Super Aurora Tropical

Em maio de 2024, Tesourinho e eu conquistamos um pequeno diedro de uns 30m no lado direito de um totem. A via foi batizada de Aurora Tropical e fica na Pedra da Fortaleza, em João Neiva. O post sobre a conquista está aqui!

Uma semana depois, dessa vez na companhia do Eric e do Graveto, voltei ao mesmo totem e conquistamos outra esportiva em móvel, a Carne de Sol (V SUP), à direita da Aurora Tropical, fora do totem.

Em novembro de 2025, Tesourinho e eu voltamos novamente à pedra para tocar a continuação da Aurora Tropical, com o objetivo de abrir uma tradicional para fazer o cume. O post está aqui! Naquela ocasião, acabamos gastando todas as chapas na seção inferior, que ficou bem dura, e não conseguimos concluir a conquista. Descemos faltando uns 60m para o cume.

Pedra da Fortaleza, na parte inferior da imagem.

No último sábado, realizamos mais uma investida com a missão de concluir a conquista, pois essa já estava caindo de madura. Devido à influência do El Niño, o inverno por aqui anda oito ou oitenta: dias quentes alternados com dias frios e com uma amplitude térmica diária na ordem de 15 graus Celsius, algo que nunca vi por aqui. E sábado não foi diferente. Às 5h da manhã, o termômetro estava marcando 16 graus Celsius em João Neiva e, ao meio-dia, 30 e “lá vai cacetada”.

Por isso, resolvemos entrar cedo na via para garantir o frescor da manhã. Acho que largamos o carro e iniciamos a aproximação por volta das 7h. A aproximação é super tranquila: alguns metros caminhando na beira da estrada que liga João Neiva a Barra do Triunfo e depois uma subida íngreme até a base da via. Assim que chegamos aos postes de concreto da rede de alta tensão que marcam o início da trilha pela mata, descobrimos que, provavelmente há alguns meses, a equipe de manutenção da rede elétrica fez uma poda para limpar as árvores em volta deles. Com isso, a trilha fechada ficou uma verdadeira devastação. Mais acima, imaginamos que, por causa dessas podas, todos os cipós que subiam a pedra secaram também, deixando a base da via muito mais aberta e exposta ao sol.

A única vantagem em tudo isso foi que os cipós que estavam emaranhados em uma fenda virgem da esquerda sumiram, possibilitando a conquista de uma nova via ali. Mas, como o nosso objetivo do dia era terminar a via, deixamos a fenda de lado e partimos para a luta, pois a “peleia” seria das boas.

A primeira meta do dia foi liberar as enfiadas que havíamos conquistado na primeira investida. A primeira enfiada já havia sido liberada no dia da conquista, em 2024, mas mesmo assim sofri para mandar novamente. Para mim, o problema dessa enfiada sempre foi o flash pumping. Sempre consigo subir até a metade de boa, mas depois tijolo de um jeito que sofro para fazer o crux final. Como estávamos bem leves para essa conquista, assim que cheguei na P1, o Tesourinho subiu pela corda fixa, enquanto eu içava o haul bag com o material de conquista.

A segunda enfiada é curta, com um lance em boulder numas lacas. Como na conquista eu sentava nas chapas depois de furar, perdi alguns links e agora, na hora de passar em livre, senti falta desse detalhe. Mas, no fim, deu certo de primeira e rapidamente cheguei na P2, que fica dentro de uma caverna. Na primeira investida, chegamos nessa caverna e o sol já havia virado, deixando o buraco na sombra, mas dessa vez chegamos mais cedo e a caverna estava sob puro sol. Mesmo assim, o buraco é bem confortável e foi ótimo para beber água e comer alguma coisa antes de pegar a enfiada crux da via.

No início da 2a enfiada. Foto: Tesourinho.
No conforto da P2.
Saindo da P2
Chaminé da 3a enfiada. Foto: Tesourinho.

A terceira enfiada tem uns 30m, com 4 boulders sucessivos intercalados com bons descansos. O primeiro boulder é uma virada negativa na saída de uma chaminé em tesoura. Dos 4, esse é, sem dúvida, o mais físico, mas pelo menos é bem protegido. Os 2 boulders seguintes são de slab, que lembra um pouco as esportivas do Morro do Moreno: lances de leitura e muita “acreditância” nos pés. Já o último boulder é uma travessia para baixo para chegar num platô e depois ganhar a parada. Lembra um pouco aquelas enfiadas em livre de Yosemite, onde tudo se resolve com um pouco de criatividade e leitura.

Passada essa enfiada, sabia que o pior havia sido superado. Chamei o Tesourinho, que rapidamente subiu pela corda fixa e toquei a última enfiada do meu bloco. A 4ª enfiada começa em móvel e depois tem uma travessia em slab para ganhar um platô. Esse lance é bem protegido e o único esticão está num lance para ganhar o platô, onde é preciso acreditar nas lacas finas.

A partir da 4ª enfiada, passei a ponta da corda para o Tesourinho, que ficou com a missão de liberar a enfiada que ele abriu na 1ª investida.

Separando o material para 5a enfiada.

A essa altura, o sol estava nos chapando na rocha preta. Lembrei das lagartixas que vivem na pedra e tentei imitá-las, movendo-me o mínimo necessário para poupar energia e não superaquecer à toa.

Ao fim da 5ª enfiada, chegamos ao nosso high point. Passei a ponta da corda para o Tesourinho e ele aceitou tocar a última enfiada, que parecia bem de boa, embora a parede parecesse inclinada. Assim que o Tesourinho bateu a primeira chapa, ele saiu em disparada, esticando a corda até o fim, mas não sem antes bater mais uma chapa. Assim que ele estabeleceu a parada, subi pela corda fixa para sair quanto antes daquele sol castigante e nos refugiar embaixo de uma árvore.

Chegamos ao cume por volta de meio-dia e trinta. O sol estava no modo máximo, mas pelo menos havia um ventinho. Na verdade, parecia que estávamos dentro de uma air fryer. Comemos alguma coisa, bebemos o excesso de água e logo estávamos ao sol novamente para iniciar a longa descida. Embora a via seja relativamente curta (200m), ela não permite rapéis longos, então tivemos que descer picotado para garantir a recuperação das cordas.

Cume!

Como de praxe, assim que chegamos ao chão, fomos direto para Ibiraçu comer um pastel com caldo de cana. Sem dúvida, a melhor parte do dia!

Sobre a via, batizamos de Super Aurora Tropical. Pessoalmente, achei a via muito legal por ser bem completa, exigindo um bom repertório de escalada que vai desde técnica de chaminé em tesoura, passando por entalamento, até a agarrência em laca suspeita.

Passadinha do Buda de Ibiraçu.

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