Na semana passada, fiz um relato sobre a primeira investida na via Império do Sol, na face norte da Pedra Cará, em Pancas. Para ler o relato, clique aqui!
No último final de semana, resolvi voltar à parede com a missão de concluir o projeto, dessa vez com o reforço do Chuck, que sempre aceita “as melhores furadas”.
Sábado
No sábado, assim que chegamos ao Camping Cantinho do Céu, fomos direto para a Pedra da Boca, que fica ao lado, para checar uma fenda que eu havia avistado na semana anterior da Pedra Cará. Na verdade, quem já havia me falado dessa fenda foi o escalador Vitor Beal, há uns 10 anos. Sempre fiquei procurando por ela, mas nunca havia entendido a explicação. Agora, vendo a pedra de outro ângulo, ficou muito claro: no lado esquerdo da boca da Pedra da Boca há uma fenda de fora afora, com cerca de 60m, à direita da via Até você guia.
O curioso é que a fenda está “na cara do gol” e até hoje ninguém conquistou essa linha tão óbvia. Para mim, isso era intrigante, embora, no fundo, eu soubesse o motivo.
Repetimos as duas primeiras enfiadas da via Até você guia para alcançar a base da fenda. Subimos com um rack leve, levando furadeira e dois jogos de móveis.
De baixo, ficou evidente o motivo de ninguém ter conquistado uma via ali: o trecho inicial era tomado pelo mato e a parede mais vertical que o padrão. Resolvi dar uma chance à fenda, ou melhor, ao “trepa-mato”, e assumi a ponta. Logo de cara, precisei bater uma chapa em um ponto inesperado, devido à inclinação da parede. Mais acima, onde imaginava caber uma peça, a fenda estava entupida de terra, e tive que bater a segunda chapa. Para quem achava que a via seria toda em móvel, duas chapas em menos de 15m eram um mau sinal. Pior para o Chuck, que ficou na segue, recebendo um banho de terra cada vez que eu respirava ou mexia em algum mato.
A parede continuava sem ceder e a fenda seguia entulhada. Sem opção, bati mais uma chapa, mas, de repente, no meio do furo, a broca quebrou!
Foi um misto de alegria, surpresa e frustração, pois eu sabia que não tinha levado uma broca reserva. Como estava achando que a conquista seria mais fácil que comer gelatina, nem batedor havia levado.
Para a alegria do Chuck, a nossa missão de sábado chegava prematuramente ao fim. Rapelei da chapa de baixo e fomos embora.
Sem muitas opções, resolvemos passar a tarde descansando no camping.

Domingo
No domingo, acordamos às 5h e partimos para a missão às 6h. Entramos na trilha assim que amanheceu. Assim como na semana passada, a trilha foi desgastante e cansativa, mas, para mim, menos sofrida, pois dessa vez estava dividindo o peso com o Chuck — embora ele jure que estava em desvantagem.
Levamos 30 minutos para cruzar a mata. Reforçamos a trilha pensando na volta e chegamos à base por volta das 6h30.
O dia estava nublado, mas quente. A previsão era de 28 °C ao meio-dia, muito quente para um dia típico de inverno em Pancas. Nossas esperanças estavam nas nuvens, e aparentemente teríamos um dia mais fresco.
Gastamos um tempo conversando na base da via e iniciamos a escalada repetindo as enfiadas, já que eu não havia deixado a via equipada. O Chuck repetiu as duas primeiras enfiadas, e eu toquei a terceira.


O haulbag estava pesado: 3L de água para cada um, 3 baterias, 55 chapeletas e, claro, 3 brocas!
Terminei de conquistar a 4ª enfiada, que havia deixado pela metade, esticando mais 10m até um buraco estranho no meio da parede.
A sensação de conquistar em dupla é muito diferente de estar sozinho na parede. Ficou nítido como consegui escalar muito mais relaxado e despreocupado.
Com base nos voos de drone, já sabíamos que ainda restariam duas enfiadas bem exigentes até alcançar um terreno mais ameno.
A 5ª enfiada parecia intimidadora. Na verdade, parecia tranquila de escalar, mas difícil para bater chapa.
Venci um trecho vertical logo na saída e toquei pela direita, contornando um grande buraco negativo que parecia intransponível em livre. Estiquei quase uma corda cheia até chegar a um pequeno platô inclinado, onde estabeleci a P5.

O Chuck quis assumir a próxima enfiada. Disse que iria esticar mais 60m, contornando pela direita.
Às 11h, as nuvens da manhã já haviam se dissipado, e o sol imperava na parede, fazendo jus ao nome da via: Império do Sol.
Estava desconfortável ficar na parada dando segurança. Queria beber toda a água, mas não podia. A garganta estava seca pela baixa umidade e pelo vento seco. O Chuck seguia na luta, mas cada vez mais tendendo para a esquerda.

Após uns 30m, o plano de esticar a corda cheia já tinha ido por água abaixo. Um platô sombreado à esquerda o hipnotizou, e ele não pensou duas vezes ao alcançá-lo. Duplicou a chapa e gritou:
— Corda fixa!
A sombra da P6 foi um grande alívio, pois o sol não estava para brincadeira.
Descansamos um pouco e logo voltei à ponta, com a missão de bater no cume quanto antes. Estávamos em boas condições: tínhamos água, tempo e material. Mas o sol exigia urgência. De longe, parecia fácil: vários platôs, inclinação mais amena e o cume à vista. Mas a pedra tinha outros planos!

Logo de cara, precisei vencer um boulder estranho para alcançar o segundo platô. Depois descobri outra muralha acima… e mais uma depois dela. A visão era desoladora. Não queria mais insistir na linha mais dura. Resolvi buscar uma passagem natural, evitando as muralhas, o que me levou à direita até esticar a corda.
Estabeleci a parada e chamei o Chuck. A pedra estava tão quente que precisei tirar a sapatilha e ficar sobre ela para não queimar os pés. O prazer de contemplar a beleza já dava lugar à pressa de terminar logo a conquista.
Rapidamente, o Chuck chegou à P7 e voltei à ponta. Sabia que o cume estava próximo. Subi uns 10m e o Chuck perguntou:
— E aí? Cume?
Não é comum o Chuck fazer esse tipo de comentário. Entendi que ele também já estava incomodado com o calor.
Bati uma chapa e hesitei em bater a próxima, mas resolvi fixar. Depois do acidente, fiquei mais responsável. Cair ali seria um grande problema.
Estiquei a corda inteira e alcancei finalmente a vegetação do cume. Fixei a corda e chamei o Chuck.
Chegamos ao final da via por volta das 14h45.


Passamos meia hora cronometrada nos recompondo antes de enfrentar o longo rapel.
Devido às diagonais das últimas enfiadas, sabíamos que precisaríamos descer estabelecendo uma linha de rapel, para facilitar tanto a nossa vida quanto futuras repetições.
A descida foi tranquila, mas havia um senso de urgência: precisávamos chegar ao carro com luz.
Chegamos à base às 17h. Sabíamos que ainda restava cerca de uma hora de claridade, mas na mata escurece mais cedo, então tratamos de descer quanto antes. Bebemos o último gole de água e seguimos cambaleando pela trilha.
Felizmente, chegamos ao carro ainda com luz e logo encontramos o Fabinho, que subiu de moto para nos parabenizar pela conquista.

Pessoalmente, acho que a linha da via ficou ótima, principalmente por oferecer uma escalada mais a plumo e de baixo grau de dificuldade, o que não é comum em Pancas. Por outro lado, sabemos que a longa aproximação pode afastar alguns pretendentes.
Sem dúvida, é uma escalada que exige planejamento e estratégia.
Agradecimentos finais ao Chuck, que topou essa empreitada épica, e ao Fabinho, pelo apoio logístico de sempre.
Lembrando que a via foi conquistada com material cedido pela Associação Capixaba de Escalada, que subsidia as conquistas no Estado.
Ah, quem for repetir a via, favor trazer a minha sapatilha que esqueci no cume!
2 respostas em “Império do Sol, o retorno”
Issahhhh! Que torresmo hein
Parabéns pela suada conquista! Pelo vídeo deu pra ter uma noção do calor na parede.
Aquele buraco é um nicho natural bem esculpido
Desculpa a ignorância, mas o que é Pegmatito?
Opa, vlw Broca! Pegmatito é uma especie de cristaleira q forma uns agarroes, nem sempre sólidos… Tb é um lugar legal para achar belos cristais!