Face sul dos Três Pontões de Afonso Cláudio

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Face sudoeste dos Três Pontões.

“Anoiteceu e começou a chuviscar. Nada víamos no meio da neblina. Tínhamos apenas alguns grampos de 1/4, fabricados pelo Natanael. Eles seriam nossa garantia de retorno. Não eram muitos, e não sabíamos exatamente  extensão da parede. Fiquei preocupado.”

Enquanto lia esse trecho do livre de Jean Pierre, Horizontes Verticais, eu estava deitado num pequeno platô que havia cavado há pouco com uma laca de pedra para nivelar o chão. Nessa passagem, Jean Pierre narra a história sobre a conquista da Chaminé Norte nos Três Pontões de Afonso Cláudio em 1970 e suas dificuldades para conseguir descer da pedra à noite.

E 45 anos depois, nesta mesma montanha, lá estávamos nós, eu e o Gillan, jogados num chão poeirento, no meio da parede, esperando o sonho chegar. Confesso que foi uma sensação muito estranha, ler sobre a conquista da via in situs. Sentia me como se eu estivesse fazendo parte da narrativa, vivendo o calor da hora. E na verdade estava mesmo, porém quatro décadas e meio depois.

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Literatura de montanha: Horizontes Verticais de Jean Pierre.

Naquele dia, a alvorada foi às 5h30 da manhã em Vitória. Joguei os pesados equipamentos de conquista no carro, passei na casa do Gillan e rumamos até os Três Pontões de Afonso Cláudio, distante a 160km de Vitória.

Chegamos no “estacionamento” por volta das 9h da manhã, o sol já estava à pino. O dia prometia ser longo e duro! Botei o maldito haulbag carregado até o talo com material de escalada, conquista, bivaque e água para dois dias. E lentamente fizemos a aproximação pelo cafezal e encaramos o costão de 200m até a base da via “Inferno na Torre”. Chegamos na base da via por volta das 11h, nos encordamos e iniciamos a escalada com as nossas pesadas mochilas nas costas. Eu já estava safo desse trecho, mas com um haulbag nas costas o buraco ficava mais embaixo.

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Um auto-retrato antes do sofrimento. Haulbag carregado até o talo.

Vencemos a 1a enfiada, vencemos a 2a enfiada e quando chegamos na escalaminhada final que leva até a base do Dedinho o bicho pegou para o nosso lado. Chegamos exaustos na base do Dedinho! Tratamos de comer alguma coisa para tentar repor as energias, mas ainda assim não foi o suficiente. Então nos jogamos num canto e tiramos uma soneca para ganhar um pouco de ânimo.

Meia hora depois, estávamos em pé, meio em pé! Ainda tínhamos uma meta a ser alcançada naquele dia: Chegar até o final da via “Garganta Seca” e deixar ela equipada com corda fixa para o dia seguinte.

Essa via, que fica na face sul do Pontão Maior, de costa para o Dedinho, foi conquistada por mim, Felipe Sertã e Rodinho no início deste ano. Trata-se de uma fenda perfeita de aproximadamente 50m de extensão numa aresta vertiginosa que rendeu o sugestivo nome de Garganta Seca. E se não bastasse a exposição, a via, toda em móvel, tem um crux definido de 7o grau no início da 2a enfiada numa seção levemente negativa.

O Gillan guiou a 1a enfiada e sentiu na pele o “lance da geladeira”, logo na saída, e a exposição da via até chegar na P1. Assumi a segunda enfiada com o estômago embrulhado, pois sabia que o crux seria duro e tijolante. Passei o crux com a dificuldade esperada e fui tocante por aquela fenda que teimava em não acabar nunca, enquanto que as peças do meu rack iam sumindo aos poucos. Cheguei na parada no limite. O Gillan subiu de segundo para provar a fenda, fixamos a corda e descemos até o platô, onde seria o nosso bivaque.

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Gillan no final da 2a enfiada da via “Garganta Seca”, minutos antes de anoitecer.

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Sombra dos Três Pontões ao entardecer visto da P2 da via “Garganta Seca”.

O nosso objetivo para o dia seguinte seria subir pela corda fixa e continuar a conquista pela face sul até o cume do pontão maior.

À noite, comemos até não aguentarmos mais e nos acomodamos do jeito que deu para passar a noite. Felizmente a noite foi bem agradável e conseguimos descansar um pouco.

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Clássico prato de montanha: atum com saca-nut!

No dia seguinte, a alvorada foi às 6h, com a chegada dos primeiros raios de luz. Tomamos um café da manhã reforçado e fomos para o exercício matinal, jumarear 50m pela corda fixa e içar um haulbag pesado com todo o material de conquista para o dia.

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Bivaque na base do Dedinho.

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Dedinho visto de um outro ângulo.

Normalmente esse tipo de trabalho não me exige muito, mas o dia anterior foi pesado, e somado ao cansaço da semana, parecia que o haulbag estava forrado de manilha!!

Chegamos na parada e encaramos a pedra. Já sabia de antemão que o trecho acima da fenda seria casca. Inclusive foi por causa disso que tinha desencanado de continuar a conquista da outra vez e considerei a via pronta até ali, mas o Gillan, após escalar comigo o Dedinho no início do ano, caiu nos encantos da linha e quis porque quis dar sequência à linha.

Como a ideia foi dele, ele começou assumindo a bronca, conquistando um trecho bem vertical com poucas agarras e sem muito lugar para bater as proteções. Após uma enfiada super curta de uns 8m o Gillan chegou na virada onde encontrou um “platô” razoável e ali batemos uma parada. Assim, eu poderia sair daquela geladeira suspensa e ir para um lugar mais confortável e menos “cagante”.

Olhei para cima e não gostei muito do que vi. Na minha imaginação, o próximo trecho seria mais fácil e tranquilo, mas infelizmente se mostrou bem aprumo. Assumi a ponta e fui como uma barata tonta tentando abrir caminho pedra acima, escalando de um lado ao outro. Após uma zigue-zague atrás de agarras acabei puxando uma diagonal à esquerda em busca de um platô e “terras menos aprumadas”. Bati a parada no platô e dali já dava para sentir o cheiro do cume, mas como sempre, havia um problema: nesse trecho final, as agarras sumiram de vez e tudo ficou muito liso, sem contar a vegetação que teimava em esconder “o nada”.

Sorte minha porque a ponta era do Gillan e lá foi ele em busca do “nada”. Uma chapa, mais alguma progressão em A0, depois em livre e o cansaço começava se mostrar cada vez mais evidente nele. Da parada dava para ver que os movimentos dele já não eram coordenados e o raciocínio um pouco fora de lógica para um acadêmico em engenharia. De repente, quando ele foi sacar a furadeira da mochila para fazer um furo, acabou deixando cair a mochila com as brocas e o batedor reserva. Num movimento de puro reflexo e instinto consegui pegar a mochila antes que caísse num vão de 300m e sumisse na mata.

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Gillan no trecho do “nada”. 

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Parada organizada. O rapel pronto para a volta!

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Passando o tempo com um selfie!

Assim que o Gillan chegou na virada, o “Tico e o Teco” pediu arrego e ele pediu para descer para que eu pudesse dar uma olhada, pois não sabia mais o que fazer. Para um cara como o Gillan que é fominha por ponta de corda, pedir para trocar de lugar, a poucos metros do cume, era porque a coisa estava feia para o lado dele.

Para piorar as coisas, o tempo estava se esgotando e dava para ver o sol se encaminhando para sumir no horizonte. Trocamos de lugar e subi o mais rápido que pude pensando: se o trecho seguinte não for fácil, vou descer dessa montanha o quanto antes. E ficava lembrando da histórias do Jean Pierre que havia lido na noite anterior.

Não queria descer essa montanha no escuro! Já tinha descido duas vezes no escuro, sendo uma com chuva, então sabia que o sofrimento seria grande. Quando cheguei na última proteção que o Gillan havia batido, consegui ser o resto da pedra. Para o meu alívio, a pedra perdia inclinação e havia vários trechos de mato para ganhar tempo. Subi o mais rápido que pude, batendo uma ou duas chapas (não me lembro, porque o meu Tico e Teco também estava ruim) e bati no cume por volta das 16h 30!

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Cume!!!!

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Gillan mostrando o carro. Aquele ponto branco ao lado da estrada… Até lá, muitos rapeis…

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Entardecer visto do cume do pontão maior dos Três Pontões.

Chamei o Gillan, tiramos umas fotos no cume, refiz os meus votos arrumando o totem que havia construido da última vez que estive no cume e tratamos de começar a descer o quando antes.

Do cume até a base foram mais 7 rapeis e a noite nos alcançou no quarto rapel. Felizmente, a partir dali, eu já tinha bastante conhecimento para não nos perdemos mais e conseguimos descer bem tranquilos em meio a escuridão.

Como o Gillan parecia que tinha bebido pinga e trocava os passos, achamos melhor rapelar o costão final até o cafezal. E após 2 rapeis e mais uma caminhada, finalmente chegamos no carro, sãs e salvos!

Senti um alívio imenso em poder sair da montanha após dois dias nela e enquanto admirava a montanha na escuridão, ficava pensando naquela passagem do livre de Jeam Pierre e tentava imaginar o alívio que eles também sentiram ao conseguirem deixar a montanha.

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Últimos raios de sol.

Croqui

2015.08.03_Gargantas

Comentários

3 respostas

  1. ‘Nós’ trupica mas não cai!

    Vai que você puxava minha orelha por ter cortado pro mato no finalzinho do sofrimento, quero dizer, da via?! kkkkk

    Obrigado por mais esse final de semana épico!

    Depois que a galera for repetir a via e “limpar” um pouco os liquens das agarras a gente volta lá!!

    Valeuuuu

  2. Lendo esse relato, passei momentos de aflição, felicidade, ansiedade e admiração. Me proponho a ir “limpar” a via, mas enquanto ainda não chego ao nível exigido, vou atrás da leitura do horizontes verticais! A via parece ser incrível! Parabéns aos conquistadores e que venham mais conquistas!

  3. Legal Legal! Sarah!!! Três Pontões é um lugar incrível! Vale demais uma visita! Abs

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