Expulsos do Paraíso

Estava tudo certo para o final de semana: mochila arrumada e destino definido! Por volta das 21h de sábado, tive aquele momento de intuição e algo me dizia que eu deveria mandar uma mensagem para o escalador Roberto Teles, de Afonso Cláudio, para falar que estava indo para aqueles lados.

Mandei uma mensagem explicando o plano: conquistar uma via numa pedra que fica ao lado da Pedra da Broa, em Afonso Cláudio. Estive nessa região pela primeira vez com ele, o Guilan e o Robinho, em 2o15 quando conquistamos a via Freira de Biquíni. Anos depois, subi ao cume da montanha ao lado por uma longa crista. Nessa segunda ida, dei uma rondada na região e senti que algo não ia bem naquele canto.

Sempre achei essas sensações coisa da minha cabeça e nunca as levei a sério ou dava a devida atenção, mas nos últimos anos tenho me ouvido mais.

Bingo! O Roberto me falou que o dono das terras da base não permite que as pessoas acessem a montanha por aquele lado. Um misto de alívio e frustração tomou conta de mim.

Tenho a impressão de que esse movimento de massificação de pessoas indo para a natureza em grandes grupos comerciais está afetando de forma negativa os proprietários das terras e nós, escaladores, acabamos entrando na farinha do mesmo saco e pagando a conta. Contemplar a natureza precisa ser um ato discreto, contemplativo, e não algo massivo como vemos com frequência.

Como o plano A foi por água abaixo, tive que reprogramar o domingo de última hora.

No fim, decidi ir para Pancas. Havia um risco de chuva para a região, embora a previsão não indicasse essa possibilidade; mas sempre que há entrada de instabilidade marítima (vento leste), tem chance de chuva passageira pela manhã na região. Chuva essa que logo para, mas compromete a parte da manhã.

Convidei o Iury de última hora, pois, da outra vez, ele reclamou que não o chamei. Ele teve que dar os pulos dele em casa para desmarcar a agenda de domingo, mas no fim deu tudo certo.

Domingo, 4h da manhã, eu já estava na estrada. Chegando em Baunilha, a uns 20 km de Colatina, o tempo virou e começou a chover com vontade. Limpador de para-brisa a mil pelo Brasil, mas como o Iury não me mandou nenhuma mensagem avisando da chuva, interpretei que a chuva era local.

Chequei as mensagens de texto e o Fabinho também não falou nada de chuva pelos lados de Pancas, então seguimos com o plano.

Encontrei o Iury no posto e seguimos viagem. O tempo não melhorava e, quando chegamos no alto de Colatina, olhando para a região norte, entendi que a chuva não era localizada. Porém, olhando para os lados de Linhares, o tempo já estava abrindo. Era a tal umidade marítima da manhã…

Chuva da manhã na Pedra da Rita.

Chegamos em Pancas logo depois da chuva. Pela cara do asfalto, choveu bem em alguns minutos. As paredes do entorno estavam bem molhadas, mas sabíamos que em duas horas tudo estaria menos molhado.

Fomos ver o primeiro alvo do dia, na saída de Pancas: a Pedra do Cruzeiro. Naturalmente, estava molhada. Levantei o drone assim que as nuvens se dissiparam. O voo mostrou que a linha escolhida era muito vertical. Desistimos.

Pancas ao amanhecer.

Decidimos ir para Lajinha, pois lá tínhamos algumas montanhas em mente de outras idas à região. No caminho, paramos na Pedra Esticada. Vimos uma linha interessante e parecia que ali a chuva havia sido mais fraca. Resolvemos procurar os donos das terras para solicitar acesso por um cafezal, mas não encontramos ninguém. Para evitar problemas, abortamos a investida. Voltaremos assim que conseguirmos o acesso.

Nesse meio-tempo, o tempo voltou a ficar estranho. Parecia que a chuva iria voltar. Então resolvemos interiorizar para fugir dela e fomos em direção a Baixo Guandu.

Já rodei por aqueles lados, inclusive escalei uma via em Itapina com o Zé, o Eric e o Tesoirinho. É uma região com bom potencial, mas pouco explorada.

O tempo foi melhorando e seguimos em direção a Aimorés. Lembrei da Pedra Lorena, uma pedra que fica ao lado da Barragem de Aimorés, já em Minas Gerais.

Já fui até a base dessa montanha numa outra ocasião, mas tive uma sensação, uma intuição, de que ali haveria problemas, então a deixei de lado.

Face norte da Pedra Lorena

Aquela região, na divisa entre Aimorés, Baixo Guandu e Resplendor é um lugar muito bonito por causa do Rio Doce que corta a área, mas, ao mesmo tempo, parece um lugar estranho. Parece que guarda uma energia esquisita.

Historicamente, é uma região de muita disputa entre os povos originários, os Krenak, e os colonizadores. Até hoje, os Krenak reivindicam as terras de volta. Tem um documentário bem interessante que mostra esse conflito, vou deixar o link aqui:

Mais recentemente, Aimorés sofreu com a instalação da Barragem de Aimorés, que alterou o curso do rio e mudou a paisagem da cidade. Também tem um documentário muito interessante sobre os impactos da barragem na cidade, vou deixar aqui:

Também tem a questão do desastre ambiental de Mariana, que afetou a vida dos pescadores da região que dependiam do rio para sobreviver da pesca.

Chegamos na barragem e fomos lendo todas as placas que víamos pela frente para saber se havia algum aviso. Cruzamos a barragem e fomos estudar a pedra. Como de praxe, levantei o drone para fazer o reconhecimento da face sul, que parecia a mais promissora e estava na sombra.

Acho que não levou nem 5 minutos e uma moto apareceu. Era o segurança da represa dizendo que nós não poderíamos estar ali, pois era uma área particular. Pelo tempo de reação, uma câmera de videomonitoramento nos pegou e mandou o segurança nos tirar de lá.

Entendo que barragens são áreas estratégicas e de suma importância. Quando fomos visitar a represa Hoover em Las Vegas (EUA), lembro que tivemos que passar por várias camadas de segurança para poder fazer a visita.

Conversamos com o segurança de boa, tentamos explicar as nossas intenções, mas não teve conversa: tínhamos que sair dali, e rápido!

Bater boca ali não resolveria, só iria estragar o nosso dia, então arredamos o pé. Nem tive tempo para baixar o drone. Saímos do perímetro da represa para onde o segurança havia nos indicado e seguimos observando a pedra. Entendemos que fora daquela área estaríamos livres para a nossa escalada.

Voltamos os olhos para a face norte, a oposta. O drone seguiu vasculhando a área e vimos um bom potencial. O lado ruim era o Sol: face norte significa Sol o dia inteiro. Além disso, essa face fica de costas para o Rio Doce, a principal atração da região.

Escolhemos uma linha estética que proporcionasse uma conquista tranquila, com uma bela vista para a região.

Como há uma trilha de caminhada que leva ao cume por esse lado, entendemos que o acesso era liberado e fomos em direção à pedra.

A rocha é um pouco diferente de Pancas; geologicamente, é mapeada como outro grupo, chamado Suíte Aimorés. É um granito bonito com grandes cristais de feldspato branco que formam aquelas agarras em “choquito”, cortado por vários veios de pegmatito (vulgarmente chamados de cristaleiras de quartzo).

Escolhemos uma parede mais vertical e cheia de lacas para começar os trabalhos. Quis ir pela parede mais vertical, mas tive a intuição de que seria desnecessário, então optei por uma abordagem mais conservadora, buscando uma laca invertida logo na saída.

Como estávamos conquistando fora do Espírito Santo, pelas regras da Associação Capixaba de Escalada para o uso de material de conquista, não estaríamos sendo subsidiados nessa investida e não poderíamos usar o material da associação. Ou seja, o material de conquista conquista deveria do meu estoque pessoal.

Com isso, cada proteção fixa iria nos custar R$ 30,00. Então, mais do que tocar para cima, tínhamos que buscar a linha mais fendada possível para economizar alguns reais.

A primeira enfiada se mostrou muito estética e interessante: escalada em lacas que por vezes parecem suspeitas e belos lances até uma parada que estabeleci após esticar 40 metros de corda. A ideia de deixar essa parada mais baixa foi para facilitar o rapel, pois, no início, escalaminhamos uns 20 metros desde a base. Com isso, na hora do rapel, foi possível descer direto até o chão, sem precisar desescalar o lance inicial.

Iury chegando na P1.
Dando segue

A segunda enfiada nos jogou para a esquerda, tentando buscar mais algumas lacas para poupar o custo da conquista. Daria para seguir reto para cima tranquilamente, mas por ali não teríamos como usar material móvel.

Tocando a 2a enfiada.

A terceira enfiada parecia mais fácil que a anterior. Ofereci a ponta da corda para o Iury tocar. Ele ficou no “vou ou não vou”, fritando os neurônios. Essa é uma parte difícil da conquista. Eu incentivo, mas não insisto. Achar o meio-termo entre pilhar demais e pilhar errado é bem complicado, pois há muitos riscos envolvidos. No fim, ele aceitou e tocou a próxima enfiada.

A essa altura, a rocha ficou mais sólida e as lacas estranhas da primeira enfiada sumiram. O Iury também achou uma laca onde conseguiu encaixar duas peças antes de chegar na parada. Eu achei essa laca bem ruim; minha recomendação é colocar uma peça menor um pouco mais acima, onde a rocha é melhor.

A última enfiada seria uma espécie de headwall. De baixo, aquilo nos preocupava um pouco, pois parecia bem lisa. No entanto, quando chegamos na base, vimos que essa parte era cheia de agarras com bons platôs para bater chapa. Mais uma vez, consegui uma boa colocação numa laca no final da enfiada, poupando uma chapa.

Iury chegando na P4.

Dali, uma escalaminhada curta nos levou ao topo da pedra. Chegamos ao cume por volta das 14h 30, com o Sol nos castigando com força, mesmo sendo inverno.

Escalaminhando para o cume.
Cume!
Vista do Rio Doce.

Comemos umas frutas secas com atum e logo tratamos de iniciar a descida, pois ainda havia um longo caminho de volta até Vitória e Colatina.

A via em si ficou bem tranquila. Como estava abaixo da minha linha de conforto, tentei cuidar para não deixá-la mal protegida, mesmo sabendo que as proteções fixas estavam a preço de ouro. Quem sabe assim incentivo outras repetições, pois o lugar merece, apesar de todos os problemas.

Para repetir a via, são necessárias 4 costuras (sendo algumas longas), um jogo de Camalot do #.4 ao #2 e duas cordas de 60 metros se for descer pela via. Se a descida for caminhando, basta uma corda de 60 metros.

Comentários

Uma resposta em “Expulsos do Paraíso”

A Lorena nos recebeu muito bem, ainda mais que chegamos bem tarde nesse dia. Linda via.

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.