Em 2012, os escaladores Oswaldo Baldin, “Soldado”, “Tatu” e Samuel Amaro conquistaram a via “Terceiro Elemento” na face sul da Pedra do Jacaré (ou Trono do Jacaré) em Pancas, ES. A via possui 530m de extensão e está graduada em 4º, V, E3/E4, D2.
Em 2016, o proprietário das terras que levam à base da montanha fechou o acesso, e a via acabou ficando inacessível.
Sempre que vou ao Vale do Palmital, olho para aquela parede e fico pensando em como contornar esse problema. Já cheguei a cogitar uma conversa com o proprietário para ver se ele revogaria a proibição, mas, conversando com o Fabinho, ele achou que não surtiria efeito.
Recentemente, conversando novamente com o Fabinho, que é proprietário do Camping Cantinho do Céu, perguntei sobre a face noroeste do “trono” na Pedra do Jacaré. Pensei: se o proprietário não deixa acessar a via, a solução seria abrir uma nova linha usando outro acesso, pelo lado oposto da montanha, pela propriedade do Fabinho.

O Fabinho explicou que já havia rondado por aquele lado com o Baldin e que inclusive iniciaram uma via por aquela face (via Poracaso), mas acabaram deixando o projeto de lado pela complexidade do acesso à base.
Analisei algumas fotos de drone e achei uma possível linha passando pelo lado esquerdo da via Lua de Mel até o cume da Pedra do Jacaré, conectando depois com a via Terceiro Elemento na altura da 7ª enfiada.
Ideia na cabeça, pé na estrada! Saí de Vitória, sozinho, no domingo rumo a Pancas. Até a cidade de Colatina o tempo estava ótimo, mas, quando cheguei no colo que separa a região norte da área ao sul pelo Rio Doce, vi uma densa neblina nos vales cobrindo toda a região de Pancas. Em geral, quando há neblina nos vales, isso indica que a chuva do dia anterior foi bem forte. À medida que fui mergulhando na névoa, comecei a observar que havia muitas poças d’água pelo caminho. Logo, tentei focar o olhar nas montanhas ao redor para ver se havia escorridos de água nelas, mas a visibilidade estava muito restrita.

Quando estava mais perto das montanhas de Pancas, encostei o carro em um local seguro e resolvi levantar o drone para avaliar a situação, pois do chão não dava para ver nada. Assim que o aparelho subiu, ficou claro que as paredes do entorno estavam secas, sem linhas de água. E, pelo andar da carruagem, logo a neblina iria se dissipar com o calor e o sol iria imperar na região.
Desci o drone e, mais tranquilo, segui viagem até o camping do Fabinho.

Expliquei as minhas intenções a ele. Como estava indo sozinho, detalhei o meu plano mais do que o habitual, pois aquela região não tem sinal de celular. Como a parede ainda estava na sombra e a vegetação molhada da chuva do dia anterior, fiquei ali conversando sem muita pressa.

O Fabinho me passou algumas dicas preciosas de aproximação e fui de carro até o ponto indicado. Dentro da mata, a vegetação ainda seguia muito úmida, mesmo com a chegada do sol da manhã.

A ideia original era atingir um rampão pela aresta da pedra para ganhar altura, mas a mata se mostrou bem ruim de caminhar. Comecei a entender por que o Baldin havia deixado o plano de lado.
Desisti do rampão e fui em direção à via Lua de Mel para pegar a rocha mais de baixo. Não estava nos meus planos começar a conquista tão do início da pedra. Para essa empreitada, havia levado apenas 30 chapeletas para uma parede de 300m.
Como esperado, nos metros iniciais, a pedra estava molhada e com musgo. Pela posição do sol, não seria hoje que iria secar. Como o trecho era relativamente curto, resolvi encarar do jeito que estava. A ideia era sair dos musgos, atingir um platô e depois buscar um segundo terraço para iniciar a conquista em si.
Claro que, quando alcancei o primeiro platô, “descobri” que não daria para chegar ao próximo platô em solo. Tenho essa mania feia de cometer esse erro, e em várias vias fica essa coisa estranha.
Vi que a rocha ainda estava um pouco úmida, então resolvi gastar mais um tempo ali antes de iniciar a conquista. Do platô, à direita, consegui ver as primeiras chapas da via Lua de Mel, mas, pelo que notei, não teria como acessar a base por lá.
Iniciei a conquista um pouco tarde para os padrões locais (9h20) e para o objetivo do dia, mas na natureza a gente não escolhe, a gente se molda às condições.
A primeira enfiada ficou bem fácil, talvez um III grau com 60m e duas proteções fixas. Estabeleci a parada entre dois platôs de mato. Resolvi fugir deles para evitar o pisoteio da vegetação, que era bem exuberante.

Acima de mim, um pequeno vertical me aguardava, mas resolvi contornar pela esquerda para ganhar tempo e poupar chapeleta. Com isso, cheguei a um grande terraço de mato que havia visto de baixo. A ideia era chegar até esse ponto solando, mas, como se viu, não deu certo. Essa segunda enfiada ficou com apenas 30m e possui apenas uma chapa que bati para orientar a corda. Deve ser um III também, e a parada foi estabelecida em uma árvore.
Dali para cima, uma bela parede mais aprumada me aguardava. Parecia ter uns 60m até o próximo platô, que seria o mesmo da P4 da via Lua de Mel. Como vi que a peleia seria boa, resolvi fazer um descanso maior antes de dar continuidade à conquista.
Surpreendentemente, a terceira enfiada se mostrou muito prazerosa. Belos lances em agarras com poucas passadas de aderência e trechos interessantes em lacas. Infelizmente, as lacas eram cegas e não aceitaram peças. A enfiada ficou com 55m e protegida com 5 chapas. Por pouco não consegui chegar ao platô, mas acho que as futuras repetições conseguirão tocar direto, passando a parada. Na conquista em solitário, a ponta da corda fica amarrada em uma ancoragem da base e, às vezes, isso acaba consumindo um pouco de corda. Nesse caso, tive que amarrar a corda em uma árvore que estava um pouco mais distante da base, o que consumiu uns 5m que fizeram falta no final.


A essa altura, o sol já estava dando as caras e a parede estava completamente seca. A rocha apresentava uma textura agradável e o clima estava ótimo, mas comecei a me sentir cansado. Resolvi fazer mais um descanso no platô, aproveitando as comodidades do espaço.
A minha mochila estava muito pesada com o material de conquista, incluindo móvel, mais os 3L de água que eu estava levando.
A próxima enfiada se mostrou bem tranquila. Na verdade, foi uma escalaminhada (II grau) até chegar a um pequeno headwall. Tentei contornar pela direita para evitar a parede, mas comecei a me embrenhar nos espinhos e resolvi voltar. Poderia ter insistido, mas, pensando nas futuras repetições, achei melhor seguir pelo headwall, que seria mais interessante.

Ainda não sei por que fico achando que as pessoas irão repetir as vias. De qualquer forma, voltei para o headwall e superei o lance (III SUP). Bati duas chapas nesse trecho para ajudar na orientação e estiquei 30m até estabelecer uma parada em duas árvores, a uns 10m do cume.

Cheguei ao cume e pensei em descer dali. Seria tão fácil baixar por alguma via do Jacaré e deixar o projeto de lado. Eu sabia que ainda faltavam uns 200m de escalada e o peso da mochila estava cobrando o seu preço. Além disso, o sol seguia me castigando em banho-maria.
Outro agravante seria o vara-mato que me aguardava com a mochila pesada pelo cume. Pensei em fazer o porteio em duas etapas para diminuir a carga, mas fiquei com preguiça e soquei tudo na mochila. Puxei o facão que havia levado pensando na vegetação e comecei a picar uma trilha. Tentei deixar a trilha aceitável, pensando na minha volta e nas futuras repetições (doce ilusão).
Achei, sem grandes dificuldades, o colo entre a Pedra do Jacaré e o Trono do Jacaré.
Mais um descanso para me recompor e, dessa vez, resolvi comer algo decente, pois até então estava à base de gel energético e água.
Abri uma lata de atum com seleta de verduras. Notei que havia líquido no atum. Aquilo desceu redondo e me trouxe um pouco de ânimo. Estava poupando água ao máximo, então aquele líquido no fundo pareceu uma água extra que não estava no planejamento.
Descansado, fui procurar uma fenda que havia visto pelo drone. Sabia que havia duas fendas, sendo a da direita a que me levaria diretamente à P6 da via Terceiro Elemento.
Achei a tal fenda, que na verdade se mostrou uma fissura frontal cega; mas, como havia bastantes agarras por fora e a parede era pouco inclinada, parecia tranquilo. Mais acima, após um platô, consegui ver a fenda que me levaria à P6 da via.
Pensando nisso, levei um jogo bem enxuto de peças: do #.5 ao #3, e o resto iria resolver na coragem. Mas confesso que, quando vi o tamanho da fenda, começou a me faltar coragem e fiquei um pouco receoso. Bateu aquele arrependimento, pois o trecho tinha uns 30m e era mais inclinado do que o esperado.
Logo na saída, mais uma vez pensando nas repetições, bati uma chapa na fenda cega para ajudar na orientação. Quando cheguei na base do grande diedro, vi que a fenda estava molhada em alguns lugares, mas pelo menos as peças que eu tinha pareciam que iriam servir. Por sorte, havia muitas agarras por fora, o que ajudou na subida. Em 30m, consegui colocar 4 peças das 5 que havia levado. Sucesso total!

Assim que cheguei ao cume do totem, sem dificuldades, achei os dois grampos do Terceiro Elemento. Nunca foi tão bom achar um grampo de alguém durante uma conquista.
As próximas três enfiadas me pareceram tranquilas, mas, como eu estava bem cansado, tive que redobrar a atenção para não fazer nada errado.
Toquei as próximas duas enfiadas, uma de IV e outra de III, embora achasse as duas iguais em termos de dificuldade.

A terceira e última antes do cume fiz em solo para ganhar tempo, um II grau.
Cheguei ao cume às 15h45h, após quase 6h de escalada e totalizando 500m de escalada. A vista de lá é algo impressionante, sem dúvida, uma das melhores da região. Está pau a pau com a vista do topo da Pedra da Cara.


Procurei o livro de cume e vi que a última repetição escalando foi a de 2016, exatamente dez anos atrás. Depois, algumas pessoas subiram caminhando pelo outro lado e assinaram o livro, sendo o último registro em 2025.

Como havia um longo caminho de volta, uns 450m de desnível até a base, tratei de agilizar o retorno. Estava um pouco preocupado, pois só teria 1h30 de luz e tinha algumas dúvidas sobre o rapel.

Cheguei ao colo de volta às 16h30 e fiz mais um descanso. Empacotei tudo na mochila e voltei para o vara-mato.
Em vez de descer pela própria via, resolvi descer pela via Paredão Lacoste. Eu já tinha descido por ela em 2024, durante o Encontro de Escalada, mas tinha um pouco de dúvida sobre qual árvore usar para abrir o rapel.
Achei a tal árvore sem muita dificuldade, pois é bem característica. Iniciei o rapel às 17h, com o sol já se pondo atrás das montanhas. Como deixei o carro em um ponto e estava descendo pelo outro, sabia que, depois de terminar o rapel, ainda teria uma boa caminhada para chegar até ele. Mas, naquele momento, tratei apenas de focar nos procedimentos sem cometer nenhum erro.
O rapel foi rápido e, às 17h30, cheguei ao chão. Enquanto descia o rampão final, vi de longe o Fabinho na moto. Parecia estar indo para a cidade, mas, de repente, ele virou no cafezal e começou a vir em minha direção. Que alívio! Após passar o dia sem falar com ninguém, foi ótimo conversar um pouco.
O Fabinho me levou de moto até o carro, me poupando de uma caminhada marota no final. Dali, foi pé na estrada até Vitória: mais 3h de carro.
Sobre o nome da via, batizei de Sobek, uma divindade da mitologia egípcia retratada como um homem com cabeça de crocodilo, fazendo uma alusão à Pedra do Jacaré.
