Escalando com a concorrência

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A imponente Pedra Paulista com o pequeno Dente. O Dente é um pequeno totem de 120m encostado na base da pedra no lado esquerdo. Na foto parece um fio de pedra. Com base nele dá para se ter uma ideia do tamanho da pedra…

O calor chegou! E a chuva também… Com a chegada do calor do verão, as chuvas de verão também começaram a mostrar a sua cara por aqui. Por esses lados, chuva de verão, não é aquele temporal que dá no final do dia, muito pelo contrário, chuva de verão por aqui é mais perene. Vai molhando, molhando até deixar bem molhada todas vias e há não sol que faça secar da noite para o dia.

O calor e a chuva chegaram e os meus amigos de escalada se foram. O Afeto foi para algum confim do interior de Minas onde nem o Face “pega”. O DuNada se escondeu no Planalto Central e eu acabei ficando sem a minha patota. Será que ninguém aguenta mais tanta roubada? Então o jeito foi me juntar a concorrência e procurar parceria na Patota Verde, ou o Greem Tream!

Assim fechei uma escalada no domingo com o Maurício PA (de Porto Alegre), um dos membros da Patota Verde e conterrâneo da UFRGS. Como ninguém estava afim de roubada pós chuva, resolvemos fazer uma escalada mais light. Ao melhor estilo, só o básico na  mochilinha de ataque. E a via escolhida foi a via Fio Dental no Dente da Pedra Paulista em Itaguaçu.

A Pedra Paulista é um enorme, mas enorme mesmo, pico de granito com mais de 600m de altura. Foi lá que em 2013, o escalador Osvaldo Baldim e CIA abriram a maior via do estado: “Nada é o que parece ser”, com 800m de extensão. E colada a ela há um pequeno e modesto totem de uns 120m em forma de Dente, onde em abril desse ano, o mineiro/capixaba/paranaense/carioca Sandro Souza e CIA abriram duas vias. A via Boticão, uma via de fenda de meio corpo de 90m e a via Fio Dental, uma via toda em móvel que corta todo o dente de cabo à rabo.

A fenda de meio corpo, a gente passa, mas a fenda frontal a gente não dispensa. Não é todo dia que a gente consegue uma fenda frontal de quase 60m, ainda mais por esses lados onde o granito é super compacto e sem fendas.

Assim, após 140km finalmente chegamos na base da Pedra Paulista. Após uma rápida aproximação, graças à Deus, estávamos na base daquele enorme maciço de granito que parecia que ia nos engolir a qualquer momento.

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Aproximação.

Nós repetimos a via fazendo algumas variações em relação à conquista original, principalmente no começo da via. Como a via estava molhada em alguns trechos, optamos em começar a escalar encordado um pouco mais abaixo e acabamos montando a P1 mais acima da P1 original. Essa P1 acabou ficando em móvel, no início do grande diedro que corta o dente por fora. O trecho inicial deve ser um III grau, passível de ser solado sob condições ideais.

A partir dali, a via original continua por esse diedro em direção a uma árvore bem evidente para depois fazer uma travessia à esquerda para finalmente pegar a fenda frontal. Como o trecho inicial estava molhado (ainda bem) optamos por uma variante, pegando a fenda frontal bem no começo dela, evitando assim o trecho molhado e o diedro esquisito. Só o Sandro mesmo para ir por ae… O fato é que essa variante se mostrou muito estética com proteções bombásticas em uma fissura de dedo que vai progressivamente evoluindo até virar uma fenda de punho.

Estou para dizer que essa fenda está entre uma das melhores que já escalei na vida. Em termos de extensão, 50m, não lembro de ter feito uma fenda tão contínua ao longos dos quase 20 anos escalada! Desfrute total!

A P2 é num pequeno mato que fica quase no final da fenda. Um mato mais que primordial para fugir um pouco do calor e do sol. Na descrição da conquista original, o pessoal usou alguns móveis para fazer a parada, mas há a opção de fazer a mesma parada equalizando em umas árvores.

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Maurício PA limpando a primera enfiada, uma fenda frontal de 50m, toda em móvel!

Da P2 já dava para ver o cume do totem, logo acima. Vez de passar a ponta da corda para o PA. O lance parecia bem tranquilo, fenda frontal grande que ia afinando, depois umas passadas de placa até chegar num grampo. Depois uma travessia, mais um grampo e depois era só correr para o abraço.

O PA começou a enfiada final botando um C#4 bomba e foi progredindo até o final da fenda. Ali, colocou um C#1 e “backupeou” com um nut para deixar à prova de bomba e encarar a placa em direção ao grampo salvador. Tentou na primeira vez, desescalou adrenado; tentou mais uma e refugou novamente. Mais adrenado do que nunca olhou para mim que nem cusco em churrasco querendo descer. Ai fiz aquela cara de tapado e só fiquei olhando para ele. A esperança do PA era de que eu dissesse: quer que eu tente o lance? Mas fiquei quetinho… Sem sucesso, ele olhou para cima e mandou bala em direção ao grampo! Depois mais um grampo e ai ele mandou  ver no esticão em direção ao cume. Como diria o meu amigo Balen: depois de umas peças ruins, quando a gente costura um grampo a gente fica com três bolas!

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PA no começo da 2a enfiada. Lance delicado para buscar o primeiro grampo da via.

Lá no cume, já mais calmo, ele confessou: Eu só não pedi para descer aquela hora porque sabia que ia sofrer bullying durante a semana no muro!

Batemos no cume do totem e ficamos apreciando o resto da parede para cima. Assinamos o livro de cume e descemos.

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Foto clássica no cume do totem… 

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Assinando o livro de cume. 1a repetição da via.

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Tudo que sobe, tem que descer! Ao fundo, no centro, a Pedra Preta. E à esquerda, os Cinco Pontões.

Essa via, na minha humilde opinião, é mais um clássico da escalada Capixaba. Talvez um dos melhores para quem curte escalar em móvel. Além da qualidade da via, tem a vantagem se ser uma escalada preguiçosa, pois em menos de 3h dá para subir e descer, sem pressa. Ideal para aquele dia que a gente acorda tarde no domingo e quer provar uma via tranquila.

Parabéns aos conquistadores pela excelente linha e ao meu bruxo PA! Grande presença!


Betas para a repetição

Como chegar

A Pedra Paulista está localizada no município de Itaguaçu, distante a 130km de Vitória (2h30min). A melhor opção para chegar na base da via é baixar o tracklog disponibilizado neste link.

O melhor lugar para deixar o carro é num terreno de café abandonado.  Depois é só cruzar a cerca e ir subindo o lajão em direção a pedra. Assim que chegar na pedra, quebrar à esquerda em direção ao totem.

1a Enfiada – A conquista original começou a via num ponto bem alto, no primeiro mato. Nos começamos a via um pouco mais abaixo por causa do trecho molhado (P0). Mas sob condições normais é possível de ir solando um bom trecho (até a P1). Conforme narrativa acima, há duas possibilidades de acessar a fenda frontal: (1) pelo jeito original subindo em direção a uma árvore para depois fazer uma travessia à esquerda ou (2) entrar bem antes da árvore, pegando a fenda frontal desde o começo (em amarelo na figura abaixo). Essa enfiada tem uns 50m de extensão e é toda protegida em móvel. Por isso é bom gerenciar bem as peças para não acabar faltando no final. De forma geral, a fenda começa estreita (fissura de dedo) para depois ir aumentando progressivamente até virar uma fenda de punho.

A P1 é em móvel ou em árvores numa área bem sombreada.

 2a enfiada – Começa seguindo a mesma fenda frontal que vai diminuindo progressivamente até desaparecer. Depois, entra num lance em placa até chegar no grampo branco para depois fazer uma pequena travessia à esquerda em direção ao segundo grampo. Depois é só subir pelo diedro, proteger na fenda horizontal e tocar para cima. Segundo o croqui da conquista original, o pessoal subiu reto depois da fenda horizontal, mas há a possibilidade de fazer uma travessia à direita para depois fazer uma viradinha numa parte mais fácil e chegar no cume (em amarelo na figura abaixo).

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Para ver o croqui original da conquista, clique aqui!

Rapel

P2 – P1 = 30m

P1 – P0 = 55m – Descer o máximo que der e desescalar o resto. Ou fazer um terceiro rapel usando as árvores até o chão.

Equipos necessários

  • 2 cordas de 60m;
  • 2 jogos de friends – Camalot #0.4 até #4 ou equivalente;
  • 1 jogo de nut;
  • Costuras avulsas;
  • Fitas avulsas.

Mais betas

  •  A via fica voltada para a face norte e pega sol o dia inteiro;
  • O tempo médio para a repetição (subida mais a descida) é na ordem de 3h, escalando tranquilamente.

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Da série montanhas capixabas! Região de Praça Oito (voltando de Itaguaçu). Da esquerda para a direita: Pedra Alegre, pedra desconhecida, Pedra da Onça, outra desconhecida, e a pedra sem nome onde fica a via “Eu sou a lenda”

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