Coentro Provençal

Estou há cerca de meia hora parado num engarrafamento sinistro de volta de feriadão entre as cidade de Ibiraçu e Fundão! O trânsito está tão parado que resolvi escrever para passar o tempo!

Preciso admitir que a volta das férias não está sendo fácil. Sair de um pequeno vilarejo com menos de 300 habitantes para uma cidade de 1 milhão de habitantes, num país que vive quase um apocalipse político; sem contar as cobranças do trabalho e as pilhas de demandas para ontem.

Pelo menos calhou que o final de semana seguinte coincidiu com um feriado prolongado.

A temporada por aqui, definitivamente, já era! As chuvas chegaram com força e a temperatura subiu para acima dos 30 graus Celsius. Para não dizer que não tem como escalar, fiquei sabendo que uma dupla de escaladores britânicos conquistou uma nova via na face sul da Pedra da Agulha, em Pancas. Ainda não consegui descobrir se são os mesmos que começaram uma via há uns anos ou se são outros que abriram uma nova linha. O fato é que o calor, pelo menos para os gringos, não é desculpa para não escalar.

Não tinha pretensões de conquistar mais esse ano, mas a volta das férias me fez reacender a vontade, mesmo sabendo de todas as dificuldades climáticas.

A gente sempre volta das férias com novas inspirações, motivações e ideias. E talvez estivesse precisando colocar tudo isso em prática e, de quebra, fugir um pouco desse caos político.

Uma das ideias que trouxe de Verdon para tentar colocar em prática aqui é buscar linhas mais verticais e difíceis nas paredes do Espírito Santo.

Naturalmente, copiar e colar simplesmente não funciona, pois o granito/gnaisse é muito diferente do calcário, mas lembrei de uma parede que poderia ter algum potencial para essa ideia: a Parede do Polese.

Há algum tempo atrás, quando fui com o Iury olhar uma cachoeira efêmera que tem lá, vi uma parede mais vertical que poderia dar alguma coisa. Na época achei vertical demais e talvez sem agarras, mas agora era justamente isso que estava procurando.

A conquista

Saí de Vitória sem pressa na segunda-feira, feriado de Dia das Crianças, pois eu sabia que não teria como escapar do sol. A parede fica na sombra pela manhã, mas antes do meio-dia o sol entra implacavelmente no melão. Poderia ter saído mais cedo, mas fiquei com preguiça e assumi a consequência.

Saí de casa umas 6h, ainda passei na padaria e só cheguei na parede por volta das 8h30.

Dei uma olhada na parede para confirmar a linha e logo fiz a aproximação. A grande vantagem dessa parede é que o acesso é muito prático, pois a estrada passa paralela à parede, bastando apenas cruzar o riacho para chegar na base da pedra. Quando se está sozinho e precisa levar todo o material sozinho, esse é o melhor dos mundos.

Fazendo a aproximação.

Rapidamente cheguei na base e vi que a parede era vertical como o esperado e, o melhor de tudo, com fartura de agarras.

Iniciei os trabalhos e, quando fui bater a primeira proteção, senti a verticalidade ao posicionar a furadeira. Por um momento achei que estava me metendo onde não devia, mas a conquista foi fluindo e logo bati 7 chapas em 30m. Talvez seja a recíproca da generosidade francesa.

Batendo a primeira chapa.
Estabelecendo a base com chapeleta removível. O fabricante não recomenda fazer isso.

Estabeleci a P1 após esticar 35m de corda. Em geral, estico mais, mas como já bati 7 chapas, achei que seria uma boa cortar a enfiada. Além disso, mais acima a pedra mudava de estilo, saindo do vertical e entrando num trecho mais rampado, mas ainda com muitas agarras e buracos, por isso achei que caberia uma parada.

Atualizando a minha posição no rastreador.

A enfiada seguinte, a segunda, segue o estilo padrão do local, com lances longos numa parede cheia de agarras e com baixa inclinação. Mais uma vez cortei a enfiada com 35m, onde a parede volta a ganhar inclinação. Todas as vias dessa parede seguem esse padrão: no meio da parede sempre tem uma espécie de headwall. Em geral, nas outras vias, é nesse trecho que fica o crux da via, com lances mais delicados.

Incrivelmente, nessa parte da parede, a linha se mostrou bem farta de agarras, proporcionando uma escalada agradável.

Concluí, ainda que sem evidências claras, que o fato de a linha passar no lado da cachoeira favoreceu a formação das agarras, pois há várias agarras polidas nesse trecho.

Aliás, tentei passar a linha da via fora do curso principal da cachoeira, mas é difícil ser assertivo, pois a conquista foi sob condições de cachoeira seca. Repetições futuras com alguma água na cachoeira poderão ter problemas com agarras molhadas. Por isso, recomendo escalar mais para o final da temporada.

Pausa na P2.
Lances mais longos da 2a enfiada.

Se até então a via seguia o estilo francês, na terceira enfiada, toquei coentro no molho e estiquei uma corda cheia até o talo para alcançar um platô decente quase no final da parede, ao melhor estilo da escalada capixaba. Isso porque, se nas primeiras enfiadas o sol estava agradável e tolerável, agora estava insuportável. Basicamente, toda vez que batia uma chapa, precisava tirar a sapatilha por causa do calor, deixando a conquista mais morosa.

Pausa para os pés. Saída da 3a enfiada.
Belíssima 3a enfiada.

Ao final da terceira enfiada, pensei seriamente em descer dali por causa do calor, mas eu ainda tinha água (ainda que quente) e chapeletas, então aguentei mais um pouco e toquei a última enfiada.

P3, e o sol castigando…

A quarta e última enfiada é mais um protocolo, mas tem lances legais, sempre em agarras, e a escalada segue mais perto da linha d’água. Tenho minhas dúvidas se tem como passar se tiver água, pois o espaço de rocha é restrito. De um lado a água e do outro a vegetação.

Conquistando de pés descalço por causa do calor.
Cume!

Cheguei no cume, mais uma vez, esticando a corda até o talo. Queria ter subido mais um pouco, mas não teve jeito: acabou a corda. Tive que estabelecer a parada na borda. Depois, resolvi subir escalaminhando o resto até o cume, porque eu queria ver o que tinha no topo: pasto com boi! A subida não foi trivial, pois, mais para o topo, ainda há água e a rocha fica muito lisa e escorregadia. Na descida, achei melhor montar um rapel numa árvore para voltar à P4.

Eu acho que, de todas as vias do setor, essa é a mais escalada em agarras. Logo, deve ser a mais bonita e agradável. Destaque para as enfiadas ímpares, que são as mais legais.

O único ponto de atenção é a cachoeira, que precisa estar seca, principalmente no final, onde a via chega mais perto da linha d’água e as proteções são mais espaçadas.

Descanso pós conquista.
O entardecer…

Ah, sobre o engarrafamento: levei 3h para voltar de João Neiva até Vitória! Normalmente faço esse trecho em 1h.

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