Eu sou a lenda!

Poderia começar esse post escrevendo tudo de novo sobre otimismo que já havia falando há duas semanas num outro post, porque parece que a história se repete! O cenário é o mesmo, Praça Oito, Itarana, chuva no sábado e dia estranho no domingo. Os elementos são os mesmos e os personagens, os de sempre, quase: Afeto, DuNada, eu e Zé. O coitado do Zé ficou sem a sua patota que o abandonou para ir ao cinema (Rio Mountain Festival) e nos acabamos acolhendo ele (sherpas são sempre bem vindos!).

Aliás, quando ficamos sabendo que o Zé iria conosco, nós os novos, já sabíamos qual seria o nome da via: “Eu sou a lenda”. Mesmo sem saber que pedra iríamos escalar ou que via iríamos abrir! Vamos homenagear o presidente!

Assim, partimos no domingo cedinho para Praça Oito! Ah sim, o conceito de cedo, nesse caso, variou um pouco de pessoa para pessoa. Sabe quando começa o horário de verão? Ninguém entende nada, quem entende, entende errado e nem o organismo sabe se adaptar.

O combinado foi 6h, horário de verão! Não horário antigo, porque pelo horário antigo, 6h seriam 5h. E 5h seria muito cedo. Viu como é confuso? Eu acordei às 6h, atrasado (o despertador estava no modo silencioso…). O Zé entendeu 5h!!! E as 4h45 ele estava no hall do prédio me esperando! Detalhe, no prédio errado. Eu me mudei e ele foi para o prédio antigo… Coisas da idade. O DuNada, não sei porquê ele foi para a casa do Afeto, ele sempre vem para cá, mas dessa vez ele foi para lá. Cade o DuNada… Já o Afeto… Ele não fez nada errado.

Pé na estrada!

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Caras de palhaço. Rindo da pedra molhada? 

Chegamos em Praça Oito e fomos direto para o Pesque e Pague falar com o proprietário para pedir passagem. Rapidamente ele explicou qual o melhor caminho até a base da pedra e mesmo parecendo ser roubada, acabamos seguindo as instruções dele. Os meus anos de mapeamento geológico me ensinaram a acreditar mais nos donos das terras do que nos mapas topográficos, então seguimos o indicado. Se arrependimento matasse…

A essa altura, de longe, dava para ver a pedra que pretendíamos escalar estava molhada. A chuva da noite anterior foi muito intensa e a água ainda escorria pela vegetação.

Mas segue o baile:

Pegamos a estrada novamente e fomos até onde o carro aguentou. Jogamos o carro num canto e eu coloquei a mochila nas costas  para seguir caminhando. O resto da galera ficou só me olhando e começamos uma discussão do tipo:

– Japonês, para que a mochila?

– Ue, vamos conquistar!

– Não está vendo que está tudo molhado?

– Sim, mas podemos abrir uma via entre as tiras de água (truco!)!

O DuNada, pegou a mochila e colocou nas costas porque ele lembrou o que aconteceu há 2 semanas.

O Afeto não acreditou e relutante, pegou a mochila. Ele não se lembrou do que aconteceu há 2 semanas.

O Zé, coitado, não teve escolha. E pegou a mochila também.

Resolvido o impasse partimos em direção à pedra molhada (não, meia molhada para os otimistas). Após quase 1h caminhando, numa clareira, mais perto da pedra, tirei meu mega binóculos para achar uma linha e consegui convencer o Afeto de que havia umas tiras secas e algumas possibilidades. O resto, fez de conta que acreditou.  Ok, o final estava encharcado, mas quem sabe, até o final do dia, quando deveríamos estar chegando lá, estaria seco (ou menos molhado).

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Vendo a pedra depois de 1h de caminhada. Quase tudo seco, o resto seca com o passar do dia! Vai fazer sol!

Moral em alta (de alguns) partimos ruma à pedra! Mas as coisas começaram a gringolar logo em seguida… Entramos num capinzal sem precedentes. Sabe aquele capim alto, fechado e sem visibilidade, que para abrir tem que ir literalmente se jogando? E para piorar, abrindo morro acima? Pois bem, entramos nesse mato sem cachorro por quase 2h varrendo morro a cima.

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Só 2 horas galera! Já estamos chegando! Dá coceira só de ver a foto.

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Caminhar, rastejar, se jogar, engatinhar, chorar, rir, vale tudo.

Não preciso nem dizer em que estado chegamos na base da pedra após uma caminhada dessa. E o pior, já quase sem água porque gastamos muito tempo e energia na trilha.

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Base da via. Só um sol básico para secar a parte molhada e torrar a orelha!

Mas para a nossa motivação, a pedra se confirmou seca com apenas alguns trechos molhados. E constatamos duas linhas de fenda frontal absolutamente incríveis. Duas fendas frontais de dedo e punho da melhor qualidade! Coisa que aqui no Espírito Santo quase não existe!

Com uma descoberta dessas, o cansaço ficou para trás e partimos para a conquista.

O Afeto abriu os trabalhos conquistando a fenda frontal de dedo, depois entrando na face da pedra até fechar a P1 no meio de um diedro/aresta.

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Cadê o capacete? Afeto conquistando a primeira enfiada da via. 

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Um pouco de sol para secar a pedra e nos deixar com mais sede ainda. Afeto na 1a enfiada.

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DuNada limpando a 1a enfiada.

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 Tudo sob controle!

Dali, vimos a segunda fenda frontal. A mais perfeita fenda que já vimos em terras Capixabas (palavras do Zé). Sabe a via Fissura de Jim no Frey? Igual a ela, porém com a vantagem de ser mais longa!

Como a via ir ser em homenagem a “lenda”, presenteamos o Zé com a ponta de corda para ele fazer as honras da casa. E assim, ele mandou ver na fenda, abrindo a “Fissura do Zé”. Uma belíssima enfiada de 25m graduada em 5o grau e toda protegida em móvel.

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Zé conquistando a “Fissura do Zé”. 

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A lenda!

Seguindo a ordem da fila, o próximo da vez foi o DuNada que ficou com a função de levar a ponta de corda para abrir a 3a enfiada. E assim, ele abriu uma outra belíssima enfiada de 5o grau de uns 40m até chegar num platô de mato.

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DuNada conquistando a 3a enfiada.

A minha esperança de bater no cume da via sem conquistar acabou ali. Pensei que em 3 enfiadas pudéssemos fazer cume, mas não. Então, para seguir a ordem da fila, tive que pegar a ponta de corda e parti para a conquista. Uma laca de uns 10m em móvel na saída de depois uma sequência de passadas em agarras incríveis até fechar a enfiada com uns 50m.

Já tive o prazer de conquistar algumas enfiadas na minha vida, e posso garantir que essa enfiada foi uma das mais prazerosas que tive o privilégio de abrir. Nada de roubada, nada de overdose de adrenalina e sem Elvis…. Ufa!

Assim que batemos na P4 fizemos aquele reunião básica. Avaliamos a hora, a fome, a sede, continuar ou descer… Segundo os cálculos (que sempre estão errados), mais uma enfiada (fácil – para os otimistas) e finalizaríamos a via! Por unanimidade, decidimos terminar a via. Afinal de conta, ninguém queria enfrentar a trilha novamente. E assim, o Afeto pegou novamente a ponta de corda e sai pedra acima. Aparentemente parecia ser um trecho fácil, uns 30m com umas 3 proteções, mas a realidade se mostrou um pouco mais amarga. Em vez de 30m, 50m e várias chapas com lances estranhos e duvidosos.

E assim chegamos na grande árvore que marca o final da via. A pedra ainda segue mais um pouco pelas bromélias, mas decidimos finalizar a via ali mesmo. Assinamos o livro de cume já sob a luz dos headlamps e iniciamos o longo processo de volta… Lembram das 3h de trilha da ida? Pois é, imagine no escuro, cansado e sem água… Era o que nos esperava.

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Assinando o livro de cume.

Após 2h de descida, finalmente chegamos sãs e salvos na estrada e finalmente pudemos comemorar a conquista com um belo copo de água gelada!

Agradecimento mais que especial aos colegas de cordada por mais uma conquista, aprendizado e amizade. Passamos maus momentos, mas no final o que vale mesmo são as piadas e as histórias!

Equipamentos necessários:

  • 2 cordas de 60m;
  • 10 costuras, sendo algumas longas;
  • fitas e mosquetões;
  • cordeletes ou fitas para abandono nos rapeis;
  • 1 jogo de friend com peças médias repetidas.

Para baixar o croqui em PDF, clique aqui!

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Linha da via.

Croqui

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1a enfiada

Começa numa fenda frontal de dedo e depois sai em travessia, protegida com chapas, à esquerda até encontrar a parada perto do diedro.

2a enfiada

Começa com uma pequena travessia à esquerda até encontrar a fenda frontal. Sobe pela fenda até o final e depois entra na face até encontrar a parada. Requer friends médios repetidos.

3a enfiada

Escalada constante pela face até chegar num pequeno platô de mato. Tem um pequeno crux na chegada do platô.

4a enfiada

Começa em móvel por uma laca bem óbvia e depois segue pela face até a parada.

5a enfiada

Escalada pela face em direção a uma árvore visível da parada. Depois da chuva, este trecho poderá estar molhado. Parada natural em árvore.

O livro de cume está logo acima da árvore, debaixo de umas lacas.

Rapel

P5 – P4 = 50m

P4 – P3 = 40m

P3 – P2 = 40m

P2 – chão = 50m

Mais betas:

  • A via é voltada para oeste com sol à tarde;
  • Trocar ou reforçar as fitas de abandono. Nunca rapele somente nas fitas abandonadas.

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Comentários

2 respostas

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