Essa semana fez um ano desde que sofri um acidente conquistando uma via em Pancas.
Neste post faço o relato do acidente e, aqui, uma pequena reflexão sobre o assunto.
Depois disso, comecei a rascunhar um artigo sobre o capacete de escalada, um item de segurança fundamental que faz toda a diferença. Esse artigo ficou nos rascunhos e nunca foi publicado, mas talvez essa data seja um bom motivo para voltar a falar sobre esse equipamento superimportante.

Uma das primeiras perguntas que me fiz ao começar a esboçar o texto foi: por que os escaladores ainda relutam em usar capacete? Time no qual me incluo.
Então resolvi fazer um apanhado histórico do capacete na escalada e descobri algumas coisas interessantes que ajudam a elucidar esse questionamento.
Nos primórdios do montanhismo, o uso de capacetes não era comum, ou seja, o esporte se desenvolveu inicialmente sem o uso sistemático de capacetes.
Quando havia alguma chance de queda de objetos, como pedras ou gelo, alguns escaladores improvisavam, colocando tecido ou papel dentro do gorro como forma de proteção.
Os primeiros capacetes utilizados na escalada eram adaptações de modelos industriais ou de motociclismo, feitos de materiais como fibra de vidro. Eram pesados, volumosos e pouco ventilados, o que naturalmente limitava sua aceitação. Sua principal função era proteger contra a queda de objetos, algo comum em terrenos alpinos.
Ao longo das décadas de 60 e 70, começaram a surgir os primeiros modelos pensados especificamente para o montanhismo, com uso de cascos rígidos e algum tipo de material interno para absorção de impacto, uma evolução importante, mas ainda longe do ideal em termos de conforto e desempenho.
Até a década de 90, a evolução dos capacetes foi relativamente lenta. Foi nesse período, no entanto, que começaram a surgir avanços mais significativos, com a introdução de materiais mais leves e estruturas que melhoravam a absorção de impacto, ainda com foco principal na queda de objetos.
Quando comecei a escalar, em meados dos anos 90, o uso do capacete ainda era pouco difundido e raramente incentivado. Os modelos disponíveis continuavam relativamente pesados e desconfortáveis. Eu, por exemplo, usava capacete principalmente em conquistas, em vias recém-abertas ou em situações com maior potencial de queda de pedras. Lembro que, naquela época, a principal preocupação era a queda de objetos, principalmente pedras, e, durante as conquistas, o uso era muito mais incentivado.
Em 2003, saiu uma matéria na extinta revista Headwall discutindo o uso do capacete na escalada. A reportagem ouviu diversos expoentes do esporte sobre o tema e, em linhas gerais, o uso do capacete era tratado como uma questão de bom senso — cabia ao escalador avaliar o contexto e assumir os riscos. Nessa época, a tendência era: conquista e vias tradicionais, usar capacete; vias esportivas, escalar sem capacete, já que o risco de queda de objetos era menor.

No entanto, com o desenvolvimento da escalada esportiva, as quedas passaram a ser incorporadas como parte da prática. Se antes uma queda era algo a ser evitado a qualquer custo, hoje, na maioria das situações, ela ocorre de forma controlada e natural. Ainda assim, existe sempre a possibilidade de um impacto desfavorável, com risco de lesões, inclusive na cabeça.
No fim dos anos 90, capacetes como o Petzl Meteor marcaram uma mudança significativa, introduzindo o uso de espuma (EPS) e reduzindo drasticamente o peso, o que melhorou muito o conforto e ajudou a ampliar sua aceitação entre escaladores.
A partir daí, a indústria passou a evoluir não apenas em leveza, mas também em cobertura e absorção de impacto. Atualmente, os capacetes modernos são projetados para deformar durante o impacto, absorvendo energia e reduzindo a força transmitida ao crânio. Além disso, algumas marcas passaram a desenvolver soluções com melhor proteção lateral e traseira, antecipando uma demanda que só mais recentemente começou a ser incorporada de forma mais clara nas certificações. Ou seja, se antes os capacetes serviam principalmente para proteção contra queda de objetos, hoje passaram a ser mais eficazes também na proteção contra impactos decorrentes de quedas.
Atualmente, normas como a EN 12492 e a UIAA 106 ainda têm forte ênfase na proteção contra impactos no topo, mas já existe um movimento de evolução desses padrões para considerar melhor os impactos fora desse eixo, refletindo o tipo de acidente mais comum na escalada contemporânea. Vale a pena conferir que tipo de capacete você está usando, pois nem todos os modelos possuem essa proteção extra.
A partir de 2006, quando me mudei para o Rio de Janeiro, comecei a usar capacete de forma mais sistemática, principalmente em vias tradicionais e móveis. Comprei, na Equinox do Rio, o modelo Black Diamond Half Dome. Esse modelo tinha proteção predominantemente no topo. Mesmo nessa época, os capacetes ainda eram relativamente pesados e desconfortáveis. Eu costumava sentir muita dor de cabeça após uso prolongado, principalmente por causa do peso. Se não me falha a memória, acabei passando esse capacete para o Afeto, que o usa até hoje.

Em 2013, adquiri meu primeiro capacete de EPS, o Petzl Meteor, que representou uma evolução significativa em termos de leveza e conforto. Para mim, esse sempre foi um dos principais fatores de resistência ao uso. Com esse modelo, essa desculpa praticamente deixou de existir. A única coisa que ainda me incomodava era o calor. Mesmo com boa ventilação, eu ainda sofria bastante com isso. Se não me falha a memória, esse modelo já oferecia uma cobertura mais ampla em relação aos anteriores, embora a proteção lateral ainda não fosse o foco principal do projeto.

Em 2018, esse capacete acabou trincando em algum momento desconhecido, e passei a usar o modelo Vapor, da Black Diamond, que também teve uma vida útil relativamente curta. Em 2020, acabei danificando-o ao transportá-lo inadequadamente na mochila. Desde então, não despacho mais o capacete na mala quando viajo de avião e sempre o levo como bagagem de mão.
Em seguida, optei por um Petzl Sirocco (2017), um modelo já concebido com maior foco em proteção lateral e redução de peso. Esse capacete, inclusive, cumpriu sua função com maestria no acidente.
Fico imaginando esse acidente em épocas diferentes. Se eu tivesse caído na década de 50, quando se colocava papel dentro do gorro, provavelmente não estaria mais aqui. Se fosse na década de 90, usando um capacete voltado principalmente para proteção contra queda de objetos, provavelmente teria sofrido um traumatismo craniano em função do impacto lateral, justamente onde esses modelos ofereciam proteção mais limitada. Ainda bem que sofri esse acidente em pleno 2025, com certeza se estou aqui, não foi somente por causa do bom senso, mas também da evolução tecnológica!

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4 respostas em “Capacetes salvam vidas”
Qual seu comentário sobre o capacete da Decathlon mais leve/caro? Aquele azul escuro.
Marcelo, dei uma olhada aqui e vi q esse da Decathlon atende a uma norma da CE (impacto no topo). Essa é a norma padrão p maioria dos capacetes. A proteção extra p impactos laterais é um plus e a norma ainda não exige. Pelo q eu vi, a Petzl, Black Diamond e Mammut possuem alguns capacetes com essa proteção extra.
Vai usar nas vias esportivas? ou só nas paredes? hehe. Que bom que essa tecnologia evoluiu, otimo poder continuar tendo vc aqui com a gente, saudades dos perrengues bons, esses ruins espero evitar kkk.
Boa japa. Que o capacete novo tenha uma vida útil muito grande e nao precise ser testado na prática hahaha