Pedra Esticada, a tentativa

Na semana passada, Iury e eu tentamos acessar uma das faces da Pedra Esticada, em Pancas, mas acabamos abortando a missão porque não encontramos os proprietários das terras para solicitar a passagem.

No último sábado, voltei novamente a Pancas, mas dessa vez com o Eric, para fazer mais uma tentativa. Dessa vez, encontramos os proprietários e conseguimos a permissão, mas logo descobrimos que o ponto onde queríamos chegar ficava na propriedade do vizinho. Eles nos disseram que não haveria problema em passar por ali, mas achamos melhor conversar com o proprietário ao lado para evitar qualquer mal-entendido.

Antes de resolver a parte burocrática, fomos fazer mais um voo de drone para nos certificarmos de que valeria a pena incomodar o vizinho.

Pancas ao amanhecer.

A Pedra Esticada já possui uma via na face norte, conquistada por mim e pelo Iury em 2021 e batizada de “Gol de Placa”. Em 2024, junto com o Chuck, realizamos a primeira ascensão em livre e, até onde sei, essa via não possui outras repetições.

Já a face leste é voltada para a rodovia que leva a Pancas. Nessa estrada, em um dado momento, logo após a ponte sobre o Rio Pancas, a pista fica de frente para a pedra. Sempre que passo por esse trecho, fico imaginando uma linha bem nessa face, mas entendia que seria trabalhoso demais.

O voo de drone revelou uma particularidade geológica muito interessante. Nessa parte da pedra, a rocha está sofrendo um processo que os geólogos chamam de intemperismo esferoidal. Esse é um fenômeno muito comum em granitos/gnaisses sob climas quentes e úmidos, que costuma ocorrer debaixo da terra. Nas grandes paredes verticais de Pancas ele é raro de se ver preservado, pois quase todas as antigas camadas externas já foram erodidas e derrubadas pela ação da gravidade ao longo do tempo. Ali, no entanto, partes dessas feições ainda estão preservadas, com a rocha se desprendendo como se estivesse sendo descascada — o chamado efeito “casca de cebola”. Do ponto de vista da escalada, nesse tipo de processo é bastante comum encontrar fendas justamente no limite dessas cascas, oferecendo excelentes linhas de escalada em móvel.

De fato, o voo mostrou uma série de pequenas lacas com bom potencial. Traçamos a linha que melhor conectava as fendas da base até o topo e resolvemos falar com o segundo proprietário.

Encontramos o dono das terras trabalhando no cafezal. Explicamos as nossas intenções e solicitamos passagem. A conversa foi bem amistosa e ele nos autorizou a acessar a pedra pelas terras dele.

O primeiro desafio seria vencer a aproximação. De longe já sacamos que seria bem sofrida: um longo trecho de costão, seguido de vara-pasto e, para coroar, uma escalaminhada que parecia uma via. Para deixar tudo mais dramático, o sol prometia castigar. Mesmo em pleno inverno, o dia estava muito quente por causa da chegada de uma frente fria prevista para o dia seguinte.

A aproximação foi dolorosa como sempre. O pior trecho foi o do pasto alto, onde cada passo exigia que levantássemos a perna acima do joelho para vencer o capim alto. Chegamos ao ponto mais alto do costão com vegetação, mas, como ela estava bem fechada, acabamos saindo muito à direita da linha pretendida. Assim, tivemos que fazer uma longa travessia à esquerda para alcançar a base do diedro que vimos lá de baixo.

Pedra Esticada e o longo approach.

Em um dado momento, o costão ficou mais vertical e resolvemos nos encordar por segurança. Logo, o Eric teve que puxar a furadeira e colocar uma chapa. Após esticar mais 55 metros, chegamos a um segundo platô mais à esquerda. Mesmo assim, ainda não estávamos alinhados com a fenda pretendida.

À medida que subíamos, eu só conseguia imaginar como seria a volta e o trabalho que daria para descer todas essas diagonais.

Cafezal.

No segundo platô, estabelecemos oficialmente o início da via. O Eric assumiu a ponta com a missão de tocar a horizontal para a esquerda. Surpreendentemente, a escalada fluiu de forma muito agradável: as fendas foram surgindo e as agarras eram abundantes. Por um momento, esquecemos o calor e a aproximação; parecia que tudo daria certo.

O Eric esticou uma corda inteira de 60 metros, bateu somente três chapas e protegeu todo o restante em móvel. Parecia que não estávamos em Pancas, mas sim em algum pico na gringa.

Subi até ele com o haulbag lotado de material de conquista. Nesse momento, senti o peso do sol. A mochila pesada nem estava me incomodando tanto, mas o calor do inverno sim.

Da P1, finalmente tive uma boa noção das fendas. O voo de drone ajuda a mapear a parede, mas alguns detalhes só se resolvem de perto. O ponto que mais me preocupava era a qualidade da fenda. Sabia que ela poderia ser cega, o que seria um grande problema, pois a rocha era muito vertical no trecho que pretendíamos subir. Então, era imperativo que a fenda fosse boa e aceitasse proteção móvel.

Assumi a ponta da corda com a missão de chegar à base da fenda. Mais 30 metros entre móveis e uma chapa me levou até ela. Assim que a vi o diedro, constatei o que mais temia: a fenda era descontínua e cega, com poucos trechos abertos. A linha seguia sendo a opção mais natural, mas a escalada não seria fluida.

Avaliamos o contexto e concluímos que não valeria a pena seguir com a via. Para mim, o que mais pesou foi a estética e a proposta da linha e, do jeito que estava, a escalada não ficaria limpa e bonita.

Pedra Esticada

Desistir nunca é gostoso. Gastamos tempo e dinheiro para chegar até ali, mas consideramos que seria a melhor decisão. Conjecturamos tentar uma nova linha mais à direita, mas preferimos voltar à prancheta, estudar tudo do zero e voltar outro dia.

Fizemos uma longa pausa no platô para recarregar as energias e iniciamos a longa descida sob o sol de Pancas.

A ideia de abrir uma via naquela parede continua viva. A vivência trouxe novas experiências e um melhor entendimento da face. Agora é rever as imagens, estudar uma nova linha e aguardar uma boa janela de tempo.

Pancas

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