Memória de peixe e “Na flor da idade”

Ontem, descobri que eu e meus amigos temos memória de peixe!

Domingo passado, 20h: eu era um nada, um trapo. Sob a luz do headlamp, perdido no capinzal tentávamos sair daquele mato sem cachorro após a conquista da via “Eu sou a lenda”. Na ocasião falei várias vezes para o DuNada: Semana que vem, Calogi! Não quero mais passar perrengue! Não quero mais isso para mim! E o DuNada concordou!

2a feira. Ainda exausto do dia anterior, não queria nem saber de escalada. Passei o dia me arrastando no trabalho, tirando os espinhos, me coçando e caçando os carrapatos…

3a feira. Mais recuperado! A noite, no treino, reiterei o que disse no domingo: Calogi no final de semana!!! Nada de perrengue!!!

4a feira. Apresento os primeiros sinais de falta de memória. Uma passadinha descompromissada no Google Maps, umas montanhas aqui, uma possibilidade acolá e começo a deslumbrar um novo projeto!

5a feira. Treino a noite!

– DuNada e Afeto, achei uma pedra legal! Via fácil, tranquila de uns 200m! Cume fácil em 1 dia de escalada! Aproximação tranquila! Vamos?!

E como eles também têm memória de peixe, toparam a empreitada como se o perrengue do final de semana passado nem tivesse existido!

E assim, no domingo, os três peixes desmiolados estavam de pé, ou fora da água, às 4h30 rumo a cidade de Castelo!

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Estudando a linha da via e rindo de nervoso…

Mas não seria só mais um dia de escalada fácil, tranquila e agradável! Domingo foi o aniversário do DuNada!!! Dia de festa na pedra!!! Motivo a mais para comer um bolo cortado a facão na base da via e abrir uma via em homenagem ao aniversariante!

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Cantando parabéns antes da escalada. Quem passava pela estrada não entendia nada…

Assim, além do bolo, DuNada ganhou de nós, a ponta da corda para fazer as honras da casa e começar a conquista da via em sua homenagem. Baita presente de Grego….

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Cortando o bolo com o mesmo facão que abre as picadas. 

A primeira enfiada foi motivação e alta astral total, uma vez que tínhamos muita dúvida sobre a possibilidade de ter, ou não, agarras na pedra e ao vermos todo aquele mar de agarras foi só alegria. Assim, o aniversariante fechou a primeira enfiada da via, na sombra, com um belo 5o grau em agarras e batendo a parada a 35m do solo num pequeno platô.

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Achávamos que estávamos preparados para o pior, mas não… Mais um dia de sede… Enquanto uns assistem Faustão nós passamos sede… 

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DuNada batendo a 1a chapa da via. De bermuda e camiseta? Hmmmmm… Amador…

Quando nós colamos nele na P1, a coisa foi mudando de cenário. A sobra da manhã foi embora e o sol escaldante de Castelo começou a mostrar a sua cara. Ainda com a pedra fresca, parti para a segunda enfiada, conquistando mais 30m até pedir arrego. A essa altura o sol estava escaldante!

Sabe aqueles dias quentes que a areia da praia está tão quente que a gente precisa cavar a areia para pegar aquela areia gelada para conseguir ficar em pé? Pois bem, a diferença é que lá não tinha como cavar a pedra.

Desci grogue da via e passei a ponta para o Afeto fechar a segunda enfiada. E assim, Afeto fechou uma bela enfiada de 50m em agarras finalizando em um pequeno platô de mato.

Eu e o DuNada subimos até a P2 na esperança de a parada ser menos desconfortável que a P1 e ter alguma sombra, mas nada… Chegando lá, o platô era pior que a P1 e o sol mais quente ainda. Parecia a parada do inferno. Estava me sentindo um boi vivo em um churrasco de chão.

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 P2. Um lugar agradável e acolhedor! Só assim para esquecer o calor.

Como ficar ali não ia adiantar em nada, peguei a ponta da corda e parti para abrir a terceira enfiada. Na verdade, o certo seria descer do inferno naquele momento, mas como ninguém quis falar para ser taxado de fraco, parti para cima como se tudo estivesse normal.

A conquista fluiu do jeito que estava a minha mente: confusa, perdida e com lapsos. Era um misto de escalada livre com artificial com sapatilha pegando fogo. Lá pelas tantas, quando olhei para baixo, vi aquelas proteções erráticas formando um zig-zag que expressava como eu estava perdido na pedra e não raciocinava direito. Não sei se foi por causa do calor ou pela dificuldade de pedra mesmo, mas não estava me achando na pedra e acabei conquistando os 20m mais feios da minha vida.

Nessa hora, bateu uma pequena sombra na via e com o cabeça um pouco mais no lugar, conseguimos deslumbrar uma opção melhor. Em vez de subir direto para cima, a melhor opção seria fazer uma grande travessia para a direita até ganhar um platô, fazer a P3 e só então subir em diagonal para cima.

Nessa hora, as nuvens pesadas de chuva cobriram totalmente o sol e o ânimo se restabeleceu na equipe. Mais uma respirada e partimos para arrumar a lambança de tinha feito. Equipamos a travessia, batemos a parada e começamos parte da 4a enfiada por um incrível veio de cristal perdido no meio de um mar de pedra lisa.

Acho que dessa vez achamos o caminho para o cume. Contabilizamos mais umas 4 enfiadas para bater no cume, mas isso é história para um outro dia, de preferência sem sol….

Em tempo: o nome da via ficou “Na flor da idade” em homenagem ao DuNada que completou ontem xx anos!

Parabéns garoto! Não é todo dia que alguém ganha um presente de 400m de altura!

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E assim finalizamos mais um dia de escalada. O mesmo sol que nos fritou o dia inteiro, nos proporcionou esse espetáculo no final do dia. À direita, a Pedra do Dedo, onde o Zé e sua patota estão abrindo uma via.

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Traçado da via. Ainda temos um longo caminho pela frente…

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Croqui da via.

Semana que vem Calogi?

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