Era do Gelo e Ensino Médio

Na semana passada, quando o Tesourinho e eu fomos terminar a conquista da via Super Aurora Tropical, na Pedra da Fortaleza, em João Neiva, vimos que uma fenda, outrora suja, estava limpa!

No último sábado, dia 18, voltamos à pedra para realizar essa conquista e, de quebra, abrir mais uma tradicional.

A conquista da fenda foi rápida e tranquila, tirando a parte em que esqueci de levar a tagline para içar a furadeira no final.

A via, batizada de Era do Gelo — fazendo uma alusão ao clima de inverno que encontramos na manhã —, se mostrou muito interessante. A fenda é boa e aceita ótimas colocações, e no final ainda tem dois lances de pimenta para coroar a via. Dentre as três vias do setor, essa é a mais fácil (V grau) e é uma boa pedida para começar os trabalhos por ali.

No techo inicial da via. Foto: Tesourinho.

Após a conquista desta via, fomos conferir uma linha que o Tesourinho havia observado na parede ao lado da Pedra da Fortaleza, onde fica a via Supletivo, conquista dele com o Fred em 2017. Considerando que a Supletivo é um IV grau e que a linha da nova via seguiria um sistema de fendas à direita, achamos que a conquista seria rápida e fácil. Segundo o Tesourinho, a Supletivo fica em uma parede mais rampada e cheia de agarras.

Com essas informações em mente, na hora de separar os equipos, tentei organizar um rack superenxuto para subir rápido e leve. Mesmo assim, no final, em um ato meio instintivo, resolvi levar — além de um jogo — algumas peças médias repetidas, o que foi a salvação da lavoura na conquista.

Separando os equipos para segundo conquista do dia.

A aproximação foi bem tranquila pelo pasto. Inicialmente, a ideia era começar pela via Supletivo e depois cair para a direita, buscando uma série de lacas e oposições conectadas até o cume. Uma rápida vasculhada na mata e logo descobrimos um belo diedro limpo saindo do chão, que seria um excelente candidato para começar a via. É muito raro encontrar um diedro limpo saindo do chão; quando tem, geralmente está tomado pela vegetação, mas ali parecia uma exceção.

Comecei os trabalhos já arrependido de não ter trazido mais peças. O diedro acabou depois de uns 15 metros e logo entrei na placa, seguindo uma linha de buracos descaídos. Bati três chapas nesse trecho até buscar um grande arco que continuava me jogando para a direita. Como levei apenas um Camalot #4, senti falta de um segundo nesse trecho.

Após o diedro da saída, já na placa.

Como o arrasto da corda já estava grande, resolvi estabelecer a P1 no meio da travessia e resolvendo o problema da falta de um #4 extra. Chamei o Tesourinho, que subiu limpando a via e liberando as passadas. Segundo ele, a enfiada ficou um IV SUP, mas eu acho que seria um V. Para mim, essa é a enfiada mais bonita da via, com lances variados em uma parede até vertical para o que estávamos esperando.

A próxima enfiada continuava nos levando para a direita, para cima de uma vegetação que ficava logo abaixo. A essa altura, o tempo já estava bem nublado e, de tempos em tempos, sentíamos uma fina garoa. O nosso medo era a chuva apertar e termos que abandonar a conquista no meio, sendo obrigados a descer por aquela mata fechada e cheia de espinhos.

Saída da 2a enfiada. Foto: Tesourinho.

A segunda enfiada ficou um pouco estranha, conforme as palavras do Tesourinho. Também preciso confessar que não ficou dentro dos meus padrões, mas posso explicar!

Tudo começou depois que coloquei três peças em uma laca e estava indo vencer o trecho mais vertical. De repente, a chuva apertou e tivemos que fazer uma pausa. Sentei na peça e ficamos ali esperando. Não sei quanto tempo durou a garoa, mas lembro que tirei a sapatilha, sentei de lado e ainda consegui tirar uma soneca. Quando a garoa estiou, a pedra ainda estava seca, talvez um pouco untada. Só sei que me senti confortável para seguir.

Garoa no horizonte.

Logo acima, resolvi bater uma chapa. Aí, no meio do furo, enquanto eu estava parado em duas agarras de pé pequenas, a bateria da furadeira arriou e tivemos que fazer a troca do jeito que dava.

Resolvida a troca da bateria, segui tocando. Nesse momento, já não estava achando a pedra tão seca assim e, para piorar, estava entrando em um trecho de lacas quebradiças. Mais cedo, na primeira enfiada, quase fui para a corda quando uma laca dessas de pé estourou. Então, eu já estava bem esperto e adrenado.

Tentei colocar um #2 em uma laca superpobre para o psicológico. Na hora em que estava ajeitando a peça, o pé direito explodiu e, dessa vez, só não caí porque consegui me segurar na peça que ainda estava assentando. Coração na boca, resolvi bater uma chapa e esquecer a laca podre. Adrenado, fui para a esquerda achando que havia visto o grande diedro, só para descobrir que estava indo para o lado errado. Tive que bater uma chapa fora da via e voltar para a direita até achar o grande diedro. Essa última chapa ficou estranha, fora da linha, mas pode ser consertada com uma fita longa.

Dali para cima sabíamos que a conquista estava ganha, pois havíamos chegado ao grande diedro que vimos pelo drone. Mesmo o diedro sendo fácil, o crux da via acabou ficando logo no início dessa enfiada.

Logo depois da parada, o diedro some e é preciso buscar um segundo diedro que fica logo abaixo. Para isso, é necessário passar de um diedro para o outro, desescalando um lance. Essa desescalada não ficou trivial — é tipo descer a borda de um boulder protegido em móvel. E, para piorar, o lance fica mais exposto para o segundo. O Tesourinho precisou inventar um sistema de liberação de Camalot para vencer o lance e recuperar a peça sem ficar tão exposto.

Passado esse lance estranho, a parede cedeu um pouco e a escalada pelo grande diedro se mostrou bem tranquila. Basicamente, usávamos a fenda do diedro para proteger e subíamos pela aderência, uma técnica bastante comum por aqui.

Ao final da terceira enfiada, fomos em direção ao final da via Supletivo para assinar o livro de cume e descer por ela. Fazer o rapel pela via que conquistamos seria bem complicado; além disso, as paradas são simples e reforçadas com peças.

Assinando o livro de cume.
Morrendo de inveja porque o livro está cheio de repetições da Supletivo.

Sobre a via, diria que superou as expectativas. Não escalei a Supletivo, apenas desci por ela, mas posso garantir que não tem nada a ver, mesmo estando na mesma pedra e tão perto. Na verdade, a rocha é totalmente diferente de uma via para outra, o que garante essa variedade de estilos. Com essa conquista, a região da Pedra da Fortaleza está se consolidando como um excelente polo de escalada tradicional em móvel/mista perto de Vitória.

Valeu demais, Tesourinho, por mais uma empreitada! Dessa vez você acertou a linha!

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