Receita para começar 2015 com o pé direito!

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Pedra sem nome em Praça Oito (?), Itarana – ES.

Receita para começar 2015 com o pé direito: crie uma teoria furada, convença mais dois amigos, pegue um saco de chapeletas, coloque tudo num jipinho por duas horas e leve ao forno durante 6h em fogo baixo até sair uma via tradicional! Ao final, você terá uma via chamada “Sombra Ensolarada”, com 320m de extensão, grau médio de 4o grau com lances de 5o SUP/6o!

A teoria furada, também conhecida como o fermento do bolo: Não preciso nem dizer que esse verão está sendo um dos mais quentes de todos os tempos. Se aqui no Espírito Santo faz calor naturalmente, imaginem num verão atípico como esse! A única coisa que salva um pouco é o vento da praia que ajuda a refrescar, mas longe disso, nas montanhas, o calor é absolutamente sufocante. Escalar sob essas condições é praticamente impossível, mas isso, se você não tiver uma boa teoria!

Na aula de geografia nos aprendemos que o eixo da Terra tem uma rotação de aproximadamente 23 graus e que o mesmo gira em torno do sol, criando assim, o que conhecemos como as 4 estações do ano. Por causa desse fenômeno, a posição do sol varia de latitude ao longo do ano, incidindo em ângulos diferentes sob a superfície da Terra e consequentemente criando sombra em posições diferentes. No hemisfério sul, durante o verão, o sol incide preferencialmente de sul, criando sombra nas montanhas com a face voltada para o norte. E já durante o inverno, acontece o contrário.

Pesando nessa linha de raciocínio, imaginei que, se achássemos uma montanha com a face voltada para o norte, poderíamos escalar de boa nesse calor, já que ficarmos na sombra o dia todo. E assim fui em busca de uma montanha com tais características. Logo descobri que no ES a maioria das vias estão com a face virada para o quadrante sul, ou seja sol no lombo. Se não tem via com tais características, a solução seria abrir uma via em uma montanha com a face virada para o norte. Assim, comecei a procurar com Google Maps alguma montanha com essas características. Com a ajuda do programa TPE fui estudando as oportunidades até chegar numa montanha em Itarana! Bingo! Era para lá que iríamos no sábado!

Contei a mesma história para o Maurício PA e para o Afeto e eles acharam a teoria interessante e plausível!

Por garantia, saímos bem cedo de Vitória (4h45). Vai que… Rodamos mais 2h e fomos reto em direção à montanha. Conversamos com o dono das terras, o Sr. Valdir, pedimos autorização que concedido sob uma única condição: que não caíssemos da montanha! Garantimos que não iríamos cair e seguimos em frente.

Sempre causa apreensão ver uma montanha pela primeira vez, principalmente quando escolhemos o alvo baseado em imagem de satélite do Google. Por sorte a montanha se mostrou muito promissora. Analisamos as possibilidades e logo concluímos que a melhor opção seria seguir por uma grande calha d’água seca pela parte mais inclinada da pedra. Com o calor que anda fazendo por aqui, essa calha não vai receber água por um bom tempo…

Fizemos uma aproximação ridícula de 50m até a base da pedra e começamos a escalada. A saída tem um costão de uns 120m de IIo/IIIo grau até chegar num ponto que a pedra ganha inclinação. Embora a altura seja essa, por causa da volta, deve ter uns 150m de escalada até a base. Vide croqui no final!

A partir dali, o Afeto abriu a conquista esticando 60m de corda num trecho relativamente tranquilo, passando por um crux definido por ele como “um 5o grau fácil”. Vai vendo…

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Afeto se preparando para começar a conquista.

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Alguém arruma uma escovinha para o cidadão?!

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Afeto no crux da 2a enfiada.

A próxima enfiada ficou por conta do PA que encarou um terreno fácil até chegar no crux num trecho mais inclinado. Há uns 4 anos, o PA estraçalhou o pé ao cair num platô em uma via tradicional em Cachoero (ES). Isso acabou custando quase 2 anos de recuperação até voltar novamente à ativa. E esse lance do crux tem exatamente os mesmos ingredientes da via de Cachoero. Um platô, uma proteção e depois um esticão sem muito lugar para poder bater uma chapa. Com certeza deve ter sido uma batalha metal passar por um lance semelhante, e o pior, conquistando… Por sorte nenhum choquito de feldspato explodiu e ele chegou com todos os ossos intactos na P3. Essa enfiada ficou com aproximadamente 50m de extensão.

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Dando segue e fazendo pose na P2. Ao fundo, a Pedra da Onça encoberta pelas nuvens. Santo nuvens! Foto: Caio Afeto (GOPRO).

Seguindo a ordem, a próxima enfiada ficou por minha conta. Tive a sorte e o azar de pegar o trecho mais chato da via, onde a pedra fica mais inclinada e tive que exigir mais das panturrilhas para fazer os furos. Essa enfiada acabou ficando um pouco mais curta com uns 30m de extensão até chegar num confortável platô.

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Afeto limpando a quarta enfiada. Detalhe para a garrafa d’água. Sentiram o drama? O carro fica estacionado ao lado do lago, numa sombra!

Dali para cima, já deu para sentir o cheiro do cume. O Afeto pegou a ponta da corda novamente e partiu de tênis para fechar a 5a e a última enfiada.

Batemos no cume por volta do meio-dia, curtimos a paisagem, fizemos um lanche, tiramos umas fotos e partimos para baixo.

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Chegando no cume!

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Foto clássica! Ao fundo, a Pedra da Onça.

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Behind the scene! Câmera apoiada num tripé especial! Ai meu coração! Foto: Caio Afeto (GOPRO).

Esqueci de falar que nessa fórmula há um coeficiente chamado “coeficiente de sortudo” que às vezes ajuda os montanhistas. Quando chegamos na base da montanha, toda a região estava coberta por uma nuvem baixa que cobria o cume de praticamente todas as montanhas. Essa nuvem baixa persistiu até o meio da manhã quando começou a dissipar com o aumento da temperatura. Isso nos permitiu escalar super confortável num clima bem ameno. Quando as nuvens dissiparam, o sol veio com tudo na nossa cuca! Sabe aquela teoria da face norte? Não funcionou! Se não fossem as nuvens, provavelmente nós não teríamos concluído a via. Por isso o nome da via ficou “Sombra Ensolarada”!

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Ao sul, cumulus nimbus! Vista do cume.

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Começando o longo retorno na pior hora do dia! Socorro!

Na volta, o Sr. Valdir ainda falou para nós: vocês tiveram sorte hoje, porque tinha nuvem! Senão… Coeficiente de Sorte, Sr. Valdir…

Localização:

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Segue o croqui da via:

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Sobre a via:

  • Costão inicial: Dá para começar de qualquer lugar, mas é preciso ficar de olho nas “barrigas” que tem no meio. Nós começamos o costão a partir de um totem fendado que fica bem à esquerda da via. Sobe o totem e depois vai fazendo uma travessia à direita passando por 3 calhas d’água até chegar na parada. Não sei se a parada é visível do chão. É importante lembrar que caso desista da escalada e desça pela via é preciso desescalar esse trecho;
  • Não é possível de rapelar da P1 até o chão. Em caso de tempo ruim, com possibilidade de chuva, não entre na via sob o risco de ficar preso. A via transcorre por uma das inúmeras calhas que tem na montanha e além disso a desescalada do costão fica mais perigosa com a pedra molhada;
  • A via está protegida com chapeletas de aço e parabolt de 10mm. As paradas estão duplicadas e sem argola ou malha. Caso precise descer, é necessário abandonar uma fita;
  • Na 4a enfiada, a última proteção, antes da parada, sugere que a linha segue pela esquerda, mas na verdade, o lance é pela direita. Dá para ir pela esquerda, mas é muito mais difícil por esse lado;
  • A última enfiada não tem nenhuma proteção e a parada é em árvore;
  • Não há livro de cume, pois é possível acessar o cume caminhando;
  • Para descer a montanha é possível descer tanto pela aresta sul quanto norte.

Equipamento necessário para repetir a via:

  • 9 costuras;
  • 1 corda de 60m (caso não precise descer pela via);
  • Material para parada.

Pelo visto, 2015 começou com uma boa pitada de sorte. Espero que ela nos acompanhe em 2015 e nos traga bons frutos.

Agradecimento especial ao Afeto e ao PA por mais um dia na montanha.

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Montanhas capixabas, visto do cume do Goiapaba-açu.

3 Responses

  1. Parabéns por mais esta conquista e que 2015 seja para vocês rapazes de grandes subidas.
    Desejo sorte + sorte e muita sorte.

    Abraço!

  2. Grande Naoki!
    Feliz 2015 para ti!
    Parabens pela conquista e pelo blog!
    Graças as trocas de e-mails e as fotos que vi por aqui arranjei coragem e peguei uma fuji x100T para mim!
    Abraços!

  3. Opa, feliz 2005 pra ti também!
    Que massa! Vai gostar demais! Ah se ela fosse full frame…. Venderia tudo e ficaria só com ela!
    Bons cliques!

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