Aurora Tropical, o ataque

E se eu desmaiasse aqui? Não, vou comer um pastel quando sair daqui! Quero água, estou com sede! Falta muito? Não — concentra, olha para onde está pisando! Foco no presente!

Isso era por volta das 17h de domingo. O sol estava se pondo rapidamente e nós estávamos na última! O Tesourinho seguia na frente, um pouco melhor que eu, carregando o haulbag. Tive que pedir para ele levar a minha mochila, porque eu não estava conseguindo nem me carregar. Eu vinha atrás, subindo uma piramba sem fim no meio da mata. Estava só de calça e bota, sem camiseta. A cada dois passos, parava para puxar o ar.

Por volta das 15h, havíamos descido da Pedra da Fortaleza, em João Neiva. Tesourinho e eu estávamos dando continuidade a uma via que iniciamos em 2024. Estávamos bem cansados e felizes em voltar ao carro. Em pleno novembro, a face norte da pedra havia drenado toda a nossa energia.

Eu já estava acordado desde as 4h. Tinha bebido apenas 2 L de água e comido um pão pela manhã. A ideia era ir direto para o California, um paradouro ali perto, para comer um pastel com caldo de cana.

Enquanto o Tesourinho separava os equipos, decolei o drone para tirar umas fotos da montanha que havíamos escalado.

Eu sabia que aquela área era complicada para voo: rede de alta tensão, a montanha encravada num dos lados do vale… Tinha que tomar muito cuidado para não bater no lado oposto ou enroscar nos fios. Pensando nisso tudo, resolvi voar no modo normal, com todos os sensores anticolisão ligados.

Fiz o voo, tirei as fotos e, na hora de voltar, num momento de distração, o drone bateu numa árvore e ficou preso!

Não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Olhei para cima e não vi nada. Logo descobri que ele estava a uns 300 m, em alguma copa de árvore. Avisei o Tesourinho e iniciamos a busca.

Caminhamos pelo vale, por dentro da mata, indo em direção ao sinal do drone. Ativei o modo “drone perdido” e seguimos o rumo, mas logo percebemos que provavelmente ele não estava no fundo do vale, e sim na parte alta. Do fundo até a borda eram pelo menos 300 m de desnível.

Ali, desisti. Considerei que não daria tempo de buscar. Começamos a voltar para o carro, nos arrastando.

Fui olhar o mapa e vi que havia uma estrada por cima do vale. Poderíamos tentar vir por cima! Já eram 16h — pouco tempo.

Pegamos o carro e demos a volta. Fomos até onde deu e seguimos a pé. Como sabíamos que o drone estava na copa de alguma árvore, levamos todo o material de escalada para subir.

No fim da estrada, entramos na mata e seguimos em direção ao último ponto de GPS. A mata era fechada e muito inclinada; descemos com cuidado, mas o progresso era lento. Em certo momento, achei que o GPS tivesse travado: parecia que não estávamos andando.

Quando chegamos mais perto do ponto, ativei o aviso sonoro do drone — e conseguimos ouvir! Ele estava ali próximo. Começamos a procurar na copa das árvores e, em pouco tempo, o localizamos: a uns 12 m do chão. Por sorte, a árvore era um tipo de goiabeira, o que permitiria subir usando cordas e fitas.

Subi o máximo que consegui e depois cortei a ponta da árvore para soltar o drone. Não havia como ir até ele diretamente, porque o galho provavelmente não aguentaria meu peso.

Subindo na árvore para buscar o drone.

Recuperamos o drone, que aparentemente não sofreu nenhuma avaria. Ainda não fiz todos os testes, pois aqui em Vitória é complicado decolar por causa do aeroporto.

Face norte da Pedra da Fortaleza. Foto tirada antes do drone colidir na árvore.

O dia havia começado cedo: encontrei com o Tesourinho às 5h30, em Ibiraçu, e seguimos até a Pedra da Fortaleza.

Essa pedra é bem conhecida pelos escaladores. Possui duas vias inacabadas e outras duas em móvel. O plano do dia era dar continuidade em uma das vias em móvel até o cume, pois, olhando de longe, parecia fácil e cheia de agarras.

Repetimos a primeira enfiada de VI em móvel. Entrei bem confiante — duas semanas após a conquista, eu havia voltado com o Eric e o Graveto para liberar a enfiada.

Achei que iria decotar a via, mas na sessão final comecei a achar que iria “desmandar”. Dei uma gana extra e consegui repetir a enfiada. Definitivamente não é um V.

Chamei o Tesourinho, que subiu escalando e jumareando.

Tesourinho limpando a 1a enfiada.

Dali para cima, a melhor opção parecia ser uma calha natural até a base de um tipo de teto.

Assumi a ponta achando que seria tranquilo, mas esqueci de considerar a verticalidade. Tive bastante dificuldade para achar posição e bater as chapas.

Saída da 2a enfiada.
Segunda enfiada.

Logo acima, cheguei à base de uma grande chaminé. Embora não tivesse esticado nem 30 m de corda, decidi montar uma parada, pois o platô era muito agradável. Além disso, tiraria o assegurador do sol.

P2!
Fotinho na P2.

A terceira enfiada começou em tesoura bem aberta até uma virada em negativo, onde fica o crux da via. Um pequeno lance de boulder, talvez um V3, me levou a um segundo buraco mais acima. De lá, uma sequência de mais três boulders me levou a outro platô, já na base do grande teto (que, na verdade, era um negativo).

Saída em chaminé

Chamei o Tesourinho e ofereci a ponta, mas ele disse que ainda não era hora de brilhar.

Iniciei a 4ª enfiada por um trecho fácil em móvel e logo cheguei a uma segunda virada. Tentei pela esquerda, também em móvel, mas não vi continuidade. Sem muita opção, precisei sair pela direita, passando por um trecho de muitas lacas suspeitas e terminando num lance de aderência estranho.

Saída da 3a enfiada.

Como a via estava tendendo muito para a direita, estabeleci uma parada na borda para facilitar o rapel.

Dessa vez, o Tesourinho quis a ponta, pois a pedra finalmente cedeu um pouco. Dei a missão: bater no cume com apenas oito proteções restantes para cerca de 120 m de parede.

Para esse dia, eu havia levado 30 chapeletas, achando que a escalada seria tranquila, mas acabei usando muitas lá embaixo — e agora precisávamos economizar se quiséssemos chegar ao cume.

O Tesourinho esticou 50 m… e nada de cume. Chegamos à P5 com apenas mais uma chapeleta. Olhamos para cima e o cume parecia logo ali. Poderíamos ter arriscado um último esticão, mas não valeria a aventura. A pedra fica a apenas 1 hora de casa. Dá para voltar depois e finalizar com classe.

Início da 5a enfiada.

Por ora, a via está se mostrando bem dura. As primeiras quatro enfiadas são difíceis, sendo a 3ª a mais intensa. Não consegui isolar várias passadas, mas acredito que seja possível liberar tudo.

Chega por hoje!

Por ser uma linha muito variada — com trechos verticais, fenda, chaminé e aderência — vai exigir um bom repertório técnico para escalar todas as enfiadas em livre. Parece um desafio interessante!

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