A primeira “ventana” do ano é um fenômeno muito aguardado pelos escaladores, pois marca o início da temporada de parede no Espírito Santo. Em geral, essa janela vem acompanhada de chuva. Então, se quiser surfar essa primeira onda, é preciso escolher bem a parede para não entrar em roubada.
Teoricamente, ainda não estou 100% por causa da lesão no joelho nas férias, mas o vento gelado entrando de sul na cozinha de casa é um convite muito tentador.
Pensei em algumas possibilidades, considerando as grandes chances de chuva, além da minha condição debilitada. No fim, escolhi a via “Tesouros do A2”, em Ibiraçu.

Essa via foi conquistada pelos escaladores Fred “Ibiraçu” e André “Tesourinho” em 2010, após cerca de cinco investidas, à moda antiga, na marreta. É uma via bem popular, com muitas repetições, mas eu mesmo nunca a tinha escalado. Sempre que passo entre Ibiraçu e João Neiva, olho para a parede, que fica à beira da BR-101, e lembro que preciso prová-la. Porém, todas as vezes estou indo ou voltando de alguma escalada e nunca consegui encaixar a oportunidade.

Mas tudo tem o seu tempo e agora parecia uma boa ocasião.
O início da temporada também é uma boa oportunidade para dar aquela desenferrujada nos procedimentos de escalada solitária. Essa modalidade tem muitos detalhes técnicos que a gente acaba esquecendo por falta de prática. Por isso, gosto de começar a temporada em uma via mais fácil, para relembrar os macetes e evitar cometer erros em escaladas mais difíceis depois.
A Pedra do A2 fica a apenas 60 km de Vitória e está ao lado da BR-101, bem em frente a um motel chamado A2. A aproximação é bem íngreme, por um pasto, mas tranquila, principalmente se o dia estiver nublado e com bastante vento, como foi o caso. Sem vento e sob sol, imagino que seja bem desagradável.
Segundo alguns relatos, o crux é encontrar o primeiro grampo da via. Há até uma história famosa de um escalador que entrou em uma via inacabada ao lado e só percebeu o erro após esticar toda a corda. Ele precisou ligar para um amigo trazer um batedor e uma marreta para sair da situação.
Além disso, a descrição mais completa no livro “Escalada Capixaba” está um pouco desatualizada, já que as árvores e a vegetação cresceram bastante. Para piorar, como era início de temporada, a mata estava muito verde e alta devido às chuvas de verão.
Com isso, acabei utilizando uma aproximação um pouco diferente, fazendo uma grande travessia para a direita, a partir do pasto limpo. Fica a dica para quem quiser evitar a mata fechada, mas é importante estar confortável com o grau, pois o lance é um pouco aéreo.
A via começa em um platô mais alto, no meio da parede. Caso inicie pela base, acredito que seja necessário dividir a primeira enfiada em duas, utilizando uma parada dupla intermediária para rapel, pois, a partir do platô, a primeira enfiada já consome uma corda inteira.
A primeira enfiada é bem tranquila, com muitas agarras em uma parede mais positiva. A segunda já é mais interessante, com um pequeno trecho mais inclinado, em uma parede cheia de buracos que lembra o calcário, mas com textura de granito. Particularmente, achei essa a melhor enfiada da via.

A terceira enfiada é o crux, mas nada muito difícil. Olhando de baixo, assusta um pouco, mas, à medida que se avança, surgem agarras e buracos perfeitos que facilitam a progressão. A última enfiada é mais protocolar, apenas para finalizar a via.


Essa via me lembrou bastante as escaladas da parede de Polese. Fica a dica para quem busca escaladas nesse estilo, com mais agarras.


Segundo meus registros, iniciei a escalada às 11h e alcancei o cume às 13h30, totalizando 2h30 de atividade. Escalei sem solar e descansei nas paradas, além de fazer uma breve pausa por causa da chuva, que deu o ar da graça quando cheguei à P3. Ainda assim, foi apenas uma garoa leve, que não comprometeu a escalada.

Segue alguns links sobre a via:
Relato da primeira repetição da via;
Relato do DuNada e Chuck na via;