Caminho das pedras

Recentemente, em uma roda de conversa, surgiu o assunto sobre quais seriam as vias tradicionais clássicas do Espírito Santo. Logo depois, em outro papo sobre a preparação para a via “Inferno na Torre”, em Afonso Cláudio, discutimos quais vias serviriam de treinamento prévio.

Três Pontões ao entardecer.

A partir daí, tive a ideia de escrever sobre quais vias — e em que ordem — um escalador que está iniciando no mundo do “trad” poderia seguir para ganhar experiência com segurança.

Na escalada tradicional, o grau que você escala em vias esportivas não diz muita coisa. É claro que o condicionamento físico ajuda, mas há muito mais em jogo: o aspecto mental, por exemplo, é crucial para se sentir confortável em vias com exposição. Outro ponto determinante é o domínio das técnicas de segurança e autorresgate, que precisam estar em dia para otimizar o tempo e minimizar riscos. Por fim, há a estratégia — onde a maioria erra, transformando uma escalada simples em uma “aventura épica” (e nem sempre no bom sentido).

Ter uma skill completo exige tempo de montanha e prática constante; são os detalhes que fazem toda a diferença. Por isso, elaborei esta lista de vias para você começar a se aventurar sem “fortes emoções”, ganhando vivência gradualmente. Acredito que, para completar esta lista com qualidade, o tempo ideal seja de dois a três anos, mantendo a frequência e aproveitando bem as temporadas.

A primeira pergunta seria: qual deve ser a minha primeira via tradicional?

Se você mora na Grande Vitória, eu sugeriria escalar, algumas vezes, as vias de duas enfiadas do Morro do Moreno, como a “Prato Feito” (IV, 50m). O objetivo aqui é se familiarizar com os procedimentos de segurança, aprender a transição nas paradas e gerenciar a corda com eficiência. Nessa fase, a escalada em si é secundária; o foco são os processos, incluindo o rapel.

Como parâmetro, um tempo saudável seria de 30 minutos por enfiada. Isso inclui o guia subir, montar a parada e dar segurança para o segundo subir e se preparar para o próximo esticão. Tudo isso sem pressa ou desespero com o cronômetro. Para o rapel, considere 15 minutos por lance. A escalada não é uma corrida, mas o tempo é um fator de segurança: uma cordada lenta fica mais exposta, sofre maior desgaste físico e corre mais riscos na descida.

Saber sua média de tempo facilita o planejamento. Se uma via tem 10 enfiadas, você levará cerca de 5h subindo e 2h30 descendo (se o rapel for pela via). Ou seja: o dia inteiro! Vale lembrar que a escala D (duração), que acompanha a graduação, não contabiliza o tempo de aproximação nem o de descida.

Uma vez treinado no básico, o próximo passo é testar o “conjunto da obra”. Recomendo a Via da Tiazinha (3o, IV, E1, D1, 150m), na Pedra do Vigia (Centro de Vitória). É curta, mas já exige gerenciamento de tempo e é um excelente teste em condições reais, ainda perto de casa.

Escalando na Pedra do Vigia.

A próxima sugestão é a via Tesouros do A2 (3o, IV SUP, E2, D1, 220m), na Pedra do A2, em Ibiraçu. Aqui, entra em jogo o fator deslocamento. A maioria das montanhas exige logística de carro, o que faz parte da estratégia. É preciso considerar o horário de saída, estudar a rota e analisar a aproximação. Via de regra, quanto mais cedo entrar na via, melhor. Em caso de imprevisto, você terá “luz” para resolver o problema. Chegar à base ao amanhecer exige uma organização que não é banal; se você planeja vias longas, acostume-se a pular da cama antes das galinhas.

Depois, a pedida seria a Luz no Fim do Túnel (5o, VI, D1, E2, 140m), em Domingos Martins. Diferente das outras, o ideal aqui é escalar à tarde para pegar sombra, mas isso significa ter menos margem de luz para imprevistos. É uma ótima via para aprender a “chegar na hora certa” e, principalmente, a desistir antes que escureça. Saber gerenciar isso requer bom senso e humildade.

Luz no fim do túnel. ES

O passo seguinte seria a Normal (20, IV, E2, D2, 300m) da Pedra Azul. Lá, o desafio é a logística burocrática e física. É necessário agendar a escalada previamente e seguir rigorosamente as regras e horários. Além do deslocamento, há uma caminhada de 40 minutos até a base. É uma escalada que consome o dia todo, exigindo atenção ao consumo de água e comida. Lembre-se: no final do dia, o cansaço aumenta a chance de erros bobos, como perder a trilha ou escorregar. A dica é chegar antes da abertura oficial, preencher a papelada e começar cedo para estar de volta à sede por volta das 14h.

Pedra Azul

Dando continuidade, a próxima recomendação seria escalar as vias Locomotiva 269 (4o, VI, D1, E2, 200m) e/ou Plano de Manejo (5o, VI, E2, D1, 165m). Ambas são mais difíceis, com crux de VI, mas os lances são bem protegidos. Sem dúvida, é uma boa oportunidade para ver como a dinâmica de um crux de parede difere de uma via esportiva. Escalar com a cadeirinha pesada e uma mochila não é trivial.

“Dunada” no início da 2a enfiada da via “Plano de Manejo”, Morro do Penedo – Vila Velha, ES.

Já com uma pequena bagagem, está na hora de fazer uma viagem de dois ou mais dias para escalar em Pancas. Embora seja possível escalar em um “bate e volta” de Vitória, o ideal é passar pelo menos dois dias por lá para entender a logística de viagem e como o organismo reage a dias consecutivos de escalada tradicional.

As escaladas em Pancas possuem um estilo peculiar: a rocha é diferente, as proteções em algumas vias são mais espaçadas e as vias chegam facilmente aos 300m de extensão.

Minha recomendação é começar na Pedra da Boca, pela via Até Você Guia (4o, IV sup, E1, D1, 200m), se quiser entender a rocha, ou a Amigo Imaginário (3o, IV sup, E3, D1, 265m), que fica ao lado. Esta última é um pouco mais difícil, mas a dificuldade está concentrada logo na saída. Como essa face fica voltada para o sul, permanece na sombra pela manhã. A estratégia é sair cedo e baixar antes do meio-dia, garantindo a tarde para descansar para o dia seguinte. Entrar na via tarde é perder o descanso essencial. Escalar exausto é um risco desnecessário!

No dia seguinte, as opções seriam a Face Oculta – 3o, IV, D1, E3, 300m – (Pedra da Cara) ou a Boas-Vindas, no Morro do Camelo. São vias diferentes em termos de exposição e extensão, mas o estilo de escalada é parecido. 

DuNada na via Face Oculta em Pancas.

Com essa trip, o ciclo básico estaria concluído. A partir daí, o ideal seria ganhar quilometragem escalando outras clássicas como Onde os Amigos Têm Vez, Plano Avesso ou a Supercanaleta, todas em Pancas.

Para baixar o croqui das vias de Pancas, clique aqui!

Após isso, minha recomendação é começar a aprender a escalar em móvel. O Espírito Santo não é um estado prolífico em fendas, mas ter um jogo completo de móvel e saber utilizá-lo amplia muito o seu leque. Em geral, as vias que utilizam móvel por aqui possuem colocações isoladas; raramente você encontrará uma via inteira em móvel.

Equipo não é problema!

Antes de se aventurar, é crucial praticar as colocações em vias curtas.

Para muita gente, o custo de um jogo completo é um impeditivo, mas há opções como comprar em sociedade, adquirir equipamentos usados ou pegar emprestado.

Uma boa via perto da Grande Vitória para testar essas habilidades é a Independência ou Sorte, em João Neiva. A via é majoritariamente em fixa, mas há uma enfiada fácil em móvel com parada fixa — excelente para o primeiro contato. Outras opções com essa pegada são a Presente da Águia, em Pancas, e a Ascendência Térmica (4o, V, D1, E2, 320m), em Itarana. Lembre-se: uma enfiada em móvel demanda mais tempo. Considere isso no seu planejamento.

Pedra do Encruzo
Via Ascendência Térmica.

Como gran finale desta fase de aprendizado técnico, a recomendação é repetir a Via Normal (2o, III, D1, E2, 150m) da Pedra Pontuda, em Castelo. Conquistada em 1978, possui apenas dois grampos originais. São quatro enfiadas, todas em móvel, incluindo as paradas, além de várias ancoragens naturais. Por ser uma via de altitude (cume a 1.400m), fique atento às condições climáticas.

Pedra Pontuda, Castelo
Jana puxando a 1a enfiada. Pedra Pontuda, Castelo- ES.

A essa altura, imagino que você já esteja com uma boa experiência e saiba se virar bem nas transições. Está na hora de entrar em vias mais longas, onde mover-se com eficiência é o grande segredo. Das vias longas, a mais acessível e repetida é a Expresso Lunar, em Águia Branca. A via possui cerca de 16 enfiadas e 700 metros de extensão. A estratégia aqui é escalar leve e rápido; cordadas de duas pessoas são muito mais eficientes do que grupos maiores. Estabeleça pontos de controle de tempo e, se a progressão estiver lenta, não hesite em baixar.

Pedra da Onça, Águia Branca

Outra via desse porte que vale a pena é a via La Belle de Jour (4o, IV SUP, E3, D3, 620m), na Pedra Alvina, em Pancas. É uma escalada fantástica, no mesmo estilo da Expresso Lunar, mas com uma aproximação que pode ser mais complicada, dependendo da época do ano.

Pedra Alvina.

O verdadeiro encerramento do processo introdutório é repetir a via Inferno na Torre (5o, VIIc ou A2, D2, E3, 230m), no Dedinho dos Três Pontões de Afonso Cláudio. Essa via exigirá que você coloque em prática tudo o que aprendeu até aqui. O diferencial é a exigência do “livre”: se você não estiver escalando 7c à vista, precisará vencer a quarta enfiada em artificial fixo (A2). Saber escalar em artificial é uma habilidade que todo escalador de montanha deveria dominar para superar trechos específicos com rapidez e segurança.

Viradinha da aresta. Um olho nas águias e outro na fenda.

Assim como no uso de móveis, treine a técnica de artificial antes de ir para a montanha. Garanto que a parede não é o melhor lugar para aprender a utilizar os estribos pela primeira vez. 

Por fim, recomendo fortemente ir ao local no dia anterior para estudar a aproximação, já que achar a base não é trivial. No dia da escalada, comece o mais cedo possível. O ideal é fazer o cume até o meio-dia, reservando toda a tarde para o rapel e a caminhada de volta.

Espero que este pequeno guia sirva de inspiração e auxilie nos passos iniciais desta modalidade. É claro que a lista não é fechada; são apenas sugestões pessoais baseadas na minha experiência. Boas escaladas!

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