Roadtrip pelos Estados Unidos

Talvez os números possam expressar melhor o que nós, minha esposa Paula e eu, passamos nas últimas duas semanas pela região centro-oeste dos Estados Unidos de férias: foram 14 dias na estrada, percorremos 6 Estados, trocamos uma vez de fuso horário, visitamos 4 parques nacionais, 3 parques estaduais, totalizando mais de 5000km rodados e muitas paisagens que ficarão eternizadas nas nossas memórias.

Mapa do roteiro.

Great Salt Lake

Por uma questão logística e de custo, entramos nos EUA pela cidade de Las Vegas e de lá esticamos até o Parque Nacional de Yellowstone, distante a 1200km ao norte. Para quebrar um pouco a viagem, passamos dois dias na cidade de Salt Lake (UT), localizada no meio do caminho, para descansar e resolver os últimos preparativos.

Em Salt Lake, acampamos uma noite no “Antelope Island State Park”, uma pequena ilha que fica no meio do oitavo maior lago terminal do mundo. Devido a salinidade da água, a região é riquíssima em vida marinha, que por sua vez é abundante em pássaros e outros animais que se alimentam dos peixes e crustáceos. É um pequeno santuário ecológico no meio do deserto. Além disso, para nós que somos geólogos e apaixonados por fotografia, esse tipo de cenário é perfeito para juntar as duas paixões.

Do pouco que nós ficamos na ilha, sem sombra de dúvida, o clímax foi quando, na manhã do dia seguinte, saímos cedo pela ilha para fotografar e nos deparamos com um coiote na beira do lago que estava em busca do café da manhã. Por sorte, o coiote foi bem generoso com a presença e se deixou fotografar por um bom tempo, permitindo que pudéssemos fazer várias fotos.

De todas as fotos que fiz, a que mais gostei foi essa (vide abaixo) quando ele resolveu atravessar a rodovia para o outro lado e deu uma parada para foto. Fotografei com a Nikon D600 + Teleconversor 2x + objetiva prime 180mm. Tudo isso em foco manual. Ah, as manchas na foto não são sujeiras no sensor, mas sim mosquitos!!!!

Um coiote atravessando a rua ao amanhecer. Nikon D600, 360mm, f0, ISO640, 1/13200.

 

Dicas para Antilope Island

  • Como é um parque estadual, a entrada é cobrada, assim como para acampar nas áreas de camping que há lá dentro. As reservas podem ser feitas antecipadamente pela internet;
  • Não há água dentro do parque, nem nos banheiros, logo não há chuveiro, por isso é preciso levar tudo de casa;
  • Na estrada que leva ao parque, já bem perto a entrada, há um Wallmart onde é possível comprar todos os mantimentos para estadia.

Yellowstone N.P

O parque nacional de Yellowstone é considerado o parque nacional mais antigo do mundo, criado em 1872 com uma área de aproximadamente 9000km2 (quase o dobro da área do Distrito Federal) Além disso, o Yellowstone é, dentre os parques nacionais americanos, o mais visitado de todos. Em 2009, o parque bateu o recorde ao receber 2,3 milhões de visitantes. Só para se ter uma dimensão do crowd, em 2013, o Brasil inteiro recebeu 6 milhões de turistas.

Eu já tinha lido sobre esses números e sabia que iríamos ter alguns problemas quanto a isso. Pensando nisso, escolhemos ir bem no final da temporada, antes de as estruturas e estradas do parque começarem a fechar com a chegada do outono, mas mesmo assim, ainda encontramos muuuuita gente no parque.

Eu não sei se aquilo era pouca gente, mas para mim era gente demais. Moro no Espírito Santo, onde as montanhas que frequento quando muito tem 3 pessoas. É quase normal irmos à montanha e não encontrar ninguém durante o dia. Fila em via de escalada? Nem sei o que é isso por aqui. Por estar tão mal acostumado, aquele “mundaréu” de gente no parque andando de um lado para o outro me assustou muito nos primeiros dias. Juro que estava me sentindo dentro de um grande shopping à céu aberto.

Para tentar fugir um pouco da muvuca, resolvemos fazer o que já fizemos em outras viagens: acordar cedo e chegar antes dos ônibus lotados de chineses nas atrações e ainda de quebra pegar a melhor luz da manhã para fazer as fotos.

No primeiro dia em Yellowstone, acordamos às 6h da manhã (antes do sol nascer) para conhecer a principal atração do parque, o gêiser de Old Faithful. A ideia era chegar cedinho para ver a primeira “erupção” da manhã, antes dos turistas pensarem em acordar. Às 6h da manhã o despertador tocou e nos levantamos no camping. Assim que abri os olhos, notei que o silêncio da manhã era constantemente interrompido pelo barulho dos carros passando na estrada próxima. Eu acho que passava um carro a cada 30 segundos. Isso às 6h da manhã no meio da escuridão, dentro de um parque. Aquela cena foi muito bizarra para mim. Mais tarde descobri que muita gente saía cedo para observar a vida selvagem na região que é uma das principais atrações do parque. E se você quiser ver os bichos em seu habitat natural, a parte da manhã e o final do dia são os melhores horários para isso.

Upper Basin Geyser. Fuji X-100f, 33mm, ISO400, f/5.6, 1/25.

A fama dos bichos é tão grande que é super comum acontecer engarrafamentos nas estradas para ver, ou esperar os bichos cruzarem a estrada. De todos os engarrafamentos que pegamos, o mais bizarro foi um de 4km que pegamos no final do dia por causa de uns veados na beira da estrada. Pessoalmente, acho que todos têm o direito de olhar os bichos, assim como fazer uma foto sem atrapalha-lo, mas o problema começa quando as pessoas, num ato de desespero, ao ver um alce na beira da estrada, “estaciona” o carro no meio da pista, desce e fica fotografando na cara dele (com flash!) atrapalhando todo o trânsito e incomodando o bicho. Nessa viagem, vi pelo menos umas duas discussões épicas entre turistas por causa disso. É triste, mas é a realidade.

Um veado macho pastando no final do dia. Nikon D600, 360mm, f0, ISO1250, 1/400.

No quarto dia em Yellowstone, mudamos o nosso “acampamento-base”. Estávamos no Madson Campground, um dos poucos campings que aceita reserva online, para a porção mais ao norte. A nossa ideia era conhecer o “Lamar Valley” que os americanos chamam de “Serengueti da América do Norte”. Esse vale é famoso pela abundante presença de vida selvagem ao longo da estrada que corta o vale, sendo a presença de lobos a grande atração, além das manadas de búfalos.

A história dos búfalos é no mínimo triste… De uma forma bem resumida, durante a expansão para o oeste dos Estados Unidos, os colonizadores se depararam com os habitantes locais das Américas, os índios. A situação entre os índios e os colonizadores (leia-se governo) degringolou quando os homens-brancos encontraram ouro em terras indígenas e aí a situação ficou insustentável. Foi durante essa época que aconteceram as famosas batalhas entres os índios e os soldados do governo com duras baixas em ambos os lados. Em meio à guerra, alguém teve a ideia de matar todos búfalos da região que serviam de alimento para os índios e assim enfraquece-los. Logo, o governo americano patrocinou a matança dos búfalos e isso acabou afetando os índios, que tiveram que se render por falta de comida. No Netflix, há uma série muito legal que explica em detalhes essa expansão do oeste americano.

Anos mais tarde, o mesmo governo americano teve outra ideia de matar todos os lobos da região por “ameaçar” as pessoas e os rebanhos locais e promoveu a “limpeza” dos lobos da área, inclusive com o apoio dos guarda-parques. Naturalmente, isso causou um desequilíbrio ambiental e logo os alces e veados ficaram sem predadores naturais, causando um problema de superpopulação. Somente em 1995 o parque nacional resolveu reintroduzir 32 lobos na região para tentar reequilibrar o ecossistema, assim como haviam feito com os búfalos anos antes.

Em Lamar Valley conseguimos fazer algumas observações bem legais, mas a mais emocionante foi, disparado, ver os lobos que foram reintroduzidos. Ver os lobos não é fácil: exige acordar cedo e ficar procurando os bichos dentro do vale. Por sorte encontramos um grande grupo de observadores “profissionais” que avistaram os animais no outro lado do vale a uns 3km de distância, ou seja só com binóculos. Já sabendo disso, levamos um binóculos do Brasil para conseguir ver melhor esse incríveis animais brincando no pasto de manhã bem cedo. Incrível!!!!

Observadores de lobos em Lamar Valley.

Grand Teton N.P

Depois dos lobos, nós descemos para o Parque Nacional de Grand Teton que fica coladinho ao sul de Yellowstone. Nessa região, a paisagem muda bastante e tudo fica em torno da grande cadeia de montanhas que forma o Grand Teton. Acho que todo mundo já viu alguma foto de Grand Teton, pois, além de bonito é um lugar muito famoso, principalmente entre os fotógrafos de paisagem.

Também é neste parque que o famoso fotógrafo Ansel Adams clicou uma foto icônica perto do Snake River com a cadeia de montanhas ao fundo sob um céu dramático em meados do século passado. Para nós que gostamos de fotografia, revisitar o mesmo local foi muito emocionante! É claro que a paisagem mudou um pouco nos últimos 80 anos, mas a mágica do local ainda se mantém. Tentei, em vão, reproduzir a mesma cena. Olhando ao vivo para aquela paisagem e comparando com a foto do Ansel Adams, parecia que a foto dele era mais bonita do que a própria paisagem em frente! É a magia da fotografia.

Tentando, só tentando mesmo, reproduzir a foto de Ansel Adams no mirante do Snake River.
Ansel Adams, 1942.

Para nós, restou visitar dois pontos que são mega ultra famosos em Grand Teton entre os fotógrafos: Mormom Row e o Schwabacher’s Landing.

A foto em Mormon Row é um clássico de Grand Teton e é uma das cenas mais icônicas do parque. Para conseguir uma boa foto é preciso madrugar para pegar as primeiras luzes da manhã e rezar para que o sol nasça sem as nuvens.

Fizemos toda uma programação para estarmos no local certo uma hora antes do sol nascer para fazer aquela captura perfeita. Mesmo chegando com uma boa dose de antecedência, o local já estava relativamente cheio com uma meia dúzia de fotógrafos de plantão. Por sorte, naquele dia conseguimos uma boa luz e fiz o que foi para mim, uma das melhores fotos das férias!

Amanhecer no Mormon Row. Fuji X100f, 23mm, ISO200, f/11, 1/50.

No dia seguinte, repetimos a mesma dose e fomos para o Schwabacher’s Landing fazer outra foto clássica do parque, dessa vez com as montanhas refletindo na água cristalina do rio ao amanhecer. Só que dessa vez, a situação foi mais dramática, pois às 6h da manhã o termômetro do carro estava marcando -6 graus Celsius. E para deixar a situação mais “crux” tive que me posicionar num local meio encharcado, pois os melhores locais já estavam ocupados…

Amanhecer no Schwabacher’s Landing. Fuji X100f, 19mm, ISO200, f/11, 1/9

Arches N. P

Na última semana, rumamos em direção ao Sul até a cidade de Moab em Utah para visitar dois parques nacionais bem famosos, o Arches e o Canyonlands, além do parque estadual de Deadhorse Point. A região de Moab já é bastante familiar para mim, mas sempre é muito legal voltar ao deserto para sentir aquele clima nada amistoso.

No primeiro dia resolvemos fotografar o principal cartão postal de Arches. Arches tem mais de 480 arcos de arenito, mas esse em particular é o mais famoso pela beleza singular e o contexto envolvido. Estive neste mesmo arco há 10 anos quando fui ao parque à trabalho. Na ocasião, não pude ficar até o por do sol para pegar a melhor luz do dia, mas naquele dia, prometi a mim mesmo que ainda retornaria para refazer aquela foto. Conforme prometido, 10 anos depois lá estava eu com a Paula esperando o sol se por para refazer a mesma foto.

O arco de Arches. Fuji X100f, panorâmica.

 

Canyonlands N.P.

Deadhorse Point State Park. Fuji X100f, panorâmica.

Depois de Arches, levantamos o nosso acampamento e fomos para o Parque Nacional de Canyonlands que fica nas proximidades de Moab. Esse parque é enorme! É tão grande e incrível que é preciso tirar umas férias só para desbravar as entranhas dos vertiginosos canyons da região. Como tínhamos apenas 2 dias para ficar na região, então resolvemos visitar o ponto mais clássico de Canyonlands para fotografar, o Mesa Arches. Trata-se de um pequeno arco de arenito que fica na beira do precipício e que por dentro dela você consegue ver a paisagem ao fundo. Mas a grande mágica dessa cena acontece quando você vai ao amanhecer para ver o sol nascer dentro do arco. É claro que nós e mais o resto do mundo sabe disso. Por isso, mais uma vez tivemos que montar toda uma logística para estar plantado em frente ao arco antes de amanhecer para conseguir o melhor lugar. Mesmo com todos os nossos esforços, fomos os terceiros a chegar no local para montar o tripé. E meia-hora depois tinha mais de 20 fotógrafos na área esperando o Sol nascer dentro do arco. Infelizmente o dia amanheceu “nuviado” e a cena não foi perfeita, mas são os ofícios da fotografia. Serviu para lembrar que mesmo que você faça 110% certo, no fim que decide é a Mãe Natureza.

Mesa Arch. Fotografado com a Gopro.

Monument Valley

Já na véspera de voltarmos para o Brasil, ainda nos restou um tempo para passar uma noite na região do Monument Valley para ver o sol nascer entre as famosas torres de arenito da região. A área de Monumental Valley é considerada pelos índios um local sagrado, tanto é que é proibido escala-las. Mas se você pagar uma boa grana para os índios pode gravar um clipe no cume de uma das torres, como o Metalica fez, ou fazer uma cena para o filme Forest Gump com o Tom Hanks.

Amanhecer no Monument Valley. Fuji X100f, 19mm, ISO200, f/11, 1/40.

O local é incrivelmente bonito com uma das melhores vista do amanhecer de um acampamento, mas pessoalmente achei o local muito farofa. Sim, tem farofa nos EUA também, é uma espécie universal. E o mais interessante é que, diferentemente de todos os outros locais que visitamos, lá é frequentado por um público bem diferente. Em Monument Valley encontramos muitos franceses e estrangeiros jovens em sua grande maioria e pouco turista americano. Não sei se é um problema histórico mal resolvido até os dias de hoje ou algo parecido, mas deu para ver claramente que nós brancos de cara pálida não somos muito bem-vindos aos olhos do índios. Tive a impressão de que somos só bem-vindos porque levamos um pouco de “plata” para eles, senão flecha em nós!

Independente das diferenças históricas, o Monument Valley é incrível, ainda mais para quem gosta de escalar, pois aguça aquele desejo de desbravar as torres de arenito. Acho que fechamos as nossas férias com chave de ouro e pudemos voltar para o Brasil com a cabeça feita e com a certeza de que ainda temos muito a desbravar por aqueles lados.

Fechando as férias em grande estilo!

 

Sobre as fotos

Para essa viagem a Paula levou uma Nikon D600 com objetivas de 20mm, 50mm e 180mm (todas prime) e um teleconversor de 2x. Além do tripé. Eu levei a Fuji X100f com dois conversores (28mm e 50mm equivalente), o tripé e alguns filtros. Também essa viagem usamos uma Gopro para fazer algumas fotos e vídeos.

Este post tem 3 comentários

  1. Sensacional o relato e as fotos Japa, um lugar mais incrível que o outro, só faltou a foto da muvuca hahaha

  2. Incrivel japa! Deve ter ficado babando vendo aquelas montanhas em tetons e no monument valley ein!!!

  3. The mountain was calling…

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