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Agulhinha Juliana, Vale da Lembrança, Castelo. Engolindo seco ao ver a negatividade da pedra… Não tem uma via em aderência, não? 

A semana (passada) começou, como de praxe, com uma rápida passada pelo Google Maps para ver onde seria a roubada do próximo final de semana. Depois de um rolé digital pelo interior capixaba, eis que descubro que o carrinho do Google passou pelo interior de Castelo!!!!! Esse cara estava perdido, só pode!!! Tem tanto lugar para passar e foi logo passar naquela bimboca? Ok, a paisagem é de perder o fôlego, mas ele estava perdido, só pode…

Enfim, o fato é que foi uma mão na roda, pois assim pude ver, praticamente cara-a-cara todas as pedras da região. E lá pelas tantas, eis que vejo um oásis no mar de granito, um pequeno totem na beira da estrada!

Só um parênteses para os não-escaladores de granito em clima tropical. Os totens de granito, normalmente, quase sempre, são pedras bem fendadas com ou sem cume isolado da pedra principal e, por vezes, bem verticais. O totem mais famoso do Brasil é, com certeza, o Totem do Pão de Açúcar. Por aqui, no ES, o totem de Calogi é uma outra referência. Por isso, quando achamos um totem temos a garantia de diversão na certa e escalada de boa qualidade.

Com um histórico desses a empolgação foi à mil ao ver aquela pedrinha perdida! Dai foi fácil convencer o DuNada com o xala-lá de sempre (cume fácil, via fácil, acesso fácil, cume virgem…).

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Vegetação nativa.

Domingo de manhã, como de praxe, 5h, saída de Vitória rumo a Castelo antes do sol nascer. Na estrada, só nós e os loucos voltando das festas. No carro, eu, DuNada sonolento e o Zé! Ah sim, líder da concorrente Patota Verde! Não sei como ele descobriu, mas entrou na barca de última hora! Sempre aceitamos sherpas!

Ainda no caminho recolhemos o escalador local Taffarel (vai que é suaaaaa!) para completar a barca! Mais um sherpa!

Como manda a boa educação, passamos na casa do proprietário da pedra para pedir permissão e explicar as nossas intenções.

Papo vai, papo vem. Aquela conversa de sempre: Muita chuva por aqui? Vocês sobem usando prego? Vocês não têm medo? Alguém já chegou no cume?

-Sim!

Que????? Como assim???? Essa pedra não era virgem???

– Ah, uns cariocas vieram há uns 10 anos atrás e subiram.

Quando ele falou isso, a frustração tomou conta de mim. E dos outros também, eu acho. Eu acho que as minhas pernas chegaram a ficar bambas tamanha foi a frustração. Como uma pedra daquelas, naquele confins do estado já foi escalado? E porque nós não ficamos sabendo disso antes?

Quando voltei para casa, fui novamente no Google refinar a busca na internet e acabei achando o relato de conquista dos escaladores cariocas no Boletim da Unicerj.

A via foi conquistada em 2000 (!!!!!) por uma grande equipe de escaladores da Unicerj, encabeçado pelo Santa Cruz. Segundo o relato, foram necessários cinco investidas para conquistar o totem e deram o nome de Agulhinha Juliana em homenagem a filha de um dos conquistadores.

Frustrados por não ser uma pedra virgem, voltamos para o carro e rumamos para a pedra. Já que a pedra não era virgem, só nos restava fazer a repetição da via, afinal de conta, a pedra era incrível!

Após uma rápida aproximação chegamos na base da via. E lá estavam os grampos para enterrar de vez qualquer dúvida sobre a via.

Um lanche rápido, uma analisada na via e partimos para o que interessava. Eu peguei a primeira enfiada que começa numa aderência ao melhor estilo capixaba (6o SUP/7a ou A0 em cliff de buraco) e depois segue por uma fenda frontal em diagonal até o início do trecho em artificial em piton. Infelizmente, nesse trecho, a fenda recebeu alguns (2) grampos na sessão que poderia ser protegida totalmente em móvel. Logo em seguida, algumas passadas em piton velho e depois mais algumas passadas em uma laca super estética até chegar na parada.

Como cheguei cansado e com sol na parada, desci dali mesmo e o Zé e o DuNada assumiram a segunda enfiada. A segunda enfiada é, com certeza, o trecho mais aéreo com fendas largas e passadas aéreas por um grande diedro em arco até a P2.

Na verdade tem uma outra parada antes, mas achamos que estava fora de contexto e pulamos ela. Depois, descobrimos que a via tem várias paradas ao longo dela. Praticamente uma parada a cada 15m… Não entendemos nada…

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Bagunça organizada.

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Zé guiando a 2a enfiada no trecho em artificial.

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Jumareada vertiginosa! Vai que é suaaaaa Taffarel!!!!

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Sendo observado pelos locais!

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Pela corda fixa!

Todos nós subimos até a P2 e dali tocamos para a terceira enfiada. O DuNada foi e viu que o seu biotipo não se encaixava à fenda de meio corpo e desceu. Sobrou para mim. E lá fui eu novamente encarar a tal fenda.

Fenda de meio corpo é algo que causa pavor  e repulsa em 99% dos escaladores. Eu acho que só o meu amigo Sandro Souza e os Wide Boys curtem esse tipo de escalada. Se é que podemos chamar isso de escalada.

Regra numero um da escalada em meio corpo: esqueça o grampo! Ignore que ele existe. Até porque vai ver com pouca frequência. Logo, a regra número dois é: Não caia! Nunca! Na verdade, não consigo me imaginar caindo em uma fenda dessas. Até porque você fica entalado o tempo todo e o desafio é ficar tentando se desentalar sem conseguir se mexer… E a regra número três: descubra o lado certo antes de entrar na fenda! Se você entrar de costa para um lado, dificilmente terá espaço para virar para o outro lado quando descobrir que entrou virado. E entrar errado pode ser a diferença entre um 4o grau e um 8o!

Com base nessas regras básicas, fui me entalando na fenda caustrofóbica e a medida que avançava lentamente fui descobrindo dezenas de novos músculos em mim que nem sabia que eu tinha.

E se não bastasse, depois da fenda de meio corpo vinha ainda um bônus. Uma fenda de meio corpo deitada. Se uma fenda de meio corpo em si já é desagradável, uma fenda de meio corpo deitada é desagradável e humilhante porque você precisa se rastejar de quatro fazendo força!

Sábio foi o DuNada que passou a bola.

Depois dessa sessão de rastejo, cheguei na P3. Dali para cima, tudo indicava que seria um belo trepa mato até o cume. E nada como o nosso especialista em trepa mato DuNada para tomar a ponta. O bicho tem PHD em botânica e entende tudo de plantas. E parece que está para lançar um manual de escalada em trepa-mato.

E com muito conhecimento botânico e maestria DuNada bateu no cume do totem e, logo em seguida, nos juntamos a ele. O detalhe é que no cume não tem grampo nem árvore para ancoragem (segue de corpo). Também não achamos o livro de cume, então como nós tínhamos um que seria usado caso a pedra fosse virgem, deixamos ele no lugar para as futuras repetições.

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No cume do totem!

Frustração à parte, a escalada é muito aérea e bonita. Talvez tenha grampo demais na via, mas não tira o mérito da escalada. É uma via que vale a pena ser repetida. Até porque não é todo dia que a gente acha uma escalada tão aérea por essas bandas.

Agradecimentos ao Zé e DuNada por mais uma escalada incrível. E ao Taffarel que deu o seu ponta pé inicial na escalada tradicional em grande estilo.

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Entardecer no totem.

Betas para repetição

Como chegar

O Vale da Lembrança fica num dos braços do vale da Estrela do Norte, distrito de Castelo (160km de Vitória).

Saindo de Vitória, a melhor opção é pegar a BR-262 em direção a Venda Nova do Imigrante e depois para Castelo. Em Castelo, pegar a rodovia do contorno em direção a Cachoero do Itapemirim e em seguida pegar à direita em direção a Estrela do Norte. Tem uma placa indicando essa saída. O braço fica depois da sede de Estrela do Norte. Passe a sede e siga pela estrada de chão e no próximo vale suba à esquerda. A pedra fica ao lado da estrada no meio da subida em direção a Lembrança. O proprietário das terras, Sr Pedro, é o dono de uma pequena venda que fica logo depois da pedra (1km). Se a venda estiver fechada, bata na casa que fica no outro lado da rua, onde ele mora.

Equipos

1 corda de 60m ou duas de 60m para facilitar o rapel;

Cliff de buraco. Opcional para fazer a saída (6o sup/7a ou A1);

Estribos e auto regulável para o artificial;

Um jogo de friends. Do micro até o Camalot #4 ou equivalente.

10 costuras;

Fitas para a parada;

Mosquetão de rosca.

A escalada

1a enfiada – Começa em livre (6o SUP/7a) ou artificial em clif (A1) pela face até chegar numa fenda frontal em diagonal (V). Logo em seguida a fenda morre e sai em artificial em piton (A1) para  voltar a escalar em livre (V) até a P1. 30m.

2a enfiada – Começa em livre pela face e logo em seguida entra numa fenda larga até o começo do grande diedro negativo. O começo do diedro é em artificial (A0) e logo em seguida entra em livre pelo diedro protegendo nos grampos. Há uma parada dupla no meio desse lance, mas é possível de passar batido e buscar a parada de cima que é tripla. 30m.

3a enfiada – Continua pelo mesmo diedro em oposição para depois entrar na fenda de meio corpo (V). Faz uma viradinha, ignora mais uma vez uma parada dupla, e vai em direção a outra parada num platô mais confortável. Essa enfiada é toda protegida em grampo. 30m.

4a enfiada – Trepa mato com uma parada intermediária e logo em seguida uma outra parada dupla um pouco antes do cume. No cume do totem não tem grampo nem árvore para segurança/ rapel, então é preciso dar segue de corpo e depois desescalar até a parada mais abaixo.

Rapel

P4 até a P3 – 30m

P3 até a P2 – 25m

P2 até o chão – 60m ou P2 até a P1 – 30m, mais P1 até o chão – 30m.

Sol

A pedra está voltada para a face sul. A pedra fica na sombra a partir do meio da manhã até o final do dia.

Atenção quanto aos grampos, pois a maioria estão com palheta de alumínio. Sempre duplicar o sistema!

Para baixar o croqui em PDF, clique aqui!

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