Reflexões
Eu não sei se já escrevi sobre essa reflexão.
A primeira vez que estive em Pancas foi em 2012, no Encontro de Escalada de Pancas, organizado pela ACE. Naquele ano, a cidade estava no epicentro da escalada capixaba. Era a “corrida do ouro” da escalada em Pancas, onde todo mês novas vias eram conquistadas, não só por escaladores do estado, mas também por escaladores de fora, marcando o início do desenvolvimento da nova safra de escalada na região. E o Encontro de Escalada foi uma espécie de celebração dessa nova leva de vias.
Na época, quando pisei pela primeira vez no Vale do Palmital, fiquei impressionado com os pontões gigantescos e suas infinitas possibilidades.
Saí do encontro maravilhado com o potencial de Pancas, mas concluí que as melhores linhas já haviam sido conquistadas nessa primeira onda. Ouvi histórias de escaladores que varriam os vales atrás de oportunidades e, pela quantidade de gente fazendo isso, achei que não teria sobrado muita coisa para quem chegou atrasado na festa.
Com isso, nos anos seguintes, acabei voltando o foco para outras regiões, como Castelo e Itarana, que ainda seguiam desconhecidas.
Voltei a Pancas novamente em 2015 para repetir algumas vias e depois em 2016, todas em ocasiões bem rápidas. Somente em 2018 conquistei a minha primeira via em Pancas. Naquele ano, abri a via “Onde os Amigos têm Vez”, em solitária, na Pedra do Córrego.
Foi aí que comecei a perceber que a bagagem e o olhar que cada escalador traz se refletem na conquista. Notei que, em muitas montanhas com vias estabelecidas, havia linhas incríveis que passaram desapercebidas aos olhos dos primeiros conquistadores. Isso começou a chamar a minha atenção e, aos poucos, fui revisitando as montanhas clássicas e enxergando novas possibilidades. Uma vez que quebrei esse paradigma, vi as montanhas de Pancas com novos olhos e, dali para frente, virei frequentador assíduo da região.
Essa reflexão vem ao encontro do que aconteceu neste feriado de Corpus Christi, onde Lissandro e eu terminamos uma conquista na Pedra da Boca, por uma linha que eu havia iniciado no ano passado com o Chuck.

Para mim, essa é a linha em móvel mais clássica do Vale do Palmital. Uma linha que sempre esteve ao alcance e aos olhos de todos, mas que passou desapercebida por muita gente, inclusive por mim.
Fico pensando: onde será que ainda deixamos passar alguma linha tão bela assim? Às vezes, as coisas que estão debaixo do nosso nariz são mais difíceis de ver do que as que estão mais distantes.
Primeiro dia
Na primeira investida, após o problema da broca quebrada, meio que concluí que o ideal seria vir de cima dando uma limpada na linha antes de conquistar. De baixo, vi que havia muitos blocos perigosos prestes a cair, assim como árvores secas entulhando a fenda.
Em geral, não sou muito partidário desse tipo de abordagem, mas achei que dessa vez valeria o trabalho para evitar os riscos envolvidos.
Como tínhamos dois dias, no primeiro resolvemos escalar a via Literalmente Lateral para acessar o cume da Pedra da Boca. Há outras opções mais diretas que levam ao cume, inclusive caminhando, mas repetir essa via seria uma oportunidade para conhecer uma linha nova, unindo o útil ao agradável.

Logo na partida cometemos o primeiro erro e pegamos a trilha que leva à via Amigo Imaginário. O certo era seguir pela estrada até a base da pedra e depois pegar uns 30 metros de mata. Por causa do nosso erro, tivemos que dar uma volta gigante, com direito a desescalar uma canaleta até chegar na base. Aliás, como viemos pelo outro lado, saímos direto no meio da primeira enfiada, pulando os 30 metros iniciais em chapa.
Já que estávamos ali, iniciamos a escalada a partir do platô. Toquei os 30 metros que ainda estavam faltando e logo cheguei na P1. O Lissandro pegou a próxima enfiada em móvel, que transcorre em travessia por baixo de um teto com fenda. Essa enfiada é o auge dessa via. A travessia me fez lembrar um pouco a da via Caranguejo Rock’n’roll, em Santa Teresa.

A próxima enfiada seria um IV SUP, segundo o meu croqui e o croqui original dos conquistadores, mas logo de cara vi que estava errado. Havia umas 5 chapeletas nos 30 metros iniciais da enfiada e dava para ver que não existiam agarras ou saliências típicas de Pancas. Como estávamos com todo o material de conquista, não foi uma escalada fácil nem agradável. E a última coisa que eu queria era cair com aquela mochila pesada nas costas. É o tipo de escalada clássica: não pensa, não para, só vai! Já atualizei o croqui para ninguém chegar desavisado!


Dali para cima a pedra perde bastante inclinação e a progressão fica bem mais fácil. Tocamos mais uma enfiada e depois seguimos à francesa até o cume.

Fizemos uma longa pausa no cume, aproveitando que o clima estava super ameno.
Mais uma vez, escolhi ir a Pancas olhando a previsão do tempo. A meteorologia previa a chegada de uma nova frente fria com indicação de queda de temperatura. Era a deixa que precisava!

Depois do almoço, fomos procurar a linha da via e iniciamos a descida fazendo uma faxina: tirando as árvores secas, os blocos soltos e limpando a fenda.
Nesse reconhecimento inicial já fiquei maravilhado com a qualidade e a continuidade da linha. O mais incrível era que a fenda era uma fissura frontal de dedo, algo muito raro por aqui. O lado ruim é que ela era muito irregular, dificultando a colocação das peças. De longe parecia que a proteção ficaria boa, mas, na hora de colocar, era difícil acomodar todas as castanhas.
Durante a limpeza, estabelecemos uma parada fixa num platô e ainda bati a chapeleta que comecei a colocar na investida passada.
Chegamos na base da via por volta das 16h e, pelo adiantado da hora, tivemos que baixar dali sem provar a via. Além disso, ao longe dava para ver que o tempo estava virando e a chuva chegando.
Enquanto estávamos arrumando as coisas, a chuva nos pegou e tivemos que ficar abrigados esperando estiar para descer.
A chuva foi bem fraca, mas o suficiente para molhar um pouco a pedra. E o gnaisse de Pancas, quando molha um pouco, muda completamente de textura. A rocha perde toda a aderência e o limo hidratado vira um verdadeiro sabão, onde nem a sola Vibram dá conta.
Rapelar o restante da parede naquelas condições foi bem estranho e me rendeu alguns tombos durante a descida.
Passamos a noite no camping do Fabinho. Como tínhamos acordado às 4h e passado o dia na função, às 20h30 já estávamos recolhidos num canto, dormindo e ouvindo o som da chuva fina.
Segundo dia
No sábado, acordamos com as galinhas, mas nos enrolamos na saída. O dia havia amanhecido muito fresco, então não havia aquela pressa de escalar antes que o sol esquentasse a pedra. Assim, ficamos de boa e só saímos para escalar por volta das 10h.



Repetimos as duas primeiras enfiadas da via Até Você Guia para acessar o platô e comecei os trabalhos na nossa via. A ideia era dar um tiro de 60 metros até a parada que havíamos estabelecido no dia anterior. Toquei a primeira parte, que é um pouco desgostosa por causa dos lances de trepa-raiz, e logo estava na sequência da fissura de dedo. A escalada em si não apresentava grandes dificuldades, embora a parede fosse bem vertical, mas as colocações estavam sempre bem precárias, consumindo muito tempo.



Num dado momento, notei que não iria chegar na parada com as peças que me restavam. Prevendo essa possibilidade, havíamos levado quase 4 jogos de peças, mas, incrivelmente, a medida que mais se repetia era a #.75. Eu já não tinha mais nenhuma no rack e sabia que mais para cima iria precisar dela para um lance longo no final.

Pensando que ninguém em sã consciência iria entrar ali com mais de 4 jogos de Camalot, resolvi quebrar a enfiada em duas partes, pois, além das peças, o atrito da corda já estava me incomodando.

Achei um pequeno platô a uns 35 metros e resolvi puxar a furadeira para bater uma chapa. Nesse momento, quando fui tirar o capacete para fazer uma filmagem com a GoPro, meus óculos prenderam na fita do capacete e acabaram caindo. Mesmo sem enxergar direito — tenho miopia forte —, tentei acompanhar a queda para marcar o ponto onde caíram. Ouvi os óculos baterem numa pedra e depois caírem sobre as folhas. O Lissandro foi procurar, mas não estava achando, então resolvi descer para ajudar na busca.
Depois de um tempo, achei os óculos num puro golpe de sorte.
Como eu estava na base novamente, o Lissandro resolveu repetir a primeira enfiada com as peças já colocadas para fazer um treino. Assim que ele chegou ao ponto escolhido anteriormente, terminou de bater a nova parada e eu subi pela corda com o restante do material.
Com essa nova parada, conseguimos cortar o atrito da corda e recuperar mais peças para tocar a seção final até o platô da parada fixa. Com isso, a segunda enfiada ficou com 25 metros.
Essa segunda enfiada ficou toda em móvel, seguindo uma bela fissura de dedo, com colocações sempre bem trabalhosas e, por vezes, duvidosas. Para mim, o crux psicológico da enfiada ficou no trecho final, quando a fissura acaba e é preciso subir por uma laca fina até a parada.

A próxima enfiada ficou com o Lissandro — nada mais justo, porque foi ele quem fez o grosso da limpeza no dia anterior. Olhando de baixo, essa enfiada parecia fácil, mas ainda assim se mostrou bem trabalhosa. Na verdade, a via inteira parecia muito fácil. Pensando agora, acho que os movimentos em si são fáceis; a real dificuldade está nas proteções. Não é como em Yosemite ou Indian Creek, onde você simplesmente joga a peça para dentro da fenda e segue. Ali, cada peça precisa ser “conversada” para que todas as quatro castanhas se acomodem perfeitamente.
A parada da terceira enfiada foi estabelecida em uma árvore bem robusta e, dali para cima, foi só uma burocracia para chegar ao cume.
Chegamos ao topo por volta das 16h e, mais uma vez, fizemos uma pausa para um almoço atrasado. Assim como no dia anterior, o tempo esteve a nosso favor e o piquenique no cume foi super agradável.


O ideal seria não descer pela via, pois há outras opções melhores, inclusive descer caminhando. Mas, como havíamos deixado material de conquista e mochilas pela parede, acabamos rapelando pela própria linha até o chão.
Passamos de volta no camping do Fabinho, que estava ávido por notícias da conquista, e dali pegamos a estrada rumo a Vitória.
Durante o longo caminho de volta, escolhemos um nome para via: Dia de luxo, em referência à qualidade da fenda e ao clima quase polar de Pancas!