Amanhecer em Torres del Paine.

Os pumas de Torres del Paine

Este post traz um relato de duas semanas pela região do Parque Nacional Torres del Paine, no Chile, que fiz com a minha esposa, Paula.

Parte do texto foi escrita ao longo da viagem, entre uma pausa e outra; outra parte foi escrita ao final, para contextualizar o relato e trazer informações úteis para quem estiver planejando uma viagem à região.

Entramos no Chile de avião, pela rota São Paulo – Santiago – Punta Arenas. Existe a possibilidade de chegar por Puerto Natales, mas optamos por essa rota para conhecer mais uma cidade.

Todo deslocamento interno a partir do aeroporto foi feito de carro alugado. Alugamos um SUV com opção 4×4. Embora haja muitos trechos de estrada de chão, não usamos a tração em 99% do tempo. Acionei a tração somente no último dia, já voltando para Punta Arenas, onde pegamos uma nevasca na serra (snow mode). Mesmo assim, considero essa opção importante por uma questão de segurança, pois o clima na região oscila muito. Em duas semanas pegamos temperaturas de negativas a 13ºC no final de março. Os ventos chegaram a 70km/h, dificultando até mesmo ficar em pé. Além disso, pegamos sol, chuva, neve e nevasca, tudo em menos de 24h. Aliás, o clima na Patagônia oscila muito em pouco tempo.

Dia 1 – Cá estamos nós em uma charmosa cafeteria no centro de Punta Arenas chamada Wake up, após 24 horas de viagem. Como hoje é domingo, está tudo fechado; a cafeteria é uma das poucas opções abertas, então está lotada, mesmo sendo 10h da manhã. Aliás, parece um lugar famoso, porque muitas das pessoas que estavam no aeroporto parecem estar aqui.

A primeira impressão sobre Punta Arenas: frio, muito frio! O termômetro do carro marcava 7°C, mas a sensação era de temperatura próxima de zero. Em Vitória, nos últimos dias, fazia 30°C às 8h da manhã.

Entardecer em Punta Arena olhando para o Estreito de Magalhães.

Punta Arenas é uma cidade litorânea, estrategicamente localizada na entrada do Estreito de Magalhães. Historicamente, teve papel importante na navegação da região; hoje, sua economia está mais ligada ao turismo, à logística (inclusive antártica), à pecuária e à indústria de petróleo e gás. Achamos uma cidade agradável e segura, mas sem grandes atrações.

Pelas noites frias e tranquilas da cidade.

Punta Arenas – Puerto Natales – Após um dia de descanso, fizemos uma agradável viagem de 4 horas até Puerto Natales (cerca de 210 km). A previsão do tempo não era das melhores, mas a viagem foi muito bonita, com uma paisagem dramática. O ponto alto foram os guanacos e os flamingos. Paramos para tomar sopa em um pequeno parador, pois a temperatura havia despencado de um dia para o outro. Aproveitei para ir ao banheiro e, curiosamente, vi um fingerboard pendurado na parede! O que um fingerboard faz no meio do nada? Será que o cozinheiro é escalador? Vai saber… seguimos viagem!

Guanacos a caminho de Puerto Natales.
A caminho para o parque, uma parada na caverna de Milodón. Neste local foi encontrado um fóssil de uma preguiça gigante da Era do Gelo.

Dia 3 – Sempre gostei de frio! Ele me remete à infância em Ivoti: manhãs geladas de inverno, geadas e poças d’água onde brincávamos indo a pé para a escola.

Neste momento, o termômetro marca 4°C, às 10h30 da manhã. Lá fora, rajadas de vento chegam a 50 km/h, e a sensação térmica cai facilmente para abaixo de zero.

Dito isso, preciso admitir que talvez eu não esteja gostando tanto assim do frio. Quase 20 anos no Espírito Santo fizeram meu corpo se adaptar ao clima tropical. Lá, dia frio é quando o termômetro baixa dos 20°C — com 19°C já tem gente de bota e luva na rua, juro!

Esse foi o nosso cartão de boas-vindas ao Parque Nacional Torres del Paine. Aliás, as montanhas ainda permanecem no imaginário, pois o teto de nuvens está muito baixo.

Casal de Água Chilena, da mesma espécie que tem por aqui no ES.

Dia 5 – após alguns dias de tempo tempestuoso, finalmente a calmaria. Estamos numa hospedaria fora do parque (Valle Serrano), junto a um grande rio calmo que serpenteia uma planície dourada com as montanhas ao fundo. Por incrível que pareça está mais quente. O termômetro da parede está dando 16ºC e sem vento. A sensação de paz é indescritível. A experiência de passar uns dias dentro de uma máquina de lavar roupa foi muito intensa.

Região de Villa Serrana com as montanhas ao mundo.

Durante a estadia no parque, ficamos hospedados em diversos hotéis e pousadas — não por escolha, mas por falta de disponibilidade e preço. Em geral, as hospedagens no parque são caras, voltadas principalmente para os gringos. Além disso, muitas são relativamente simples e com algumas restrições operacionais: em certos casos, calefação e água quente podem ter horários definidos. Os restaurantes são bons, mas básicos, e a internet costuma ser instável.

Eu diria que as acomodações são boas, mas nem sempre condizem com o valor cobrado. Por outro lado, é preciso considerar a logística desafiadora: em grande parte da área não há rede elétrica ou gás encanado, então muitos locais operam com geradores a diesel, frequentemente combinados com energia solar.

Outro ponto importante é a cobertura de sinal: praticamente inexistente no parque. Há alguns pontos fora dele, especialmente em áreas mais altas a leste, onde o sinal aparece intermitentemente. No restante, apenas o Wi-Fi das hospedagens. Por isso, é recomendável ter um kit básico de emergência no carro, pois tudo é muito isolado.

Outra coisa que chamou atenção foi a frequência relativamente alta de carros com pneus furados.

Cachoeira em longa exposição, aproveitando o dia nublado e escuro.

No dia seguinte à tempestade, o dia amanheceu glorioso, e tivemos uma das melhores vistas das montanhas — claro, com muito vento! Era tão forte que mal conseguia me manter em pé. Em um momento, tive receio de cair no lago. Eu me sentia como um papel diante de um ventilador.

Depois das fotos, ainda nas dependências do hotel, escorreguei em um desnível e caí com tudo. Como estava com a câmera na mão, tentei protegê-la e acabei caindo de mau jeito, batendo forte o joelho no concreto. Desde então, estou mancando e à base de anti-inflamatórios…

Amanhecer no parque.

Dia 6 – Após três dias no parque, voltamos para Puerto Natales. Existe um desafio logístico em permanecer muitos dias consecutivos lá: combustível. O posto mais próximo fica em Puerto Natales, a cerca de 120 km. Ou seja, é preciso considerar autonomia suficiente para ida e volta, o que limita bastante os deslocamentos internos.

Há relatos de disponibilidade limitada de combustível em algumas hospedagens dentro do parque, mas não contamos com isso. Além disso, a estrutura é relativamente escassa: poucas opções de alimentação e hospedagens caras para o que oferecem. Uma boa estratégia é levar comida da cidade. O único cuidado é utilizar fogareiro apenas em áreas permitidas (como campings), pois seu uso é restrito no parque.

Puerto Natales é uma cidade bem pacata e agradável com muitos turistas estrangeiros. A cidade possui uma boa logística e vive para o turismo. Encontramos tudo o que precisamos, além de uma boa cena gastronômica.

Puerto Natales.

Dia 8 – quando decidimos o destino das próximas férias, uma das coisas que fomos correr atrás foi um binóculo decente e uma objetiva mais longa, pois queríamos tentar avistar um puma, animal raro que habita nas cercanias do parque. A objetiva, consegui um bom desconto numa Black Friday e o binóculo compramos numa viagem à Europa. Depois, ainda passei um bom tempo aprendendo a usar a objetiva para o grande dia, sem me perder e deixar passar a oportunidade.

Aqui tem um post falando sobre essa objetiva!

Além disso, consideramos contratar um guia. É comum as pessoas que fazem esse tipo de atividade contratarem um guia, embora não seja mandatório, mas quando se trata de procurar um animal de difícil visualização, toda ajuda é bem-vinda. Como a diária de um guia é bem cara, contratamos para apenas dois dias e o restante ficaríamos por conta.

Assim que chegamos no parque, já fomos para a região habitat do puma, na parte leste, fora do parque. Passamos dois dias procurando os pumas sem guia, mas não vimos nada. Provavelmente porque estávamos procurando no horário errado e também por causa do tempo que estava bem degradado. Os pumas não gostam de vento, pois compromete o sistema auditivo, vital para a sobrevivência.

Sem pumas, mas muitos guanacos tranquilos!

O puma é um felino com hábitos em parte crepusculares, passando boa parte do dia em repouso e se tornando mais ativo no final do dia e à noite — comportamento que lembra, em certa medida, o de gatos domésticos. A Chiquinha, nossa gata por exemplo, passa o dia dormindo, escondida em algum canto e se torna super ativa no final do dia para a noite. E de madrugada, claro!

No terceiro dia fomos com o guia, Ivan. Garoto novo, conservacionista e amante dos pumas. Atua na região há uns 10 anos organizando passeios de avistamento, além de fotografar os pumas. Uma das vantagens de trabalhar com o guia é que eles trabalham em grupo usando um rádio. Assim, quando alguém avista, todos ficam sabendo. Sem guia, você fica sem essa rede de observadores.

O dia começou promissor: antes do amanhecer, vimos uma carcaça de guanaco sendo consumida por várias raposas na beira da estrada.

Raposas no banquete!

Os guanacos são a principal fonte de alimento dos pumas, por isso, quando se busca os pumas, também precisa ficar de olho no comportamento dos guanacos. Quando há pumas em volta, os guanacos ficam muito mais tensos e, quando estão na iminência de serem atacados, vocalizam avisando o bando da presença do perigo.

De olho nos guanacos e na paisagem.

Após esse avistamento matinal não aconteceu mais nada. Perto do meio-dia paramos, pois nesse horário os pumas ficam inativos. Eles costumam se sentar num canto e dormir à tarde. Lembra dos gatos? Só no final do dia voltam a se mover à procura de alimento, devido aos seus hábitos crepusculares.

Mais para o final do dia, voltamos a procurar os pumas. Basicamente ficamos rodando de carro nas áreas com maior potencial procurando algo se movendo. Parece fácil, mas o puma possui uma camuflagem que dificulta a visualização com a paisagem do entorno. Para os olhos leigos, um puma parado e deitado é praticamente irreconhecível se estiver a mais de 100m.

Um pequeno falcão caçando.
Mesmo guanaco, agora servindo de alimento para os Carcarás.

No dia seguinte, encontramo-nos com o Ivan novamente na portaria do parque. Assim que ele nos viu, deu o sinal para o seguir e saiu a mil pela estrada. Na hora, já entendemos tudo. Alguns quilômetros à frente, vários carros no acostamento anunciavam o que tanto aguardávamos.

Descemos do carro correndo e fomos para a beira da cerca. As pessoas falavam, apontavam, mas não via nada. De repente, de relance, vi o puma saltar uma cerca bem distante e vindo em nossa direção. Na hora, a adrenalina subiu. Fiquei nervoso e emocionado; afinal de contas, tínhamos planejado as férias justamente para esse momento.

Os guias falaram que ele viria em nossa direção e que iria atravessar a rua. Mais correria. De repente, numa fração de segundos, ele já estava a poucos metros de nós, andando rápido. Agora eu conseguia ver claramente entre os arbustos. Por um instante, fiquei hipnotizado e só fiquei observando. Instantes depois, lembrei da câmera e tentei fotografar, mas ele estava tão perto que não conseguia enquadrar. Nervosismo à flor da pele. Desisti de fotografar e fiquei olhando, majestosamente, saltar mais uma cerca e cruzar a estrada a menos de 30m de mim. Esse puma, chamado de Amarga, é bem dócil com os humanos e não se sente incomodado, tanto que passou no meio das pessoas e depois se jogou no rio para atravessar para o outro lado.

Amarga.

Assim que atravessou o rio, voltei a me concentrar na câmera. Como ele estava em movimento constante, foi bem difícil fotografar. Na verdade, foi difícil controlar o emocional para fotografar sabendo que não poderia errar, porque ali não tem como refazer a foto. Depois, ouvi uma pessoa falar que filmou toda a cena, mas depois foi ver que esqueceu de botar para gravar. É absolutamente compreensível esse erro.

Amarga no outro lado do rio.

No dia seguinte, nós já estávamos com a “cabeça feita”, mas estávamos viciados. Mesmo sem o guia, fomos mais uma vez para a área dos pumas. Ficamos de olho nas colinas, nos guanacos e na movimentação dos rastreadores.

Adjacente ao parque há uma grande propriedade particular onde o dono vive da venda de pacotes fotográficos para registrar os pumas. Nessa fazenda, os rastreadores varrem áreas por setor e, quando avistam, chamam os clientes que pagaram uma fortuna para ir ao encontro. Como nós não pagamos o pacote, não temos direito a essas informações e muito menos a acessar o terreno particular para ver o puma. Nós só podemos ficar na estrada, que é pública, e rezar para o puma vir em nossa direção.

De repente, vimos um rastreador passar muito rápido por nós. Logo, acendeu uma luz amarela e resolvemos segui-lo. Mais à frente, vimos uma grande movimentação e já sabíamos que havia mais um puma na região.

Chegamos no “bolo” e começamos a procurar o puma no alto de um morro com vegetação rasteira. Custei muito para achar o bendito. Ele estava a uns 1000m de nós e deitado!

Uma vez localizado, ficamos aguardando pacientemente que ele se movesse em nossa direção.

Duas horas depois, ele se levantou e começou a vir em nossa direção. Dessa vez eu estava mais controlado e consegui focar mais em fotografar, mas ainda assim estava muito longe. Tive que pegar a objetiva mais longa de 500mm e colocar um teleconversor de 2x para ter alguma chance.

Segundo avistamento!

O puma foi se aproximando cada vez mais de nós e de repente sumiu atrás de um pequeno morro. As pessoas começaram a entrar no carro e se moveram para um ponto melhor. Fizemos o mesmo, mas não o vimos mais. Ficamos mais uma hora ali, mas aos poucos as pessoas também foram se dispersando e também seguimos o nosso caminho.

No dia seguinte, antes de voltar para Puerto Natales, demos mais uma passada na região e, mais uma vez, um rastreador às pressas entregou o jogo. Fomos atrás dele até o mirador Laguna Amarga, mas dessa vez o puma estava tão camuflado e longe que nem conseguimos vê-lo. A essa altura, já estávamos com a cabeça feita e fomos embora sem desapontamento.

As torres de Paine com a Laguna Amarga no primeiro plano.
Gelo azul no Lago Grey.
As montanhas a partir do mirador Sarmiento.
Golfinhos no Estreito de Magalhães.
As cores da estação.

E assim, finalizamos nossos dias de férias na região do Parque Nacional de Torres del Paine. Achamos a região incrível, um verdadeiro parque de diversão para quem gosta de vida selvagem, paisagens e geologia. Com certeza entrou para a lista dos lugares que teremos que voltar um dia, pois ainda há muita coisa para ser explorada!

Foto clássica para fechar as férias!

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