão de que abrimos as vias para a gente escalar e pronto!

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Resumo de março

O mês de março foi menos chuvoso, mas em compensação muito quente a ponto de atrapalhar as escaladas. Teve um dia que fomos ao Calogi e nem quis escalar de tão desagradável que estava. Tanto é que horas depois caiu o mundo e saímos de lá encharcados.

No primeiro final de semana de março fui com o Lissandro ao Setor Totem Central onde Eric, Graveto e eu tínhamos equipado algumas vias em fevereiro. Com a ajuda do Felipe que também apareceu no setor com a Jana, liberamos todas as vias. O setor ficou muito legal com vias bem técnicas e de leitura difícil. Dificilmente irá se transformar num setor “pop”, mas as vias estão lá para quem curte este estilo de escalada.

Felipe Alves na via Lé Com Cré (8a).

Na outra semana voltei ao Elefante com os Felipes (Sertã e Moura) e o Lissandro. O Sertã deu um trato em várias vias substituindo as proteções velhas por chapas em inox. Eu tentei equipar uma linha ao lado da Parvati (8c), mas duas seções sem agarras inviabilizaram a linha. Duas agarras cavadas resolveriam o problema, mas não precisamos fazer isso. Tem tanta pedra no Espírito Santo…

Felipe Moura trabalhando a via Indra (8c)

Já no último final de semana do mês aconteceu um quase “mini encontro” em Uliana. Subi com Chuck e o Porko somente no domingo para prestigiar a turma que estava em peso.

Embora estivesse me sentindo bastante debilitado pude finalmente entrar na via “Parada Paraíba” que equipei com Alekinho em 2021. A via é relativamente curta, mas bem intensa e tricky. Felipe Alves e eu repetimos a via e achamos que o grau proposto, 8c, esteja bem adequado. Achei um pouco mais dura que a Ponto de Vista (Calogi), mas não o suficiente para ser um 9a.

Depois entrei numa via nova equipada pelo Rudy Proença em 2022 que fica no canto esquerdo do setor Cafezal. A via batizada de “Café na Veia” transcorre por um diedro cego e depois segue por uma chorrera (veio) em diagonal até terras mais calmas. O início da via lembrou pouco o estilo Yosemite e o final os calcários franceses, ou seja, é uma super via que vale muito a entrada. Eu acho que 7c seja um grau bem justo. Não é uma escalada de força, nem tijola, mas sim de técnica e posicionamento.

André trabalhando a via “Parada Paraíba” (8c).

Para ver o croqui atualizado de Uliana, clique aqui!

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Totem Central

No último domingo, a convite do Eric, que fique bem claro, Graveto e eu fomos conferir, segundo as palavras do Eric, “uma parede cheia de agarras” que diz ter visto em 2021 durante a conquista da via “Estranha no Ninho” no Totem Central de Calogi.

É claro que quando chegamos na base da via o tal “mar de agarras” estava na pqp, a uns 30m do chão e separado por uma placa lisa sem agarra.

Assim partimos para o Plano B, que seria subir pelo lado esquerdo da via “Estranha no Ninho” por uma sequência abundante em saliências que nós já sabíamos que não seriam agarras, mas apenas pequenas ondulações falsas. O plano mais sensato seria subir pela “Estranha no Ninho” e depois fazer uma travessia para vir equipando a via, mas a gente não consegue escalar sem sentir um pouco de medo. Assim resolvemos conquistar a primeira linha para depois fazer uma travessia à esquerda para equipar as outras vias. Uma abordagem bem clássica de conquista de setores esportivos.

Como a ideia foi do Eric, ele começou os trabalhos. Logo após uma saída tricky, ele foi buscar uma fenda bem evidente e convidativa que logo se mostrou muito espanada, não aceitando nenhuma peça sólida, apenas o suficiente para aguentar o peso e conseguir bater as chapas. Santo Totem Cam que aceita apenas duas castanhas para artificial. Após 3 proteções, o Eric passou a ponta para mim e toquei mais 4 chapas. A quarta chapa foi num veneno que logo em seguida desci para deixar o gran finale para o Graveto. Como ele nunca tinha conquistado uma via de abaixo, achamos que estava na hora de “perder o cabaço”. Assim, após um lance fácil ele ganhou o platô e bateu a parada num platô confortável para fechar a primeira via do dia. Batizamos de “Canto da Sereia” devido às fendas falsas e as agarras onduladas. Sugerimos 7a para via, mas é uma via difícil de graduar porque é cheia de agarras escondidas. Eu acho que se tudo estiver bem marcado não passa de um VI SUP.

Eric na saída da via.

Pensamos em tocar para cima, esticando mais uma enfiada e quem sabe abrir uma via paralela a “Força Aérea Urubu”, mas o Sol do verão estava implacável e impraticável, então resolvemos ficar pelo chão mesmo equipando outras linhas. Por sorte, esse setor fica o dia todo na sombra. Por isso resolvemos investir na sombra, mesmo sabendo que seriam apenas 3 vias.

Testando a via.

Equipamos mais duas à esquerda da “Canto da Sereia” e batizamos de “Ó do borogodó” e “Lé com cré”, ambas seguem projeto. Entramos na “Lé com cré” para isolar as passadas e achei difícil, mas é sempre complicado dizer qualquer coisa depois de um dia inteiro de trabalho, mas acho que 8a seja um bom começo.

Graveto na Lé com Cré.

Com a equipagem da “Lé com Cré”, segundo minhas anotações, chego a 300 vias conquistas, entre esportivas e tradicionais. Tem muita gente por aí que tem mais vias conquistas do que eu, mas para mim é um número bem representativo, principalmente quando começo a lembrar de todas as histórias, as pessoas e momentos que convivi durante esse processo que muitas vezes é cansativo, pesado e bem oneroso.

Agradeço profundamente a todas as pessoas que dividiram essa empreitada ao longo dos últimos anos, carregando peso, fritado ao Sol e passando perrengue.

Agradeço também a Associação Capixaba de Escalada que nos últimos 9 anos tem ajudado nas conquistas subsidiando parte do material de conquista. Graças a esse incentivo, todas as vias estão sendo conquistadas e equipadas com proteções de aço inox.

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Carnaval pelo Sul

Como de praxe, no feriado de Carnaval, Paula e eu descermos para nossa querência, o Rio Grande do Sul. 

Após semanas de muito calor, com termômetro passando facilmente a casa dos 30 graus, uma massa de ar fria atípica entrou no estado despencando a temperatura e trazendo boas condições para escalada em pleno verão gaúcho.

Originalmente, a minha ideia era escalar na Gruta ou Noel Rocks que são picos clássicos de verão e que no carnaval sempre recebem muitos escaladores, mas com essa janela que estava prometendo mínimas abaixo de dois dígitos, Tiagão e eu resolvemos ir à Linha Brasil, um pico de inverno. Nem nos meus sonhos imaginaria que iria para lá no verão devido ao calor, mas com essa promessa de frio, a ideia ficou tentadora.

Entardecer na região.

No primeiro dia entramos num dos melhores 8c’s da região, Acácia Negra, uma escalada bem tricky de uns 25m. Já tinham de falado da qualidade dessa via, e também posso atestar que a via é ótima, principalmente para quem aprecia esse tipo de escalada. Para mim que estou acostumado com o estilo Calogi estava bem à vontade, mas não consegui passar de 1a, tive que dar uma segunda entrada para anotar a via. Para mim, o 8c à vista é uma barreira. Segundo a minha planilha tenho menos de 10% de chance para mandar um 8c à vista. E como o grau de lá é mais duro, sabia que teria menos chance ainda.

Gráfico de estilo de ascensão por graduação.

À noite, congelei na casa do Ramiro, Fê e pequeno Martin que fica na base da pedra. Juntamente com a Lais, Edu e Luzzi fizemos um autêntico churrasco gaúcho! 

No dia seguinte, a temperatura estava mais amena, mas ainda assim as condições estavam ótimas.

Como o Tiagão e o Luzzi tinham pendências equipadas voltamos novamente ao setor naquela pegada preguiçosa pós-churra.

Aproveitei as costuras e a porteira aberta pelo Luzzi e entrei na Spinning Baby, outro 8c, mas dessa vez a bloc. Essa via lembra um pouco mais as vias de Uliana, onde você faz uma burocracia, nesse caso um 7a, entra num descanso e depois finaliza num boulder (V4). É um estilo fácil e difícil ao mesmo tempo de avistar. Mais uma vez franguei no à vista e tive que dar um segundo giro para fazer a cadena até a primeira parada.

Daniel Luzzi na Spinning Baby.
Foto: Eduardo Kavaliunas.

Depois, o Tiagão entrou mais algumas vezes no projeto, mas a cadena ficou para próxima.

Ainda no domingo fomos revisitar o Setor das Paredes Grandes onde, mais recentemente, a turma tem concentrado os esforços. Para mim, revisitar a parede foi como voltar no tempo e me trouxe à tona algumas lembranças da última vez que estive nessa parede em 2005 quando repeti a via “Ferrovia” (7a) em solitária. 

Parede Grande.

Agradecimentos a Ramiro e família pelo convite, ao Tiagão pela parceria de sempre e aos jovens Edu, Luzzi e Lais pelas horas de conversa sobre Universo, escalada e culinária!

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Retrospectiva ES 2022

Mais um ano chegando ao fim e chegou a hora de fazer aquele balanço do ano que passou.

Antes, o mês de dezembro foi bem parado por aqui. Depois da escalada nos Cinco Pontões com o Afeto e o DuNada o tempo virou geral por aqui. Aquela janela foi, sem dúvida, a última do ano para as “tradis”. Nas esportivas, com um pouco de resiliência e muita lama temos ido ao Calogi para “manter a pele em dia”. O verão aqui sempre é a pré-temporada para o próximo inverno.

Cinco Pontões.

Aqui têm outras retrospectivas dos outros anos. Basta acessar esses links: 2021, 2020, 2019, 2017, 2016

No campo das “tradis”, o ano foi meio fraco em quantitativo. Segundo minhas contas foram 16 novas vias. A maioria conquistada na região de Pancas por diversos escaladores. Segue a lista:

  1. A belinha e a fera (Parede Polese, João Neiva)
  2. A espera de um estepe (Morro do Cruzeiro, Pancas)
  3. Cantinho da Boca (Pedra da Boca, Pancas)
  4. Diedro Dureta (Totem de Formosa, Conceição de Castelo)
  5. Dormideira (Morro da Dormideira, Pancas)
  6. Evitando a Fadiga (Morro da Dormideira, Pancas)
  7. No 2 (Pedra do Trevo, Itaguaçu)
  8. Paredão Lacoste (Pedra do Jacaré, Pancas)
  9. Pote de Ouro (Totem Schmith, Pancas)
  10. Super Trunfo (Bela Vista, João Neiva)
  11. A tribo (Pedra da Cara, Pancas)
  12. Santo Graal (Pedra Schmith Pancas)
  13. Var. Kingline (Pedra Schmith Pancas)
  14. Carangueijo Rock in Roll (Pedra Alto Santa Maria, Itarana)
  15. Toda rosa tem espinhos (Pedra Santa Rosa, Governador Lindemberg)
  16. (Pedra do Dedo, Nova Venécia)

Eu também conquistei poucas vias, mas em termos de qualidade foi o melhor ano. Duas vias estão entre, senão as mais, as mais importantes ao longo dos últimos anos: “Kingline”, em Pancas e “Super Trunfo” em João Neiva. A Kingline não tenho dúvida em dizer que é a melhor via de Pancas e ouso a dizer que dificilmente acharei algo melhor nos próximos anos naquela região.

Montahnas de Pancas.

No campo pessoal, além dessas duas conquistas que fiz com Iury e o Tesourinho respectivamente, a repetição em solitária da via “Trem Fantasma” e “Expresso Lunar” me vem à mente com boas lembranças. Outra escalada memorável foi a repetição da “Filhote da Foca” com o Afeto e da “Língua de Boi” com o Afeto e o DuNada. Um pouco antes, indo contra todas as previsões, ainda repeti com a Livia e o Gustavo a famosa Chaminé Vinte Mil na Pedra do Dedo. 

Expresso Lunar
Chaminé 20 mil.

Mais para o final do ano conquistei com o Chuck uma via bem desafiadora na região de Itarana, a “Caranguejo Rock’n Roll”. Com certeza em 2023 retornaremos para destravar essa via na íntegra.

Chuck na travessia da 8a enfiada.

Nas esportivas foram conquistadas mais 34 vias. Número bem aquém do ano anterior, 55. O destaque vai para o “setor Vertical” de Soído que ganhou várias vias mistas, incluindo um dos melhores 8b do estado. No segundo semestre, o pico da novidade foi o setor “Cabeça de Elefante” em Colatina, que recebeu as primeiras vias. 

Alexandra escalando em Soído.
Parede Cabeça do Elefante.

Já em Vargem Alta, o Thadeu e a Joyce equiparam algumas vias num novo setor de mármore chamado Cruzeiro, perto dos outros setores já existentes.

Evolução das conquistas no ES.

Em termos de ascensão, o ano foi da escaladora Janaina Basto que despachou mais três nonos no Calogi: Transiberiana (9a),  Corredor Polonês (9a) e Contra-avalanche (9b). Entre os meninos, destaque vai para 1a e 2a repetição da via Thor (10a) pelos escaladores Alex Mendes e Felipe Alves, respectivamente.

Fora isso, aconteceu depois de 2 anos de jejum, a tradicional “Abertura da Temporada de Escalada” em Castelo. Infelizmente a chuva tirou um pouco o brilho do evento, mas foi uma boa confraternização pós-Covid.

Foto oficial da Abertura.

Esse ano também tivemos a inauguração de dois ginásios de escalada no estado: o Colaboulder em Colatina, no primeiro semestre e a Toca em Vitória, inaugurada em novembro. Com isso acho que estamos entrando numa nova era de escalada indoor no Espírito Santo. Ano que vem promete!

No mais, acho que foi um ano intenso do início ao fim, com muitas escaladas, boas roubadas e muitas histórias para contar.

Agradecimento especial a todas as pessoas compartilharam a ponta da corda e os treinos neste ano.

Que venha 2023!

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Novembro em Calogi

Nos últimos tempos tenho ido bastante ao Calogi, então resolvi fazer um pequeno resumo das últimas conquistas e escalada para ficar registrado.

Caramelos

No feriado de finados, dia 2, fui sozinho ao Calogi e equipei uma via que fica no bloco de trás do Vale Perdido. É uma via curta com um crux definido na saída (V3/V4). Batizei a linha de “Caramelos” em homenagem aos dois cachorros que sempre nos acompanham nas escaladas.

No final de semana seguinte voltei ao Vale com Lissandro e a Gleide e o Lis fez o FA da via no segundo pegue. Eu tive que dar mais uma entrada e perdi o FA. O Lis achou que a via poderia ser um 7c e eu um 8a, mas depois em casa, comparando com outras vias do pico penso que 7c seja mais adequado. Usei como referência a “Presente de Grego” (8a) no Setor dos Excluídos que também tem um crux na saída seguido de um “toca”.

Felipe Moura escalando no Vale Perdido.

Entre Linha

Ainda antes disso, escalei uma via pouco repetida, na verdade, eu acho que foi a primeira repetição após o FA do Alex Mendes, a via “Entre Linhas”(8c), também no Setor Vale Perdido em Calogi. Como a via fica prensada entre duas vias, o final acaba ficando um pouco confuso, mas é uma via ok com um crux bem definido num movimento de ombro. Achei a via mais fácil que a “Ponto de Vista (8c) que fica ao lado, mas não sei se chega a mudar de letra. Não consegui mandar à vista. Mesmo que eu tivesse passado o crux teria caído mais acima porque é difícil sacar algumas costuras para cima. A dica para tentar a vistar é entrar com as costuras postas.

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Cola Boulder e Elefante

No último final de semana fui a Colatina, a convite do Iury, para fazer a setagem dos boulders para o primeiro evento de confraternização do Cola Boulder.

A história do Cola Boulder está neste post!

No sábado pela manhã, com a ajuda do Luca, Wesley e Iury montamos 16 boulders de V-baby a V4. E a tarde, por volta das 16h, rolou o festival de boulder.

Cola Boulder
Jana no boulder laranja.
Jacke no boulder laranja.
Espaço Cola Boulder.

Desde a primeira e única vez que estive no Cola Boulder em maio, observei como o nível da galera tinha subido. No início fiquei um pouco apreensivo com os boulders, mas logo vi que a galera estava na pressão e não teve muita dificuldade para mandar os boulders propostos.

Logo após a sessão rolou uma pequena festa de confraternização onde os churrasqueiros entraram em ação para matar a fome da turma.

Felipera aquecendo nos boulders.
Busy!
Detalhe para sapatilha! Ou chuteira!
Luca e Wesley.
A turma!

Elefante

Já no dia seguinte, mesmo com todas as dificuldades para descolar da cama, às 7h da manhã, entre mortos e feridos, uma galera se reuniu na Parede da Cabeça do Elefante para fazer a estreia das novas vias.

Aqui tem um post sobre a história da Cabeça do Elefante.

Caminhada no pasto com os carrapatos!
Felipe na Gregos e Troianos (7b).

Para mim foi a oportunidade para escalar os projetos que tínhamos equipados na semana passada. A meta era escalar todas vias antes do Sol chegar e nos expulsar, mas no fim faltou derrubar dois projetos.

Para não deixar mentir, o Felipe Alves veio passando o rodo, ajudando a consolidar o grau das vias para deixar o setor redondo para os outros.

Essa é uma das paredes clássicas onde as marcas de magnésio fazem toda diferença na escalada à vista, porque a rocha tem muitas ondulações e buracos falsos. Além disso, ainda tem algumas agarras quebrando que podem pegar os mais desavisados. Por isso é difícil graduar as vias. Se não tiver marca de magnésio é uma dificuldade, com marca, pode cair de uma a duas letras.

Jana na Gregos e Troianos (7b).
Magnésio (IV SUP).
Felipe na Perna Longa (7c) e Wesley na Petit Céüse (VI SUP)..
Galera em ação!

Independente do grau, foram unânimes no que diz respeito a qualidade da rocha e das vias. Sem dúvida, o Elefante já entrou para o circuito como um importante point de escalada do Espírito Santo.

Proteções de inox da Bonier.

Por fim, gostaria de agradecer o convite do Iury para o evento e a todos os escaladores de Colatina e região pela receptividade. Espero que possamos nos encontrar mais vezes para dar boas risadas e fazer um pouco de força!

A turma de domingo!
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Cabeça de Elefante e inauguração da Toca

Cabeça de Elefante, a história

Um dia, quando o escalador Felipe Alves voltava de Colatina, visualizou uma parede promissora na saída da cidade. Logo em seguida, contactou o Iury, escalador local, e passou as coordenadas para fazer uma “acareação”. No início de agosto, o Iury, munido de facão e alguns “pupilos” foram conferir a pedra e ficaram impressionados com o potencial do local e logo abriram duas vias.

Desde então, todo Santo Dia, o Iury me manda uma mensagem convidando para conhecer o lugar, mas como estávamos no auge da primeira temporada pós-Covid, direcionei todo tempo livre para as “tradis” e joguei a visita para pós-temporada.

Com o fim da temporada e a chegada do calor, no último sábado fui conhecer a tão falada Parede da Cabeça do Elefante.

Como a parede fica na sombra pela manhã e conhecemos a fama do Sol de Colatina, decidimos chegar cedo para fazer render a manhã. Assim, às 6h30 todos nós estávamos na base da via para começar os trabalhos.

A parede fica numa feição geológica bem famosa do Espírito Santo, chamado por alguns autores de “Feixe Vitória Colatina” ou “Alinhamento Vitória Colatina”. Esse importante alinhamento geológico forma uma série de paredes entre as cidades de Vitória e Colatina. No meu entendimento, com base nas diversas paredes investigadas, essas paredes não apresentam potencial para conquista de vias esportivas, então não botei muita fé essa parede, mas pelo visto eu estava errado, ou há exceções.

A parede forma uma espécie de onda que vai passando de uma rampa até virar um vertical/negativo a medida que vai andando para o lado, formando uma espécie de onda que não quebra, permitindo abrir vias de todas as dificuldades.

A rocha é um gnaisse com enclaves bem comuns que tem por aqui, bem abrasivo e um pouco quebradiço, mas com agarras e buracos, coisa bem incomum.

Começamos os trabalhos conquistando a fenda mais óbvia da parede. Uma escalada fácil, III, longa e com boas colocações. Certamente será uma boa via para quem está aprendendo a escalar em móvel, por isso batizamos de “Aprendiz”.

A partir dessa via acessamos o topo da parede e dali descemos até um top montando pelo Iury na última investida e iniciamos a equipagem das vias.

Vista geral da parede.

Em uma manhã de trabalho equipamos 6 vias, uma no lado da outra. Em geral, quando fazemos isso, acabamos conquistando vias com estilos bem-parecidos devido à homogeneidade da rocha, deixando o setor bem repetitivo. O setor do Capeta em Viana é um exemplo clássico. Todas as vias tem estilo parecido e todos os crux estão sempre nos mesmos locais. Mas na Cabeça do Elefante cada via tem uma personalidade diferente, o que deixou o setor bem interessante.

Das 6 vias equipadas, o “Petit Céüse” foi a única que entramos nesse dia por ser a mais estética do local, por isso é a única que tem ascensão até então, um VI SUP de agarras com movimentação interessante. Já as outras, pelo que andei vendo devem estar na casa do VII, com exceção da “Antes do Sol Chegar” que parece ser mais dura, 8a?

Croqui do setor.
Luca provando a via “Petit Céüse” (VI SUP)

Para saber mais sobre o setor, clique aqui!

Toca

Assim que o Sol nos expulsou da parede, fomos almoçar numa churrascaria que tem ali perto. Sem dúvida a melhor parte do dia! Depois voltei à Vitória para participar da festa de inauguração da mais nova academia de escalada do Estado, a Toca!

O projeto da Toca foi idealizado pelo escalador Arthur Tenório que plantou a ideia em meados do ano passado e passou os últimos meses investindo tempo e dinheiro para dar forma ao sonho de ter uma “academia de escalada de verdade” no Espírito Santo. No passado já tivemos outros muros: um bairro Jardim da Penha, encabeçado pelo escalador Oswaldo Baldin; depois veio o Muro do Porko; e mais recentemente o Muro da ACE que ainda segue na ativa, mas nenhum desses muros chega aos pés do que é a Toca. Diria que a Toca está mais para concorrer com as melhores academias de escalada do Brasil. Com certeza, um empreendimento de alto nível com grande potencial para dar certo.

Toca

O evento foi um sucesso com a presença de vários escaladores e personalidades do nosso meio. Para o evento, os boulders foram “setados” pelo Alekinho, head setter, Luan e Jah que veio importado para setagem. As agarras e volumes seguem os padrões que temos visto nas outras academias do Brasil, usando o que há de melhor no país atualmente.

Tomara que esse seja o início de um novo capítulo da escalada capixaba. Quem sabe não sai dai um campeão olímpico!

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Biririca, pico novo na área

Semanas atrás, o escalador de Aracruz, o André “Tesourinho” me mandou uma foto de uma parede que ele achou na região de Biririca, Fundão, durante suas pedaladas pela região.

A primeira vista, a parede parecia um mini Cookies Cliff de Yosemite. Parede vertical com uma fenda no lado da outra. Parecia bem promissora! 

No último domingo fui com o Tesourinho conferir esse setor. Catei todos os móveis do meu rack e subimos pesados na expectativa de encontrar mais um pote de ouro! Mas antes, fomos procurar os donos das terras. Abordamos um carro e fomos avisados que o proprietário morava em Vitória, e que o sítio ficava lá no alto do morro, nos apontando para um sítio na “casa do chapéu”. Fomos lá e por sorte encontramos o dono, mas logo ele falou que aquela parte não era dele. Sugeriu que falássemos com uma pessoa que mora na base do vale. Fomos lá, mas percebemos que o morador é tipo um ermitão. Não encontramos a pessoa, então decidimos dar um pulo na parede.

Parede de Biririca. Foto: André

Assim que chegamos na base descobrimos que metade das fendas eram fendas largas e sujas e a outra metade eram fendas embrionárias desconectadas que não cabiam peças. Tchau tchau pote de ouro…

Abrindo a trilha “diretíssima”!
Chuva a caminho! Essa passou raspando e pegou a galera de Calogi. Ao fundo é possível ver o mar.

Passado o momento de frustração começamos a olhar a parte sem as fendas e logo vimos que a parede teria algum potencial. O “tiro de minerva” seria fazer um rapel para ver a qualidade das agarras, principalmente no negativo.

Assim, subi pela lateral e montei um rapel na melhor linha da parede. Na parte de cima a parede é desprovida de agarras, mas da metade para baixo as agarras aparecem, embora várias sejam lacas. Desci e gostei do que vi. Então resolvemos equipar o máximo que desse com as 12 chapas que tínhamos levado. Assim nasceram 3 projetos: um independente pela direita que acaba no platô (Coruja Branca) com potencial para estender mais pela aresta lisa no futuro; e uma linha a esquerda passando no meio de duas concreções calcárias (!!!!!) até o início de um grande diedro. A segunda parte dessa via transcorre por esse diedro até uma parada mais acima, totalizando uns 25m de escalada. Essa já é uma gema da escalada de Biririca que mistura a potência da escalada esportiva com a técnica da escalada tradicional em fenda. 

Setor Biririca com suas fendas rasas. Foto: André.
Equipando a via “Coruja Branca”. Foto: André.
As concreções da via “Chorreira”.

A Parede não será um novo Calogi, mas tem potencial para umas 10 vias com dificuldade mediana (7o e 8o). A vantagem desse mini setor é que fica a apenas 1h de Vitória (99% em asfalto e sem pedágio) com sombra pela manhã e início da tarde no inverno e aproximação de uns 5 minutos.

Vista aérea do Setor.

Por hora nenhuma via está liberada, pois ainda precisa receber alguns reforços de Sika e adição de chapas extras. Do jeito que essa temporada anda molhada para tradis, com certeza vai sobrar tempo para investir nesse setor até o verão.

Lembrando que essa conquista foi subsidiada com material de conquista da ACE.

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Abertura 2022, release

Aconteceu no último final de semana, após um jejum de 2 anos devido à pandemia, mais uma edição da “Abertura da Temporada de Escalada do Espirito Santo” no Lazer Furlan, em Castelo – ES.

“O retorno triunfal” foi no mínimo muito desafiador devido às condições climáticas, pois justamente no final de semana do evento, alguém convidou a frente fria para abertura e “babou geral” com a escalada de alguns.

Quem teve a ideia de descer do local sede do evento, que fica a 800m de altitude para região de Apeninos que fica a 400m, foi agraciado com condições mais favoráveis de pode dar uma escalada nas vias que escaparam da chuva matutina. Aos que tiveram a ideia de descer mais um pouco ainda e ir até a Falésia das Flores (200m) foram premiados com paredes totalmente secas. Por algum milagre a chuva não chegou por lá.

Amanhecer na Falésia de Apeninos. Ao fundo, a chuva chegando.
Vista aérea do Abrigo de Montanha de Apeninos.
Abrigo de Montanha Apeninos.
Cássio escalando a clássica Terceira Faixa (7c).
Resenhando e pegando os betas.
João Vítcor escalando um VI desconhecido na Falésia das Flores.
Escalando uma via desconhecida em móvel na Falésia das Flores. Foto: Victor Matheus.
Gaby na seção night climbing durante a hora do rush na descida de Apeninos.

Aos que ficaram na altitude curtindo a chuva, não teve escalada, mas rolou muita comilança, conversa jogada fora e seção de boulder de mesa.

A noite, a concentração foi no Furlan onde teve a palestra da CBME apresentada pelo Sandro (Souza) e depois o lançamento do empreendimento da academia Toca sob o comando do Arthur e Vinícius. E para fechar a programação da noite, o tradicional bingo do frango cantado pelo anfitrião Andin!

Eric representando a ACE na palestra institucional. Foto: Yasmin
Lu coordenando a apresentação. Foto: Yasmin
Sandro durante a palestra sobre a CBME. Foto: Yasmin
Arthur e Vinicius apresentando a Toca Escalada. Foto: Yasmin
A turma do fundão. Foto: Yasmin
Andin com a camiseta /bebida oficial do evento.
Brindando as cadenas! Foto: Yasmin.
Hora do bingo, valendo um frango!
Cantando as pedras.
Acústico Furlan”

No dia seguinte, o Sol foi aparecendo aos poucos e animou a turma a descer para Apeninos e Flores após o café da manhã e a foto oficial.

Café da manhã!
Jogando conversa fora.
Foto oficial do evento! Foram 58 inscritos neste evento.

A ATE foi um evento organizado pela Associação Capixaba de Escalada com o apoio de Sapo Agarras, Bonier Equipamentos e Toca Ginásio de Escalada.

Nossos sinceros agradecimentos à família Furlan que desde a primeira edição sempre recebe os escaladores de braços abertos.