Conglomerado é um tipo de rocha sedimentar constituída essencialmente por seixos de tamanhos variados. No caso dos conglomerados de Caçapava do Sul (RS) e regiões próximas, eles são o registro de um antigo depósito de leito de rio formado há mais de 500 milhões de anos. Uma vez litificados nas entranhas da Terra e depois expostos aos processos erosivos superficiais, eles formam um tipo de relevo muito particular chamado de ruiniforme, por lembrar antigas ruínas.

É justamente nessas escarpas que, nos dias atuais, alguns seres de gosto duvidoso acharam que subir se segurando nesses seixos seria um esporte divertido.
O conglomerado de Caçapava do Sul possui algumas particularidades em relação a outros conglomerados que existem mundo afora. Devido ao intenso processo erosivo químico, a rocha vai se decompondo e alguns seixos se soltam com o peso de um escalador ou até mesmo ao toque, deixando a escalada muito mais emocionante, pois não tem como saber qual seixo é firme.

No entanto, com o tempo e a experiência, os escaladores já aprenderam quais paredes tendem a formar paredes com rocha mais instável de paredes mais sólidas. Em geral, paredes com rocha escura, onde a água percola mais pela superfície, tendem a deixar os seixos mais soltos. Já as paredes brancas, com um tipo de líquen esverdeado e que ficam protegidas da chuva, deixam os seixos mais sólidos.
Eu estava numa via chamada Quando o Carnaval Chegar, um 7a na Pedra do Leão. Uma linha recente, conquistada em outra ocasião pelo Iván e pela Neyha. Acho que já estava na minha terceira entrada para conseguir a cadena, pois nas outras tentativas sempre havia caído porque uma agarra de pé ou de mão tinha quebrado. Embora o setor seja de rocha de excelente qualidade, nas laterais predomina o clássico conglomerado escuro — justamente a rocha mais instável.
Estranhamente, preciso confessar que tenho um certo fascínio por rochas duvidosas. Acho interessante o jogo de ficar escolhendo agarras suspeitas, saber colocar o peso correto e usá-las mesmo sabendo que estão soltas. E o mais legal é que, mesmo tendo todo esse cuidado, não há garantias, como se a natureza dissesse: “Você não está no comando da vida!”.
Eu estava em Caçapava do Sul a convite do Léo, filho do seu Manuel, proprietário do Camping Galpão de Pedra e organizador do 12º Encontro de Montanhistas, onde iria, mais uma vez, ministrar uma palestra na segunda noite do evento.
Na edição passada, de 2025, também estive presente, mas nem pude escalar porque dias antes havia tomado um voo épico que me deixou off por um tempo, já que na queda quebrei um dedo da mão.
Além de mim, o Léo convidou o escalador paranaense Edmilson Padilha para palestrar na primeira noite, onde, juntamente com o Val, falaram sobre a conquista da via Divina Folia na Pedra Riscada, em Minas Gerais.

Já na noite de sábado, antes de o Ed e o Val subirem ao palco para a primeira palestra, aconteceu o tradicional churrasco de integração — assado pelo Léo com a maestria e o capricho de sempre.

Para equilibrar a intensidade do churrasco e das conversas que iam até tarde, as manhãs começavam sob o comando da profa. Alice. As aulas matutinas de ioga já viraram uma tradição indispensável para renovar as energias.

Da minha parte, falei um pouco sobre escalada solitária na noite seguinte, fazendo uma apresentação geral da modalidade aos mais de 80 inscritos no evento. Segundo o Léo, nessa edição havia gente de todos as partes do Rio Grande do Sul, Uruguai, Argentina e, é claro, do Espírito Santo e Paraná.
Para mim, há algo de mágico em Caçapava do Sul. Tenho a sensação de que a cidade é uma espécie de Terra do Nunca do Peter Pan: um lugar onde o tempo passa mais devagar, as pessoas não envelhecem e onde somos todos eternamente crianças. Não sei se é porque o seu Manuel sempre conta as mesmas histórias, que me remetem a 25 anos atrás, quando Caçapava do Sul estava no auge, com os encontros anuais de escalada.
Durante o dia, colei no Ed, no Val (Machado) e na Lorena com a desculpa de apresentar o conglomerado — um disfarce para realizar o sonho de escalar com as lendas do montanhismo nacional. O Ed e o Val dispensam apresentações: são dois escaladores da velha guarda, com uma extensa ficha de vias e conquistas de respeito pelo Brasil e exterior. Já a Lorena é uma escaladora esportiva de alto nível, com um currículo de fazer inveja a muita gente e várias vias de dois dígitos no caderninho.

No primeiro dia, “apliquei” eles nas esportivas da Pedra do Leão, onde passamos o dia ali no platô da Ana. Eles escalaram as clássicas do setor e eu tratei de entrar em algumas vias novas. Destaque para a via Vaca Descontrolada, um 7c de pura continuidade em seixos suspeitos que foi conquistada pelo Iván. Com certeza, vai ser uma das clássicas do setor!

No dia seguinte, o Ed quis conhecer a Pedra da Abelha. Como ele acabou machucando o dedo em um monodedo no primeiro dia, achei que seria legal fazer o cume da Pedra da Abelha pela Obrigado pela Vida e depois escalar nas esportivas do setor Bosteiro.

A via em si é bem tranquila, fizemos car-by-car em 2h, mas para mim foi a realização de um sonho escalar com o trio. Ver os três se movimentando na parede foi um grande aprendizado. Ouvir o Ed reclamar que estava faltando um grampo na saída da segunda enfiada mostrou como eles também são “gente como a gente”!


Passamos a tarde no setor Bosteiro nos divertindo nas vias de oitavo grau. Estive nesse setor há uns 25 anos, quando só havia a via Vertex. Confesso que fiquei maravilhado com a qualidade do conglomerado.



Já no último dia, segunda-feira de Finados, levei os três para conhecer a Pedra da Lua. Foi um dia bem agradável e um pouco preguiçoso, pois todos nós já estávamos cansados — afinal de contas, ali só tinha 40+.


Falando em idade, acompanhando os três esses dias, fiquei impressionado com a motivação deles na rocha. Dos três, o Val era, disparado, o mais motivado. Era descer de uma via, dar segue e entrar na via novamente. Confesso que no início fiquei com medo do ritmo que eles impuseram e pensei secretamente: tomara que vão cansando ao longo dos dias…
Além das escaladas, esses encontros são uma grande oportunidade para reencontrar amigos de longa data, conhecer novos escaladores e colocar a conversa em dia. O que me deixou um pouco triste foi ver que os escaladores das antigas estão ficando cada vez mais raros, mas por outro lado sempre é muito legal ver a nova safra de escaladores chegando com tudo.

Por fim um agradecimento profundo à família Teixeira pela acolhida calorosa de sempre. Vocês não tem ideia de como sou mimado… Obrigado também aos parceiros paranaenses pelo mate e ponta da corda compartilhada.

